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Centrais sindicais se encontram com Lula em meio a onda de greves no Brasil

Dirigentes das maiores centrais sindicais no Brasil se encontraram na quarta-feira da semana passada, 15 de abril, com o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (Partido dos Trabalhadores – PT). Oficialmente apresentado para entregar uma série de demandas reunidas no documento de viés nacionalista e pró-corporativo “Pauta da Classe trabalhadora 2026-2030”, o encontro representou um apoio aberto das centrais sindicais à candidatura de Lula na eleição presidencial de outubro deste ano.

Dirigentes das maiores centrais sindicais brasileiras com Lula e autoridades de seu governo, em 15 de abril. [Photo: CUT]

Significativamente, o encontro aconteceu em meio a uma onda de greves no Brasil, particularmente na educação em níveis municipal, estadual e federal. Assim como aconteceu durante o governo do presidente fascista Jair Bolsonaro (2019-2022), as maiores centrais sindicais brasileiras estão indicando que farão de tudo para mais uma vez isolar, sufocar e desviar essas lutas para a candidatura de Lula. 

Na campanha eleitoral de 2022, as centrais sindicais brasileiras deram um apoio conjunto inédito à candidatura de Lula contra Bolsonaro. Explicando esse apoio, Ricardo Patah, presidente da UGT, a terceira maior central sindical no Brasil, declarou em fevereiro à Folha de S. Paulo: “O Bolsonaro queria exterminar o movimento sindical, um pilar da democracia, enquanto o Lula nos ouve, aprovando nossas demandas”.

Na reunião de 15 de abril, Lula saudou os burocratas sindicais, chamando-os inúmeras vezes de “companheiros.” Já Sérgio Nobre, presidente da CUT controlada pelo PT, a maior central sindical brasileira, reforçou o apoio a Lula, dizendo: “Presidente, aqui [es]tá o teu exército e nós vamos estar nessa batalha com você. Você é o nosso general.”

As centrais sindicais repercutiram com alarde a elaboração do documento “Pauta da Classe trabalhadora 2026-2030” e a sua entrega a Lula e aos presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre. A CUT escreveu em seu site que a unidade das centrais “garantiu que a nossa voz ecoasse nos ‘corredores do poder’”.

O documento foi escrito repetindo a velha linguagem do nacionalismo burguês, que pressupõe que interesses conflitantes entre “capital e trabalho” podem ser conciliados pelo Estado capitalista. Ademais, ele avança um chauvinismo protecionista que emula o apoio que os sindicatos nos EUA estão dando à guerra tarifária de Trump.

Um das pautas da “classe trabalhadora”, o documento afirma, é o “APRIMORAMENTO DO PROJETO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO, articulando crescimento econômico, reindustrialização, inovação.” Essa medida, ele continua, deve se articular com a “A PROTEÇÃO DO TRABALHADOR BRASILEIRO DIANTE DOS PRODUTOS IMPORTADOS E ACORDOS COMERCIAIS”, como “mecanismos … de conteúdo local” para beneficiar a “produção nacional”, e “FORTALECER A SOBERANIA ECONÔMICA DO PAÍS.”

Outro tema caro às centrais sindicais brasileiras é o colapso tanto financeiro quanto no número de filiados dos sindicatos desde o início da década passada (de 16,1% em 2012 para 8,9% em 2024), um processo que se acelerou com o fim do imposto sindical obrigatório na reforma trabalhista de 2017. Procurando reverter esse processo pelo menos em parte, o documento defende que o Estado brasileiro deve “valorizar a negociação coletiva, fortalecer o movimento sindical e garantir condições para a subsistência dessas entidades.”

Repetindo a lógica corporativista dos primeiros mandatos do PT e aprofundando a integração e dependência dos sindicatos do Estado, Lula recriou neste seu terceiro mandato vários conselhos tripartites com representantes de empresários, sindicatos e autoridades governamentais. Um dos pontos do documento aponta para a importância desses conselhos, escrevendo que é necessário “FORTALECER A PARTICIPAÇÃO SOCIAL, o tripartismo e o diálogo social permanente” para a “formulação de políticas públicas.”

A demanda prioritária das centrais sindicais no documento foi a redução da jornada de trabalho, que elas e Lula esperam que ajude a aumentar a credibilidade quase nula deles junto aos jovens e trabalhadores no Brasil e possa se reverter em ganhos eleitorais em outubro. 

