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54 dias de greve nas universidades de São Paulo: as lições políticas

Entre abril e junho deste ano, um movimento grevista varreu as universidades estaduais de São Paulo — a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Estadual Paulista (UNESP) e a Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) —, envolvendo estudantes, funcionários e professores em um dos maiores movimentos do ensino superior na história do estado mais populoso e rico do Brasil. O processo de luta que emergiu do principal polo universitário da América do Sul possui um significado político que transcende os limites dos campi.

As greves foram uma resposta concentrada à deterioração acelerada das condições de trabalho e de ensino nas universidades públicas: falta de professores, infraestrutura precária, avanço da terceirização e uma lógica de mercado que penetra progressivamente as instituições de ensino e produção do conhecimento. Para os estudantes, esse quadro se soma a condições sociais cada vez mais degradadas, que impactam diretamente a capacidade de ingressar e permanecer na universidade.

O movimento mais forte ocorreu entre os estudantes da USP e, não por acaso, fomentado pela reivindicação do aumento das bolsas de permanência para estudantes de baixa renda. A greve estudantil, iniciada em 16 de abril, se estendeu por 54 dias e alcançou escala histórica. Piquetes foram montados nas entradas de várias faculdades e institutos da USP, assim como da UNESP e UNICAMP; manifestações locais e protestos de rua massivos unificados se sucederam entre abril e junho; prédios das três universidades foram ocupados pelos estudantes, e o movimento foi violentamente reprimido.

As greves nas universidades paulistas não foram um acontecimento isolado. Elas se inseriram em um contexto de mobilizações crescentes no conjunto da educação em São Paulo e no Brasil, com uma onda de protestos e greves desde o início do ano de professores, funcionários e estudantes da educação básica e superior contra condições precárias, baixos salários e o avanço de programas de privatização.

Esse não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. Em todo o mundo, governos burgueses de todas as colorações políticas atacam a educação e serviços sociais em meio a uma guinada do capitalismo à guerra e à ditadura. Protestos e greves massivas contra esses ataques estão varrendo a América Latina e o mundo.

Na Argentina, a Quarta Marcha Federal Universitária reuniu 1,5 milhão de pessoas pelo país em 12 de maio contra os cortes promovidos pelo governo fascistoide de Javier Milei; no Chile, mobilizações estudantis massivas vêm confrontando os cortes e a repressão fascistizante do pinochetista José Antonio Kast, empossado em março; na Bolívia, professores integraram o levante de 51 dias, iniciado em maio, contra o governo de Rodrigo Paz, que promove ataques capitalistas da mesma natureza de Milei e Kast. Fora da América Latina, somente nos últimos meses, greves massivas contra cortes na educação ocorreram na Austrália, Portugal, Espanha, França, Canadá e Estados Unidos.

A eclosão do militarismo, a tendência à ditadura e o crescente movimento da classe trabalhadora internacional evidenciam uma encruzilhada política. A reorganização da sociedade mundial está posta na ordem do dia, e apenas duas classes podem realizá-la: a burguesia, por meio do fascismo e da guerra, ou a classe trabalhadora, por meio da revolução socialista. A alternativa entre socialismo e barbárie emerge hoje de forma mais concreta do que em muitas décadas — e é nesses termos que a experiência da greve nas universidades paulistas deve ser examinada.

A trajetória do movimento

Apesar da força demonstrada pelos estudantes, funcionários e professores, o movimento nas universidades em São Paulo terminou isolado, esvaziado e derrotado.

Na USP, as principais demandas dos estudantes não foram atendidas. O aumento da bolsa estudantil, reivindicação inegociável para milhares de alunos em situação de vulnerabilidade social, permaneceu letra morta. Isso não impediu as organizações pseudoesquerdistas à frente do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da USP de proclamarem que a “greve foi histórica” e vitoriosa.

Ao longo de todo o movimento, essas organizações desviaram sistematicamente a luta para negociações estéreis com a reitoria e o governo estadual, denunciando sua suposta “intransigência” e a responsabilizando pelo fracasso das reivindicações. Essa alegação convenientemente máscara o papel que a própria direção desempenhou. A fórmula aprovada no encerramento, “saída unificada com estado de mobilização permanente”, expõe sua incapacidade de indicar em que a proclamada “vitória” consistia.

