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O balanço do castrismo enquanto Trump prepara guerra contra Cuba

Desde que este artigo foi publicado originalmente em inglês no WSWS, em 2 de junho de 2026, os EUA avançaram seus planos para um possível ataque militar a Cuba. Além disso, com a escalada da guerra dos EUA contra o Irã nas últimas semanas, o governo Trump intensificou seus esforços para criar um casus belli, alegando a presença de drones iranianos em Cuba que poderiam representar uma ameaça à base naval americana de Guantánamo ou até mesmo ao próprio território dos EUA.

Em meio às crescentes ameaças de guerra, somadas ao aumento das sanções e à manutenção do bloqueio energético, as negociações entre os EUA e figuras do governo cubano continuam. A agressão e as ameaças americanas já resultaram em profundas concessões: no dia 18 de junho, a Assembleia Nacional de Cuba aprovou por unanimidade um pacote com mais de 170 medidas que equivalem a uma espécie de terapia de choque, desmantelando grande parte do pouco que resta das reformas implementadas pelo governo após a Revolução de 1959.

Para os trabalhadores em Cuba, nos Estados Unidos e em todo o continente americano, esses acontecimentos levantam questões urgentes e decisivas que o artigo a seguir ajuda a elucidar, considerando particularmente a natureza da Revolução Cubana e do regime castrista.

Aviões das Forças Armadas dos EUA em Porto Rico, em 20 de maio de 2026. [Photo: Air Force Photo, SrA Clare Werner]

Menos de seis meses após o sequestro e a derrubada do presidente venezuelano Nicolás Maduro — uma operação na qual as Forças Especiais dos EUA mataram 32 membros das forças de segurança cubanas e dezenas de venezuelanos em Caracas —, o governo Trump está preparando abertamente uma operação militar contra Cuba. As ameaças reavivam o legado dos golpes apoiados pelos EUA e das ditaduras militares fascistas que banharam a América Latina em sangue ao longo do século XX e representam uma tentativa de reimpor o domínio colonial sobre a ilha.

Os trabalhadores de Cuba, dos Estados Unidos e de todo o continente americano devem se mobilizar com urgência contra essa agressão imperialista em curso e os planos de guerra. Mas, contra os apologistas que afirmam que não é hora de questionar a direção cubana — da mesma forma que disseram sobre o governo chavista, que agora está cedendo o controle de Caracas à CIA e ao Pentágono —, qualquer oposição eficaz ao imperialismo exige um balanço da experiência histórica com o castrismo: não apenas seu impacto dentro da própria Cuba, mas o papel que desempenhou em todo o hemisfério.

Isso não é um exercício teórico abstrato. É uma necessidade política, pois todas as forças políticas que hoje estão preocupadas com a situação de Cuba, mas não oferecem nenhum programa concreto para sua defesa — Lula no Brasil, Sheinbaum no México, os chavistas, os partidos stalinistas e as tendências pablistas — são, ao mesmo tempo, produtos e continuadores da política que criou essa catástrofe.

As últimas ameaças

A escalada da pressão dos EUA contra Cuba tem ocorrido com uma crueldade que não deixa margem para dúvidas quanto às intenções de Washington. No primeiro dia de seu segundo mandato, Trump colocou Cuba de volta na lista de “Países Patrocinadores do Terrorismo”, desencadeando uma ampla série de sanções financeiras, comerciais e de ajuda humanitária. Após o sequestro de Maduro, Trump declarou: “Cuba está prestes a cair”. No final de janeiro, ele anunciou que Cuba constituía “uma emergência nacional” e ameaçou os fornecedores de petróleo com sanções severas caso entregassem combustível à ilha. Em 1º de maio, o governo impôs sanções contra qualquer negócio com a economia cubana — uma medida que, combinada com o embargo de combustível já em vigor, ameaça a ilha com um colapso econômico sem precedentes.

Os resultados práticos desse cerco são genocidas. A chegada de um único navio-tanque russo permitiu que a porcentagem do território cubano afetada por cortes de energia caísse temporariamente de 60% para 30%, segundo a concessionária de energia elétrica de Cuba, mas esse alívio durou apenas algumas semanas. Em maio, a ilha registrou os piores apagões de sua história. Entre 6 e 18 de maio, Havana sofreu cortes contínuos de energia 24 horas por dia. Geladeiras pararam de funcionar, alimentos estão estragando, cirurgias foram canceladas e a mortalidade infantil dobrou.

Em 21 de maio, o porta-aviões USS Nimitz e três navios de guerra de escolta entraram no Mar do Caribe. A chegada deles ocorreu um dia após o Departamento de Justiça ter anunciado acusações fraudulentas de homicídio contra o ex-presidente cubano Raúl Castro, hoje com 94 anos, pela derrubada, em 1996, de dois aviões pilotados por provocadores ligados à CIA. A acusação é uma ameaça evidente de repetir o tipo de operação usada contra Maduro: indiciar um líder com acusações forjadas e, em seguida, usar isso como pretexto legal para sequestro e ação militar.

O vice-ministro das Relações Exteriores de Cuba, Carlos Fernández de Cossío, reconheceu que seu país está se preparando para a guerra, afirmando que “seríamos ingênuos se não o fizéssemos”. Autoridades cubanas começaram a distribuir um “Guia Familiar para Proteção contra Agressões Militares”.

