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Luta de classes explode em toda a América Latina: como governos de direita tão impopulares chegaram ao poder?

Publicado originalmente em inglês em 19 de outubro de 2026

Na última quarta-feira, trabalhadores de 670 hospitais e clínicas do Instituto Mexicano do Seguro Social (IMSS) rejeitaram um acordo salarial apoiado pelo sindicato e pelo governo da presidente Claudia Sheinbaum. Cerca de 282 mil dos 475 mil trabalhadores aptos a votar participaram da votação, e as apurações divulgadas por trabalhadores da base mostraram maiorias expressivas contra o acordo, que previa uma redução salarial em termos reais. Os trabalhadores exigem um reajuste de pelo menos 10% e o fim da escassez de medicamentos e insumos. Grupos organizados pela base já se preparam para uma greve nacional.

Protesto em Bogotá, na Colômbia, em outubro de 2025, contra as ameaças dos Estados Unidos de invadirem a América Latina. [Photo: Presidencia de Colombia]

No mesmo dia, milhares de pessoas marcharam em Bogotá e em outras cidades durante a primeira greve nacional contra o novo presidente de direita da Colômbia, Abelardo de la Espriella, que havia assinado, na véspera, um decreto ordenando uma ofensiva repressiva.

Em 15 de outubro, o sindicato dos servidores públicos da Argentina, a Associação dos Trabalhadores do Estado (ATE), realizou uma greve nacional contra o megadecreto 70/23 de desregulamentação do presidente Javier Milei.

No Chile, 709 mineiros da Centinela estão em greve desde 7 de outubro, e os supervisores da Escondida, da BHP — a maior mina de cobre do mundo —, rejeitaram a proposta da empresa por 94,8% dos votos. Neste mês, dezenas de milhares de estudantes e professores chilenos marcharam contra as medidas de austeridade do presidente de ultradireita José Antonio Kast.

Na Bolívia, o presidente Rodrigo Paz mobilizou tropas nos arredores de La Paz para reprimir protestos contra um aumento de 83% no preço do diesel, declarando: “Quem quer bloquear quer a morte”. Isso ocorre após uma greve geral de 51 dias realizada neste ano contra o aumento dos combustíveis no país.

No Brasil, o segundo turno de 25 de outubro coloca o presidente Luiz Inácio Lula da Silva frente a frente com o fascista Flávio Bolsonaro, que lidera as pesquisas, após meses de greves de professores, bancários, trabalhadores dos Correios e da indústria automobilística contra as medidas de austeridade de Lula.

Na Venezuela, trabalhadores da saúde e da educação, funcionários de universidades e aposentados marcharam em direção ao palácio presidencial de Miraflores em 13 de outubro, exigindo o descongelamento das tabelas salariais e o restabelecimento dos contratos coletivos de trabalho. A polícia bloqueou a passagem dos manifestantes. Protestos semelhantes ocorreram em frente às sedes de governos estaduais em todo o país.

Essas lutas fazem parte de um movimento internacional. Em 25 de setembro, mais de 45 mil estudantes alemães entraram em greve contra o serviço militar obrigatório, sob o lema “A guerra e a crise devoram sua vida”. Mais de 800 mil estudantes e trabalhadores marcharam por toda a França, enquanto dezenas de milhares de pessoas protestaram em Milão, na Itália, “contra as guerras e o aumento do custo de vida”. Dos dois lados do Atlântico, as classes dominantes estão fazendo a população pagar pelos custos da guerra e por suas consequências por meio de cortes em gastos sociais, salários e aposentadorias. A classe trabalhadora e a juventude estão dizendo: “Basta!”.

Na América Latina, os trabalhadores e a juventude passaram por experiências políticas concretas ao longo da última década. Viram como os ditames do capital financeiro e do imperialismo são impostos tanto pelos governos da chamada “Maré Rosa” latino-americana quanto pelos partidos tradicionais de direita, enquanto as burocracias sindicais e os grupos pseudoesquerdistas dão cobertura a essas políticas.

A onda de lutas massivas demonstra que a recente eleição de forças de extrema direita, como de la Espriella, Kast, Paz e Milei, não expressou uma guinada à direita por parte da classe trabalhadora e dos setores pobres. Expressou, acima de tudo, o desejo de mudanças radicais e a vontade de punir as forças políticas que impõem a austeridade social. Em poucas semanas, os novos governos já mostraram que levam as mesmas políticas a um nível ainda mais brutal, enquanto se intensificam os preparativos para a ditadura aberta e o fascismo.

