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Perspectivas

Ataque da Ucrânia a navio iraniano expõe o caráter global da guerra imperialista

Publicado originalmente em inglês em 29 de julho de 2026

O ataque ucraniano a um navio de carga iraniano no Mar Cáspio marca uma nova etapa na fusão da guerra da OTAN contra a Rússia com a guerra dos EUA e de Israel contra o Irã. Isso confirma o alerta feito por David North no ato do Primeiro de Maio de 2026: “A guerra mundial não é uma ameaça futura, mas uma realidade que se desenrola no presente”.

O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky numa coletiva de imprensa em Kiev, na Ucrânia, em 24 de agosto de 2025. [AP Photo/Efrem Lukatsky]

A guerra mundial não está emergindo por uma única ação provocativa. Ela está se desenrolando como um processo: por meio da articulação de guerras regionais, operações por meio de forças por procuração, sanções, bloqueios, mobilizações navais e ataques de longo alcance. A intervenção da Ucrânia contra um alvo iraniano dá a esse processo uma expressão nítida.

O ataque com drone de longo alcance ucraniano matou um marinheiro e feriu outro. O alvo foi um navio de propriedade iraniana, o Ana, no Mar Cáspio — um corpo de água que faz fronteira com a Rússia, o Irã, o Azerbaijão, o Cazaquistão e o Turcomenistão, mas não com a Ucrânia. Kiev alegou que o navio transportava drones e mísseis para a Rússia. Teerã condenou o ataque como uma agressão contra um navio comercial.

O ataque expõe a fraude central da propaganda em torno da guerra na Ucrânia. Durante anos, a guerra tem sido apresentada pelas potências imperialistas e pela mídia a elas ligada como uma luta puramente defensiva da Ucrânia contra uma invasão russa “não provocada”. Essa mentira tem sido utilizada sobretudo na Alemanha para justificar o maior rearmamento desde Hitler e uma nova ofensiva militar contra a Rússia.

A invasão da Ucrânia pelo Kremlin em 2022 foi reacionária. Foi a resposta de um regime capitalista oligárquico ao cerco e às provocações incessantes da OTAN contra a Rússia. Ela dividiu os trabalhadores russos e ucranianos, fortaleceu a OTAN e deu às potências imperialistas um pretexto para a escalada. Mas não foi “não provocada”, nem altera o caráter da guerra que agora está sendo travada pela OTAN por meio de seu fantoche ucraniano.

O ataque da Ucrânia a um navio iraniano deixa isso bem claro. Uma guerra supostamente travada em defesa da soberania ucraniana resultou em um ataque ucraniano a uma embarcação iraniana longe das fronteiras da Ucrânia, justamente no momento em que os Estados Unidos e Israel estão travando uma guerra criminosa de agressão contra o Irã.

As frentes de guerra não são separadas. Elas estão sendo deliberadamente conectadas. A Ucrânia não é mais apenas um representante da OTAN contra a Rússia; está se tornando uma força auxiliar na ofensiva imperialista mais ampla contra o Irã e todos os Estados considerados obstáculos ao domínio dos EUA e da Europa sobre a Eurásia.

Isso expõe completamente as tendências da pseudoesquerda que afirmam que a guerra na Ucrânia é uma “guerra justa”, enquanto as de Gaza e do Irã são “guerras injustas”. O próprio Zelensky desmascarou essa ficção. A Ucrânia não está à margem da guerra dos EUA e de Israel no Oriente Médio, mas está intervindo ativamente nela. Apoiar a guerra da OTAN por meio da Ucrânia e, ao mesmo tempo, denunciar o genocídio em Gaza ou o ataque ao Irã é apoiar uma das frentes do mesmo ataque imperialista global.

É impossível se opor ao genocídio em Gaza ou à guerra dos EUA e de Israel contra o Irã e, ao mesmo tempo, permanecer indiferente ou apoiar ativamente a guerra da OTAN contra a Rússia na Ucrânia. Zelensky deixou isso bem claro. Ao atacar um navio iraniano e apresentar a Ucrânia como útil para Washington no conflito com Teerã, Kiev está demonstrando que está disposta a servir ao imperialismo sempre que isso garantir mais armas, dinheiro e apoio político. A Ucrânia está se oferecendo como um cão de ataque das potências imperialistas.

Essa é a transformação da Ucrânia em“Israel da Europa do Leste” — um posto avançado militarizado do imperialismo, armado até os dentes, dependente de financiamento e armas imperialistas, governado por forças fascistas e utilizado contra os inimigos estratégicos dos Estados Unidos e da Europa. As alegações de que a Ucrânia está lutando pela “democracia” são uma fraude. O regime de Zelensky proibiu partidos de oposição, reprimiu sindicatos independentes, prolongou o regime de lei marcial, glorificou colaboradores nazistas e prendeu oponentes socialistas da guerra, incluindo Bogdan Syrotiuk.