Esse desfecho contém lições políticas fundamentais que se revelam claramente a partir de uma reconstrução da trajetória do movimento.

A greve dos funcionários da USP

A greve dos estudantes da USP foi precedida e diretamente instigada por uma greve explosiva dos funcionários da universidade em 14 de abril. O estopim para a greve dos trabalhadores foi a aprovação de um programa de gratificação pelo Conselho Universitário exclusivamente para docentes.

Submetidos a anos de arrocho salarial e condições de exploração crescentes, os funcionários da USP deflagraram subitamente uma mobilização. O dirigente de longa data do Sindicato dos Trabalhadores da USP (SINTUSP), Magno de Carvalho, foi forçado a reconhecer, em 22 de abril: “não vou dizer [que a greve se iniciou] independente do sindicato, mas foi muito espontânea a forma como ela se deu [...] Isso indignou a todos [a gratificação apenas aos docentes], a ponto de o sindicato ter que sair atrás para organizar uma revolta espontânea”.

Esse movimento, a que logo se somou a greve estudantil, assustou a reitoria da USP, chefiada por Aluísio Segurado, que resolveu a greve dos servidores em nove dias: em 23 de abril anunciou a criação de programa de gratificação para os funcionários, imediatamente abraçado pelo SINTUSP, que decretou o fim da greve. Com isso, a reitoria desfez a greve de um setor para isolar o outro. Esse procedimento seria o método recorrente da reitoria ao longo de todo o movimento.

A greve se espalha pelas três universidades

Os estudantes da USP haviam entrado em greve em 16 de abril, com a permanência estudantil no centro de suas reivindicações. No início de maio, a paralisação estudantil se ampliou para seis campi da UNESP no interior de São Paulo, enquanto os estudantes da UNICAMP deliberaram sua adesão em 7 de maio, sob as mesmas demandas de moradia e assistência estudantil. No mesmo dia, estudantes da USP ocuparam o prédio da reitoria em protesto.

Na madrugada de 10 de maio, uma operação policial violenta e ilegal foi lançada contra os estudantes da USP pelo governo estadual de Tarcísio de Freitas, um pupilo do ex-presidente fascista Jair Bolsonaro. Um contingente de 50 soldados da Polícia Militar invadiu a reitoria ocupada, sem mandado judicial, com bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo, obrigando os estudantes a atravessar um “corredor polonês”, antes de serem presos.

A repressão do Estado, no entanto, ampliou o movimento em vez de contê-lo. Cursos que já retomavam as aulas reverteram a decisão, e entre 11 e 14 de maio estudantes das três universidades estaduais marcharam de forma unificada pelo centro de São Paulo. Essas marchas aconteceram enquanto funcionários e professores das três universidades negociavam suas pautas com o Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (CRUESP); em meados de maio, os impasses nas negociações levaram os funcionários da UNICAMP e da UNESP, assim como os professores das três universidades, a entrarem em greve.

Bloqueando a unidade com a classe trabalhadora

Desde o primeiro ano do governo Tarcísio, em 2023, uma série de categorias tem se levantado contra seus planos de destruição dos serviços públicos e seu amplo projeto de privatização — metroviários, ferroviários, trabalhadores da Sabesp, professores das redes estaduais e municipais. Durante a própria greve universitária, os professores da rede municipal de São Paulo realizaram uma greve com ampla adesão entre 28 de abril e 19 de maio contra a privatização da educação, e os da rede estadual haviam parado em abril.

A confluência entre as lutas nas três universidades, nas escolas e serviços públicos de São Paulo levantou diretamente o potencial de uma luta unificada sob o protagonismo da classe trabalhadora contra a política de austeridade capitalista implementada pelo governo Tarcísio, que busca conscientemente replicar localmente o chamado “modelo Milei”.

A unificação dessas diferentes lutas e sua condução sob uma perspectiva de classe, no entanto, chocava-se frontalmente com a concepção política estratégica perseguida pelas burocracias à frente dos diretórios acadêmicos e dos sindicatos de funcionários e professores. Essas direções minaram conscientemente essa perspectiva, romperam a potencial unidade dos estudantes com a classe trabalhadora e conduziram o movimento para as mesas de negociação com a reitoria e o governo estadual de forma segmentada.