O caráter internacional das lutas que irrompem neste momento confirma que elas são impulsionadas por processos globais: a guerra imperialista pela repartição do mundo, a recolonização do hemisfério pelo imperialismo dos EUA, a guerra comercial e as exigências da aristocracia financeira. Essas lutas colocam objetivamente na ordem do dia a derrubada do sistema político e econômico vigente e apontam para um movimento socialista mundial, não para o retorno de uma “esquerda” nacionalista e reformista repaginada, por mais que essas forças alardeiam sua defesa da democracia contra o fascismo. Esses objetivos ainda não foram conscientemente assumidos nem organizados, e as burocracias sindicais e os grupos pseudoesquerdistas da classe média exploram essa situação para alimentar ilusões na política capitalista.

Governos impopulares

Os governos de direita eleitos no último ano nunca despertaram entusiasmo popular. Dez meses após Kast vencer a eleição presidencial no Chile, sua taxa de aprovação caiu para 27%, segundo a Criteria, enquanto 64% desaprovam sua gestão. No Peru, a aprovação de Keiko Fujimori caiu de 60% para 42% no primeiro mês de mandato, segundo a Datum. Além disso, 52% dos peruanos disseram ao instituto de pesquisas IEP que seu governo é “mais do mesmo”. A aprovação de Milei oscila em torno de 35%. Na Guatemala, Bernardo Arévalo, eleito em 2023 com a proposta de combater a corrupção por meio de reformas, tem agora tem a menor taxa de aprovação entre os presidentes da região: 31%. Na Venezuela, 63% dos entrevistados desaprovavam Delcy Rodríguez em junho. Ela está à frente do governo do país em nome de Washington desde que forças americanas sequestraram Nicolás Maduro, em 3 de janeiro.

As políticas adotadas seguem o mesmo padrão em toda parte. O orçamento de Kast para 2027 aumenta em 9,1% os gastos com segurança, congela todas as demais despesas e suspende a merenda escolar para 1,6 milhão de estudantes. Paz eliminou o subsídio ao diesel como parte de um acordo de US$ 1,9 bilhão com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e governa sob estado de exceção desde junho. A guerra contra o Irã fez o preço do petróleo Brent superar US$ 100 por barril em setembro. Na Guatemala, o preço do diesel atingiu o recorde de 50,89 quetzales por galão, e bloqueios de rodovias se espalharam por 10 dos 22 departamentos do país. Arévalo enviou o Exército e alegou que os manifestantes tinham ligações com o tráfico de drogas. Em Honduras, trabalhadores do transporte bloquearam estradas em protesto contra novos aumentos nos preços dos combustíveis.

Os governos que ainda são associados à Maré Rosa não oferecem alternativa. Lula chega ao segundo turno depois de cortejar banqueiros e escolher seu vice-presidente, Geraldo Alckmin, para atuar como fiador da “responsabilidade fiscal”, ao mesmo tempo que pede a formação de uma frente ampla em defesa da democracia. No primeiro turno, 33,4 milhões de brasileiros se abstiveram de votar, o maior número desde 1998.

Sheinbaum mantém índices de aprovação próximos de 70%, em grande parte graças às transferências de renda e à sua postura de resistência a Trump. No entanto, a votação no IMSS e as grandes greves de professores expressam uma crescente rebelião de uma parcela significativa da classe trabalhadora contra o Morena, o partido governista de “esquerda”. Esse descontentamento se manifesta em um contexto no qual o governo prioriza o pagamento de juros, os incentivos às empresas e os gastos com segurança em detrimento da saúde e da educação pública.

Guerra e ditadura

Em toda a América Latina, cresce também a percepção de que a guerra e a ditadura estão batendo à porta. O governo Trump invadiu a Venezuela em janeiro e ameaçou invadir o México, o Panamá e Cuba, ao mesmo tempo que mantém na região o maior contingente militar em décadas.

Nesse contexto, o governo dos Estados Unidos pressiona os países latino-americanos a militarizar suas sociedades, sob o pretexto de combater o crime transnacional. Em junho passado, exigiu especificamente que esses países elevassem seus gastos militares a 3,5% do PIB. Argentina e Peru estão gastando bilhões na compra de caças F-16, enquanto os gastos com segurança aumentam rapidamente em toda a região, tanto em preparação para a repressão em massa dentro de seus próprios países quanto para o envolvimento em guerras no exterior.

