Publicado originalmente em inglês em 19 de maio de 2026
Uma greve nacional por tempo indeterminado na Bolívia continua a se expandir há mais de duas semanas em protesto contra o aumento do preço dos combustíveis e as políticas de direita do presidente Rodrigo Paz. Aliado próximo do governoTrump, Paz responde com repressão violenta e detenções.
Trabalhadores da indústria, mineiros, professores, camponeses e grupos indígenas aderiram à greve, bloqueando estradas e ameaçando paralisar setores inteiros da economia e do país, incluindo a capital, La Paz.
Os protestos são uma expressão de como a crise global do capitalismo, exacerbada pela guerra entre EUA e Israel contra o Irã e pelo fechamento do Estreito de Ormuz — que interrompeu as cadeias de suprimentos globais e provocou escassez de combustível — está impulsionando uma onda explosiva na luta de classes em todos os continentes.
Uma nova contraofensiva vinda de baixo contra cortes sociais, demissões, reação fascista, ditadura e guerra está crescendo, desde os piquetes dos ferroviários da Long Island Rail Road em Nova York até os trabalhadores de transporte e mineiros nos Andes bolivianos.
A greve nacional é fruto de uma escalada explosiva contra o governo Paz, iniciada com os protestos em massa de dezembro passado contra o Decreto 5503, que eliminou da noite para o dia subsídios aos combustíveis vigentes há décadas, dobrando os preços da gasolina praticamente de uma só vez. Os nove departamentos da Bolívia foram abalados por bloqueios de estradas e marchas durante semanas. A liderança da Central Operária Boliviana (COB) acabou suspendendo os protestos após aceitar uma medida revisada que manteve a eliminação dos subsídios, mas introduziu um aumento de 20% no salário mínimo.
Esse acordo traidor mostrou-se incapaz de conter a indignação popular, à medida que a crise do custo de vida se agravava no contexto da guerra com o Irã e das ameaças contínuas de privatização de recursos naturais, incluindo as maiores reservas de lítio do mundo.
No Dia Internacional dos Trabalhadores em 1º de maio, milhares de pessoas se reuniram em El Alto — um reduto de trabalhadores indígenas aimarás e palco histórico de importantes lutas militantes — para uma assembleia pública convocada pela COB. Diante de uma mobilização massiva de professores, caminhoneiros, mineiros, profissionais da saúde, trabalhadores rurais e outros, a COB foi obrigada a convocar uma greve geral por tempo indeterminado a partir de 2 de maio.
As reivindicações incluem um aumento de 20% no salário mínimo, um corte de 50% nos salários de altos funcionários do governo, a revogação da reacionária Lei 1720 sobre classificação de terras, aumento das aposentadorias, o fim dos planos de privatização e a redução de impostos para pequenas empresas.
Enquanto isso, grupos indígenas caminharam 1.100 quilômetros ao longo de mais de 20 dias, desde as terras baixas da Amazônia boliviana até os Andes, em La Paz, em temperaturas congelantes, para protestar contra a Lei 1720. Sancionada em abril, a lei permitiu a conversão voluntária de títulos de terra de pequenas propriedades rurais em propriedades maiores, abrindo as terras comunitárias indígenas e camponesas para a apropriação por empresas agroindustriais e de mineração.
Em 12 de maio, a COB e diversas organizações indígenas e camponesas anunciaram uma intensificação conjunta dos protestos e exigiram a renúncia de Paz. Pelo menos 67 pontos de bloqueio foram registrados, praticamente paralisando oito dos nove departamentos do país. As perdas econômicas diárias foram estimadas em milhões de dólares, enquanto a estatal petrolífera YPFB foi obrigada a suspender o fornecimento de gás aos municípios, pois os caminhões-tanque ficaram retidos nos bloqueios. O transporte urbano está praticamente paralisado.
Mas o epicentro tem sido El Alto e os corredores ao redor de La Paz. A federação camponesa Túpac Katari lançou um bloqueio por tempo indeterminado em todas as 20 províncias do departamento de La Paz, cortando rotas para a fronteira peruana em Desaguadero, para Copacabana, para Caranavi e para a rodovia estratégica La Paz-Oruro.
As cooperativas de mineiros de La Paz aderiram à greve na semana passada, com centenas de mineiros descendo de El Alto em caravanas e detonando dinamites em frente ao palácio presidencial. Os mineiros anunciaram suas próprias reivindicações: o fim da escassez de combustível, a restauração do fornecimento de explosivos para as operações de mineração e a renúncia de Paz.
Em 14 de maio, Paz tentou enfraquecer os protestos revogando a Lei 1720, ao mesmo tempo em que fez um apelo direto às lideranças capitalistas indígenas para um “diálogo” a fim de elaborar “uma nova lei agrária”.
No dia seguinte, porém, as ruas de La Paz voltaram a se encher de manifestantes, e as organizações mobilizadas afirmaram que não encerrarão os protestos sem a renúncia de Paz ou o atendimento integral de suas reivindicações.
Paz respondeu com brutalidade e perseguição judicial. No sábado, aproximadamente 3.500 soldados e policiais foram mobilizados em uma repressão ao amanhecer contra bloqueios de estradas em El Alto e ao longo da rodovia La Paz-Oruro, disparando gás lacrimogêneo enquanto trabalhadores e camponeses usavam pedras, dinamite e barricadas em chamas como forma de resistência.