A hostilidade da classe dominante dos EUA em relação ao povo cubano é motivada não apenas por objetivos geoestratégicos, mas também por uma vingança calculada em relação à revolução de 1959 e à perda tanto do controle corporativo dos EUA sobre a economia da ilha quanto dos cassinos da máfia. Para compreender a profundidade desse ódio, basta lembrar a recusa em vender oxigênio a Cuba durante a pandemia de COVID-19. Enquanto a elite dominante americana adotava uma política de infecção em massa, sacrificando as vidas dos trabalhadores americanos, ordenava simultaneamente uma política deliberda para infectar os cubanos. O mesmo compromisso bipartidário com a destruição do povo cubano anima hoje o governo Trump.

O World Socialist Web Site faz um chamado aos trabalhadores a se oporem às ameaças de invasão, mudança de regime e recolonização de Cuba pelo imperialismo dos EUA. Nossa defesa de Cuba contra a agressão imperialista é incondicional e sem reservas. É precisamente porque baseamos essa defesa nos interesses independentes e na mobilização consciente da classe trabalhadora — e não em sua subordinação à direção nacionalista cubana — que uma avaliação sóbria do castrismo não só é compatível com essa defesa, mas constitui um alicerce necessário.

A revolução cubana e a teoria da revolução permanente

A história de Cuba é a história do fracasso das direções nacionalistas burguesas e pequeno-burguesas em garantir uma independência nacional genuína para a ilha, cujo destino está inextricavelmente ligado à sua proximidade e importância estratégica em relação aos Estados Unidos desde seu surgimento como potência imperialista.

O secretário de Estado dos EUA, James G. Blaine, compreendeu isso já em 1881. Segundo ele,

Aquela ilha rica, a chave do Golfo do México, é, embora esteja nas mãos da Espanha, parte do sistema comercial americano... Se algum dia deixar de ser espanhola, Cuba deverá necessariamente tornar-se americana e não cair sob o domínio de nenhum outro país europeu.

A construção do Canal do Panamá na virada do século apenas ampliou esse cálculo estratégico, já que as águas que circundam Cuba conectam o canal tanto à costa do Golfo dos Estados Unidos quanto à costa leste. Hoje, os interesses em jogo são ainda maiores. Uma análise recente do mercado chegou à conclusão de que “os recursos de níquel e cobalto de Cuba representam um dos ativos minerais subdesenvolvidos mais significativos do Hemisfério Ocidental. A cadeia global de suprimentos de baterias para veículos elétricos precisa exatamente do que Cuba possui”.

O povo cubano travou três guerras de independência contra a Espanha, com um custo humano terrível. Na última delas (1895-1898), a Espanha mobilizou 220.285 soldados e criou o campo de concentração moderno. Cerca de 20% da população de Cuba morreu. Quando a guerra terminou, porém, não foi a independência cubana que se consolidou, mas sim a tutela dos Estados Unidos.

Os EUA intervieram em 1898, excluíram os líderes cubanos do Tratado de Paris — que pôs fim formalmente ao colonialismo espanhol — e impuseram a Emenda Platt, concedendo a Washington o direito irrestrito de intervir militarmente nos assuntos cubanos. Washington também garantiu a Baía de Guantánamo como base permanente dos EUA. O Dia da República de Cuba, comemorado formalmente em 20 de maio de 1902, não celebra uma independência genuína, mas sim um simulacro dela: um status semicolonial que preservou a subordinação essencial de Cuba ao imperialismo dos EUA, mesmo quando a bandeira dos Estados Unidos foi arriada no Castelo do Morro, em Havana.

As forças de classe que impulsionaram essa história foram claramente identificadas em uma palestra fundamental de Bill Van Auken intitulada “O castrismo e a política do nacionalismo pequeno-burguês”. Essa análise traçou as raízes profundas da revolução de 1959 no caráter abortado da luta pela independência de Cuba e no consequente domínio da economia e da política da ilha pelo capital americano e seus agentes locais.

A realidade social da Cuba pré-revolucionária caracterizava-se por uma extrema concentração de riqueza, acompanhada de pobreza rural em massa e desemprego urbano. A economia da ilha — suas plantações de cana-de-açúcar, serviços públicos, ferrovias, hotéis e indústrias — era predominantemente de propriedade de corporações americanas ou da burguesia local ligada a elas.

O submundo dos negócios cubano estava profundamente ligado aos mais altos escalões do establishment dos EUA. Charles “Bebe” Rebozo, um banqueiro cubano ligado à máfia e um dos confidentes mais próximos de Richard Nixon, viajava regularmente com Nixon e o senador da Flórida George Smathers para Havana em viagens de jogo organizadas inteiramente por figuras do crime organizado americano, como Meyer Lansky. Rebozo mantinha laços pessoais e comerciais profundos com o círculo íntimo do ditador Fulgencio Batista, incluindo Edgardo Buttari e Burke Hedges. A Cuba de Batista era, na verdade, um Estado mafioso cujos supervisores estavam em Washington e Miami.

