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Perspectivas

Onda de assassinatos cometidos pelos EUA em águas da América Latina ultrapassa 200 vítimas

Publicado originalmente em inglês em 31 de maio de 2026

O número de mortos nos ataques militares dos EUA contra supostas embarcações envolvidas com tráfico de drogas na costa da América Latina já ultrapassou 200 pessoas. Em 30 de maio, os militares dos EUA divulgaram o ataque mais recente — o quarto em uma única semana — com um vídeo de um pequeno barco em chamas no leste do Oceano Pacífico. Com a informação de que os três homens morreram, eles elevam o total estimado para 205 desde que a campanha de assassinato em massa começou no Caribe, em 2 de setembro de 2025. A campanha se expandiu para o leste do Oceano Pacífico em outubro e destruiu aproximadamente 60 embarcações.

Foto divulgada em 30 de maio pelo Comando Sul dos EUA mostrando o ataque a um barco no Oceano Pacífico que matou seus ocupantes sem julgamento ou devido processo legal. [Photo: US Southern Command]

O assassinato em massa foi transformado em uma operação cotidiana e burocrática, com a execução extrajudicial tornando-se parte da política imperialista. Isso ocorre paralelamente à criminosa guerra dos EUA e de Israel contra o Irã e o Líbano — na qual o ministério da saúde libanês contabiliza 3.371 mortos desde 2 de março, enquanto o grupo de direitos humanos HRANA estima o número de mortos no Irã em 3.636 — e se soma ao genocídio em Gaza que já matou mais de 70 mil pessoas.

Esta campanha de assassinato em massa traz um alerta direto para os trabalhadores nos Estados Unidos: os métodos que estão sendo testados no Caribe estão sendo importados.

O governo Trump não identificou uma única pessoa entre os mortos nos ataques dos EUA contra as embarcações. Nenhum nome foi divulgado, nenhuma família foi notificada, nenhuma prova foi tornada pública mostrando que os mortos cometeram os crimes que lhes foram imputados. Os militares dos EUA apenas repetem a cada vez que as embarcações “estavam atuando no narcotráfico” e não fornecem nada além disso. Em todos os ataques, apenas três pessoas estão confirmadas como sobreviventes e foram resgatadas.

Famílias na Colômbia e em Trinidad e Tobago se apresentaram para identificar parentes como pescadores ou trabalhadores migrantes que viajavam entre as ilhas e a costa sul-americana. Segundo entrevistas do New York Times, comunidades pesqueiras inteiras na Colômbia e no Equador relatam ter abandonado seus meios de vida.

As alegações do governo Trump são totalmente infundadas. Mesmo que fossem comprovadas, os assassinatos ainda seriam crimes. O Estado americano declarou que pode executar pessoas apenas por suspeita, sem acusações, sem julgamento, sem qualquer processo judicial em lugar nenhum do mundo. Essa é a definição de execução extrajudicial — e continuaria sendo mesmo que cada pessoa morta fosse culpada exatamente do que Washington alega.

O caráter criminoso da campanha foi estabelecido logo no primeiro ataque. Quando dois homens sobreviveram ao ataque inicial com mísseis e ficaram agarrados aos destroços, um segundo ataque foi ordenado para acabar com eles. Matar sobreviventes feridos é um crime de guerra inequívoco segundo as Convenções de Genebra. O Washington Post noticiou em 28 de novembro de 2025 que o secretário de Defesa, Pete Hegseth, havia ordenado que toda a tripulação fosse morta.

Os dois ataques mataram todos os 11 ocupantes a bordo — nove no primeiro ataque, os dois sobreviventes no segundo. O presidente dos EUA, Donald Trump, publicou um vídeo do primeiro ataque na plataforma Truth Social naquele dia. Os assassinatos são anunciados como espetáculo e uma demonstração ameaçadora de que o Estado pode matar qualquer um, em qualquer lugar, com total impunidade.

Analistas do InSight Crime constataram que os ataques não interromperam significativamente os fluxos de tráfico. Isso porque interromper o tráfico nunca foi o objetivo.

Esta campanha de assassinato marítima é um componente de uma ofensiva mais ampla para reafirmar o domínio dos EUA sobre a América Latina e preparar ou consolidar operações de mudança de regime contra governos que não se submetem totalmente a Washington. É a mesma ofensiva que produziu o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelas Forças Especiais em janeiro e os preparativos militares e bloqueio de combustível contra Cuba.

De forma mais ampla, essa investida está diretamente ligada às ações de Washington contra a influência chinesa na região, incluindo a vigilância de embarcações pesqueiras chinesas no Oceano Pacífico, particularmente em torno do porto peruano de Chancay, inaugurado no final de 2024 e operado pela empresa chinesa COSCO, que os EUA veem como um desafio estratégico à sua dominação da América Latina.

A base pseudojurídica do governo para a campanha de assassinato em massa se apoia em um memorando confidencial do Departamento de Justiça de quase 50 páginas que afirma que os cartéis de drogas estão em “conflito armado” com os Estados Unidos — uma fraude feita para apagar a distinção entre policiamento e guerra para que o Executivo possa exercer violência letal sem supervisão.

No entanto, as designações de organizações terroristas estrangeiras nunca autorizaram o uso de força militar, o que requer uma ação do Congresso. Simplesmente não existe base legal ou alegação crível de ameaça iminente. Especialistas jurídicos descreveram os ataques de forma quase unânime como uma usurpação inconstitucional dos poderes de guerra.