Segundo o New York Times, em 14 de outubro, um batalhão de 600 soldados da 10ª Divisão de Montanha está sendo enviado para o Panamá, a Colômbia e Honduras. Drones Reaper foram deslocados para a Colômbia e o Equador, e o Pentágono planeja passar de ataques contra embarcações — que já mataram pelo menos 239 pessoas — a ataques em terra.

O general Joseph Ryan, comandante do Comando do Exército dos EUA para o Hemisfério Ocidental, explicou o objetivo: “Cedemos a um adversário a hegemonia econômica na região, e isso é um fato. Agora estamos lutando para reconquistar terreno — marítimo e terrestre, humano e cognitivo”. O adversário é a China. O “terreno” em questão, apresentado como mais um teatro da emergente Terceira Guerra Mundial, é a América Latina.

Com a ameaça de uma catástrofe nuclear se agravando à medida que a OTAN e a Rússia, assim como os Estados Unidos e a China, se aproximam de um confronto direto, a questão é saber se esta geração ainda terá algum futuro.

Além das repercussões militares, Trump ameaçou repetidamente impor sanções econômicas caso os candidatos de sua preferência não fossem eleitos. “Se ele perder, não seremos generosos com a Argentina”, declarou sobre Milei antes das eleições legislativas do ano passado, quando estava em jogo um pacote de socorro de US$ 40 bilhões. Em Honduras, advertiu que, se Nasry Asfura perdesse, “os Estados Unidos não jogariam dinheiro bom fora tentando recuperar dinheiro ruim” e concedeu perdão ao ex-presidente Juan Orlando Hernández, condenado por tráfico de cocaína. Após a vitória de Kast, vangloriou-se: “A pessoa que apoiei no Chile, que não liderava as pesquisas, acabou vencendo com bastante facilidade”. Trump declarou seu “apoio total e irrestrito” a de la Espriella e impôs tarifas de 50% sobre produtos brasileiros em retaliação ao processo judicial e à prisão de Jair Bolsonaro por sua tentativa de golpe. Flávio Bolsonaro, que se reuniu com Trump antes das eleições, promete conceder perdão ao pai e promover o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal.

O caso de Fernando Cerimedo expôs o alcance mais amplo da interferência dos Estados Unidos. Consultor argentino e parceiro de negócios de Brad Parscale, ex-chefe da campanha eleitoral de Trump, Cerimedo coordenou operações digitais para Bolsonaro e Milei, assessorou Asfura e atuou como principal conselheiro de Paz. Veículos de imprensa peruanos relatam que sua rede atuou em apoio a Fujimori. No Chile, Cerimedo admitiu ter trabalhado contra o projeto de Constituição de 2022, e o ex-presidente colombiano Gustavo Petro o acusa de operar dois milhões de contas automatizadas para eleger de la Espriella. Cerimedo foi preso na Bolívia em agosto, acusado de encomendar o assassinato de sua ex-companheira. Quando o procurador-geral boliviano deu andamento ao caso, o Departamento de Estado dos EUA revogou seu visto, e a polícia do governo de Paz o prendeu dois dias depois.

Quem abriu as portas para a extrema direita?

Mas o que mais se poderia esperar do imperialismo? Há mais de um século, Washington organiza golpes de Estado e invasões na América Latina. A conclusão não deve ser que a região esteja indefesa diante dos caprichos do Tio Sam. A responsabilidade política por permitir que forças impopulares de direita conquistem e mantenham o poder, enquanto os trabalhadores se deslocam politicamente para a esquerda, deve ser buscada em outro lugar. Nenhuma fazenda de bots provocou o colapso do Movimento ao Socialismo (MAS) na Bolívia, que manteve intacto o Estado capitalista ao longo de duas décadas no poder e deixou como legado uma crise de combustíveis e de dólares. Nenhuma fazenda de bots provocou o fracasso das promessas de Gabriel Boric no Chile, nem a capitulação de Pedro Castillo e os massacres cometidos por Dina Boluarte no Peru. A extrema direita se alimentou da desilusão provocada por esses governos.

