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Perspectivas

O significado internacional do golpe preventivo de Erdoğan contra o CHP na Turquia

Publicado originalmente em inglês em 26 de maio de 2026

O regime do presidente Recep Tayyip Erdoğan na Turquia está executando um golpe político preventivo diante dos olhos de todo o mundo. Erdoğan primeiro removeu a liderança eleita do Partido Republicano do Povo (CHP) — o principal partido de oposição parlamentar e que lidera as pesquisas de opinião — por meio de uma decisão judicial motivada politicamente, e ordenou em seguida que a polícia de choque tomasse à força a sede do partido

Özgür Özel, o líder eleito do CHP, caminha em direção ao Parlamento turco sob a chuva com seus apoiadores, após a batida policial na sede do partido. [Photo: eczozgurozel / X]

O que está se desenrolando na Turquia não é um evento puramente nacional, mas a manifestação do colapso internacional das formas democráticas de governo, enraizado no aprofundamento da crise do sistema capitalista. O presidente americano Donald Trump, tendo perdido as eleições de novembro de 2020, orquestrou um golpe fracassado em 6 de janeiro de 2021, buscando permanecer no poder ilegalmente. Erdoğan, por sua vez, está tentando prevenir uma provável derrota nas próximas eleições, neutralizando seu principal rival.

Os trabalhadores e a juventude devem se opor a esse golpe preventivo — que ameaça direitos democráticos fundamentais e possui como alvo final a classe trabalhadora.

A classe trabalhadora turca está entrando nessa luta em um estado de oposição explosiva ao genocídio de Israel em Gaza e à guerra dos EUA contra o Irã. Nos primeiros dias da guerra contra o Irã, trabalhadores da mina Polyak em İzmir derrubaram uma barricada da polícia e assumiram o controle da mina. No mês passado, a política turca foi dominada pela luta dos trabalhadores da Mineradora Doruk, em Ancara.

Embora as pesquisas mostrem que mais de 90% da população turca se opõe à guerra contra o Irã e à presença de bases militares dos EUA na Turquia, Erdoğan efetivamente se alinhou à agressão do governo Trump no Oriente Médio e continua a facilitar o fluxo de petróleo do Azerbaijão para Israel. Em todo o Oriente Médio, a esmagadora maioria da população se sente revoltada diante da colaboração de suas elites dominantes com o imperialismo americano e o sionismo israelense.

Erdoğan e seus aliados trabalham para suprimir o surgimento, no seio da classe trabalhadora turca, do Oriente Médio e internacional — já impactada por uma grave crise do custo de vida — de um movimento contra o genocídio e a guerra imperialista.

A repressão dirigida contra o CHP possui um caráter historicamente sem precedentes. O CHP não é um movimento político curdo que tenha sido violentamente reprimido ao longo da história da República, tampouco é um partido de esquerda. É o partido de Mustafa Kemal Atatürk, fundador da República Turca em 1923. O golpe judicial que destituiu sua liderança sob Özgür Özel e restaurou Kemal Kılıçdaroğlu — que assumiu o papel de “leal oposição a Sua Majestade” — equivale a uma declaração de que, em meio a explosivas tensões de classe e internacionais, mesmo a mais branda oposição política não será tolerada.

As críticas limitadas de Özel às guerras de Trump e suas tímidas declarações públicas de apoio aos trabalhadores da Mineradora Doruk, em Ancara, eram intoleráveis não apenas para poderosas frações da burguesia turca, mas também para Washington e as capitais europeias, que não fizeram críticas significativas à sua destituição por Erdoğan. Isso criou as condições para a remoção de Özel, com a cumplicidade de frações do próprio CHP lideradas por Kılıçdaroğlu.

Tanto Erdoğan quanto as potências imperialistas possuem razões para apoiar Kılıçdaroğlu como novo líder do CHP — um candidato fraco e ineficaz, profundamente comprometido com o apoio à guerra imperialista. Na eleição presidencial de 2023, que ele perdeu de forma acachapante para Erdoğan, Kılıçdaroğlu conduziu uma campanha abertamente pró-OTAN, com o respaldo do movimento nacionalista curdo (hoje Partido DEM) e de grupos pseudoesquerdistas.