A paralisia política da classe trabalhadora cubana nesse período, conforme documentado por Van Auken, foi resultado de uma sabotagem deliberada. O stalinista Partido Socialista Popular (PSP) assumiu a responsabilidade direta por canalizar as revoltas revolucionárias anteriores a favor de Batista, inclusive ao integrar seu governo. A greve geral de 1933 e a revolução que derrubou a ditadura de Gerardo Machado abriram uma situação genuinamente revolucionária, com os trabalhadores tomando fábricas e formando sovietes. Mas os stalinistas subordinaram esse movimento a Batista, que na época se apresentava como anti-imperialista. Com a classe trabalhadora politicamente desarmada, o resultado não foi a resolução das tarefas democráticas de Cuba, mas seu adiamento sob um novo homem forte capitalista.

Quando eclodiu a revolução de 1959, não foi principalmente o foco guerrilheiro na Sierra Maestra que derrubou Batista. Foi o movimento de greves em massa nas cidades que paralisou seu regime e o tornou insustentável. O movimento de Castro ocupou o vácuo político criado pelo colapso da autoridade de Batista e pela ausência de uma direção revolucionária da classe trabalhadora capaz de disputar o poder.

Este é um ponto crucial: o triunfo do Movimento 26 de Julho de Castro não foi uma confirmação da guerrilha como caminho para o poder, mas uma demonstração de que, desprovida de direção revolucionária, a classe trabalhadora só pode assistir aos movimentos nacionalistas burgueses herdando o Estado como guardião da contínua exploração capitalista.

Castro discursando na Conferência Tricontinental em 1966, quando denunciou o trotskismo.

Os governos de Eisenhower e, posteriormente, de Kennedy se recusaram a negociar com aqueles que derrubaram seu fantoche em Havana, ou a aceitar mesmo que fossem mínimas reformas agrárias e outras medidas exigidas pelas massas. Em vez disso, suspenderam a importação de açúcar cubano, impondo um embargo comercial quase total por parte dos EUA. O governo de Castro que emergiu desse processo respondeu, por necessidade econômica, com nacionalizações em grande escala de plantações, serviços públicos, ferrovias, hotéis e indústrias pertencentes aos EUA.

Ao recorrer à burocracia stalinista da União Soviética em busca de ajuda, Castro implementou programas que alcançaram ganhos sociais genuínos nas áreas de alfabetização, saúde pública e educação. Essas conquistas foram reais, mas foram alcançadas dentro de um aparato estatal que permaneceu fundamentalmente capitalista em seu caráter de classe e sob condições de total subordinação política de Cuba à política externa contrarrevolucionária de Moscou.

A dependência estrutural da economia cubana da ajuda externa confirmou que os trabalhadores não podiam — e não podem — garantir as conquistas sociais remanescentes desse período contando com o governo castrista. A direção nacionalista burguesa cubana sempre precisou de um patrocinador para manter sua economia à tona. Durante a Guerra Fria, esse patrocinador foi a União Soviética. Após a dissolução da URSS, foi a Venezuela e, de forma mais limitada e de curto prazo, o México.

Toda uma camada da cúpula militar e partidária cubana enriqueceu por meio do acesso privilegiado às receitas do turismo e a joint ventures com capital europeu e canadense. Na última década, os gastos com turismo e hotéis superaram todas as outras prioridades de investimento. Em 2024, o Estado cubano concentrou 37,4% de todos os investimentos na construção de resorts, um valor onze vezes maior do que os gastos com educação e saúde somados.

Essa é a expressão econômica lógica de um Estado cujo estrato governante, apesar de toda a sua retórica nacionalista, sempre se orientou para encontrar um acordo com o capitalismo global, em vez de mobilizar a classe trabalhadora para derrubá-lo. Em vez disso, atrair investimentos de capital exige custos competitivos na forma de mão de obra barata e recursos naturais.

A catástrofe atual revelou essa realidade. Quando o presidente Miguel Díaz-Canel, em uma entrevista recente à BreakThrough News, refletiu sobre as lições das guerras de independência de Cuba e da revolução de 1933, ele concluiu que a razão fundamental pela qual os movimentos anteriores não conseguiram garantir a independência foi a “desunião” — a falta de unidade entre os cubanos. A revolução de 1959 foi bem-sucedida, argumenta ele, porque “reuniu as principais forças políticas em um único partido com a mesma concepção martista [originária do líder nacionalista cubano do século XIX, José Martí] do Partido Revolucionário Cubano” e, assim, “conseguiu resistir às adversidades, derrotar o embargo e superar toda a agressão imperialista”.

O que acontece é exatamente o contrário. O fracasso das guerras de independência e das revoltas revolucionárias de Cuba não foi resultado da desunião entre os cubanos como cubanos. Foi resultado da incapacidade de todos os programas nacionalistas, na época do imperialismo, de resolver a contradição fundamental entre as tarefas democráticas da nação cubana — autodeterminação nacional, reforma agrária, soberania sobre seus recursos — e os interesses de classe da burguesia e da pequeno-burguesia que lideravam todos os movimentos nacionalistas.

Essa contradição não pode ser superada por meio da união sob uma bandeira nacionalista. Ela só pode ser resolvida pela classe trabalhadora, ao destruir o Estado capitalista e tomar o poder em seu próprio nome, como parte da revolução socialista internacional — exatamente o que estabelece a teoria da revolução permanente de Trotsky, que orientou a estratégia bem-sucedida da Revolução Russa de outubro de 1917.

