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Greves em universidades e escolas sacodem São Paulo às vésperas de eleições explosivas no Brasil

São Paulo foi sacudida por uma onda de greves e protestos na educação nos últimos dias, com dezenas de milhares de trabalhadores e jovens tomando as ruas da cidade em praticamente todos os dias desta semana. Na segunda-feira, cerca de 2.500 estudantes das três universidades estaduais paulistas — USP, Unicamp e Unesp — marcharam unificados pelo centro da cidade, interditando a Avenida da Consolação. Os estudantes voltaram às ruas na terça-feira, na Avenida Paulista. Na quarta-feira, professores e servidores da educação municipal pública realizaram um ato em frente à Prefeitura de São Paulo, marcando seu 16º dia de greve. Voltaram a protestar na sexta-feira, após a Câmara Municipal sancionar o projeto de rebaixamento salarial contra o qual lutam — o que, longe de extinguir o movimento, acirrou-o ainda mais.

Manifestação estudantil na Avenida Paulista, em São Paulo, em 12 de maio. [Photo: @DCE da USP]

Esses atos não são episódios desconectados. Eles compõem o quadro vivo de uma irrupção da luta de classes em São Paulo — que se desenvolve em paralelo a mobilizações de mesma natureza em toda a América Latina e se inscreve numa onda internacional de greves e protestos. Seu significado político é evidenciado no contexto da crise do regime burguês brasileiro às vésperas das primeiras eleições presidenciais desde a tentativa de golpe fascista de 8 de janeiro de 2023.

A desocupação violenta e a expansão da greve

A greve na USP completou um mês na quinta-feira. Iniciada em 14 de abril pelos funcionários técnicos e administrativos sob direção do Sintusp, rapidamente recebeu adesão dos estudantes, cuja reivindicação central é elevar as bolsas do PAPFE ao salário mínimo paulista de 1.874 reais. O contraste com a situação atual é gritante: o auxílio paga atualmente 885 reais aos estudantes em situação de vulnerabilidade fora da moradia estudantil e apenas 330 reais para os residentes. Após semanas de impasse com a Reitoria, os estudantes ocuparam o prédio central da administração em 7 de maio.

A resposta do Estado veio na madrugada de 10 de maio. Por volta das 4h15, a Polícia Militar invadiu o prédio sem aviso prévio e sem mandado judicial. A Secretaria de Segurança Pública descreveu a operação como uso de “fator surpresa” e “força moderada”. Os vídeos divulgados pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE) mostram outro quadro: policiais enfileirados dentro do prédio, obrigando estudantes a atravessar um corredor de cassetetes — o que a própria SSP chamou de “corredor polonês” —, com uso de bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo. O DCE reportou dezenas de feridos e quatro detidos. A própria administração da USP declarou que não havia acionado a polícia e que não foi informada da operação com antecedência. O governo do estado respondeu que havia “flagrante delito” e que a operação terminou “sem feridos” — afirmação diretamente desmentida pelas imagens.

A violência da madrugada ampliou a revolta em vez de contê-la. Nos dias seguintes, estudantes da Unicamp e da Unesp — as duas outras grandes universidades públicas do estado de São Paulo que, ao lado da USP, ocupam as três primeiras posições nos rankings universitários da América do Sul — formalizaram sua adesão à greve. Ao menos 20 cursos e os servidores técnico-administrativos da Unicamp aderiram à paralisação, e estudantes de seis campi da Unesp suspenderam cerca de 30% das atividades.

Um próximo ato foi convocado para 20 de maio: uma manifestação conjunta dos estudantes das três universidades estaduais, dos professores municipais em greve e dos metroviários. A marcha se dirigirá à sede do governo Tarcísio de Freitas, sob o lema “Fora Tarcísio! Em defesa da educação, do serviço público, contra as privatizações”.

A reação do governador fascistoide e da bancada de extrema-direita na Assembleia Legislativa expõe o caráter político da ofensiva em curso. Tarcísio declarou publicamente que a greve “não entra na minha cabeça”, atacando seu “cunho político”. “Os alunos têm que estudar, têm que fazer o melhor”, disse o governador, reduzindo a educação pública à produção de mão de obra para o mercado.

O deputado Guto Zacharias protocolou o PL 439/2026, que prevê a expulsão de estudantes envolvidos em greves e a proibição de matrícula em qualquer universidade estadual paulista por 15 anos. Para professores, reitores e gestores que “apoiarem, permitirem ou se omitirem” diante de paralisações, o projeto estabelece demissão e vedação de dez anos a concursos públicos. Trata-se de um ataque sem precedentes aos direitos democráticos dentro e fora dos campi.