Essa estratégia ficou demonstrada no ponto mais alto da greve. Em 20 de maio, dez mil estudantes, professores e funcionários das três universidades marcharam ao Palácio dos Bandeirantes, sede do governo de São Paulo, sob o lema “Fora Tarcísio”.

Durante o percurso do ato, os estudantes entoavam: “Trabalhador, olha para cá, eu estou na rua para o seu filho estudar” — um instinto político correto, que apontava para além dos limites em que suas direções os confinavam. A direção dos DCEs, no entanto, insistia em ser recebida no Palácio dos Bandeirantes para reabrir negociações com o governador. A deputada estadual Mônica Seixas, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), ciceroneou representantes dos DCEs para uma reunião com representantes do governo Tarcísio, deixando os milhares de estudantes em protesto esperando de braços cruzados.

Um fim fragmentado

O resultado do isolamento era previsível. Confinado ao perímetro da universidade, onde a “intransigência” da reitoria levou ao seu esvaziamento e esgotamento, o encerramento das greves de estudantes, funcionários e professores da USP, da UNESP e da UNICAMP ocorreu de forma fragmentada ao longo de junho: cada categoria saiu separadamente, cada universidade por conta própria e, no interior de cada universidade, curso a curso.

Os estudantes da USP encerraram sua greve em 9 de junho, numa votação apertada (323 a 255). Como o DCE já havia deixado a decisão do fim da greve a cargo de cada curso, muitos estudantes já haviam voltado às salas de aula. A direção do DCE descreveu esse processo sem reservas: os estudantes de Medicina saíram “porque conseguiram avançar bastante as pautas em relação ao HU [Hospital Universitário] e ao HC [Hospital das Clínicas]”, e os de Engenharia porque “conquistaram uma pauta histórica” — uma sala de estudos de 24 horas.

A orientação ao Estado burguês: o programa da direção do DCE

O DCE da USP é dirigido desde 2022 por uma aliança entre os stalinistas do Movimento Correnteza — juventude da Unidade Popular (UP) — e os morenistas do Juntos!, juventude do Movimento Esquerda Socialista (MES), corrente interna do PSOL, junto com o Rebeldia, juventude do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU). Foram essas organizações que conduziram a derrota da greve estudantil, e a política que aplicaram decorre de uma concepção programática definida.

O eixo central da perspectiva dessas organizações pseudoesquerdistas é sua orientação ao Estado nacional burguês, promovendo ilusões em que as demandas sociais dos estudantes e trabalhadores podem ser atendidas mediante pressão sobre reitores, governadores e assembleias legislativas. Sua expressão mais acabada é a promoção da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua “frente ampla”, à qual buscaram subordinar diretamente os estudantes.

Em uma publicação de 12 de junho anunciando o fim da greve no Instagram, o DCE da USP reconheceu que sua “carta de reivindicações” à reitoria “pode aparentar propostas para temas pontuais da universidade, mas se bem lido é possível perceber que na verdade é um programa que almeja a construção de um outro tipo de universidade”, “onde a juventude negra, indígena, trans, pobre e trabalhadora tenha direito não só de acessar a universidade mas que tenha condições de permanecer na universidade com dignidade.”

Entre os “temas pontuais” está a adoção pela USP de cotas para pessoas transgêneros e com deficiência, além de vestibular indígena. A mesma declaração enfatizou as táticas pseudorradicais da greve, com a “auto-organização democrática dos alunos retomando métodos históricos e legítimos do movimento estudantil, como a ocupação da reitoria da USP”.

O enquadramento que o DCE dá às suas demandas é a marca registrada da política identitária: ele fragmenta o que é uma questão de classe num dos países mais desiguais do mundo. A luta por uma educação superior gratuita e de qualidade deixa de ser uma luta pela transformação das condições que oprimem todos os estudantes trabalhadores e se torna uma pressão pela inclusão de grupos específicos dentro da universidade existente.

A centralidade das cotas nesse programa não é acidental. Nas últimas décadas, o movimento estudantil passou a defendê-las cada vez mais depois de praticamente abandonar demandas pela ampliação de vagas e pelo fim do vestibular — um mecanismo de seleção que reproduz e legitima a desigualdade de classe ao exigir anos de preparação custosa que apenas estudantes de famílias privilegiadas podem custear. As cotas aceitam o vestibular como estrutura permanente e apenas ajustam quem passa por ele, substituindo a questão do acesso universal à educação superior pública por disputas sobre a composição demográfica de uma elite universitária que continua sendo uma elite. Isso não é um programa de transformação social — é um programa de diversificação institucional dentro do capitalismo, que torna o movimento estudantil progressivamente mais desconectado da classe trabalhadora e mais integrado às preocupações da camada pequeno-burguesa que domina as universidades de elite.

