Publicado originalmente em inglês em 17 de junho de 2026
O acordo de cessar-fogo assinado no domingo entre os Estados Unidos e o Irã não garante paz duradoura no Oriente Médio nem em qualquer outro lugar. Na verdade, ainda que temporariamente, ele libera os recursos militares de Washington para outra frente, e o presidente Donald Trump declarou repetidamente que “Cuba será a próxima”.
No mês passado, Trump disse em um discurso na Flórida: “Na volta do Irã, teremos um dos nossos grandes… porta-aviões parando uns 100 metros da costa” e esperando o governo cubano se render.
Mais recentemente, em 10 de junho, o secretário de Defesa Pete Hegseth fez uma visita provocativa à Baía de Guantánamo — a base naval dos EUA mantida indefinidamente em território cubano —, onde fez alegações completamente infundadas de que Havana estaria buscando “adquirir ou obter acesso aos tipos de armas que poderiam alcançar esta base ou a pátria americana”.
O site Axios noticiou no mês passado, citando documentos de inteligência confidenciais, que Cuba estaria adquirindo centenas de drones de ataque da Rússia e do Irã. As autoridades cubanas negaram todas essas alegações.
Especialistas militares observam que as Forças Armadas cubanas estão em estado de deterioração após anos de sanções e do bloqueio de combustíveis, tornando as alegações de ameaça aos Estados Unidos claramente absurdas.
O governo Trump também agiu para construir um pretexto pseudojurídico para a ação militar. No mês passado, indiciou o ex-presidente Raúl Castro, de 94 anos, com quatro acusações de homicídio relacionadas à derrubada de dois aviões em 1996, operados pelo Irmãos ao Resgate, uma organização de exilados ligada à CIA que realizou repetidos sobrevoos hostis do território cubano. Como o WSWS explicou, a acusação espelha diretamente a estratégia usada contra o presidente venezuelano Nicolás Maduro: fabricar acusações criminais e depois usá-las como cobertura para sequestro ou intervenção militar.
O Pentágono vem se preparando para uma ação militar. O Politico noticiou no final de maio que o órgão “passou meses posicionando as tropas e armas necessárias para que os EUA lancem um ataque militar a Cuba — só falta a autorização final de Donald Trump”. Isso inclui o grupo de ataque do porta-aviões USS Nimitz, que está operando no Caribe, próximo a Cuba, em uma demonstração de força permanente.
Uma população sitiada
Essas ameaças militares se desenvolvem no contexto de uma catástrofe humanitária imposta deliberadamente por Washington. O bloqueio energético estabelecido em janeiro — quando Trump emitiu um decreto executivo ameaçando sanções contra quaisquer fornecedores de petróleo — permanece em pleno vigor e está se intensificando. Depois que a empresa Vanguard Energy, com sede na Flórida, anunciou planos de enviar aproximadamente 250 mil barris de combustível para Cuba, o Departamento de Estado negou que qualquer autorização tivesse sido concedida, e o condado de Miami-Dade revogou o direito de operação da empresa.
Os apagões diários agora ultrapassam 20 horas e afetam mais de 60% da ilha. Não há alívio à vista.
O Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, emitiu um alerta contundente esta semana: “As restrições de combustível impostas desde o início de 2026 e o recente endurecimento das sanções extraterritoriais, em conjunto, estão prejudicando diretamente os cubanos, especialmente os mais vulneráveis. Crianças estão morrendo porque os médicos não têm acesso a suprimentos médicos e medicamentos essenciais. Isso é inaceitável. Essas sanções devem ser suspensas imediatamente.”
Os dados por trás desse alerta são devastadores. A mortalidade infantil dobrou para 9,9 por mil nascimentos desde que as restrições de combustível foram impostas. As taxas de sobrevivência ao câncer infantil caíram de 85% para 65%. Os níveis de fornecimento de medicamentos essenciais caíram para aproximadamente 30% do normal. A escassez de combustível interrompeu a cadeia de abastecimento agrícola, causando uma queda relatada de 60% na produção de alimentos e aumentos acentuados no custo dos alimentos básicos.
No início de maio, uma ordem executiva dos EUA ampliou enormemente as restrições a quaisquer empresas que operem com entidades cubanas. O parceiro bancário estrangeiro que processava todas as transações com Visa e Mastercard para Cuba encerrou seu relacionamento com a empresa financeira cubana Fincimex, citando a ameaça de penalidades dos EUA. A Air Canada suspendeu seus voos para Cuba por tempo indeterminado, e as redes hoteleiras espanholas Meliá e Iberostar interromperam as operações em um número significativo de hotéis antes do prazo de 5 de junho estabelecido pelo governo dos EUA para que as empresas deixassem de fazer negócios com o GAESA, o conglomerado administrado pelos militares que controla uma grande parte da economia cubana.