Enquanto isso, os vereadores do União Brasil Rubinho Nunes e Adrilles Jorge marcharam pessoalmente até o ato estudantil de 11 de maio para confrontar os manifestantes — ação que precedeu uma intervenção da PM, minutos depois, com gás de pimenta e bombas de gás lacrimogêneo.

Repressão policial sem mandado. Discurso de criminalização. Legislação punitiva. Esse pacote não é uma resposta improvisada a uma greve universitária. É a expressão da guinada fascistizante do regime político brasileiro — que encontra no governo Tarcísio uma linha de frente mais ousada no estado mais rico e industrializado do país.

O contexto internacional das lutas em São Paulo

O que se passa em São Paulo é parte de um desenvolvimento internacional mais amplo. Na mesma semana em que estudantes e professores tomavam as ruas da maior cidade do Brasil, mobilizações de mesma natureza irrompiam em diversos países da América Latina.

Na Argentina, a Quarta Marcha Federal Universitária levou 1,5 milhão de pessoas às ruas em mais de 60 cidades no dia 12 de maio, sob o lema “Milei, cumpra a lei” — em referência à Lei de Financiamento Universitário aprovada pelo Congresso e suspensa por decreto presidencial. O estopim imediato foi a publicação, na véspera, de novos cortes orçamentários em educação e saúde. Setenta por cento dos salários de docentes e funcionários universitários encontram-se abaixo da linha de pobreza.

Na Venezuela, a Associação de Professores da Universidade Central convocou uma paralisação nacional de 24 horas para 19 de maio, após o regime de Delcy Rodriguez rejeitar as demandas salariais do setor. Na Bolívia, o Magistério Urbano realizou greve nacional em 11 de maio e o Magistério Rural bloqueou rodovias por 48 horas, exigindo a renúncia da ministra da Educação.

A simultaneidade dessas mobilizações não é uma coincidência. Como reforçou David North em seu discurso de abertura do Ato Internacional do Primeiro de Maio do CIQI, realizado há duas semanas, a segunda metade desta década é “cada vez mais caracterizada pela erupção da tendência contrária, de luta social em escala internacional”. O que emerge em São Paulo e em toda a América Latina é parte direta desse movimento.

A crise do regime burguês brasileiro e as eleições de outubro

Essas mobilizações se desenvolvem a menos de seis meses das eleições presidenciais de outubro — as mais carregadas de tensão desde o fim da ditadura militar. As primeiras eleições desde a tentativa de golpe de Jair Bolsonaro e sua camarilha militar fascista também ocorrem sob intervenção direta do imperialismo norte-americano. O governo Trump impôs tarifas e ataques diplomáticos sistemáticos ao Brasil, pressionando abertamente pelo fim do julgamento de Bolsonaro. Flávio Bolsonaro, candidato fantoche de seu pai preso, encontra-se tecnicamente empatado com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas pesquisas do segundo turno.

Esse quadro é um veredito sobre a estratégia que o Partido dos Trabalhadores (PT) e a pseudoesquerda aplicaram nos últimos quatro anos. O governo Lula não reverteu a ofensiva contra a classe trabalhadora — aprofundou-a. O “novo marco fiscal” cortou gastos sociais a níveis inferiores aos dos governos Temer e Bolsonaro em seus primeiros anos. O Plano Safra 2025/2026 destinou 500 bilhões de reais ao agronegócio — mais do que os orçamentos combinados de educação e saúde. O pagamento da dívida pública superou um trilhão de reais no ano passado, sustentado por algumas das maiores taxas de juros reais do mundo.

O resultado é que 59% dos brasileiros dizem que Lula “não merece continuar por mais quatro anos”, segundo pesquisa Quaest de março. Um deputado do PT ligado ao MST resumiu a situação diretamente em reunião com o governo: “O povo está bravo com nós mesmos. Nós somos vaiados quando vamos falar”.

A pseudoesquerda responde a esse colapso não com uma ruptura com o PT, mas com uma integração ainda mais profunda: o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) decidiu em março apoiar Lula já no primeiro turno, sem lançar candidato próprio.

A “frente ampla” do PT e da pseudoesquerda com o establishment burguês não enterrou o fascismo. Ao implementar o programa de austeridade capitalista contra a classe trabalhadora, apenas abriu caminho para que os fascistas ligados a Bolsonaro levem adiante sua conspiração golpista.

Voltar o movimento estudantil para a classe trabalhadora e a luta pela direção revolucionária!