Essa demanda viralizou nas redes sociais no final de 2023 através de uma campanha que aconteceu totalmente por fora dos sindicatos e partidos oficiais pelo fim da odiada escala 6x1 (seis de trabalho, um de folga), predominante no setor de serviços e no comércio no Brasil. Segundo uma recente pesquisa do Datafolha, o apoio ao fim da escala 6x1 cresceu de 64% em dezembro para 71% em março, um número que sobe para 83% entre jovens de 16 a 24 anos – a faixa etária que mais desaprova o governo Lula.

No mesmo dia do encontro dos burocratas sindicais com Lula, o presidente aproveitou para enviar ao Congresso um projeto de lei que acaba com a escala 6x1, reduzindo a jornada de trabalho no Brasil de 44 horas para 40 horas semanais, sem redução salarial, com um máximo de 5 dias de trabalho por semana.

Além do caráter eleitoral dessa medida, a defesa do fim da escala 6x1 no Brasil por Lula e as centrais sindicais é uma resposta às condições sociais e econômicas brutais da classe trabalhadora, submetidas a jornadas de trabalho exaustivas, baixos salários e níveis de endividamento sufocantes. Existe um amplo reconhecimento que essa situação é um barril de pólvora social prestes a explodir, com Lula, o PT e as centrais sindicais temendo que essa situação saia do controle e se transforme em uma luta contra todo o establishment político capitalista no Brasil. 

Em nenhum momento, Lula e as centrais sindicais denunciam que o regime brutal de exploração do trabalho no Brasil é uma consequência do sistema capitalista num dos países mais desiguais do mundo. Para eles, uma medida como a redução da jornada de trabalho é algo que “ajuda a melhorar a produtividade” e “quem pode ganhar é o Brasil, são as empresas”, como declarou o ministro do trabalho, o ex-burocrata sindical Luiz Marinho, no ano passado. Essa ilusão também ajuda a desviar a luta pela redução da jornada de trabalho para os canais seguros do Congresso brasileiro, pressionando-o para que aprove o fim da escala 6x1.

Onda de greves sinaliza escalada da luta de classe no Brasil

Por trás das negociações de bastidores nos “corredores do poder” dos dirigentes sindicais com o governo Lula e os chefes do Congresso brasileiro, está emergindo um poderoso movimento da classe trabalhadora no Brasil. 

Um relatório do DIEESE publicado na quarta-feira aponta que o número de greves no Brasil aumentou 14% em 2025 em relação ao ano anterior, passando de 880 para 1.006. Os maiores aumentos aconteceram na “esfera privada” (de 440 para 539) e nas empresas estatais (de 46 para 71). Entre essas últimas, incluem-se inúmeras paralisações ao longo de 2025 e greves no final do ano de trabalhadores dos Correios e da Petrobras contra o governo Lula.

Assim como está acontecendo em todo o mundo, esse movimento se intensificará à medida que os efeitos da guerra no Irã aumentam no Brasil. Desde outubro passado, a inflação vem crescendo, passando de 0,09% naquele mês para 0,88% em março. As maiores variações foram em óleo diesel (13,90%), gasolina (4,59%) e alimentação e bebida (1,56%).

Na semana passada, uma paralisação de motoristas e entregadores de aplicativos aconteceu em pelo menos quatro estados brasileiros. Além de protestarem contra o aumento dos combustíveis e pelo aumento no repasse das empresas, eles protestaram contra um projeto de lei no congresso brasileiro para regulamentar o trabalho por aplicativos, defendido pelas empresas de aplicativos, que mantém “trabalhadores autônomos plataformizados”, sem vínculo empregatício com as empresas. Em 2024, o governo Lula tinha defendido um projeto de lei parecido, que também foi amplamente rejeitado pelos trabalhadores de aplicativos.

Protesto de professores do Rio de Janeiro, em 9 de abril. [Photo: Fernando Frazão/Agência Brasil]

Desde o início do ano, uma série de greves na educação básica e superior tem estourado no Brasil em níveis municipal, estadual e federal. Professores, funcionários e estudantes têm lutado contra amplos ataques à educação pública, que combinam baixos salários, precárias condições de trabalho e um avanço rápido da privatização e de políticas pró-corporativas.  

Hoje, esse movimento tem se manifestado de maneira poderosa em São Paulo e no Rio de Janeiro, que estão entre os estados mais populosos no Brasil. Professores das redes públicas das capitais homônimas desses estados, assim como os das redes públicas estaduais, e professores, estudantes e funcionários das universidades estaduais – Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) – têm realizado paralisações e greves.

Na USP, a maior universidadeda América Latina, uma proposta da reitoria de gratificação para professores para projetos de pesquisa de quase 30% causou revolta entre funcionários e estudantes que há anos sofrem com a precarização das condições de trabalho e do ensino. Na quinta-feira, eles realizaram um ato conjunto massivo pelas ruas de São Paulo. 