Os “próximos passos” anunciados pelo DCE confirmam o mesmo terreno: “na USP seguiremos a luta avançando o questionamento contra essa estrutura antidemocrática na universidade, a partir da campanha Fora Aluísio, Diretas Já e por paridade nos conselhos centrais”. Da pressão por verbas à pressão por reformas na estrutura de poder da universidade, trata-se sempre do aperfeiçoamento de uma instituição do Estado capitalista, apresentado aos estudantes como horizonte estratégico de sua luta.

O desfecho lógico dessa orientação é eleitoral. A palavra de ordem “Fora Tarcísio”, avançada pela direção do DCE, significa, na ausência de uma orientação política independente da classe trabalhadora, o apoio ao candidato petista Fernando Haddad na eleição para o governo de São Paulo em outubro — a expressão, em âmbito estadual, da “frente ampla” do PT.

O Juntos! não faz campanha aberta por Haddad, buscando preservar uma imagem de maior radicalidade diante da juventude. Mas Mônica Seixas, do mesmo MES, que participou da reunião do DCE com o governo Tarcísio em 20 de maio, declarou a uma assembleia de professores de São Paulo: “Não há nada mais importante agora do que derrubar o Tarcísio e com ele derrubar o ataque sistemático à educação. Este é um ano de eleição, a gente tem que estar atento [...] a gente quer, para esta eleição, o comprometimento do nosso candidato Haddad com a retomada urgente da educação pública no estado de São Paulo”.

O verniz ideológico dessa subordinação à burguesia é o argumento da “frente antifascista”: diante da ameaça de Tarcísio — e de Flávio Bolsonaro na eleição presidencial —, toda a “esquerda” deveria se unir em torno de Haddad e Lula. O PSOL levou essa lógica à sua conclusão, decidindo em março apoiar Lula já no primeiro turno, sem lançar candidato próprio. Mas foi exatamente a implementação do programa de austeridade capitalista pelo governo Lula que abriu caminho para o fortalecimento dos fascistas. Apoiar Lula e Haddad não é uma resposta ao fascismo; é uma das condições que o reproduzem.

A falsa oposição de “esquerda” à direção do DCE

A alegada oposição a essa direção, apesar de se apresentar com maior radicalidade, possui a mesma orientação de classe e não é menos responsável pela trajetória que a greve assumiu. O grupo mais representativo nesse sentido é a Faísca Revolucionária, juventude do Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT), seção brasileira da Corrente Revolução Permanente (CRP).

A Faísca limitou sua crítica à direção do DCE a termos táticos: o adiamento e a demora na convocação de assembleias gerais, métodos antidemocráticos na sua condução, o esvaziamento do comando de greve, a fragmentação da luta nos cursos. Uma oposição que permanece dentro desses limites, sem questionar as premissas programáticas da direção, representa uma disputa de fração dentro do campo político comum da pseudoesquerda.

Isso se verifica em cada uma de suas propostas “mais radicais”. Em sua declaração de balanço publicada no Esquerda Diário, intitulada “Lições de mais de 50 dias de greve na USP: contra a intransigência da reitoria, era preciso a força da luta unificada e organizada pela base”, a Faísca se contrapôs à campanha do DCE por “Diretas Já” para reitor avançando uma “Assembleia Constituinte Livre e Soberana” — que seria “capaz de varrer o estatuto ditatorial, dar fim ao cargo de reitor e dissolver o conselho universitário, garantindo que estudantes, funcionários e docentes, proporcionalmente ao seu peso real na universidade, possam decidir os rumos da USP, do orçamento, da educação, da pesquisa, colocando ela a serviço de toda a classe trabalhadora e população pobre”.

