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Perspectivas

Mamdani recebe Trump na Gracie Mansion: a aliança dos DSA com o presidente fascista

Publicado originalmente em inglês em 22 de setembro de 2026. Antes de o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, se encontrar com Trump em 21 de setembro, ele se reuniu com o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT). “Foi uma honra mostrar como ele foi uma inspiração para muitos de nós para defender os trabalhadores”, declarou Mamdani. Um assessor de Lula descreveu o encontro como “um diálogo de pai para filho”. No final da tarde, Lula também se encontrou com o senador Bernie Sanders, que na semana anterior tinha dividido o palco da “Assembleia Pró-Humana”, em Washington, com o ideólogo fascista Steve Bannon. O artigo a seguir expõe o que de fato significa a “oposição” de Mamdani e dos Socialistas Democráticos da América (DSA) a Trump — e, por extensão, o que representam Lula, Sanders e toda a pseudoesquerda internacional: gestores da crise do capitalismo que, sob a alegação de “defenderem os trabalhadores”, pavimentam o caminho para a extrema direita.

O presidente Donald Trump e o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, falam com a imprensa após a reunião realizada na Gracie Mansion, em Nova York, em 21 de setembro de 2026. [Photo: C-SPAN]

Na tarde de segunda-feira, o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, a mais proeminente figura eleita dos Socialistas Democráticos da América (DSA), recebeu Donald Trump na Gracie Mansion, residência oficial do prefeito. Após uma hora de reunião a portas fechadas, os dois saíram juntos e se dirigiram a um púlpito no gramado.

O que se seguiu foi um espetáculo repugnante, com o prefeito “socialista” servindo de anfitrião e de escada para o presidente fascista.

Este foi o terceiro encontro de Mamdani com Trump em dez meses, após dois encontros na Casa Branca. A regularidade dessas reuniões, somada ao que o próprio Mamdani reconhece ser uma conversa contínua com Trump, “pessoalmente” e “por telefone”, deixa claro que se trata de uma orientação e de um programa definidos. Os DSA, na pessoa de sua principal autoridade eleita, formou uma aliança política com Trump.

O encontro ocorreu num momento em que Trump registra seu menor índice de aprovação – 36%, segundo a mais recente pesquisa da NBC News, o menor índice de seu segundo mandato. Em poucas cidades Trump é tão odiado quanto em Nova York, onde não consegue participar de eventos públicos sem ser vaiado. Em vez de denunciar Trump, muito menos de conclamar à oposição contra ele, Mamdani lhe confere legitimidade. Em troca, Trump lhe oferece algumas migalhas.

Mamdani está fazendo o trabalho sujo da classe dominante. Ele tenta construir uma nova imagem para o criminoso de guerra fascista Trump, cujo governo se dedica a tirar dos trabalhadores para dar aos oligarcas, apresentando-o como um defensor do “affordability” (redução do custo de vida). Com isso, busca também jogar o próprio “socialismo” na lama.

O prefeito abriu sua fala dizendo que, sempre que ele e o presidente conversam, “é sobre os mesmos temas: como melhorar a vida dos nova-iorquinos e como usar o poder do governo para enfrentar a crise do custo de vida...”.

Que coisa mais absurda. O homem ao lado dele lançou uma guerra criminosa contra o Irã que fez os preços da gasolina subirem 27% em um ano. A lei orçamentária de Trump retirou dezenas de milhares de moradores da cidade do programa SNAP [programa federal de assistência alimentar]. A mesma lei retira a cobertura do Medicaid de cerca de 1,5 milhão de pessoas no estado de Nova York, apenas uma frente do ataque mais amplo de um governo dos oligarcas, pelos oligarcas e para os oligarcas contra os programas sociais.

Questionado sobre quais “resultados concretos” sua relação com Trump havia produzido, Mamdani só conseguiu apontar um acordo para “estabelecer um novo nível de diálogo” entre a prefeitura e a Casa Branca sobre a construção de empreendimentos sobre o Sunnyside Yard, no Queens. Ele elogiou Trump como “alguém que construiu bastante moradia aqui em nossa cidade”, uma referência polida às fraudes imobiliárias e às operações criminosas nas quais Trump se especializou antes de entrar na política.

O projeto, assim como toda a “agenda do custo de vida” de Mamdani, está subordinado aos interesses das incorporadoras imobiliárias (uma manchete da The Economist na semana passada dizia: “Incorporadoras estão aprendendo a amar Zohran Mamdani”). Nesse sentido, o prefeito dos DSA e o vigarista do mercado imobiliário falam a mesma língua.

Mais significativo, porém, foi o que Mamdani não disse. Seu último encontro com Trump, em 26 de fevereiro, ocorreu dois dias antes de os Estados Unidos iniciarem sua guerra contra o Irã. A reunião de segunda-feira aconteceu na véspera do discurso de Trump na Assembleia Geral da ONU, que será uma ocasião para ameaçar o mundo com a guerra. No domingo, ele disse à Fox News que está decidindo entre “acabar com o Irã”, deixá-lo “definhar economicamente” ou fazer um acordo, e perguntou: “Se e quando eu destruo toda a nação?”

No púlpito, Trump voltou ao assunto sem que ninguém o tivesse questionado. O Irã “não vai ter uma arma nuclear”, disse ele. “Eles estão indo muito mal. Na verdade, tenho reuniões sobre isso hoje.” Ou seja, Trump anunciou na própria residência do prefeito que estava planejando a próxima etapa da guerra. Em seguida, lançou um longo e furioso ataque contra a imprensa, chamando de “fake news” as reportagens sobre o Irã e declarando que “a imprensa também tem a obrigação” de não criticá-lo porque ele “venceu por uma margem esmagadora”.