A própria Maré Rosa também criou as condições para esse cenário. Diante da criminalidade alimentada pela pobreza, pela informalidade e pelo tráfico de drogas destinado aos Estados Unidos, todo o establishment político, inclusive a esquerda assim denominada, adotou políticas de Estado policial. O governo Libre, de Xiomara Castro, em Honduras, decretou estado de exceção para combater as gangues em dezembro de 2022 e prorrogou a medida sucessivas vezes. Boric sancionou a Lei Naín-Retamal, ampliando a margem de ação da polícia para matar, e manteve o sul do território mapuche sob ocupação militar. Sheinbaum concluiu a transferência da Guarda Nacional para o comando do Exército e entregou a Washington dezenas de pessoas acusadas de integrar cartéis. Lula faz campanha prometendo: “Para o bandido, a prisão”.

Quando a “esquerda” aceitou a ideia de que os bairros pobres eram um problema a ser enfrentado com soldados e prisões, ao mesmo tempo que abandonava qualquer reforma social significativa, abriu o caminho para aqueles que prometiam ir ainda mais longe. Nayib Bukele governa El Salvador sob estado de exceção desde março de 2022 e já encarcerou mais de 85 mil pessoas sem o devido processo legal. Seu megaprisão tornou-se um modelo para a extrema direita. Flávio Bolsonaro promete um “modelo Milei-Bukele”. De la Espriella e Kast fizeram campanha defendendo o encarceramento em massa. Na semana passada, a Costa Rica inaugurou seu próprio megaprisão inspirado no modelo de Bukele. O aparato construído em nome do combate ao “crime” agora se volta contra a classe trabalhadora: estabeleceu-se um roteiro comum na região para rotular manifestantes e grevistas de “narcoterroristas”.

Diante da intervenção de Washington, os líderes da Maré Rosa curvaram-se a Trump e recorreram à ONU e às próprias Forças Armadas em busca de apoio, por serem incapazes e indispostos a fazer um apelo genuíno à classe trabalhadora.

As burocracias sindicais e a pseudoesquerda fizeram o resto. Em junho, a direção da Central Operária Boliviana (COB) encerrou uma greve geral e um levante que duraram 51 dias e durante os quais policiais e soldados mataram pelo menos quatro manifestantes. A direção da COB assinou um acordo de “pacificação” com Paz e, no dia seguinte, um decreto autorizou o Exército a desobstruir as rodovias.

Na Argentina, a direção da Confederação Geral do Trabalho (CGT) chegou a um entendimento com Milei que garante os privilégios da burocracia, ao mesmo tempo que canaliza a revolta popular para a promessa de um “governo nacional e popular” em 2027. Além disso, todo o establishment político aderiu à campanha nacionalista de Milei em torno da retomada das Malvinas.

A pseudoesquerda reveste esse nacionalismo de uma aparência radical. O Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS) e o Partido Obrero (PO), da Argentina, criticam a inação da CGT, mas aceitam seu enquadramento em torno da “soberania” e da indústria nacional, sem jamais apelar aos trabalhadores do Brasil, do Chile ou dos Estados Unidos que trabalham para as mesmas corporações. No Brasil, o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e os grupos morenistas fazem campanha por Lula como o “mal menor”. Tudo isso serve para preparar os trabalhadores para seguir o próximo nacionalista burguês e cair na mesma armadilha.

As lições do Chile

Petro, Lula, Sheinbaum e Boric invocam regularmente o exemplo do presidente chileno Salvador Allende, morto durante o golpe de Estado de 11 de setembro de 1973. Eles o apresentam como um mártir do imperialismo.

A conspiração imperialista contra o governo da Unidade Popular de Allende foi real. Em setembro de 1970, Richard Nixon ordenou à CIA que “fizesse a economia gritar”. Entre 1970 e 1973, a agência gastou US$ 8 milhões em operações de desestabilização, financiando o jornal El Mercurio e as greves dos caminhoneiros e dos empresários, enquanto a International Telephone and Telegraph (ITT) oferecia dinheiro para impedir a posse de Allende.