A proposta é apenas uma alternativa mais radical à demanda do DCE. Tal assembleia é, na essência, uma demanda de democratização interna de uma instituição do Estado capitalista. Ela permanece inteiramente dentro dos muros da universidade, sem questionar a relação entre a universidade e o Estado que a financia e controla. O marxismo parte de uma premissa oposta: o Estado capitalista — e suas instituições, incluindo a universidade pública — é um instrumento de dominação de classe que não pode ser simplesmente democratizado, reorganizado ou “colocado a serviço da classe trabalhadora” pela vontade de uma assembleia interna. A transformação das estruturas internas de uma universidade como a USP pressupõe a conquista do poder político pela classe trabalhadora. Os estudantes e funcionários que abraçassem essas demandas teriam pela frente um horizonte indefinido de assembleias, processos constituintes e reorganizações internas. Esse é o beco sem saída para o qual o radicalismo formal de organizações como a Faísca conduz.

Na mesma declaração, a Faísca saudou o movimento por retomar “métodos históricos do movimento estudantil como a ocupação da reitoria [...] mas que foi incapaz, pela estratégia da direção do DCE e das burocracias em São Paulo, de romper a intransigência da reitoria [...] e conquistar as principais demandas da greve.” Criticando a direção do DCE pela ausência de auto-organização e pelo boicote ao comando de greve, ela defendeu “um comando de greve real e vivo — como o comando de greve dos trabalhadores, impulsionado pelo SINTUSP —, no qual centenas de delegados eleitos pela base pudessem pensar cotidianamente a situação dos cursos, mantendo o movimento coeso e unificado”.

O fato de a Faísca apresentar o SINTUSP como referência revela muito sobre sua orientação política. O sindicato é composto por muitas das mesmas organizações de pseudoesquerda que atuam no movimento estudantil, dirigido por suas alas mais radicais — entre elas o Nossa Classe, braço sindical do próprio MRT — e filiado à Central Sindical e Popular Conlutas (CSP-Conlutas), controlada pelo PSTU. Não menos que a própria Central Única dos Trabalhadores (CUT) em suas origens, a CSP-Conlutas foi construída precisamente para canalizar a combatividade dos trabalhadores para dentro dos limites aceitáveis ao regime burguês. Diferente daquilo que se proclama, a CSP-Conlutas não é uma central “independente” — é uma burocracia sindical integrada ao Estado capitalista brasileiro, orientada ao nacionalismo e crescentemente incorporada ao esforço de guerra do imperialismo americano e europeu. A CSP-Conlutas vem apoiando ativamente as guerras imperialistas dos EUA-OTAN contra a Rússia na Ucrânia, na Síria e em outras partes do mundo.

Propor o comando do SINTUSP como modelo para o movimento estudantil não significa orientar os estudantes à classe trabalhadora, mas reafirmar a estrutura sindical burocrática integrada ao aparato político da pseudoesquerda — o mesmo campo que a Faísca diz criticar. E isso após a experiência imediata da greve dos funcionários da USP ter demonstrado que o “comando de greve” e outras formas organizativas articuladas pelo SINTUSP não ampliaram em nada as perspectivas do movimento espontâneo dos trabalhadores.

A mesma lógica se aplica à sua proposta para “unificação” das diferentes lutas no estado de São Paulo. A Faísca defendeu uma “assembleia estadual de todas as categorias em luta, que tirasse medidas comuns para construção das greves e para traçar os rumos da mobilização”. Tal como a Faísca a propõe, essa assembleia significa um órgão de pressão sobre governos e reitores, organizado pelas mesmas burocracias sindicais e estudantis subordinadas ao Estado burguês, com o MRT e as diferentes direções pseudoesquerdistas sentados à mesma mesa.

Aqui está o maior perigo da política da Faísca: ela usa um vocabulário revolucionário — “auto-organização”, “delegados eleitos pela base”, “comando real e vivo” — sem o conteúdo político que tornaria essas formas genuinamente independentes. Comitês de base eleitos pelos trabalhadores e estudantes são uma necessidade real. Mas há uma diferença fundamental entre comitês de base construídos contra e independentemente das burocracias sindicais, com uma perspectiva socialista internacionalista, e comitês construídos sem qualquer ruptura com a estrutura sindical burocrática e o campo político reacionário da pseudoesquerda.

