Poucas horas após aterrissar em Miami na quarta-feira, tendo fugido do Brasil desafiando uma ordem do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Bolsonaro, o candidato fascista derrotado no segundo turno das eleições presidenciais de domingo, divulgou uma carta na qual se autoproclamava “o verdadeiro presidente eleito do Brasil”. Mais tarde no mesmo dia, ele divulgou uma versão revisada na qual se referia a si mesmo como “o líder do Brasil”.
“Os criminosos que roubaram a eleição no Brasil são parte de uma organização criminosa que implementou uma tirania”, afirma a carta. Dirigindo-se aos senadores, deputados e governadores que ajudou a eleger, Bolsonaro escreveu: “liderarei a oposição daqui. Direi o que vocês, aí, não podem dizer, e assumirei os riscos que vocês não podem correr.”
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), venceu a eleição com 4,4 milhões de votos a mais. A alegação de fraude baseia-se na prorrogação em duas horas do horário de votação, solicitada pelo próprio Partido Liberal (PL) de Bolsonaro. De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral, apenas cerca de 34 mil votos foram registrados após as 17h, horário planejado inicialmente para o fim da votação. Tanto o PL quanto o vice de Bolsonaro reconheceram o resultado.
O Departamento de Estado anunciou na terça-feira que concederia vistos aos Bolsonaros. Donald Trump, que declarou que a votação “parecia mais uma eleição fraudulenta”, afirmou que “aprovaria” a entrada deles.
O que está ocorrendo é mais uma tentativa de golpe contra o governo eleito do segundo país mais populoso do hemisfério, levada a cabo abertamente por Washington. Após mais de um ano de guerra econômica, Washington agora abriga uma liderança paralela que opera a partir dos EUA, sob a proteção dos EUA, aos olhos de todo o mundo.
O governo Trump já havia anunciado, no ano passado, uma tarifa de 50% sobre “todos e quaisquer produtos brasileiros”, imposta na tentativa de impedir o processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, pai de Flávio, por liderar uma tentativa de golpe fascista para anular a vitória de Lula em 2022.
Seguiram-se sanções contra o ministro Alexandre de Moraes, relator do caso contra Bolsonaro, e revogações de vistos para juízes do Supremo Tribunal Federal. Este ano, Washington classificou as duas maiores organizações criminosas do Brasil como organizações terroristas, recebeu Flávio na Casa Branca, revogou o visto do embaixador do Brasil e, em julho, impôs novas tarifas de 25% e 12,5%.
Flávio Bolsonaro denuncia em sua carta uma “caça às bruxas” e “censura”, alega perseguição “até mesmo a cidadãos americanos” e elogia Trump como “um grande defensor da liberdade de expressão”. Trata-se de um argumento para a próxima etapa da intervenção.
A carta também revela o que Bolsonaro pretendia fazer no poder. Moraes, escreve ele, “muito provavelmente estaria preso, se eles não tivessem impedido minha posse”. O significado é claro: uma presidência de Flávio Bolsonaro teria levado à prisão o ministro do STF que supervisionou o processo contra seu pai.
Ele exorta seus aliados a elegerem Rogério Marinho como presidente do Senado, cargo que decide se será aberto um processo de impeachment contra ministros do STF.
A Suprema Corte, escreve ele, está “aparelhada pela organização criminosa petista”, o que já prepara o terreno para que Washington intensifique sua operação de mudança de regime, declarando o governo Lula como criminoso ou “narcoterrorista”.
“Este é apenas o começo da nossa luta”, escreve Bolsonaro, fazendo um apelo às “instituições brasileiras” para “restabelecer o equilíbrio entre os Poderes”.
O apelo não é vago. Há anos, o bolsonarismo vem alegando que o Artigo 142 da Constituição torna as Forças Armadas um “poder moderador”, com o direito de intervir quando os poderes do Estado entram em conflito. O STF rejeitou por unanimidade essa interpretação em 2024. O apelo para “restabelecer o equilíbrio entre os Poderes” é dirigido aos generais.
Tanto a fuga quanto o golpe seguem o roteiro de seu pai. Jair Bolsonaro voou para a Flórida em 30 de dezembro de 2022, dois dias antes da posse de Lula, enquanto seus apoiadores acampavam em frente ao quartel-general do Exército exigindo uma intervenção militar. Em 8 de janeiro, eles invadiram as sedes dos Três Poderes do governo em Brasília.
Sua condenação, juntamente com a de generais de alto escalão e de um almirante, puniu certos indivíduos, mas preservou as Forças Armadas como instituição. Conforme alertou o Grupo Socialista pela Igualdade em outubro: “Em uma república onde as Forças Armadas se arrogaram o papel de árbitro desde sua fundação, a intervenção militar continua sendo uma opção em aberto para a classe dominante.”
O golpe de 1964 foi realizado dessa forma, com o apoio de Washington. Em uma reunião gravada em 1962 no Salão Oval com o presidente John F. Kennedy, o assessor Richard Goodwin disse: “É bem possível que queiramos que eles [os militares brasileiros] assumam o poder no final do ano, se puderem”. Em 1964, o governo Johnson preparou a Operação Brother Sam para apoiar os generais que derrubaram o presidente João Goulart. O que na época era preparado secretamente pela CIA agora é conduzido abertamente pela Casa Branca.