Essa teoria, desenvolvida no contexto das revoluções russas de 1905 e 1917, da Primeira Guerra Mundial e dos acontecimentos mundiais mais amplos no início do século XX, assenta em três teses interligadas. Primeiro, nos países de desenvolvimento capitalista atrasado, a burguesia é fraca demais, está muito ligada ao imperialismo e ao latifúndio e tem demasiado medo do surgimento de uma classe trabalhadora revolucionária para cumprir as tarefas clássicas da revolução democrática burguesa. Somente a classe trabalhadora, liderando o campesinato e os pobres rurais, pode realizar essas tarefas.

Em segundo lugar, a revolução democrática não pode parar no “estágio” capitalista — ela deve avançar ininterruptamente para medidas socialistas, ou seja, a expropriação do capital. Em terceiro lugar, e o mais importante, a revolução socialista não pode ser concluída em um único país. Ela deve se tornar internacional, ou será sufocada — como ficou demonstrado, em última instância, pelo destino da União Soviética sob o domínio e a degeneração da burocracia nacionalista stalinista.

A afirmação de Díaz-Canel de que Cuba resistiu com sucesso ao embargo e à agressão imperialista é refutada pela atual devastação social. Os apagões, o colapso do sistema de saúde e o êxodo de mais de dois milhões de cubanos nos últimos anos atestam esse fracasso catastrófico. Díaz-Canel tenta minimizar a crise atual comparando-a favoravelmente ao Período Especial da década de 1990, quando o fim dos subsídios soviéticos causou o esgotamento quase total dos combustíveis e forçou os cubanos a sobreviver com um terço a menos de calorias. Mas o fato de os cubanos estarem saindo hoje em números sem precedentes na história cubana desmente essa afirmação.

A Revolução Cubana constitui uma confirmação negativa da teoria da revolução permanente. Mesmo as nacionalizações mais radicais realizadas por um governo nacionalista pequeno-burguês, em condições de mobilização de massas, não conseguiram resolver a tarefa democrática de emancipação do imperialismo. Os defensores do castrismo poderiam argumentar que foi justamente o isolamento imposto pelo imperialismo dos EUA que levou ao seu fracasso, mas esse argumento apenas ressalta a necessidade da luta pelo poder operário como componente integral da revolução socialista mundial.

Hoje, com o círculo íntimo da família Castro negociando os termos da rendição de Cuba com o diretor da CIA em Havana, convidando investidores capitalistas expatriados a retornarem à ilha, libertando presos políticos a pedido dos EUA e manifestando interesse em cooperar com as agências de inteligência americanas para reforçar “a segurança de ambas as nações”, a falência dessa estratégia nacionalista é total.

O caráter de classe capitalista da direção cubana é o que a impede de fazer um apelo genuíno aos trabalhadores dos Estados Unidos para que se levantem contra a agressão de sua própria classe dominante. Um movimento desse tipo, vindo de baixo, nos Estados Unidos, inevitavelmente desencadearia um movimento de trabalhadores em Cuba exigindo o fim dos privilégios da elite capitalista e militar que controla a economia. A liderança de Castro teme sua própria classe trabalhadora ainda mais do que teme Washington. É por isso que ela corteja a burguesia exilada de Miami, conhecida como “gusanos” — há muito ligada a tentativas de golpe da CIA e a planos terroristas contra Cuba —, como potenciais investidores, em vez de apelar aos trabalhadores americanos em nome da solidariedade de classe internacional.

O “teste decisivo” de Joseph Hansen, os pablistas e a traição da revolução permanente

O destino do castrismo em Cuba não pode ser dissociado do papel catastrófico que desempenhou no âmbito internacional. No centro de sua promoção em todo o hemisfério e da falsificação de seu caráter de classe estava o pablismo, uma tendência revisionista que surgiu de dentro da Quarta Internacional em oposição à defesa do trotskismo ortodoxo pelo Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI).

Um dos principais protagonistas dessa campanha foi Joseph Hansen, dirigente do Socialist Workers Party (SWP) dos Estados Unidos. Na época da Revolução Cubana de 1959, o SWP era uma das principais seções da CIQI. Inicialmente, adotou uma postura crítica em relação a Castro. No entanto, em um processo indissociável das pressões de classe sobre o SWP ao longo do final da década de 1950 e início da década de 1960 — geradas pelo prolongado boom do pós-guerra, pelo domínio da burocracia sindical e pela influência da intelectualidade radical da classe média americana —, a direção do SWP capitulou perante o castrismo e o pablismo.

Joseph Hansen.

Nos meses imediatamente após a derrubada de Batista, em 1º de janeiro de 1959, o jornal Militant, publicado pelo SWP, havia definido Castro como um nacionalista burguês, enquanto seu secretário nacional, Farrell Dobbs, insistia no “caminho historicamente necessário para o pleno poder operário, para a plena afirmação do poder da classe trabalhadora”.

Essa avaliação, por mais precisa que fosse, entrava em tensão crescente com a orientação cada vez mais acentuada do SWP em direção às camadas radicais da classe média e com o entusiasmo acrítico dessas camadas em relação aos acontecimentos em Cuba.

Esse momento foi aproveitado por Joseph Hansen, um dirigente do SWP, que, conforme o CIQI posteriormente constatou em sua investigação “Segurança e a Quarta Internacional”, havia atuado como agente da GPU no período que antecedeu o assassinato de Leon Trotsky em 1940 e, posteriormente, tornou-se informante e “ativo” do FBI.