É nesse contexto que o ascenso do movimento estudantil em São Paulo deve ser compreendido. Em 1930, analisando a irrupção de protestos estudantis na Espanha, Leon Trotsky escreveu:

Quando a burguesia se recusa consciente e obstinadamente a resolver os problemas que decorrem da crise da sociedade burguesa, e quando o proletariado ainda não está pronto para assumir essa tarefa, são frequentemente os estudantes que avançam... Tal atividade estudantil revolucionária ou semirrevolucionária significa que a sociedade burguesa está atravessando uma crise profunda.

A juventude pequeno-burguesa, sentindo que uma força explosiva está se acumulando entre as massas, tenta à sua própria maneira encontrar uma saída do impasse e empurrar os desenvolvimentos políticos para frente.

A burguesia olha para o movimento estudantil com meia aprovação, meio alerta: se os jovens desferirem alguns golpes contra a burocracia monárquica, tudo bem, desde que os “garotos” não vão longe demais e não despertem as massas trabalhadoras. Ao apoiar o movimento estudantil, os trabalhadores espanhóis demonstraram um instinto revolucionário inteiramente correto.

Essa análise oferece a chave adequada para compreender os acontecimentos no Brasil em maio de 2026. É verdade que a composição social dos estudantes foi significativamente diversificada nos últimos anos. Mas a agitação em universidades como USP, Unesp e Unicamp — as maiores universidades da América Latina, celeiro histórico da elite política e intelectual do país — tem antes de tudo um sentido sintomático. Ela antecipa, na consciência da juventude universitária, uma explosão mais profunda em preparação no seio da classe trabalhadora brasileira.

É precisamente por isso que a pseudoesquerda brasileira dedica tamanha atenção ao movimento estudantil.

O PSOL, os stalinistas da Unidade Popular (UP) e do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), e as diferentes tendências morenistas à frente do movimento estudantil estão todos engajados, neste exato momento, na construção da campanha de reeleição de Lula ou funcionando como suas linhas auxiliares.

A pseudoesquerda atua sistematicamente para desviar o movimento estudantil em direção a reivindicações locais e específicas, mantendo-o cuidadosamente afastado das questões políticas decisivas. Mais fundamentalmente, ela vê esse movimento como o principal terreno para cultivar uma camada de jovens “radicais” vinculados às suas perspectivas políticas nacionalistas e oportunistas falidas. Não é acidental que figuras de destaque do PSOL, como a deputada federal Sâmia Bomfim — ela própria formada politicamente no movimento estudantil da USP —, discursem nos atos estudantis.

Para a pseudoesquerda, a importância do movimento estudantil reside na forma como ele pode ser utilizado para desviar uma explosão mais ampla da classe trabalhadora que está na agenda, formando os quadros políticos que vão semear ilusões na possibilidade de reforma do capitalismo e que vão impulsionar as novas “frentes amplas” com a burguesia.

Esse papel tem um precedente histórico crucial no Brasil, na onda de radicalização estudantil do fim dos anos 1970 que antecedeu diretamente as greves industriais no ABC paulista. Na escola do revisionismo pablista, especialmente em suas variantes lambertista e morenista, foi formada uma geração de dirigentes oportunistas pequeno-burgueses. Eles impulsionaram a burocracia sindical liderada por Lula para construir o PT, que serviu como principal instrumento de contenção da luta revolucionária da classe trabalhadora brasileira nas décadas seguintes.

A greve atual ressurge após um ciclo que inclui as greves de 2007 e 2009 na USP e a repressão de 2011 sob o governo de Geraldo Alckmin — o mesmo Alckmin que hoje ocupa a vice-presidência no governo Lula. O homem que enviou a tropa de choque contra os estudantes da USP integra agora o governo que se apresenta como bastião democrático contra o fascismo.

Em 2007, durante o ciclo anterior de greves universitárias em São Paulo, a Juventude e Estudantes Internacionais pela Igualdade Socialista (JEIIS) dirigiu aos estudantes da USP uma declaração que mantém validade integral: “Apesar da JEIIS serem uma organização estudantil, o seu objetivo não é somente construir um movimento de estudantes. Ela luta para que os estudantes se dirijam à classe trabalhadora como um todo – a vasta maioria da população mundial e a única força social cujos interesses se opõem de maneira irreconciliável ao sistema de lucro e ao imperialismo – na luta pelo renascimento de um movimento socialista internacional”.

Essa orientação é mais urgente do que nunca. Os estudantes que hoje enfrentam os cassetetes da PM na Reitoria da USP e se preparam para marchar ao Palácio dos Bandeirantes devem orientar-se conscientemente para a classe trabalhadora e lutar por sua mobilização como força política independente, armada de um programa revolucionário internacionalista.

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