Os ataques a embarcações no Caribe e no Pacífico estabelecem um precedente muito mais amplo. A mesma justificativa de “terrorismo” empregada para os assassinatos no mar foi invocada pelos subordinados de Trump para justificar o assassinato em Minneapolis de Renée Good, baleada por um agente do ICE em 7 de janeiro enquanto observava uma operação de dentro de seu carro, e de Alex Pretti, enfermeiro e manifestante baleado por um agente da Patrulha de Fronteira (CBP) em 24 de janeiro.

O general Gregory Guillot, chefe do Comando Norte dos EUA, disse ao Comitê de Serviços Armados do Senado em 11 de dezembro que estaria disposto a realizar tais ataques contra “organizações terroristas designadas” em solo americano. Ele disse: “Se eu não tivesse preocupações e estivesse confiante na ordem lícita, eu definitivamente executaria essa ordem”.

Sob a nova estrutura doméstica de contraterrorismo codificada em um Memorando Presidencial de Segurança Nacional (NSPM-7), a Casa Branca e o Departamento de Justiça determinam uma ampla repressão à oposição política e se recusam a dizer se americanos rotulados como “terroristas domésticos” estarão sujeitos aos mesmos métodos.

Apesar da flagrante ilegalidade e do precedente perigoso, não há nenhum esforço sério para deter esses ataques por parte do establishment político.

A reação dos governos regionais expôs a falência de todas as variedades de nacionalismo burguês. O presidente argentino Javier Milei e o presidente equatoriano Daniel Noboa se alinharam abertamente a Trump. Supostamente voltadas contra os cartéis, as forças dos EUA e do Equador lançaram a “Operação Extermínio Total” em março, deixando um rastro de relatos de plantações destruídas e trabalhadores agrícolas torturados.

Os governos nominalmente de “esquerda” não foram menos cúmplices. A presidente mexicana Claudia Sheinbaum abandonou suas objeções aos ataques a embarcações após negociar um acordo para que a Marinha mexicana interceptasse embarcações suspeitas na costa do México, mesmo enfrentando um escândalo sobre operações secretas da CIA em solo mexicano, incluindo assassinatos seletivos de supostos chefes do narcotráfico. O seu foco permaneceu em aprofundar a colaboração militar e de inteligência com Washington para aplacar as ameaças de Trump de enviar tropas americanas para o outro lado da fronteira.

O presidente colombiano Gustavo Petro criticou os ataques a embarcações, mas essa crítica não foi além de convocar reuniões de emergência da ONU e da OEA após o sequestro de Maduro, mesmo que cidadãos colombianos estejam entre os mortos nos ataques. Após suas reuniões na Casa Branca — em 3 de fevereiro e 7 de maio, respectivamente, nas quais cada um beijou o anel de Trump e elogiou o serial killer pessoalmente —, nem Petro nem o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva emitiram um único protesto público contra os ataques a embarcações.

Em abril, Lula assinou uma parceria com Washington para a repressão conjunta ao tráfico de drogas e armas; em 29 de maio, ele denunciou a classificação de organizações criminosas brasileiras como “terroristas” pelos EUA, considerando-a uma ameaça à soberania brasileira.

Nos três casos (México, Colômbia e Brasil), as maiores potências regionais são governadas por nacionalistas de “esquerda” que se acomodaram a Trump e permaneceram cúmplices do golpe neocolonial contra a Venezuela, do aprofundamento do sufocamento de Cuba e da campanha americana de assassinatos em alto-mar. O impulso do imperialismo dos EUA para recolonizar a América Latina não pode ser enfrentado apoiando-se em qualquer setor das elites capitalistas dominantes.

Esta é uma confirmação inequívoca da Teoria da Revolução Permanente de Leon Trotsky, que estabeleceu que apenas a classe trabalhadora, tomando o poder como parte da revolução socialista mundial, pode cumprir as tarefas democráticas em países de desenvolvimento capitalista tardio. Isso inclui opor-se à opressão imperialista.

A resposta do Partido Democrata nos Estados Unidos apenas confirma que a investida militarista para recolonizar a América Latina é uma política bipartidária. Os democratas apresentaram resoluções de poderes de guerra que fracassaram, sabendo que não seriam aprovadas nem deteriam um único ataque. Alguns membros democratas do Congresso afirmaram ter saído das reuniões confidenciais “perturbados” e “frustrados”, mas limitaram-se a exigir que Hegseth entregasse as imagens não editadas do ataque, sob pena de perder 25% de seu orçamento para viagens.

Enquanto isso, a mesma bancada democrata votou a favor dos orçamentos e financiamentos militares que sustentam os ataques.

Os ataques a embarcações intensificam a “guerra às drogas” bipartidária, há muito tempo uma cobertura para os esforços imperialistas de dominar a América Latina, que desembolsou bilhões para o criminoso Plano Colômbia e o Plano Mérida no México, com o apoio do Partido Democrata.

Um governo que reivindicou o direito de matar em alto-mar sem acusações ou sequer se dar ao trabalho de identificar suas vítimas não hesitará em voltar esses mesmos métodos contra trabalhadores, manifestantes e opositores políticos dentro dos Estados Unidos.

Esse esforço acelerado para impor formas fascistas de governo é um processo internacional, e combatê-lo não pode ser confiado aos democratas ou a qualquer tendência nacionalista burguesa. Ele requer a mobilização política independente da classe trabalhadora nos Estados Unidos, em todo o continente americano e internacionalmente para abolir a fonte da guerra e da ditadura: o sistema capitalista de lucro.

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