As raízes históricas das direções pseudoesquerdistas do movimento estudantil

Da direção do DCE à sua alegada oposição, as tendências que dominaram a greve estudantil da USP são produtos de um mesmo processo histórico: a podridão das organizações que dominam há décadas o campo identificado como a “esquerda” e o próprio movimento estudantil brasileiro. As diferentes frações dentro desse campo político — o próprio PT, o stalinismo e os renegados pablistas do trotskismo — promoveram uma mesma orientação ao nacionalismo e à colaboração de classes. O retorno ostensivo do stalinismo à frente do movimento estudantil, após mais de meio século de ostracismo político, é o produto mais recente dessa história — e sua explicação exige retomá-la desde as origens.

Até a ditadura militar de 1964-85, o stalinista Partido Comunista Brasileiro (PCB) fora a principal força política no movimento estudantil, controlando a União Nacional dos Estudantes (UNE). Pregando uma estratégia etapista de unidade com a burguesia nacional para a realização de uma primeira etapa “democrática burguesa” da revolução no Brasil, o PCB desarmou os trabalhadores brasileiros diante da conspiração militar apoiada pela CIA.

O golpe de 1964 desmoralizou profundamente a direção stalinista, provocando rupturas e fortalecendo tendências políticas que abraçaram o guerrilheirismo de inspiração castrista e maoísta. O PCdoB maoísta — que passou a controlar a direção da UNE, posição que mantém até hoje — foi a mais proeminente dessas forças que, apesar da adoção de métodos radicais, preservaram a estratégia nacionalista burguesa do stalinismo. Aventuras guerrilheiras, como a Guerrilha do Araguaia organizada pelo PCdoB, conduziram uma geração corajosa de jovens revolucionários a confrontos armados isolados que levaram a massacres e à intensificação da repressão estatal.

A responsabilidade por essas catástrofes políticas é partilhada pelas forças pablistas reunidas no Secretariado Unificado, que promoveram o castrismo e o nacionalismo pequeno-burguês como alternativas à construção da Quarta Internacional e a seu programa baseado no internacionalismo e na luta pela independência política da classe trabalhadora. Essas tendências pablistas — mandelistas, morenistas, lambertistas — cresceram fortemente no movimento estudantil brasileiro nos anos 1960 e 1970, explorando o legado revolucionário de Trotsky e da Quarta Internacional para promoverem, na prática, uma política de adaptação nacional-oportunista.

O bloqueio dos pablistas à construção de uma direção genuinamente trotskista no Brasil foi instrumental para impedir que a crise do regime militar tivesse um desfecho revolucionário. Com uma onda de radicalização política no final dos anos 1970, a Liberdade e Luta (Libelu) — tendência estudantil da Organização Socialista Internacionalista (OSI), afiliada à corrente internacional do revisionista francês Pierre Lambert — ganhou enorme projeção nas universidades, especialmente na USP, tendo protagonizado a convocação das primeiras passeatas com o lema “Abaixo a Ditadura”. Ao lado dos morenistas da Convergência Socialista, a Libelu/OSI utilizou as forças reunidas dentro do movimento estudantil para desviar o movimento de greves semi-insurrecionais da classe operária no ABC paulista em 1978-80 para a construção do PT e para a transição a um regime civil burguês.

Nas décadas seguintes, de estabilização do regime burguês, o PT e seus satélites como o PCdoB mantiveram a dominação sobre o movimento sindical e estudantil brasileiro. A chegada de Lula à presidência do Brasil em 2003, quando esses partidos políticos passam a assumir a administração direta do capitalismo brasileiro, marca um esgotamento do ciclo anterior. Forças como o PSOL, criado em 2004 como um racha do PT, e o PSTU assumem protagonismo no DCE da USP e em outros setores estudantis como “oposição de esquerda” ao governo. Todo o meio político da pseudoesquerda foi fortemente abalado pela crise que acometeu o regime burguês brasileiro, que teve como ponto de inflexão o impeachment da presidente petista Dilma Rousseff em 2016. Enquanto o PSTU forneceu cobertura de esquerda à derrubada do governo do PT com o slogan “Fora Todos”, o PSOL percorreu o caminho oposto, integrando-se quase totalmente ao PT. A crise dessas organizações deu espaço à reconquista do DCE da USP pelo PT e o PCdoB em 2017, às vésperas da vitória eleitoral do presidente fascista Jair Bolsonaro.