Mas a classe trabalhadora chilena era muito mais forte do que seus adversários. Em 1972 e 1973, os trabalhadores construíram os cordones industriales, redes de comitês operários que organizavam a produção, o abastecimento e a defesa nos cinturões industriais de Santiago. A classe trabalhadora, no entanto, foi desarmada politicamente por sua própria direção. Após uma tentativa fracassada de tomar o palácio presidencial com tanques, em junho de 1973, o dirigente do Partido Comunista, Luis Corvalán, declarou: “Continuamos apoiando o caráter absolutamente profissional das instituições armadas”. Allende incorporou generais ao gabinete e, em agosto de 1973, nomeou Augusto Pinochet comandante do Exército. Em 1971, Fidel Castro percorreu o Chile durante mais de três semanas, emprestando sua credibilidade de esquerda ao governo da Unidade Popular.

O papel decisivo, contudo, foi desempenhado pelo pablismo, corrente revisionista que rompeu com o trotskismo na década de 1950 ao sustentar que forças stalinistas e nacionalistas poderiam dirigir a revolução. Em 1965, os quadros trotskistas chilenos do Partido Operário Revolucionário (POR) foram liquidados politicamente no Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR) castrista, que concedeu “apoio crítico” a Allende e, em março de 1973, retirou sua oposição eleitoral ao governo da Unidade Popular. Como escreveu o Comitê Internacional em 18 de setembro de 1973, “o partido trotskista foi destruído no Chile, não pelo stalinismo ou por qualquer junta”, mas pelos revisionistas que “substituíram suas ideias e métodos pelos de Guevara e Castro”.

Os anos de preparação da CIA para o golpe e para a instauração de um regime de terror fascista só deram resultado porque a classe trabalhadora chilena não contava com uma direção revolucionária independente que a ajudasse a romper com a política capitalista e conquistar o poder. E isso ocorreu no auge de uma onda revolucionária mundial. Desde a greve geral de maio-junho de 1968 na França, centenas de milhões de pessoas haviam se levantado em todo o mundo, do Cordobazo, na Argentina, ao “Outono Quente” italiano e às lutas que derrubariam as ditaduras de Portugal e da Grécia menos de um ano após o golpe no Chile.

Em todos esses casos, as direções stalinistas, social-democratas e pablistas atuaram para manter esses movimentos nos limites do capitalismo, e a classe trabalhadora chilena pagou o preço. Cerca de 3 mil pessoas foram assassinadas ou desapareceram durante a ditadura que se seguiu, e dezenas de milhares foram torturadas. Com o apoio da CIA, as juntas militares organizaram a Operação Condor para coordenar a repressão em toda a região.

O caminho a seguir

A classe trabalhadora da América Latina é hoje muito maior e mais poderosa do que em 1973. Os mineiros de cobre de Antofagasta, os trabalhadores da indústria automobilística de Puebla e da Bahia, os caminhoneiros que cruzam a fronteira entre os Estados Unidos e o México e os profissionais de saúde do IMSS são elos de um mesmo sistema de produção globalizada. Seus aliados mais poderosos não são os partidos capitalistas nacionais nem as burocracias que se apresentam como mais favoráveis aos trabalhadores ou mais à esquerda, mas sim os trabalhadores dos Estados Unidos e de outros países, que enfrentam o mesmo inimigo. O governo que envia tropas para o hemisfério também está construindo, dentro de suas próprias fronteiras, o aparato de uma ditadura.

O naufrágio da Maré Rosa — o mais recente episódio de uma longa história de projetos nacionalistas burgueses fracassados na região — confirmou, mais uma vez, os princípios fundamentais da teoria da Revolução Permanente, de Trotsky. Essa perspectiva demonstrou que, na época do imperialismo, a burguesia nacional da América Latina e de outros países oprimidos é organicamente incapaz de travar uma luta consequente contra o imperialismo ou de levar a cabo as tarefas democráticas fundamentais, devido à sua dependência do imperialismo e ao seu temor da classe trabalhadora.

Cabe à classe trabalhadora das Américas, do Norte ao Sul, levar adiante essas tarefas, unificando suas lutas por meio da construção de comitês de base em todos os locais de trabalho, independentes das burocracias sindicais e de todos os partidos capitalistas. Esses comitês devem ser articulados internacionalmente por meio da Aliança Operária Internacional de Comitês de Base (AOI-CB).

Acima de tudo, a transformação radical pela qual lutam os trabalhadores e a juventude precisa se traduzir em um programa consciente, fundamentado no conhecimento histórico. Para isso, é necessário construir seções do Comitê Internacional da Quarta Internacional em toda a América Latina para armar esse movimento com o programa da revolução permanente e a luta pelo socialismo mundial.

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