Bolsonaro se compara a Charles de Gaulle, que “liderou a França Livre a partir de Londres, condenado à morte pelo regime de Vichy, e voltou para libertar o seu país”. De Gaulle, vale lembrar, retornou atrás dos exércitos dos Aliados.
Ele também invoca José Martí, que organizou a luta pela independência de Cuba a partir de Nova York. Na véspera de sua morte, em 1895, porém, Martí escreveu que sua tarefa era “impedir a tempo, por meio da independência de Cuba, que os Estados Unidos se espalhassem pelas Antilhas e caíssem, com essa força adicional, sobre nossas terras da América”. Ele acrescentou: “Vivi dentro do monstro e conheço suas entranhas”.
Seus heróis venezuelanos são mais específicos. Bolsonaro cita Juan Guaidó, o autoproclamado presidente de 2019, que serviu de pretexto para as sanções dos EUA e tentativas de golpe, sem nunca ter se candidatado à presidência. A carta também menciona o candidato da oposição de direita Edmundo González e a agente da CIA María Corina Machado.
Quando as forças americanas detiveram o presidente venezuelano Nicolás Maduro em janeiro, Trump rompeu a interlocução com Machado, alegando que ela não contava com “apoio nem respeito dentro do país”, e passou a lidar diretamente com a vice-presidente de Maduro, Delcy Rodríguez. Machado retornou no último domingo, com a aprovação de Washington, ao que se tornou um protetorado dos EUA.
Mas o Brasil não é a Venezuela, e os acontecimentos não seguirão o mesmo roteiro. Bolsonaro recebeu 59,8 milhões de votos, e seu partido detém o maior bloco no Congresso. Uma liderança no exílio proporciona a esse círculo fascista um centro de comando fora do alcance dos tribunais brasileiros e entrega a Washington um instrumento de desestabilização contra a maior economia da América Latina.
O voo em si foi coordenado de forma transfronteiriça. Na noite de domingo, o ministro do STF Alexandre de Moraes, que supervisiona uma investigação sobre lavagem de dinheiro e evasão de divisas na qual Flávio está profundamente envolvido, cancelou seus passaportes brasileiros, ordenou que ele entregasse quaisquer documentos de viagem internacionais em até 24 horas e o proibiu de sair do Brasil. Na segunda-feira, Bolsonaro chamou a ordem de “clara tentativa de me intimidar” e declarou: “Nunca pensei em sair do país. Vou entregar meus passaportes”.
Em poucas horas, o jato que o levaria para fora do país já estava estacionado em Puerto Iguazú, no lado argentino da fronteira. Na terça-feira, o prazo expirou, e as autoridades brasileiras alertaram o governo de Javier Milei de que ele poderia tentar cruzar a fronteira.
Às 22h50, Bolsonaro, sua esposa e suas duas filhas cruzaram a fronteira de Foz do Iguaçu para a Argentina. Quarenta minutos depois, embarcaram em um jato particular Gulfstream G400 com um plano de voo para Guayaquil, no Equador, onde a aeronave reabasteceu antes de seguir para Miami. A CBS News Miami informou que ele entrou nos EUA com um passaporte italiano.
De acordo com o jornal uruguaio El Observador, o presidente argentino Javier Milei “tinha os detalhes da operação”. Bolsonaro agradeceu a ele na carta por sua “coragem, senso de justiça e legalidade”.
O jato pertence à Baires Fly. O Ministério Público apontou a empresa e seu gerente, Sergio Mastropietro — ex-sócio do condenado por lavagem de dinheiro e acusado de tráfico de drogas Federico “Fred” Machado — como os “líderes da lavagem de dinheiro” em um escândalo de suborno que envolve o governo de Milei.
O próprio Bolsonaro está sendo investigado por lavagem de dinheiro, e outra investigação está analisando as relações de sua campanha com a Rockbridge Network, uma rede de doadores cofundada pelo vice-presidente dos EUA, JD Vance.
Na mesma noite, um ataque dos EUA a uma embarcação no Pacífico oriental matou mais cinco pessoas acusadas, sem provas, de “narcotráfico”, elevando o número de mortos para pelo menos 243. Washington explode pequenas embarcações em nome do combate ao “narcoterrorismo”, ao mesmo tempo em que abriga forças criminosas e fascistas envolvidas no tráfico de drogas, das quais depende para subjugar a América Latina. Esse é o “Escudo das Américas”, a coalizão de Trump com Milei e outros governos de direita, em ação.
A reação dos democratas os torna cúmplices. Até o momento em que este artigo foi escrito, seus líderes no Congresso, Chuck Schumer e Hakeem Jeffries, não se pronunciaram sobre a recepção a Bolsonaro nem sobre o governo paralelo que está sendo tramado em solo americano, e nenhum democrata exigiu que o visto de Bolsonaro fosse revogado.
O governo Biden também permitiu que Jair Bolsonaro permanecesse na Flórida até o final de março de 2023.
A própria resposta do governo Lula é covarde. Lula chamou o voo de “vergonhoso” e disse que a primeira pátria dos Bolsonaros era “lamber as botas dos Estados Unidos”. Mas seus ministros culparam Moraes por transformar Bolsonaro “de criminoso em perseguido”. O Ministério das Relações Exteriores trata como uma questão da “esfera judicial” o que é um ato de agressão estrangeira. Nenhum protesto foi apresentado a Washington.
