O impacto educacional e social do fechamento global de escolas

Por Renae Cassimeda
13 Abril 2020

Publicado originalmente em 9 de abril de 2020

Um número sem precedentes de escolas tem sido fechado em todo o mundo para tentar deter a propagação da pandemia de COVID-19. As estatísticas globais divulgadas pela UNESCO revelam que, desde a última semana de março, cerca de 1,7 bilhão de estudantes do ensino pré-primário ao superior estão fora das instalações do sistema educacional, afetando 91,3% de todos os alunos matriculados no mundo e incluindo todos os estudantes de 188 países que determinaram o fechamento de escolas em todo o país. Com a maioria das escolas programadas para permanecer fechada durante o resto do atual ano letivo, a escala desses fechamentos é sem precedentes na história do capitalismo mundial.

Em vários países, incluindo Estados Unidos, Austrália, Rússia, Canadá e Groenlândia, o fechamento de escolas tem sido localizado. Nos EUA, o governo Trump determinou que governadores e autoridades distritais decidissem sobre o fechamento de escolas de forma fragmentada, o que fez com que apenas 17 estados decretassem o fechamento de escolas até o final do ano letivo, com outras sendo fechadas até abril, maio ou “até nova ordem”.

As escolas são os principais centros de transmissão da COVID-19 e, de uma perspectiva epidemiológica, o fechamento das escolas é imprescindível para reduzir a propagação do vírus. Isso foi provado de maneira mais marcante na cidade de Nova York, o atual epicentro da pandemia nos EUA, onde a demora em fechar as escolas e o uso contínuo do sistema de transporte público em massa agravaram bastante a crise. O número de casos confirmados somente na cidade de Nova York é de mais de 81.803, com 4.571 mortes. Até o momento, houve pelo menos duas mortes de educadores, além de mais de 1.100 casos e 33 mortes de agentes de trânsito.

Educadores em escolas que permanecem abertas enfrentam um dos maiores riscos de infecção em meio a essa crise, além dos profissionais de saúde, e as negligências do governo em todo o mundo estão colocando em risco a vida de milhares para proteger os interesses do lucro sobre a saúde pública. Ao promover a concepção darwinista social de “imunidade de rebanho”, o primeiro-ministro Boris Johnson se recusou a fechar escolas na Grã-Bretanha até que houvesse uma oposição crescente entre os professores. Da mesma maneira, os governos regionais da Austrália foram forçados a fechar as escolas, enfrentando rebeliões incipientes de professores que surgiram por fora do controle dos sindicatos.

Embora seja uma precaução necessária, o fechamento de escolas em países ricos e pobres já teve grandes impactos para os estudantes e aumentará a desigualdade profundamente enraizada na educação nos próximos anos.

Todos os alunos sofrerão algum tipo de trauma com essa catástrofe sem precedentes, mas para a classe trabalhadora e os pobres os impactos serão muito maiores e de longo prazo – afetando tudo, desde uma educação interrompida, passando pelo isolamento mental e social, falta de contato com os professores, conselheiros e figuras adultas positivas, até a fome e potencial abuso.

O impacto do furacão Katrina nos estudantes de Nova Orleans oferece um pequeno panorama das imensas consequências que a pandemia terá na juventude em todo o mundo. Em resposta à devastação causada pelo furacão em agosto de 2005, a cidade fechou a maioria das escolas públicas durante um bimestre letivo.

De acordo com Doug Harris, pesquisador da Universidade de Tulane e autor de um estudo que analisou os efeitos do furacão Katrina nos resultados educacionais dos alunos, foram necessários dois anos completos, em média, para compensar o aprendizado perdido. Harris argumenta que esse lapso de aprendizado não se deve apenas a uma interrupção no horário das aulas, mas é devido também a impactos econômicos e traumas emocionais decorrentes da crise causada pelo furacão. O atual fechamento global de escolas e o distúrbio econômico ampliarão esses impactos educacionais, afetando um número exponencialmente maior de estudantes.

A pandemia de COVID-19 está se desenvolvendo em sistemas escolares em condições já desesperadoras, que sofreram décadas de implacável austeridade. Onde as formas de “ensino a distância” online estão começando a ser oferecidas, o acesso dos alunos à internet e a capacidade de realizar as tarefas são determinados de maneira gritante pelas condições materiais de suas casas. Muitas escolas particulares interromperam as aulas bem antes das públicas e conseguiram fazer a transição para o ensino online com mais facilidade, diminuindo os impactos negativos sobre esses alunos.

O setor privado de ensino online também é uma opção apenas para famílias que podem pagar. A plataforma de ensino online oneclass.com, que cobra US$ 80 (R$ 409) por hora a sessão interativa, viu seu número de alunos dobrar em meio à pandemia de COVID-19.