O retorno do PT ao governo com a eleição da “frente ampla” de Lula em 2022, longe de significar um novo sopro de vida à democracia burguesa no Brasil, aprofundou a crise que o antecedeu. Intensificaram-se radicalmente a crise do sistema capitalista e a guerra imperialista mundial, refletidas internamente na agudização das contradições sociais e na guinada do sistema político burguês ao fascismo. O amadurecimento de condições objetivamente revolucionárias na sociedade brasileira e mundial está em contradição direta com as perspectivas nacional-reformistas falidas do PT e da pseudoesquerda.

A radicalização política que começa a tomar forma entre camadas amplas da população, particularmente entre a juventude, se refletiu distorcidamente no movimento estudantil no crescimento de forças que se apresentam falsamente como uma “renovação” e que fazem referências mais explícitas ao “comunismo”, isto é, à mudança do sistema social estabelecido. Em 2022, o Correnteza, braço de juventude da Unidade Popular (UP), foi eleito ao DCE da USP.

A UP, registrada como partido em 2019, é uma nova fachada político-eleitoral do Partido Comunista Revolucionário (PCR), fundado em 1966, no Recife, por uma cisão do PCdoB. Alinhado à corrente antirrevisionista associada a Enver Hoxha, que defendeu os crimes monstruosos do stalinismo contra a revolução mundial em oposição ao “revisionismo” pós-discurso de Kruschev, o PCR reivindica Stalin de modo explícito. Seu site oficial o mantém entre as referências teóricas, descrito como quem “construiu o socialismo na Rússia pós-czarista”, o que significa reivindicar o extermínio da Oposição de Esquerda, os Processos de Moscou e o assassinato de Trotsky. A UP, sua face mais pública e politicamente palatável, faz referência à Unidade Popular de Salvador Allende — a coalizão de frente popular entre o stalinismo e a social-democracia no Chile que subordinou as massas revolucionárias ao Estado burguês e preparou as condições para o golpe fascista de Pinochet em 1973. A trajetória política podre do PCR inclui fusões e alianças políticas com uma série de partidos burgueses reacionários, incluindo sua entrada no Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) em 1995, e coligações recentes com o PT, PSB e PDT, e apoio à “frente ampla” de Lula no segundo turno de 2022.

O Correnteza ascendeu na USP concentrando sua atuação em demandas particulares do cotidiano universitário — condições dos bandejões, moradia estudantil, permanência —, aproximando estudantes refratários ao PT, PSOL e PSTU. Sua perspectiva política reacionária foi definida com precisão involuntária por Dany de Oliveira, principal dirigente do Correnteza na USP e pré-candidata a deputada federal pela Unidade Popular: “Nós precisamos construir o socialismo. Mas, por agora, qual é a saída que nós podemos construir? Nós precisamos de mais orçamento para as universidades.”

A chegada de uma organização abertamente stalinista, em aliança com o morenismo, à direção do DCE da USP não é um sinal de vitalidade política do stalinismo e de seu programa nacionalista. É o produto da decadência e da desmoralização política das forças pablistas e morenistas que impulsionaram o PT e, depois, o PSTU e PSOL, tendo exposto sua bancarrota diante de sucessivas experiências da classe trabalhadora e da juventude. É precisamente essa falência generalizada que coloca diante dos estudantes a necessidade de uma alternativa fundada em outros princípios.

Construir a JEIIS no Brasil!

Esse balanço adquire toda a sua gravidade no quadro político em que a greve se desenvolveu. O movimento estudantil se chocou diretamente contra a guinada fascistizante do regime político brasileiro — a repressão policial, a criminalização, a legislação punitiva de Tarcísio e da extrema direita parlamentar —, que remonta à tentativa de golpe de Jair Bolsonaro e à crise não resolvida que ela expressou.

A menos de três meses das eleições presidenciais de outubro, as primeiras desde a tentativa de golpe de 2022-23, o Brasil encontra-se sob intervenção direta do imperialismo norte-americano, com o governo Trump escalando tarifas e ameaças de ação extraterritorial voltadas abertamente para instalar Flávio Bolsonaro. Esse quadro é um veredito sobre a estratégia da “frente ampla” aplicada pelo PT e pela pseudoesquerda nos últimos quatro anos: ela não enterrou o fascismo; ao implementar o programa de austeridade capitalista contra a classe trabalhadora, apenas abriu caminho para que as forças ligadas a Bolsonaro levem adiante sua conspiração. As direções que confinaram os estudantes à pressão sobre esse mesmo Estado os desarmaram, portanto, duplamente: diante da reitoria e diante da reação fascista que avança através dela.

