Com poucos dias de diferença, candidatos de extrema direita foram declarados vencedores das eleições presidenciais na Colômbia e no Peru, adicionando mais dois governos à lista de regimes latino-americanos alinhados com a Casa Branca de Trump. Com exceção do México, do Brasil, do Uruguai e da Nicarágua, o mapa da América Latina é agora dominado por governos que imitam abertamente a política fascista de Donald Trump. Esse mapa poderá em breve se expandir ainda mais, já que o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (Partido dos Trabalhadores - PT) enfrenta uma possibilidade real de derrota em outubro para Flávio Bolsonaro, filho do golpista condenado Jair Bolsonaro.
A mídia corporativa está apresentando esses resultados como um mandato popular para a extrema direita, alegando que os eleitores latino-americanos se voltaram decisivamente contra os governos de “esquerda” que surgiram da onda de protestos de 2018–2023.
Isso é falso. O que as eleições na Colômbia e no Peru realmente refletem não é a vontade das massas, mas a crise terminal da democracia burguesa em ambos os países, resultado da intervenção descarada do imperialismo dos EUA e da falência política dos governos que prometeram reformas e impuseram austeridade.
Esses resultados não indicam, de forma alguma, uma guinada ativa para a direita por parte da classe trabalhadora ou da ampla massa da população. O que eles expressam é o repúdio a todo um establishment político que não oferece nada aos trabalhadores, aos jovens e aos camponeses pobres — e condições tão instáveis que uma mobilização em massa da magnitude dos protestos na Bolívia, ou até mesmo uma guerra civil aberta, poderia eclodir a qualquer momento.
Maiorias fabricadas
Na Colômbia, Abelardo de la Espriella — um advogado fascista endossado pessoalmente por Trump — foi declarado vencedor sobre Iván Cepeda, o candidato escolhido a dedo pelo presidente em fim de mandato Gustavo Petro, por uma margem inferior a um ponto percentual: 49,66% contra 48,70%. De la Espriella prometeu abandonar o processo de paz negociado com os grupos guerrilheiros e retomar a guerra interna que assola a Colômbia há décadas, com participação militar direta dos EUA.
Os resultados de mais de 33.000 seções eleitorais continuam sendo contestados. Os votos nulos e em branco, que somam cerca de 675.000, superaram em muito a margem total de vitória, de 250.000 votos. De la Espriella já anunciou 90 decretos executivos que imporão mudanças radicais na segurança, na economia, na saúde e na educação, apesar de apenas três senadores de seu próprio partido terem sido eleitos e de ele depender dos 17 senadores e 30 deputados do tradicional partido de direita Centro Democrático para poder governar.
No Peru, Keiko Fujimori — filha do falecido ditador Alberto Fujimori, atualmente preso, e líder do partido de extrema direita Fuerza Popular — foi declarada vencedora contra Roberto Sánchez por uma diferença de menos de 50 mil votos. Somente no primeiro turno, 30,8% dos eleitores votaram nulo ou em branco ou simplesmente não compareceram às urnas, um número superior à soma dos votos dos dois candidatos mais votados. Embora os candidatos adversários tenham reconhecido a derrota e as autoridades eleitorais tenham certificado os resultados, ambos os resultados estão manchados por alegações de manipulação que não podem ser descartadas.
Em particular, os resultados de ambas as eleições traziam a marca de Washington. Trump apoiou de la Espriella durante toda a campanha, violando a soberania colombiana. No Peru, o embaixador dos EUA declarou que a embaixada americana estava “acompanhando o processo eleitoral”, uma afirmação sem qualquer fundamento na legislação peruana.
Na Colômbia, a empresa privada contratada para realizar a contagem rápida dos votos enfrenta acusações de ter manipulado sua “contagem rápida” para fabricar uma vantagem inicial que parecesse decisiva para de la Espriella. No Peru, o chefe do Escritório Nacional de Processos Eleitorais foi obrigado a renunciar em meio a irregularidades crescentes, incluindo seções eleitorais que nunca abriram em bairros da classe trabalhadora e urnas eleitorais encontradas abandonadas. Ao longo de ambas as campanhas, a mídia corporativa lançou uma ofensiva anticomunista sustentada contra Cepeda e Sánchez, rotulando dois políticos nacionalistas burgueses — que não representavam qualquer ameaça aos interesses capitalistas — como radicais perigosos que transformariam seus respectivos países em outra Cuba ou Venezuela, em uma campanha deliberada para aterrorizar o eleitorado.
Uma “virada à direita” natimorta
Como era de se esperar, a imprensa ocidental comemorou o que a revista The Economist chama de “Onda Laranja”: em menos de um ano, observa a revista, candidatos de direita venceram sete eleições presidenciais consecutivas em toda a região.