A convergência de Erdoğan e Kılıçdaroğlu em torno desse golpe político preventivo reflete os interesses da burguesia turca e seu alinhamento com o imperialismo. Washington e as potências imperialistas europeias veem a Turquia governada pelo regime de Erdoğan como uma aliada crítica para seus interesses em toda a região mais ampla. Além de aderir ao “Conselho de Paz” de Trump para Gaza, Erdoğan aprofundou sua cooperação com o Reino Unido e a França na guerra da OTAN contra a Rússia. Ele também continua mantendo refugiados na Turquia em nome da União Europeia.

Não é coincidência que Erdoğan tenha realizado telefonemas com Trump tanto antes da prisão de İmamoğlu quanto antes da mais recente operação judicial contra o CHP. Ele não espera mais do que declarações simbólicas de seus aliados europeus, que declararam guerra às condições de vida da classe trabalhadora para financiar gastos militares em seus próprios países e atacaram os direitos democráticos.

A resposta de Özel à operação ilegal de Erdoğan para removê-lo da liderança do CHP demonstra que os direitos democráticos não podem ser defendidos sob a liderança de um partido burguês como o CHP. Como líder de um partido ligado por mil fios ao imperialismo e ao capital financeiro, Özel capitulou rapidamente ao golpe preventivo, apesar de sua retórica inicial de “resistência”. Ele conversou com Kılıçdaroğlu, — depois de ter se recusado inicialmente a fazê-lo — aceitou a decisão judicial que jurara rejeitar e desocupou a sede partidária que prometera jamais abandonar. Ele convocou recentemente um novo congresso do CHP e novas eleições.

Com efeito, embora Özel tenha claramente desagradado às principais potências imperialistas da OTAN, ele não é de forma alguma uma figura anti-imperialista. Durante os protestos em massa que eclodiram após a prisão em março de 2025 do prefeito metropolitano de Istambul e candidato presidencial do CHP, Ekrem İmamoğlu, Özel declarou o compromisso de seu partido com relações sólidas com a OTAN. O relatório do partido sobre o Irã, submetido à OTAN no fim do ano passado, essencialmente reproduziu a propaganda dos EUA e israelense, servindo para legitimar a agressão imperialista na região.

Isso constitui uma demonstração dos limites impostos pelo caráter burguês do CHP. Como Kılıçdaroğlu ou Erdoğan, Özel teme acima de tudo o surgimento de um movimento da classe trabalhadora que ameace os fundamentos do sistema capitalista e do regime burguês.

As elites dominantes na Turquia e em todo o Oriente Médio estão sobre um barril de pólvora social. Enquanto a Turquia figura entre as sociedades mais desiguais da Europa, a polarização entre a classe trabalhadora e a burguesia atingiu dimensões sem precedentes. As políticas do governo Erdoğan, que enriquecem uma oligarquia financeira enquanto empurram os trabalhadores para a miséria, apenas intensificam as tensões de classe e a ameaça de revolução social. A dominação da oligarquia capitalista sobre a vida econômica e social, em condições de guerra global em expansão, é incompatível com a democracia até mesmo em sua forma mais limitada.

A operação do regime de Erdoğan contra o CHP expõe ainda mais como uma fraude descarada a afirmação — promovida pelo Partido DEM, pelo CHP e por tendências pseudoesquerdistas — de que esse mesmo governo é capaz de resolver a questão curda por meio da “paz e da democratização”.

Como Leon Trotsky explicou em sua teoria da Revolução Permanente, nos países de desenvolvimento capitalista tardio, nenhuma fração da burguesia na época imperialista é capaz de estabelecer um regime democrático ou de conquistar independência em relação ao imperialismo. A tarefa de construir um regime que ponha fim às guerras imperialistas e assegure os direitos democráticos fundamentais do povo curdo e de todas as outras massas oprimidas na Turquia e em toda a região cabe à classe trabalhadora. Isso significa a luta por uma Federação Socialista do Oriente Médio.

A crise na Turquia ressalta que não existe solução dentro das instituições existentes para o colapso da democracia burguesa que se desenrola em escala global. O sistema capitalista — que dá origem à ditadura, à desigualdade social e à guerra imperialista — não pode ser reformado. Não há caminho a seguir senão a mobilização revolucionária da classe trabalhadora internacional e o estabelecimento do poder operário e do socialismo. Isso exige a construção de uma direção revolucionária: o Comitê Internacional da Quarta Internacional e suas seções nacionais, os Partidos Socialistas pela Igualdade.

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