Em dezembro de 1960, Hansen elaborou seu “Esboço de Teses sobre a Revolução Cubana”, proclamando que Castro havia estabelecido um Estado operário em Cuba e equiparando a nacionalização da propriedade à existência de um Estado operário. Em 14 de janeiro de 1961, ele apresentou um relatório formal ao Comitê Político do SWP em apoio a essas teses. O relatório, e a discussão que gerou nos órgãos dirigentes do partido, expôs o quão baixo havia caído o nível teórico do SWP.

Conforme David North documenta em The Heritage We Defend [A Herança que Defendemos], a forma como Hansen formulou inicialmente a questão foi, por si só, uma revelação: ele insistiu na urgência de se tomar uma posição sobre o caráter de classe de Cuba, não do ponto de vista do desenvolvimento de uma perspectiva revolucionária global para a classe trabalhadora, mas como resposta à pressão da opinião intelectual da classe média. Ele perguntou ao Comitê Político se o SWP concordava ou discordava das declarações sobre Cuba feitas por Jean-Paul Sartre, C. Wright Mills, Huberman e Sweezy, descrevendo-os como pessoas “muito importantes”.

O argumento “teórico” propriamente dito de Hansen baseava-se no que o CIQI caracterizou corretamente como empirismo descarado. Segundo ele,

Nossas caracterizações refletem simplesmente os fatos. O fato de que os capitalistas foram expropriados em Cuba. O fato de que uma economia planificada foi instaurada lá. O fato de que existe lá um tipo de Estado qualitativamente diferente. Não importa como você chame essas coisas, são os fatos dos quais todos devem partir.

Como North demonstra, esses “fatos” careciam totalmente de análise crítica. Afirmar que os capitalistas haviam sido expropriados não dizia nada sobre a natureza de classe dessas expropriações. A referência a uma “economia planificada” foi totalmente abstraída da ausência de industrialização sistemática e do domínio contínuo de uma economia monocultural baseada na cana-de-açúcar — condições sob as quais o planejamento científico era impossível, como a história posteriormente comprovou. E a afirmação de que Cuba possuía “um tipo de Estado qualitativamente diferente” levantava a questão: diferente de quê? Hansen não se preocupou em explicar.

A imagem de guerrilheiros armados, como observou North, provavelmente passou rapidamente pela mente dos membros do Comitê Político do SWP enquanto ouviam. Mas guerrilheiros armados e milícias populares, por si só, não determinam a natureza de classe do poder estatal. O que tornou o Estado surgido da revolução bolchevique “qualitativamente diferente” não foram as milícias armadas — foi a forma soviética por meio da qual o proletariado exercia sua ditadura.

O “Esboço de Resolução” do SWP de 1961 apresentou a conclusão revisionista em sua forma mais contundente: uma “direção pequeno-burguesa, partindo de um programa democrático-burguês, seguiu a lógica dialética da revolução em vez da lógica formal de seu próprio programa e acabou estabelecendo o primeiro Estado operário no Hemisfério Ocidental e proclamando-o como um exemplo para toda a América Latina”.

As implicações políticas dessa afirmação foram impressionantes. A seção britânica do CIQI, a Socialist Labour League (SLL), liderou a oposição a essa revisão maciça do marxismo, começando com sua carta de janeiro de 1961 à direção do SWP.

Se fosse possível estabelecer Estados operários por meio das ações de dirigentes guerrilheiros pequeno-burgueses — baseados principalmente no campesinato, sem vínculos organizacionais ou políticos significativos com a classe trabalhadora e em condições nas quais não existissem órgãos identificáveis de domínio de classe proletário —, então toda a concepção marxista do caminho histórico para o socialismo se tornaria obsoleta. A relevância dos escritos de Lenin sobre a Comuna, a análise de Trotsky do poder dos sovietes como a forma pela qual o proletariado exerce sua ditadura e gerações de luta para construir partidos revolucionários enraizados na classe trabalhadora — tudo isso estava sendo jogado por água abaixo em nome da adaptação a qualquer movimento nacionalista ou guerrilheiro que por acaso estivesse realizando expropriações em um determinado momento.

Em “O Trotskismo Traído”, publicado em julho de 1962, a SLL declarou:

O regime de Castro não criou um tipo de Estado qualitativamente novo e diferente do regime de Batista. As nacionalizações realizadas por Castro não alteram em nada o caráter capitalista do Estado.

E concluía:

Cuba constitui, de fato, uma confirmação negativa da revolução permanente. Quando a classe trabalhadora é incapaz de liderar as massas camponesas e esmagar o poder estatal capitalista, a burguesia intervém e resolve os problemas da “revolução democrática” à sua maneira e para sua própria satisfação.

A desmoralização subjacente à capitulação do SWP ficou evidente na discussão do Comitê Político que se seguiu ao relatório de Hansen, de janeiro de 1961. Morris Stein, que havia desempenhado um papel de destaque na luta contra Pablo uma década antes e, na época, havia denunciado a ideia de que a crise da direção proletária pudesse ser resolvida pelo crescimento de “fatores objetivos”, abandonou agora todos os princípios que antes defendera. Ele disse ao comitê:

Passamos a maior parte de nossas vidas polemizando contra pessoas que falavam como revolucionários e agiam como reformistas. Dedicamos nossa vida a isso. Acho que devemos saudar uma mudança.