No entanto, os órgãos do capital financeiro não conseguem suprimir totalmente suas dúvidas. A própria revista The Economist alerta que El Salvador, sob o governo de Nayib Bukele — o suposto modelo para a nova direita da região —, atraiu menos investimentos em relação ao tamanho de sua economia do que qualquer outro país da América Central desde que ele assumiu o poder. A revista lança dúvidas semelhantes sobre a promessa de de la Espriella de um crescimento de 7% e financiamentos imobiliários baratos, ou sobre a promessa de José Antonio Kast de um crescimento de 4% no Chile, considerando uma década de estagnação regional.
Uma análise do Latin Times revelou que os cinco mercados de investimento de maior risco na América Latina são todos governados pelos aliados regionais mais próximos de Trump: Venezuela, Argentina, Equador, Bolívia e El Salvador. O acesso a Washington, concluiu a análise, não se traduz em confiança em Wall Street.
Mesmo as análises mais triunfalistas, que afirmam que essa mudança revela um apoio popular ativo às políticas de direita, não conseguem suprimir totalmente a realidade subjacente.
O Wall Street Journal escreve com entusiasmo, por exemplo: “Dos Andes à América Central, novos líderes estão assumindo o poder com mandatos populistas centrados em políticas econômicas de livre mercado e estratégias de segurança de mão de ferro”. No entanto, o mesmo artigo reconhece que de la Espriella tem “pouco apoio no Congresso” e “enfrenta resistências para cortar ministérios e reduzir empregos públicos”; que os “índices de rejeição de Kast subiram acentuadamente” no Chile; e que as medidas de austeridade na Bolívia “provocaram quase dois meses de protestos e bloqueios de estradas”.
Um artigo de opinião de Michael Reid publicado no New York Times admite que o que motiva esses resultados não é o entusiasmo pela direita, mas o medo de “uma ditadura de esquerda fracassada na vizinhança” — uma referência à Venezuela — agravado pelo fracasso dos governos anteriores da “Maré Rosa” em garantir empregos estáveis, alimentos a preços acessíveis ou segurança básica para os pobres.
A fundação alemã Konrad-Adenauer-Stiftung (associada ao partido de direita União Democrática Cristã) é mais explícita, descrevendo a tendência como uma onda de “votos de protesto contra governantes de esquerda que decepcionaram” e citando a observação do analista chileno Jorge Sahd de que o desejo de mudança continua sendo o maior partido da América Latina. O Los Angeles Times cita Benjamin Gedan, do Stimson Center, defendendo o mesmo argumento: os eleitores estão simplesmente insatisfeitos e perdem a paciência rapidamente com quem quer que esteja no poder.
Este não é um movimento das massas em direção à direita. Trata-se do volátil sentimento de rejeição aos governantes em exercício por parte de uma classe trabalhadora e de pobres que se identificam com a esquerda, mas não possuem nenhum veículo político próprio.
A desigualdade se aprofunda sob os “progressistas”
A Associated Press captou metade do quadro em uma pesquisa publicada enquanto os resultados da Colômbia e do Peru estavam sendo finalizados. No início desta década, observou a agência, os chamados progressistas “aproveitaram a indignação pública diante das desigualdades arraigadas, exacerbadas pela pandemia” e foram levados ao poder no Chile, no Peru, na Colômbia, no Brasil e na Bolívia.
O que a reportagem da AP omite é o que aconteceu em seguida. Sob os governos de Gabriel Boric, Pedro Castillo, Gustavo Petro, Luiz Inácio Lula da Silva e Luis Arce, as desigualdades que levaram esses governos ao poder não diminuíram. Elas se agravaram ou, na melhor das hipóteses, estagnaram em níveis extremos.
Na Colômbia, a pobreza oficial caiu para 31,8% em 2024, o nível mais baixo registrado desde que a metodologia atual foi adotada em 2012 — no entanto, 16,2 milhões de colombianos continuam abaixo da linha da pobreza, e o emprego informal aumentou durante o governo de Petro. O índice de Gini, em 54,4, praticamente não se alterou em uma década, mantendo a Colômbia entre as sociedades mais desiguais do mundo.
No Peru, a pobreza subiu de 20,2% em 2019 para um pico de 29% em 2023, antes de recuar apenas ligeiramente para 27,6% em 2024 — ainda muito acima dos níveis pré-pandêmicos —, enquanto o indicador mais abrangente de pobreza do Banco Mundial, baseado em US$ 8,30 por dia, situou a taxa em 36,2% em 2024. Mais de 70% dos trabalhadores peruanos continuam presos ao emprego informal, a taxa mais alta da América Latina, ao lado da Bolívia.