O chefe de Direitos Humanos da ONU resumiu a trajetória: “Cuba enfrenta um isolamento crescente. As empresas estão indo embora. Menos companhias aéreas voam para o país. O país está quase desconectado dos sistemas internacionais de pagamento. O aumento das temperaturas do verão aumenta o risco de propagação de doenças transmitidas por vetores e pela água. A temporada de furacões aumenta ainda mais a exposição. Isso cria uma tempestade perfeita para a deterioração social e econômica e o sofrimento do povo cubano”.
O impacto combinado também está impedindo que agências humanitárias, incluindo órgãos da ONU, prestem assistência: a suspensão dos serviços por parte das principais empresas de transporte marítimo afetou recentemente mais de 2.900 toneladas métricas de cargas humanitárias de alimentos.
A resposta do governo cubano a esse cerco não tem sido apelar à classe trabalhadora internacional contra essa agressão imperialista descarada.
Ele tem oferecido concessões econômicas ao governo Trump, buscando demonstrar que a liderança castrista pode administrar a ilha como uma fonte lucrativa de mão de obra barata e recursos naturais para as corporações americanas.
Em 12 de junho, o presidente Miguel Díaz-Canel anunciou um amplo pacote de 20 medidas de liberalização abrangendo turismo, comércio exterior, investimento estrangeiro e o setor privado. Ele abriu o setor hoteleiro cubano a “novos atores” e “novas modalidades” para preencher o vácuo.
Os intermediários estatais de importação, que antes eram obrigados a participar de todo o comércio exterior, devem ser eliminados em favor de um ambiente comercial mais “dinâmico”. Os produtores agrícolas terão acesso direto a insumos, o direito de manter contas com lastro real em dinheiro e acesso aos mercados de câmbio. O governo anunciou que “incentivará” o investimento estrangeiro direto e estenderá as mesmas condições aos cubanos que vivem no exterior — incluindo a comunidade de exilados em Miami, associada há muito tempo a operações golpistas e terroristas contra Cuba — que são concedidas aos residentes na ilha.
Mais setores da economia serão abertos a atores não estatais, e o número de ministérios será reduzido de 27 para 20. Díaz-Canel também retomou o antigo objetivo do governo de “eliminar gradualmente os subsídios aos produtos”, alegando que isso visa direcionar o apoio social a “grupos vulneráveis”. Essa medida de austeridade permitirá uma inflação sem limites e um desespero econômico ainda mais profundo.
Essas mudanças são, em substância, um programa de terapia de choque e ajuste estrutural — o mesmo tipo de medidas implementadas por governos de extrema direita alinhados a Trump em toda a região, incluindo Javier Milei na Argentina e o governo de Rodrigo Paz na Bolívia.
Apesar dessas concessões massivas, o governo Trump declarou abertamente que seu objetivo é exatamente o que foi imposto à Venezuela, onde a receita das vendas de petróleo e as finanças do governo estão sendo administradas diretamente pelo Departamento do Tesouro dos EUA, tropas americanas operam livremente e um regime fantoche foi instalado pela força militar.
As concessões econômicas de Havana apenas encorajarão Trump a estabelecer um protetorado semicolonial.
A atual prostração da liderança castrista — o fato de receber o diretor da CIA em Havana, os apelos aos capitalistas gusanos de Miami, o desmantelamento de direitos sociais e nacionalizações — não é um acidente. É a conclusão lógica de um programa nacionalista e capitalista que sempre foi hostil ao poder independente da classe trabalhadora e, portanto, sempre foi incapaz de sustentar as conquistas da revolução de 1959 contra a pressão do imperialismo.
Como afirmou uma recente declaração do WSWS sobre o balanço do castrismo, apontando para a teoria da revolução permanente de Leon Trotsky:
A revolução cubana fornece uma confirmação estratégica da teoria da revolução permanente em sentido negativo. Mesmo as nacionalizações mais radicais realizadas por um governo nacionalista pequeno-burguês, sob condições de mobilização de massas, não puderam resolver a tarefa democrática de emancipação do imperialismo. Os defensores do castrismo poderiam argumentar que foi precisamente o isolamento imposto pelo imperialismo americano que levou ao seu fracasso, mas esse argumento apenas reforça o ponto de que a luta pelo poder operário como componente integral da revolução socialista mundial é necessária.
A defesa de Cuba contra o ataque militar e o bloqueio genocida requer a mobilização da classe trabalhadora internacionalmente — sobretudo nos Estados Unidos. Sua defesa não pode ser construída sobre ilusões na capacidade do governo cubano de negociar uma saída do cerco de Washington, nem nos governos burgueses regionais que se calam enquanto o bloqueio é intensificado e o grupo de ataque do porta-aviões se posiciona no Caribe. Ela só pode ser construída sobre o programa do internacionalismo socialista que une os trabalhadores de todas as Américas em uma luta comum para pôr fim ao militarismo imperialista e ao sistema capitalista que é sua fonte.