Como observa North, esse foi o último suspiro político de Stein — uma expressão do esgotamento de uma geração que havia desistido da classe trabalhadora americana e não via nenhuma perspectiva revolucionária para o SWP. A adulação ao castrismo foi a expressão política desse abandono.

Foi nesse contexto — com as posições do SWP consolidadas, sua direção desmoralizada e sua orientação voltada para a opinião radical da classe média — que Hansen lançou seu documento de novembro de 1962 intitulado Cuba: The Acid Test [Cuba: O Teste Decisivo]. Sua importância não residia principalmente no que acrescentava teoricamente, mas na arma política que colocava nas mãos de todos aqueles que buscavam destruir a resistência do CIQI à reunificação com os pablistas. O documento era uma provocação e calúnia calculadas, destinadas a chantagear o movimento trotskista para que se subordinasse às forças nacionalistas pequeno-burguesas.

Hansen enquadrou toda a situação em termos que impediam uma discussão política baseada em princípios. Ele declarou que “fatores objetivos” como a revolução colonial e o processo de desestalinização estavam “exercendo um efeito sobre o movimento radical mais ou menos comparável ao da Revolução Russa há cerca de quarenta anos”, atravessando todas as formações, “abalando-as e reagrupando-as, dividindo-as entre a direita e a esquerda”.

A partir dessa perspectiva objetivista e impressionista, a defesa do programa trotskista pelo CIQI foi apresentada não como uma defesa baseada em princípios do marxismo e da herança da Revolução de Outubro, mas como um obstáculo a ser removido. A resistência da SLL à reunificação com os pablistas foi retratada como “sectarismo de extrema esquerda”, sua insistência na primazia da direção da classe trabalhadora como uma recusa dogmática em reconhecer “acontecimentos palpáveis” e sua oposição à adaptação a Castro como um esforço ilusório “para se isentar de qualquer responsabilidade adicional, rotulando de ‘traição’ tudo o que esses líderes fazem”.

A alternativa de Hansen, apresentada como marxismo prático e atento à realidade, equivalia à liquidação total do partido revolucionário. Ele escreveu:

Ao se unirem à ação da revolução, eles buscam ajudar a construir um partido socialista revolucionário no próprio processo da revolução, em vez de argumentar com a revolução que teria sido melhor adiar as coisas até que o partido tivesse sido construído primeiro.

Essa formulação — que reproduz quase literalmente os argumentos que Pablo havia usado para justificar a capitulação perante o stalinismo — significava, na prática, que o partido não precisava ser construído antes de uma revolução, mas apenas durante ela, e somente por meio da adaptação a qualquer força não marxista que por acaso estivesse liderando-a. A conclusão lógica, como reconheceu a SLL, foi o abandono da luta pela construção de partidos trotskistas em qualquer lugar, incluindo, acima de tudo, nos Estados Unidos.

A calúnia de Hansen contra a SLL, acusando-a de ser uma seita de extrema-esquerda — reforçada pela mentira de que a SLL se recusou a defender a Revolução Cubana — tornou-se a base política para todas as manobras de reagrupamento pablistas subsequentes. Isso imunizou a ampla esquerda pequeno-burguesa contra qualquer envolvimento com as posições de princípio do CIQI, apresentando a insistência do trotskismo no papel revolucionário independente da classe trabalhadora como irrelevância sectária diante das poderosas forças da revolução colonial.

Cliff Slaughter.

É por isso que a resposta de Cliff Slaughter — em Oportunismo e Empirismo, de março de 1963, cuja importância David North comparou à obra de Trotsky Em Defesa do Marxismo, escrita contra Max Shachtman e a oposição pequeno-burguesa no SWP em 1939-40 — não foi meramente uma réplica a Hansen, mas uma defesa fundamental do próprio método marxista contra a dissolução empirista que Hansen promovia como filosofia:

É uma visão falsa e não marxista dos “fatos” que leva a essas ideias revisionistas. O que nossos “objetivistas” estão dizendo, com sua mensagem de que “a história está do nosso lado”, é o seguinte: observe as grandes lutas que estão ocorrendo, some-as sem analisá-las, baseie-se em suas impressões sobre o significado delas e some tudo isso — e você terá “os fatos”... Uma análise verdadeiramente objetiva parte das relações econômicas entre as classes em escala mundial e dentro das nações. Ela prossegue por meio de uma análise das relações entre as necessidades dessas classes e sua consciência e organização. Nisso ela baseia seu programa para a classe trabalhadora internacionalmente e em cada setor nacional.

Em 1962, Hansen já havia transformado Cuba no que chamava de “teste decisivo” da Quarta Internacional: aqueles que não celebravam Castro como um marxista revolucionário eram, segundo ele, sectários de extrema esquerda alheios à realidade. A questão cubana tornou-se, assim, a alavanca política para a reunificação do SWP com o Secretariado Internacional pablista no congresso de renegados que estabeleceu o Secretariado Unificado em 1963. Essa fusão não foi um acordo político baseado em princípios. Foi uma aliança internacional da pequena burguesia, organizada para derrubar o programa da Quarta Internacional e atribuir ao trotskismo o papel servil de ajudar a “fortalecer e enriquecer a corrente internacional do castrismo”, nas palavras da resolução oficial de reunificação.