No Chile, a própria Comissão Consultiva Presidencial sobre a Pobreza, criada por Boric, constatou, após 18 meses de estudo, que uma metodologia mais rigorosa, baseada no consumo, aponta a taxa real de pobreza em 22,3% — mais do que o triplo do número oficial de 6,5% que Boric tem apresentado como uma conquista histórica. O índice de Gini do país permanece acima de 43; o 1% mais rico ainda controla cerca de um quarto da riqueza do Chile; e a informalidade no mercado de trabalho ficou em 26% em 2025.
No Brasil, a desigualdade, na verdade, inverteu sua tendência durante o governo Lula. Depois que o índice de Gini atingiu uma mínima histórica de 50,4 em 2024, ele voltou a subir para 51,1 em 2025, segundo o IBGE, com a renda dos 10% mais ricos crescendo quase três vezes mais rápido do que a dos 10% mais pobres. Quase 40% dos trabalhadores brasileiros continuam trabalhando na informalidade.
Na Bolívia, o governo de Arce testemunhou o colapso do modelo econômico “plurinacional” que herdou de Evo Morales: a inflação subiu para mais de 24% em 2025, a mais alta em três décadas; as reservas em dólares se esgotaram; surgiu, pela primeira vez em 40 anos, uma taxa de câmbio no mercado negro; e cerca de dois terços dos trabalhadores urbanos continuam empregados na economia informal — tudo isso enquanto o FMI observava categoricamente que a pobreza estava aumentando.
Esse é o substrato material que a imprensa corporativa omite sempre que debate se a América Latina se inclinou para a direita ou para a esquerda. A pobreza em massa e o emprego precário e informal — e não qualquer mudança na consciência política — continuam sendo as duas características mais persistentes da realidade social latino-americana sob governos de todas as tendências políticas. É essa mesma realidade que alimenta as redes de extorsão, o recrutamento por grupos criminosos e a migração desesperada que a extrema direita explora como uma crise de “insegurança”, e que alimenta as greves e os protestos.
O Corolário Trump à Doutrina Monroe
O que está ocorrendo, em outras palavras, não é uma guinada à direita na consciência da classe trabalhadora ou de amplos setores da classe média. Trata-se de uma política deliberada e coordenada, levada a cabo pelo imperialismo dos EUA, em aliança com os setores dominantes das oligarquias regionais, para influenciar agressivamente as eleições — por meio da parcialidade da mídia, da pressão financeira e da manipulação direta do aparato eleitoral — a favor de governos de extrema direita subordinados a Washington. Esse é o conteúdo do que equivale a um Corolário Trump à Doutrina Monroe: a declaração explícita, na Estratégia de Segurança Nacional do governo, de restaurar a “preeminência” americana em todo o Hemisfério Ocidental.
Esse corolário foi imposto por meio do sequestro militar, em 3 de janeiro de 2026, do presidente venezuelano Nicolás Maduro, que permanece ilegalmente preso em Nova York enquanto um governo “interino” cede a Washington o controle sobre as reservas de petróleo da Venezuela; por meio de um bloqueio energético a Cuba, resultando no que foi descrito como “uma Gaza sem bombas”; por meio da designação de facções criminosas brasileiras como “Organizações Terroristas Estrangeiras” após a reunião de Trump com Flávio Bolsonaro no Salão Oval; e por meio do apoio político e financeiro direto a candidatos de extrema direita, da Argentina, Honduras, Colômbia e Peru.
Os objetivos de Washington são eliminar a influência econômica chinesa do hemisfério, instalar regimes clientes maleáveis e preparar o aparato estatal repressivo para as explosões sociais que esse programa garante.
A autoexposição da Maré Rosa
Os governos eleitos após a onda de protestos de 2018-2023 têm responsabilidade direta por esse resultado. Em abril de 2026, Lula convocou a cúpula chamada “Mobilização Progressista Global” em Barcelona, com a presença de Pedro Sánchez, da Espanha; Cyril Ramaphosa, da África do Sul; Claudia Sheinbaum, do México; e representantes dos social-democratas da Alemanha, do Partido Trabalhista britânico e do Partido Democrata dos Estados Unidos. Lá, em um raro momento de franqueza, Lula admitiu: “Nós nos tornamos o sistema. É por isso que não é surpresa agora que o outro lado se apresente como antisistema.” Dias depois, no G7, ele garantiu ao FMI que seu governo seguia o caminho do meio e que ele “nunca foi esquerdista”. Isso não foi um prelúdio para qualquer mudança de rumo, mas uma adaptação aberta à extrema direita, oferecida como preço pela continuidade da “governabilidade”.
