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O imperialismo canadense: predador, não presa, na guerra global

Estamos publicando a seguir o discurso proferido por Keith Jones, secretário nacional do Partido Socialista pela Igualdade (Canadá), no Ato Online do Dia Internacional dos Trabalhadores de 2026, realizado pelo Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI) e pelo World Socialist Web Site (WSWS) em 1º de maio.

Discurso de Keith Jones no Ato Internacional Online de Primeiro de Maio de 2026. Os discursos foram traduzidos para 14 idiomas, incluindo o português.

O governo liberal do Canadá se destacou no início da guerra contra Irã ao dar seu apoio total ao ataque ilegal e não provocado do imperialismo americano. Poucas horas depois das primeiras bombas explodirem em Teerã, o primeiro-ministro Mark Carney se apressou em repetir as justificativas mentirosas de Trump e rotulou o Irã como uma ameaça à paz no Oriente Médio.

A cumplicidade do imperialismo canadense nessa guerra criminosa só aumentou ao longo das nove semanas seguintes. Ottawa há muito tempo procura encobrir suas ações e ambições predatórias com a retórica dos direitos humanos e do direito internacional. Mas se manteve em silêncio diante da onda de crimes de guerra cometidos pelos EUA e seu cão de ataque israelense – sejam as ameaças de Trump de eliminar a civilização iraniana ou o bombardeio ao estilo de Gaza de hospitais e bairros residenciais – enquanto condena todas as ações que o Irã tomou para se defender.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, no Salão Oval da Casa Branca, em 7 de outubro de 2025. [AP Photo/Evan Vucci]

Assim como as potências imperialistas europeias, o Canadá apoia a iniciativa de Washington de devolver ao Irã o tipo de subjugação neocolonial que sofreu durante o regime do Xá. As reservas de Ottawa dizem respeito apenas à maneira como a guerra foi conduzida, começando por Washington excluir aliados da OTAN do planejamento e execução.

Mesmo com a guerra causando estragos econômicos globais, o governo Carney está trabalhando com a Alemanha, França e Reino Unido para intensificar a guerra instigada pela OTAN contra a Rússia pela Ucrânia. O Canadá, que vê a Rússia como rival pela riqueza de recursos do Ártico e tem uma parceria de 75 anos com a extrema direita ucraniana, forneceu mais armas e dinheiro per capita para a Ucrânia desde 2022 do que qualquer outro Estado do G7. É um dos principais membros da “coalizão dos dispostos” costurada por Berlim, Londres e Paris para impedir que Trump faça um acordo com Putin para acabar com a guerra às custas das outras potências da OTAN.

A classe dominante canadense ficou perplexa com o esforço frenético de Trump, sob a bandeira do “America First”, para ressuscitar a hegemonia imperialista global dos EUA, inclusive reformulando as relações econômicas e geoestratégicas dos EUA com seus antigos aliados imperialistas.

Ela respondeu à enxurrada de tarifas e ameaças de anexação do Canadá pelo presidente fascista dos EUA acelerando seus preparativos para a guerra global e intensificando seu ataque de classe aos direitos sociais e democráticos dos trabalhadores.

Sob o comando de Carney, o ex-banqueiro central e executivo de primeira linha que substituiu Justin Trudeau como primeiro-ministro em março de 2025, o governo liberal federal foi reorganizado para liderar uma guinada à direita. No centro dessa mudança está a reorganização do capitalismo canadense para a guerra. 

Poucas semanas após assumir o cargo, Carney aumentou em 17% os gastos militares para o ano fiscal de 2025-26. Desde então, o governo se comprometeu a triplicar o orçamento de defesa para mais de US$ 150 bilhões por ano até 2035, deu luz verde a um plano para criar uma nova reserva militar de 300 mil homens e colocou a construção da base militar-industrial do país no centro de sua estratégia econômica.

O rearmamento e a guerra devem ser financiados pela destruição do que resta dos serviços públicos e da assistência social. Para impor esses ataques, a classe dominante está recorrendo a métodos autoritários de governo, reduzindo sistematicamente o direito de greve e cultivando forças de extrema direita, inclusive normalizando o incitamento anti-imigração.