Essa reorientação permitiu que Hansen levasse a juventude, a imprensa e o aparato interno do SWP a promover acriticamente o castrismo e a reorientar toda a prática do partido em torno do Comitê para o Tratamento Justo de Cuba (Fair Play for Cuba Committee), dominado pelo Estado.

A destruição liquidacionista dos quadros pelo SWP teve consequências imediatas e catastróficas na América Latina. Depois que o governo de Castro reagiu confiscando a gráfica dos trotskistas cubanos, destruindo a composição tipográfica destinada a uma edição cubana de A Revolução Permanente, de Trotsky, e prendendo seus principais membros, o SWP exigiu que os trotskistas em Cuba se subordinassem completamente ao regime castrista.

O SWP estendeu essa orientação criminosa por todo o hemisfério, declarando que “os trotskistas de toda a América Latina devem tentar reunir todas as forças, independentemente de suas origens específicas, dispostas a tomar a experiência cubana como ponto de partida para as lutas revolucionárias em seus próprios países”.

A trajetória do revisionista argentino Nahuel Moreno ilustra precisamente essas consequências. Após a reunificação de Hansen com o Secretariado pablista, Moreno utilizou a Revolução Cubana para romper com o CIQI e integrar seu movimento ao pântano do radicalismo pequeno-burguês. Ele se uniu ao guevarista Mario Roberto Santucho para fundar o Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT) na Argentina, em 1965. Quando o Partido Comunista de Cuba lançou a Organização de Solidariedade Latino-Americana (OLAS) em agosto de 1967, Moreno propôs que a “tarefa militante número um” de seu partido fosse a formação de guerrilhas como parte de um “aparato técnico rigidamente disciplinado sob a OLAS”.

No Chile, a orientação liquidacionista de Moreno levou à dissolução do Partido Operário Revolucionário (POR) no Movimento da Esquerda Revolucionária (MIR) — uma amalgama de tendências da classe média —, deixando a classe trabalhadora chilena sem uma direção marxista na crítica situação revolucionária do início da década de 1970.

O balanço internacional do castrismo

A glorificação do guerrilhismo pequeno-burguês como um novo caminho para o socialismo desempenhou um papel extremamente pernicioso ao abrir caminho para a subordinação da classe trabalhadora a diversos líderes nacionalistas burgueses, desde Juan Perón na Argentina até Salvador Allende no Chile, Juan José Torres na Bolívia e Juan Francisco Velasco Alvarado no Peru.

Em 1971, durante sua visita ao Chile, Castro apoiou a “via [parlamentar] chilena para o socialismo”, liderado por Allende, exortando os trabalhadores, em vários discursos de grande repercussão, a “se unirem” em torno do que chamou de “processo revolucionário” sob o governo da Unidade Popular. O resultado desses esforços para impedir que os trabalhadores seguissem um caminho revolucionário independente foi o golpe apoiado pelos EUA e liderado pelo chefe militar de Allende, Augusto Pinochet, que afogou em sangue o movimento operário chileno, incluindo muitos dos apoiadores de Castro.

Washington explorou sistematicamente o espectro de “outra Cuba” para justificar sua ofensiva contrarrevolucionária em todo o hemisfério: a invasão da República Dominicana em 1965, a invasão de Granada em 1983, o apoio a ditaduras repressivas na América do Sul e suas guerras por procuração contra o FMLN em El Salvador e os sandinistas na Nicarágua. Em cada caso, esses governos e movimentos nacionalistas burgueses desarmaram os trabalhadores — política e fisicamente —, facilitando golpes de Estado e a instalação de regimes subservientes ao imperialismo americano.

A promoção da guerrilha como substituto à organização da classe trabalhadora levou milhares de jovens radicalizados a aventuras suicidas e isoladas do movimento de massas. Essa perspectiva serviu apenas para separar os elementos revolucionários da classe trabalhadora, levá-los a confrontos armados desiguais com o Estado e bloquear a construção de partidos revolucionários da classe trabalhadora. Em nenhum lugar o apoio a tais regimes ou métodos levou ao socialismo.

Na década de 2000, o castrismo ofereceu apoio político aos governos da “Maré Rosa” — a começar por Hugo Chávez na Venezuela —, que implementaram programas limitados de assistência social, mas mantiveram intacto o Estado capitalista; e cujas lideranças se mostraram totalmente cúmplices da ofensiva atual do governo Trump contra Cuba.

A dura lição da história latino-americana é esta: a subordinação da classe trabalhadora ao nacionalismo burguês ou pequeno-burguês apenas cria as condições para as derrotas. A luta pelo socialismo exige a independência política total da classe trabalhadora e a construção de uma direção marxista revolucionária.

A oposição trotskista ao liquidacionismo

O movimento trotskista organizado no Comitê Internacional da Quarta Internacional tem defendido implacavelmente Cuba e seu povo contra a agressão imperialista. Ele tem aliado essa defesa a uma luta irreconciliável contra as forças stalinistas e pablistas que subordinaram a classe trabalhadora ao castrismo e a outras lideranças nacionalistas burguesas e pequeno-burguesas. Somente dessa forma é possível defender os interesses históricos de classe dos trabalhadores cubanos e da classe trabalhadora em todo o continente americano.