A Colômbia de Petro é o caso paradigmático. Eleito em 2022, na esteira da greve nacional de 2021, Petro declarou, em poucos meses, que seu governo iria “desenvolver o capitalismo”. Suas reformas na área da saúde, previdência e trabalho foram esvaziadas ou abandonadas; a odiada polícia de choque foi simplesmente rebatizada. Os seis oligarcas mais ricos da Colômbia viram sua fortuna combinada disparar de US$ 28,3 bilhões para quase US$ 50 bilhões durante sua presidência. Petro então voou para Washington para elogiar Trump como “fantástico”. Agora, sua resposta à vitória de de la Espriella foi propor um “acordo nacional” com a direita fascista e apelar ao governo dos EUA — que apoiou seu adversário — para que o garantisse.
A mesma trajetória — levantes populares em massa, um governo eleito com promessas reformistas, capitulação perante o imperialismo e a oligarquia, e o desvio da desilusão resultante para a extrema direita — se repete no Chile, Bolívia, Equador, Honduras e Peru, onde a eleição de Pedro Castillo em 2021, impulsionada por uma onda de revoltas urbanas e camponesas, deu lugar, em poucos meses, a garantias para os mercados de títulos, seguida por um golpe parlamentar apoiado pela CIA e pelo massacre de 50 manifestantes sob o governo de Dina Boluarte.
Radicalização, não reação
A prova mais clara de que essas eleições não refletem nenhuma guinada à direita no sentimento popular é a eclosão imediata de resistência aos próprios governos que a extrema direita colocou no poder. Protestos eclodiram logo após o anúncio dos resultados eleitorais em Bogotá e Cali, na Colômbia, e em Lima, Puno e Juliaca, no Peru, com manifestantes queimando bandeiras americanas e denunciando a intervenção estrangeira.
No Panamá, eclodiram protestos em massa contra as medidas de austeridade do presidente José Raúl Mulino e sua proposta de reabertura da mina a céu aberto fechada por meio de mobilização popular em 2023. Na Bolívia, uma greve geral contra o programa de austeridade de Rodrigo Paz paralisou o país. No Chile, estudantes estão nas ruas contra os aumentos nos preços dos combustíveis promovidos por Kast. Na Argentina, continuam os protestos em massa contra a terapia de choque de Javier Milei. Em Honduras, Nasry Asfura enfrentou mais de 150 conflitos trabalhistas e protestos sociais por parte de médicos, estudantes universitários e organizações indígenas e camponesas.
A crescente militância também se manifesta onde os nacionalistas de “esquerda” ainda governam. No Brasil, as greves aumentaram 14% em 2025, com mais de 50 universidades em greve e trabalhadores de aplicativos entrando em greve em quatro estados. No México, caminhoneiros e agricultores bloquearam estradas em 20 estados, enquanto professores realizaram repetidas greves nacionais.
Os choques econômicos decorrentes da guerra da OTAN contra a Rússia na Ucrânia e da guerra dos EUA e de Israel contra o Irã — aumento vertiginoso dos custos dos combustíveis e fertilizantes, inflação crescente dos alimentos — estão apenas acelerando essa eclosão da luta de classes em todo o continente. Historicamente, tais perturbações sempre alimentaram lutas de massa em toda a América Latina com potencial revolucionário.
Nada disso pode encontrar expressão política por meio do Pacto Histórico de Petro, do Partido dos Trabalhadores de Lula, do Morena de Sheinbaum, das burocracias sindicais ou das organizações pablistas, morenistas ou de outras pseudoesquerdas internacionalmente — incluindo os DSA e a Jacobin nos Estados Unidos — que há décadas funcionam como a face de esquerda da política burguesa, canalizando a oposição de massas para apoiar os Petros, Cepedas, Lulas e Castillos.
No Brasil, o líder da federação sindical CUT disse recentemente a Lula: “Aqui está o seu exército, e você é o nosso general” — uma subordinação da classe trabalhadora à burguesia nacional em tempos de guerra, disfarçada de antifascismo.
As tarefas impostas por essa crise só podem ser resolvidas por meio da independência política da classe trabalhadora em relação a todas as frações da burguesia e seus defensores. A mesma oligarquia dominante dos EUA que busca o domínio neocolonial sobre a América Latina está, simultaneamente, empenhada na destruição dos direitos democráticos e sociais dentro dos próprios Estados Unidos. A construção de seções do Comitê Internacional da Quarta Internacional na Colômbia, no Peru, no Brasil e em todo o hemisfério, unindo as lutas dos trabalhadores latino-americanos e norte-americanos sob um programa socialista comum, é a única resposta viável à marcha rumo ao fascismo, à guerra e à contrarrevolução social que se desenrola atualmente nas Américas.