Em todo o mundo, centenas de milhões de estudantes enfrentam uma interrupção total de sua educação devido ao fechamento de escolas. Segundo o Setor de Desenvolvimento de Telecomunicações (ITU), em 2018, 51% da população mundial não possuía computadores e 41% não tinham acesso à internet. Antes da crise, milhões de jovens contavam com os serviços de internet de cafés ou bibliotecas, e muitas famílias em áreas rurais ou remotas não tinham acesso à internet.

Para quem tem acesso à internet, a velocidade de sua conexão depende da riqueza, com as conexões mais rápidas e confiáveis disponíveis apenas para os ricos. Com base nos dados da Microsoft de 2018, 162 milhões de usuários da internet nos EUA não têm acesso à internet de banda larga de alta velocidade. Uma pesquisa do Centro Pew Research constatou que os adultos de famílias que ganham menos de US$ 30.000 (R$ 153.000) por ano têm muito mais probabilidade do que os adultos mais abastados de não usar a internet (18% contra 2%).

Nos EUA, muitos distritos de escolas públicas estão aguardando o lançamento de um formato de ensino online, causando não apenas uma ruptura no aprendizado, mas também comprometendo o aprendizado dos alunos. Nas principais cidades metropolitanas, como Detroit e Filadélfia, os alunos perderam três semanas de escola. Em San Diego, a maioria dos estudantes começará o ensino a distância em 20 de abril.

Por trás das costas dos educadores, os sindicatos de professores e os distritos escolares locais estão trabalhando para contornar a imensa quantidade de questões de equidade que a crise expõe, que diz respeito ao processo de reorganizar todas as tarefas tradicionais dos professores e exigir que eles mudem rapidamente para o ensino online.

A educação especial foi em grande medida deixada de lado porque o fechamento de escolas tira o apoio necessário para essa parcela de estudantes. É quase certo que os alunos da educação especial com deficiência de moderada a grave terão pouco ou nenhum acesso aos professores e recursos que costumavam estar disponíveis para o aprendizado e o desenvolvimento físico e educacional deles. A falta de atenção será sentida por populações vulneráveis que precisam de apoio específico em sala de aula. Como parte do pacote de estímulo da Lei de Auxílio, Alívio e Segurança Económica pelo Coronavírus (CARES), o Congresso proporcionou à secretária de Educação dos EUA, Betsy DeVos, a possibilidade de fornecer isenções fiscais aos estados para a implementação da Lei de Educação de Indivíduos com Deficiências (IDEA).

A administração Trump, juntamente com os governos estaduais dirigidos por democratas e republicanos, vê a pandemia como uma oportunidade para minar drasticamente as escolas públicas em todo o país e implementar cortes ainda mais profundos na educação pública. Sem dúvida, as elites dominantes usarão a mudança caótica e difícil para a ensino online como um meio de justificar sua futura expansão, com dezenas, senão centenas, de milhares de educadores podendo perder seus empregos.

As consequências econômicas da crise cairão mais fortemente sobre os estudantes com pais ou responsáveis cujos salários mal dão para o mês e não possuem economias para lidar com despesas adicionais. 20% da população global não possui moradia adequada, o que aumentará à medida que mais membros da família ficarem desempregados. A incerteza econômica também aumentará as condições de violência doméstica. Um em cada cinco estudantes nos EUA já sofre violência doméstica, e o crescimento do abuso conjugal e infantil entre grupos em quarentena que enfrentam a ruína econômica é motivo de grande preocupação.

Os 30 milhões de estudantes nos EUA que almoçam na escola, e os 14,7 milhões que também tomam café da manhã, agora precisam se esforçar para encontrar almoços de “pegar e levar” em alguns pontos de distribuição, em muitos casos a quilômetros de suas casas. Mesmo no país mais rico do mundo, o grau de insegurança alimentar já estava em níveis de crise, e há todos os motivos para temer que milhões desses estudantes simplesmente passarão fome. Em todo o mundo, centenas de milhões enfrentam uma escassez iminente de alimentos que cairá mais pesadamente sobre os pobres.

Com as escolas fechadas, as crianças também perderam o acesso a conselheiros escolares, serviços de saúde prestados pela escola e inúmeras formas de apoio social. Os alunos não estão se socializando com colegas e adultos, o que é intensificado ainda mais em situações em que os alunos não têm acesso à internet. Atividades esportivas e extracurriculares, que proporcionam aos alunos as oportunidades e os meios necessários para construir a autoestima, também foram interrompidas.

A pandemia de COVID-19 tem agravado a crise preexistente enfrentada pelos estudantes em todo o mundo, uma realidade de pesadelo que envolve pobreza, desnutrição e vasta desigualdade social. A experiência da pandemia, que está radicalizando milhões de pessoas internacionalmente, deixará uma marca permanente na consciência dos jovens, que reconhecerão cada vez mais a necessidade de uma transformação radical da sociedade para garantir um futuro livre de mortes em massa, fome e carência.

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