Mamdani, a poucos metros de distância, permaneceu devidamente calado.

Trump também está se preparando nesta semana para impor sanções contra o Tribunal Penal Internacional, com o objetivo de forçá-lo a retirar o mandado de prisão contra Benjamin Netanyahu. Isso ocorre poucos dias depois de uma missão investigativa da ONU apontar “motivos razoáveis para acreditar” que os próprios Estados Unidos cometeram um crime de guerra no primeiro dia da guerra contra o Irã. Nenhuma menção ao TPI ou a Netanyahu foi feita durante o encontro na Gracie Mansion.

O próprio Netanyahu fará um discurso na ONU na quinta-feira, e estão previstos protestos em massa. Quando era candidato a prefeito, Mamdani prometeu prendê-lo. Na semana passada, disse a jornalistas: “Não tenho planos de participar de nenhum protesto na Assembleia Geral da ONU.” Acrescentou: “Aos nova-iorquinos, nunca os incentivei a protestar.”

Que covardia e subserviência deploráveis! Mamdani deve sua vitória eleitoral à oposição em massa ao genocídio em Gaza. Agora, ele assegura à classe dominante que não teve nada a ver com isso.

Mamdani fez essa declaração ao lado de sua comissária de polícia, a herdeira bilionária Jessica Tisch, e da vice-comissária Rebecca Weiner. Dias antes, ao lado de Mamdani, Weiner havia citado a “extrema esquerda” entre as ameaças terroristas que a cidade enfrenta.

Sobre imigração, Mamdani disse que havia “compartilhado minhas opiniões muito firmes” sobre a importância dos nova-iorquinos imigrantes, “especialmente os nova-iorquinos haitianos”, e afirmou que “agradecia pela conversa” com Trump sobre essas questões.

Mamdani conhece bem a situação dos nova-iorquinos haitianos. Em 7 de agosto, depois que o governo Trump retirou o Status de Proteção Temporária (TPS) de cerca de 350 mil haitianos, ele anunciou que funcionários municipais haitianos que haviam perdido sua autorização de trabalho seriam demitidos. Não convocou nenhum protesto nem apresentou qualquer contestação, declarando que a cidade estava “obrigada pela lei federal” a agir. Além disso, segundo uma auditoria da própria cidade, as prisões realizadas pelo ICE na região de Nova York aumentaram 71%.

Após o primeiro encontro, a Jacobin, órgão dos DSA, elogiou os “astutos instintos políticos” de Mamdani. Depois do segundo, classificou sua bajulação a Trump como uma estratégia politicamente astuta e explicou que “governar envolve cooperação e compromisso, mesmo com um presidente autoritário repugnante”.

Sem dúvida, os apologistas da Jacobin, transbordando de estupidez e desonestidade, terão explicações de sobra para esse mais recente encontro. Essas pessoas sabem exatamente o que estão fazendo. Toda justificativa pragmática para colaborar com Trump é, por si só, um ato de colaboração.

Isso não é apenas uma questão das qualidades pessoais de Mamdani ou daqueles que o defendem. Ele personifica o que os DSA são: uma facção do Partido Democrata, que fala em nome de setores privilegiados da classe média alta, promovida para renovar a imagem de uma ordem política detestada pelas massas. Seu verdadeiro inimigo é a classe trabalhadora e a esquerda.

E essas pessoas ainda não chegaram ao fim de sua trajetória. À medida que a guerra se expande e a crise do governo Trump se aprofunda, os DSA e a ala de Sanders no Partido Democrata irão cada vez mais para a direita.

A direção que esse processo está tomando ficou evidente na semana passada na “Assembleia Pró-Humana”, em Washington. Ali, o senador Bernie Sanders agradeceu aos organizadores por reunirem “diferentes perspectivas políticas” e, em seguida, cedeu o palco ao ideólogo fascista e ex-conselheiro de Trump Steve Bannon, que elogiou Sanders e depois defendeu a expulsão de todos os cidadãos chineses. O WSWS escreveu que, naquele evento, já era possível vislumbrar os contornos de um novo “socialismo nacional” americano. O episódio da Gracie Mansion faz parte do mesmo processo, desta vez na figura do mais proeminente dirigente eleito dos DSA.

Pesquisa após pesquisa registra um crescimento do apoio ao socialismo. Uma pesquisa da CNBC realizada no mês passado constatou que 46% dos americanos entre 18 e 34 anos veem o socialismo democrático de forma favorável, o dobro da parcela que o vê de forma desfavorável. Os trabalhadores e jovens que se deslocam cada vez mais para a esquerda entrarão em choque com a política de direita dos DSA.

O desenvolvimento da consciência política, porém, não ocorre automaticamente. Aqueles que votaram em Mamdani acreditando que ele representava uma alternativa precisam tirar lições dessa experiência. Isso exige um estudo sério sobre o que são os DSA e de onde surgiram, por que sua trajetória já podia ser prevista e quais foram as questões centrais do século XX – acima de tudo, a história do movimento trotskista.

A imensa oposição à guerra, às operações do ICE e à oligarquia não pode encontrar expressão por meio dos DSA ou de qualquer setor do Partido Democrata. Ela exige a mobilização política independente da classe trabalhadora, nos Estados Unidos e internacionalmente, com base em um programa socialista. Essa é a perspectiva pela qual luta o Partido Socialista pela Igualdade.

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