Esse ponto deve ser compreendido com clareza na situação atual. A recente visita do diretor da CIA a Havana ocorreu apenas um mês após os 65 anos da fracassada invasão da Baía dos Porcos, organizada pela CIA. Esses eventos marcam o início e o fim de todo um período histórico. A atual submissão da direção cubana perante Washington, apesar da coragem das massas cubanas, não é uma traição ao castrismo. É sua conclusão lógica.

Em 1917, no período que antecedeu a Revolução de Outubro, Lenin adotou a perspectiva desenvolvida por Trotsky na teoria da revolução permanente — segundo a qual, em países com desenvolvimento capitalista atrasado, as tarefas democráticas e nacionais historicamente associadas à revolução burguesa só podem ser realizadas pela classe trabalhadora, que será compelida a conquistar o poder e a avançar com medidas socialistas e com a luta para estender a revolução internacionalmente.

Exilado no México, Leon Trotsky respondeu, em 1938, à nacionalização do petróleo mexicano pelo governo de Lázaro Cárdenas, indicando que isso representava um ganho real, mas advertiu:

Nos países industrialmente atrasados, o capital estrangeiro desempenha um papel decisivo. Daí a relativa fraqueza da burguesia nacional em relação ao proletariado nacional. Isso cria condições especiais para o poder do Estado. O governo oscila entre o capital estrangeiro e o nacional, entre a burguesia nacional relativamente fraca e o proletariado relativamente poderoso. Isso confere ao governo um caráter bonapartista de um tipo particular — ele se eleva, por assim dizer, acima das classes. Na realidade, ele pode governar tornando-se um instrumento do capital estrangeiro e acorrentando o proletariado com as correntes de uma ditadura policial, ou manobrando com o proletariado e até mesmo concedendo-lhe concessões, ganhando assim uma certa liberdade em suas relações com o capital estrangeiro. A política atual do governo mexicano segue a segunda direção — suas maiores conquistas são a expropriação das ferrovias e das empresas petrolíferas. Mas afirmar que o caminho para o socialismo não passa pela revolução proletária, mas pelas nacionalizações realizadas pelo Estado burguês e sua transferência para organizações de trabalhadores seria um erro desastroso, um completo engano.

Essa análise, desenvolvida há mais de oito décadas, descreve com precisão impressionante tanto a trajetória do castrismo, quanto o beco sem saída ao qual ele chegou e a alternativa.

Conclusão: O único caminho a seguir

A agressão do imperialismo dos EUA contra Cuba, a longa história de opressão neocolonial e a atual ameaça de uma guerra para a mudança de regime exigem a mobilização dos trabalhadores nos Estados Unidos, em Cuba e internacionalmente em defesa incondicional do povo cubano. Essa mobilização não pode se basear na política do castrismo, do stalinismo ou de qualquer variante do nacionalismo pequeno-burguês. Todas essas tendências provaram ser obstáculos políticos à organização independente da classe trabalhadora e instrumentos do imperialismo.

A capitulação dos governos nacionalistas de “esquerda” da América Latina diante da política de Washington em relação a Cuba deixa essa lição bem clara, de forma brutal. Após uma reunião na Casa Branca com Trump, o presidente do Brasil, Lula da Silva, deu crédito às alegações de Trump de que ele não planeja atacar Cuba e ordenou que a Marinha brasileira se juntasse ao porta-aviões USS Nimitz em exercícios militares durante sua viagem para o Caribe.

Além disso, Moscou fez promessas vazias ao desviar seus navios-tanque diante da pressão americana, e Xi Jinping, da China, recusou-se a levantar a questão de Cuba nas negociações com o governo Trump. Esses governos não são meros espectadores passivos. Sua conivência com o sufocamento de Cuba é a expressão direta de seu caráter de classe: governos capitalistas que temem, acima de tudo, a mobilização independente da classe trabalhadora que uma genuína luta anti-imperialista exigiria.

Esse mesmo caráter de classe caracteriza a oposição tímida do Partido Democrata nos Estados Unidos. Os deputados Jonathan Jackson e Pramila Jayapal viajaram para Havana em abril para se reunir com Díaz-Canel e reconheceram que a política de Trump em relação a Cuba se baseia em mentiras. Jackson afirmou claramente ao USA Today: “Prevejo que os Estados Unidos realizarão uma ação militar em Cuba… Quando dizem que estão prontos para negociar, isso significa que estão prontos para invadir.” Mas, mesmo tendo reconhecido isso, Jackson, Jayapal e seus colegas democratas limitaram sua “oposição” a cartas oficiais e resoluções fracassadas do Congresso, baseadas em apelos ao Partido Republicano fascistoide de Trump.

Sessenta e seis anos de castrismo confirmaram o que o Comitê Internacional da Quarta Internacional sempre defendeu desde o início: que nenhuma variante do nacionalismo pode resolver as tarefas democráticas das nações oprimidas, defender suas conquistas sociais contra o ataque imperialista ou conduzir a classe trabalhadora ao socialismo. O único caminho é aquele aberto pela Revolução de Outubro e defendido pelo movimento trotskista em sua luta tanto contra o stalinismo quanto contra o pablismo: a organização política consciente e independente da classe trabalhadora com base em um programa internacionalista, voltada para a conquista do poder do Estado como parte da revolução socialista mundial.

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