Os funcionários realizaram uma das maiores greves dos últimos anos entre 14 e 23 de abril, iniciada em grande parte por fora do sindicato, que foi encerrada depois de a reitoria estender a gratificação oferecida aos docentes também a eles. Os estudantes entraram em greve também em 14 de abril, e mais de 100 cursos já estão paralisados. Eles estão exigindo investimento em medidas de permanência estudantil, como moradia e bolsas de estudo, além de estarem lutando contra um medida da reitoria que pretende retirar de centros acadêmicos a autonomia para gerir os espaços em que atuam e gerar receitas.

Em 9 e 10 de abril, professores da rede pública estadual de São Paulo, uma das maiores das Américas, realizaram uma greve de dois dias contra uma proposta de reforma administrativa do governador aliado de Bolsonaro, Tarcísio de Freitas, que propõe alterar as carreiras e impor avaliações de desempenho que ameaçam os professores de serem demitidos. Uma nova greve de um dia foi marcada para a próxima terça-feira, 28 de abril, quando eles serão acompanhados pelos professores da rede pública municipal de São Paulo, que desde o início de abril têm realizado greves de um dia uma vez por semana. 

No Rio de Janeiro, o estado mais endividado do Brasil, há anos professores e outros servidores públicos sofrem com as tentativas de seguidos governos de colocar todo o peso da crise sobre suas costas. Professores da rede pública estadual acumulam perdas salariais de mais de 50% desde 2019, um índice que é de 26% para os professores da rede pública municipal da capital. Em 9 de abril, eles realizaram um dia de greve conjunto, um movimento que está marcado para se repetir nas próximas semanas. 

Já os professores e funcionários da UERJ estão em greve desde 23 de março e 9 de abril, respectivamente. Assim como os professores da educação básica, há anos eles sofrem com cortes em direitos básicos, salários atrasados e precárias condições de trabalho. É a primeira greve de professores da UERJ em mais de 10 anos. 

As greves na USP e na UERJ estão acontecendo em meio a uma greve de dois meses de funcionários nas universidades federais. Hoje, a paralisação atinge pelo menos 51 das 69 universidades federais de praticamente todos os estados brasileiros. Eles estão reivindicando o cumprimento do acordo do fim da greve de quatro meses de 2024, uma das mais longas contra o governo Lula, incluindo reajuste salarial e redução da jornada de trabalho.

Greves na educação já aconteceram nos estados de Minas Gerais e no Paraná em março, e em Curitiba, capital do Paraná, e no Distrito Federal em abril. Hoje, professores e servidores públicos municipais de Florianópolis, capital de Santa Catarina, e professores de Canoas, no Rio Grande do Sul, estão em greve por melhores salários e condições de trabalho. 

Em todas as suas lutas, os trabalhadores têm enfrentado traições seguidas dos sindicatos, que se recusam a unificar as lutas. Ao mesmo tempo, a grande maioria desses sindicatos são dirigidos por burocratas do PT e de grupos morenistas e pablistas do Partido Socialismo e Liberdade, que fazem de tudo para suprimir essas lutas tremendo que saiam de seu controle e desviá-las para a política burguesa, particularmente as eleições. 

Os ataques à educação e às condições de trabalho da classe trabalhadora e da juventude brasileira é um ataque de toda a elite dominante e seus partidos, incluindo o PT de Lula. Assim como outros governantes burgueses ao redor do mundo, a resposta de Lula à crise crescente global, intensificada agora pela guerra contra o Irã, tem sido uma defesa aberta do aumento dos gastos militares, enquanto continua se comprometendo com políticas de austeridade. Em contrapartida, essa política está abrindo o caminho para a ascensão eleitoral do filho de Bolsonaro, o senador igualmente fascista Flávio Bolsonaro, que já aparece empatado com Lula nas pesquisas de opinião. 

Os trabalhadores e a juventude brasileira procurando uma resposta socialista e internacionalista para crise capitalista – a causa da austeridade e dos ataques à educação e às condições de trabalho, assim como da guerra e da ameaça da extrema direita fascista – encontrarão no Ato Online Internacional de Primeiro de Maio organizado pelo World Socialist Web Site e pelo Comitê Internacional da QUarta Internacional (CIQI) um verdadeiro caminho a seguir. Fazemos um chamado para que se organizem para assistir ao ato, que acontecerá em 1° de maio, e ajudem a divulgá-lo o máximo possível.

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