A imprensa burguesa está começando a reconhecer, de forma distorcida, o processo há muito analisado pelo World Socialist Web Site. O Financial Times citou o ataque ucraniano no Mar Cáspio em uma coluna intitulada “Ucrânia, Irã e como as guerras regionais se tornam globais”. O Frankfurter Allgemeine Zeitung saudou o ataque como uma mensagem não dirigida a Teerã, mas a Trump: Zelensky estava mostrando que a Ucrânia e os EUA têm “os mesmos inimigos” e que Kiev “não é apenas alguém que implora”, mas pode se tornar útil para Washington.

O ataque está sendo aplaudido na Alemanha porque apresenta a Rússia e o Irã como um único complexo inimigo e vincula os Estados Unidos mais firmemente à guerra na Ucrânia. Berlim teme que Trump possa buscar um acordo separado com Putin que reduza o envolvimento dos EUA e contrarie os objetivos alemães e europeus na Europa Oriental e na Eurásia. Sua resposta é intensificar a guerra e unir as frentes.

A Alemanha, o Reino Unido, a França e as demais potências europeias têm usado a guerra na Ucrânia para dar início ao maior rearmamento desde a Segunda Guerra Mundial, retomar o serviço militar obrigatório e transformar a Europa em uma economia de guerra. Elas também apoiam o ataque dos EUA e de Israel contra o Irã e o genocídio perpetrado por Israel em Gaza. Suas divergências com Trump não dizem respeito à escolha entre guerra e paz, mas sim à liderança, ao momento certo, aos custos e aos ganhos.

A Ucrânia não está agindo como uma força nacional independente. Sua guerra de longo prazo contra a Rússia tem sido politicamente patrocinada, financiada, viabilizada militarmente, apoiada tecnologicamente e coordenada estrategicamente pela OTAN, sobretudo pela Alemanha, Reino Unido e Estados Unidos. Seja qual for a cadeia de comando operacional exata por trás do ataque no Cáspio, ele foi realizado dentro desse quadro mais amplo de guerra da OTAN.

A rota visada tem grande importância estratégica. Astracán, no norte do Mar Cáspio, é um importante centro logístico entre a Rússia e o Irã, e o corredor do Mar Cáspio tornou-se uma rota alternativa para o comércio, a energia e os suprimentos militares. Os ataques ucranianos à infraestrutura energética russa, as ameaças dos EUA e de Israel contra a infraestrutura de exportação de petróleo do Irã e o Estreito de Ormuz, bem como a pressão militar da OTAN sobre a China, são frentes interligadas. Navios, portos, refinarias, oleodutos e rotas marítimas estão se tornando alvos diretos em uma guerra pelas artérias da economia mundial.

A justificativa oficial para o ataque no Mar Cáspio é que o Irã forneceu à Rússia drones e outras armas utilizadas contra a Ucrânia. Mas o mesmo argumento pode ser invocado por todos os Estados envolvidos. O Irã pode reivindicar o direito de atacar alvos ucranianos ou ligados à OTAN porque a OTAN arma Israel e os Estados Unidos bombardeiam o Irã. A Rússia pode reivindicar o direito de atacar centros logísticos da OTAN porque a OTAN arma e orienta a Ucrânia. Essa é a lógica da guerra mundial: cada frente se torna a justificativa para a escalada em outra.

A guerra mundial que se desenrola não decorre da suposta agressividade de um “eixo de adversários” — que engloba o Irã, a Coreia do Norte, a Rússia e a China —, como alega a imprensa imperialista. Ela tem suas raízes na crise histórica do capitalismo mundial e na tentativa do imperialismo dos EUA e da Europa de reverter seu declínio por meio da guerra. O Irã, a Rússia e a China estão sendo alvos porque são vistos como obstáculos ao domínio da Eurásia e da economia mundial pelas potências imperialistas.

Não existe um campo progressista entre os governos capitalistas envolvidos. Os Estados Unidos, a Alemanha, o Reino Unido, a França e Israel estão travando guerras imperialistas predatórias. O regime de Zelensky é um governo fantoche de direita da OTAN. O regime de Putin representa a oligarquia russa; o regime iraniano é incapaz de mobilizar a classe trabalhadora contra o imperialismo.

Os trabalhadores da Ucrânia, da Rússia, do Irã, de Israel, da Europa, dos Estados Unidos e da China não têm interesse em matar uns aos outros em nome dos lucros e das ambições estratégicas de suas classes dominantes. A tarefa urgente é construir um movimento internacional contra a guerra enraizado na classe trabalhadora, romper com todos os partidos capitalistas, desenvolver comitês de base para se opor à produção de armas, ao transporte militar, ao alistamento militar obrigatório, à austeridade e à repressão, lutar pela libertação de Bogdan Syrotiuk e de todos os presos antiguerra e construir o Comitê Internacional da Quarta Internacional como a direção revolucionária da classe trabalhadora internacional.

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