O que se coloca diante dos estudantes não é a necessidade de uma correção tática do movimento estudantil, mas de um programa fundado sobre princípios inteiramente diferentes. Esse programa é defendido pela Juventude e Estudantes Internacionais pela Igualdade Social (JEIIS), organização de juventude do Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI).

O ponto de partida da JEIIS é o internacionalismo. A classe trabalhadora é uma classe mundial, e a crise que produziu as greves nas universidades paulistas — a subordinação da educação às exigências do mercado, o desmantelamento dos serviços públicos, a militarização — é a mesma crise que lançou às ruas, neste mesmo ano, estudantes da América Latina e do mundo inteiro. Não há solução nacional para uma crise mundial. Toda perspectiva que subordine os estudantes e trabalhadores brasileiros à defesa do “desenvolvimento nacional” ou de uma fração supostamente progressista da burguesia conduz à derrota, e a história do século XX na América Latina não registra uma única exceção.

O capitalismo não é reformável, e as instituições do Estado burguês — reitorias, conselhos universitários, assembleias legislativas — não podem ser convertidas em instrumentos dos oprimidos por meio de pressão ou de processos constituintes internos. A JEIIS luta pela reorganização socialista da sociedade: a transferência dos recursos produtivos e financeiros ao controle democrático da classe trabalhadora, sob planejamento voltado às necessidades sociais. É desse programa — e não de cálculos sobre o que a reitoria estaria disposta a conceder — que decorre a exigência de uma educação superior pública, gratuita e universalmente acessível.

A JEIIS orienta os estudantes e jovens à classe trabalhadora, a única força revolucionária da sociedade, e luta pela independência política dessa classe frente a todos os partidos e frações da burguesia. A classe trabalhadora não é uma força a ser invocada em atos de solidariedade: é a força social cuja posição na produção lhe confere o poder de reorganizar a sociedade sobre uma base socialista racional. A unidade da classe trabalhadora é a condição necessária para todo confronto sério com o capitalismo. Por isso, a JEIIS rejeita a política identitária reacionária da pseudoesquerda, que fragmenta a classe trabalhadora segundo raça e gênero, servindo aos interesses da classe média afluente que disputa posições dentro da ordem existente.

Essa independência política se exerce, na prática, contra as burocracias sindicais e estudantis. Não existe caminho para a unificação das lutas através da CUT, da CSP-Conlutas, dos DCEs controlados pela pseudoesquerda ou de assembleias organizadas por esses mesmos aparatos. A JEIIS impulsiona o desenvolvimento de um movimento de massas da classe trabalhadora apoiando os trabalhadores na construção de comitês de base, genuinamente independentes dessas estruturas burocráticas, vinculados internacionalmente à Aliança Operária Internacional de Comitês de Base (AOI-CB).

É nesse marco que se define o papel dos estudantes. Eles constituem uma camada social que não está inserida na produção capitalista, e sua composição social heterogênea significa que não podem transformar a sociedade sozinhos. Mas dispõem de uma capacidade de expressão política que a classe trabalhadora, submetida à exploração cotidiana, em geral não tem, e podem cumprir um papel político crucial — na medida em que se orientem para a classe trabalhadora, e não em torno de uma “auto-organização estudantil” convertida em fim em si mesma. A greve evidenciou essa capacidade; o que faltou foi a orientação consciente, que as direções bloquearam sistematicamente.

A crise explosiva do capitalismo imperialista mundial e da ordem burguesa subordinada no Brasil engendra, necessariamente, gigantescas batalhas de classe no próximo período. As greves nas universidades paulistas despertaram politicamente uma geração de estudantes. Construir a JEIIS nos campi significa preparar essa geração para as necessidades revolucionárias da época. A alternativa diante dos estudantes é a mesma que se coloca diante de toda a sociedade: a barbárie do fascismo e da guerra, ou a reorganização socialista do mundo pela classe trabalhadora. Assimilar as lições desta experiência e construir a JEIIS é a forma concreta que essa escolha assume, hoje, nas universidades brasileiras.

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