Em janeiro, Carney fez um discurso no Fórum Econômico Mundial de Davos que foi muito celebrado nos círculos da classe dominante internacional. Nesse discurso, ele reconheceu que a ordem capitalista global liderada pelos Estados Unidos entrou em colapso e pediu uma aliança entre as potências imperialistas menores para se opor a Trump. Passou batida na cobertura da mídia o compromisso de Carney de que o imperialismo canadense não estará – para usar suas palavras – “no cardápio” e, em vez disso, garantirá um “lugar à mesa” no conflito estratégico global.

Na verdade, Carney proclamou que a classe dominante canadense está determinada a ser predadora, não presa, no novo impulso imperialista para redividir o mundo, assim como foi nas duas guerras mundiais imperialistas do século passado. O lugar de que fala Carney – e que tem sido repetidamente invocado pelos estrategistas da classe dominante canadense – é um lugar na cúpula imperialista, onde os espólios da agressão e da guerra devem ser divididos.

O primeiro-ministro canadense Mark Carney, à direita, cumprimenta o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky em Kiev, na Ucrânia, em 24 de agosto de 2025. [AP Photo/Efrem Lukatsky]

Como o Partido Socialista pela Igualdade e o World Socialist Web Site já explicaram, na medida em que a classe dominante canadense se opõe a Trump, é apenas do ponto de vista da defesa de seu direito “soberano” à parte do leão dos lucros da exploração dos trabalhadores e dos recursos abundantes do Canadá.

Os trabalhadores do Canadá têm todos os motivos para se opor a Trump e a tudo o que ele representa: guerra, oligarquia e ditadura. Mas eles só podem fazer isso se se opuserem a todas as frações da burguesia canadense e a seus representantes políticos – desde os separatistas pró-MAGA de Alberta e os etno-chauvinistas do Parti Québécois até o governo Carney e os burocratas sindicais que agitam bandeiras e são cada vez mais a favor da guerra – e unindo suas lutas às dos trabalhadores nos Estados Unidos, no México e no mundo em uma ofensiva pelo poder operário e pelo socialismo.

A luta para que a classe trabalhadora faça do internacionalismo socialista o eixo de suas lutas é, antes de tudo, uma luta contra os aparatos sindicais corporativistas, aliados no NDP socialdemocrata e defensores da pseudoesquerda. Durante anos, essas forças sustentaram governos liberais minoritários de direita, alegando que eram uma alternativa progressista aos conservadores, enquanto suprimiam sistematicamente as lutas da classe trabalhadora, incluindo uma onda de greves massivas de 2022 a 2024.

Agora eles estão agitando a “unidade nacional” na guerra tarifária e de desenvolvimento e estimulando o nacionalismo canadense e quebequense. Dessa forma, eles dividem sistematicamente os trabalhadores canadenses de seus irmãos e irmãs de classe em toda a América do Norte e em todo o mundo, ao mesmo tempo em que fornecem à classe dominante a cobertura política e o apoio de que ela precisa para prosseguir com sua agenda de austeridade e guerra.

O líder do NDP, Avi Lewis. [Photo: Avi Lewis/X]

Reconhecendo que a classe trabalhadora está em rota de colisão com o governo de Carney, setores da burocracia trabalhista e da pseudoesquerda estão agora tentando reposicionar o NDP sob seu novo líder, o “populista de esquerda” e nacionalista canadense Avi Lewis. Essa é uma fraude miserável que visa manter a classe trabalhadora presa dentro dos limites da política do establishment. Lewis se apresenta como antiguerra, mas elogiou o discurso de Carney em Davos e apoia o papel de liderança do Canadá na guerra contra a Rússia. Condena a guerra contra Irã, mas atua com a burocracia sindical para bloquear a mobilização da classe trabalhadora contra a guerra e promove a mentira de que o imperialismo canadense pode ser uma força de paz nos assuntos mundiais.

Neste Primeiro de Maio de 2026, o grito de guerra socialista e internacionalista “trabalhadores do mundo, uni-vos” deve ressoar em todo o mundo como nunca antes. Somente a ação revolucionária unida da classe trabalhadora internacional pode deter a guerra mundial em curso, derrotar a ameaça fascista e pôr a riqueza social a serviço da humanidade.

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