Cerca de 57 pessoas foram detidas, segundo a Defensoria Pública da Bolívia. Os confrontos continuaram no domingo, com comboios militares e policiais desobstruindo pontos de bloqueio.
Pelo menos quatro pessoas morreram durante a repressão e pelo menos outras duas em conexão com os protestos. O governo Paz e a mídia corporativa boliviana deram ampla cobertura a duas mortes atribuídas à falta de acesso a serviços médicos devido aos bloqueios de estradas.
No domingo, o governo emitiu um mandado de prisão contra Mario Argollo, líder da COB, por participação nos bloqueios de estradas em La Paz.
Isso ocorre uma semana após a emissão de um mandado de prisão contra o ex-presidente Evo Morales, acusado de desacato por não comparecer ao julgamento por acusações de tráfico humano, um tema altamente politizado. Esta é outra dimensão da repressão. Morales, protegido por seus apoiadores em seu reduto em Chapare, afirmou que uma operação militar apoiada pelos EUA está sendo preparada para detê-lo ou matá-lo.
O caminho a seguir
Os trabalhadores bolivianos exigem a queda do governo repressivo de Paz, com quem não há nada a negociar. Eles lutam por seus meios de subsistência e por interesses de classe independentes.
Contudo, as lideranças da COB e as diferentes frações do Movimento ao Socialismo (MAS), incluindo a de Evo Morales, defendem os interesses de setores da classe dominante boliviana e de seus parceiros internacionais, que buscam transferir o ônus da crise do capitalismo boliviano para os ombros dos trabalhadores e camponeses pobres.
O seu objetivo é destruir as limitadas conquistas sociais obtidas durante os governos do MAS na década de 2000, quando os altos preços das commodities foram utilizados para financiar programas sociais limitados, subsídios e nacionalizações parciais.
O MAS fez parte da “Maré Rosa” latino-americana, um movimento de governos capitalistas que buscavam suprimir a luta de classes por meio de tais concessões sociais, enquanto estreitavam laços econômicos com a Rússia e a China. Quando os preços despencaram e as receitas secaram, o MAS ofereceu cortes sociais e repressão aos trabalhadores — e o partido implodiu.
A COB foi fundada em abril de 1952, por decreto do governo nacionalista burguês do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR) de Víctor Paz Estenssoro, com o objetivo de consolidar seu poder e impedir uma revolução socialista. Juan Lechín, líder dos mineiros do MNR, foi nomeado seu secretário executivo. Lechín tornou-se vice-presidente de Paz Estenssoro, formalizando a integração da COB ao Estado capitalista por meio de um acordo de “co-governo” que vinculava a direção sindical ao regime nacionalista.
O Partido Operário Revolucionário (POR) de Guillermo Lora facilitou essa integração ao abandonar os princípios trotskistas após 1951, alinhando-se à perspectiva liquidacionista de Michel Pablo de que líderes nacionalistas burgueses poderiam conduzir uma revolução socialista, recusando-se, assim, a lutar pela ruptura decisiva da classe trabalhadora com Lechín e o MNR.
Esse padrão de subordinação das organizações operárias ao nacionalismo burguês persistiu por décadas: o POR e a COB apoiaram o general nacionalista burguês Juan José Torres quando este assumiu o poder em outubro de 1970, nomeando Lechín chefe de sua Assembleia Popular. Essa subordinação dos trabalhadores ao Estado capitalista os desarmou política e fisicamente, permitindo que o general fascista Hugo Banzer realizasse um golpe militar apoiado pelos EUA e lançasse uma ofensiva contrarrevolucionária.
A COB tornou-se a espinha dorsal do governo do MAS de Evo Morales após canalizar a onda popular de 2000-2005 em apoio à sua eleição. Em maio de 2013-2014 a direção sindical declarou “independência” do MAS justamente para melhor implementar a desregulamentação trabalhista e a austeridade em um contexto de queda dos preços das commodities.
Hoje, apesar do mandado de prisão contra seu líder, a COB tem procurado manter o movimento dentro dos limites das negociações com o governo Paz, defendendo acima de tudo seu lugar à mesa, e não os interesses daqueles que nominalmente representam.
Os trabalhadores na Bolívia precisam enxergar sua luta contra Paz como parte de um movimento internacional que levou os ferroviários da Long Island Rail Road aos piquetes nos EUA e fez com que os trabalhadores da indústria automobilística americana repudiassem contratos vendidos e exigissem greves, em meio a crescentes conflitos de classe em nível internacional. Essas não são crises nacionais paralelas. São expressões de um colapso global único de um sistema capitalista que nada tem a oferecer à classe trabalhadora além de guerra, empobrecimento e fascismo.
As burocracias sindicais em todos os países tentarão isolar, fragmentar e exaurir essas lutas, direcionando-as de volta para negociações com governos que servem à classe dominante.
Os trabalhadores precisam construir suas próprias estruturas de luta, independentes dessas burocracias, opondo-se a qualquer tentativa de seus apologistas pseudoesquerdistas de alegar que os trabalhadores devem respeitar sua autoridade. Isso significa construir comitês de base, respondendo aos trabalhadores nas fábricas, minas, rodovias, escolas, hospitais e bairros — e conectá-los internacionalmente. A Aliança Operária Internacional de Comitês de Base (AOI-CB) existe precisamente para isso.
