Trump, a mídia, e o desastre da COVID-19

18 Abril 2020

Publicado originalmente em 14 de abril de 2020

No sábado, o New York Times publicou uma longa reportagem documentando o fracasso do governo Trump em responder às repetidas advertências, vindas de dentro do próprio governo federal, de que os Estados Unidos estavam à beira de um desastre que ameaçava centenas de milhares de vidas.

O Times observou: “O gabinete responsável por monitorar pandemias do Conselho Nacional de Segurança recebeu relatórios de inteligência no início de janeiro, prevendo a propagação do vírus para os Estados Unidos e em poucas semanas já apresentava alternativas, como manter os estadunidenses afastados do trabalho e fechar cidades do tamanho de Chicago. O Sr. Trump evitaria tais medidas até março.”

O Presidente Donald Trump fala durante uma reunião da força-tarefa do coronavírus, na Casa Branca, Washington, em 10 de abril de 2020 (Crédito: AP Photo/Evan Vucci)

Esses alertas foram repetidos pelos Institutos Nacionais de Saúde, pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças e até mesmo por membros do gabinete presidencial. Apesar desses alertas, o governo Trump não conseguiu implementar as medidas mais básicas para conter a pandemia. Em 2 de março, quase dois meses após Trump ter recebido as advertências iniciais de que a pandemia atingiria os Estados Unidos, havia menos de 500 casos confirmados de COVID-19 em todo o país. Naquela altura, a pandemia já se espalhava sem controle há mais de um mês.

Em público, Trump minimizou deliberadamente a gravidade da doença, alegando falsamente que a pandemia não era pior que uma gripe. Argumentou que ela desapareceria por si mesma e declarou que a doença era uma “farsa”. No domingo, Trump retuitou uma publicação que o encorajava a demitir o Dr. Anthony Fauci, seu principal conselheiro científico, que declarou publicamente que, se as medidas tivessem sido implementadas mais cedo, vidas teriam sido salvas.

Claramente irritado com a exposição da incompetência de seu próprio governo, Trump, como de costume, atacou ferozmente a imprensa na segunda-feira, insultando repórteres em uma nova demonstração de ignorância, brutalidade, reacionarismo e autoglorificação. Como sempre, Trump passou a maior parte de sua coletiva de imprensa elogiando a si mesmo e negando toda a responsabilidade pelo desastre que está se desenrolando.

Apesar da reportagem do Times fazer uma denúncia importante da incompetência da resposta de Trump à pandemia, ela deixa de fora uma parte essencial do quadro. Não explica por que a classe dominante como um todo estava tão despreparada para lidar com a pandemia.

A sequência de erros desastrosos cometidos por Trump foi uma continuidade natural das políticas adotadas por todo o establishment político e pelos governos anteriores. Afinal, os governos Bush e Obama destruíram a prontidão do sistema público de saúde, cortando verbas ano após ano. Apesar dos alertas do perigo de uma pandemia há pelo menos duas décadas, nenhuma ação foi tomada para formar estoques de equipamentos necessários.

Além disso, de janeiro até hoje, nenhum setor do establishment político estadunidense exigiu seriamente uma expansão real dos gastos com saúde pública e um programa de testes massivos, uma quarentena e mapeamento dos contatos com o vírus que poderiam ter contido a pandemia e salvo dezenas de milhares de vidas. E ainda assim, em questão de semanas, ambos os partidos – Republicano e Democrata – foram capazes de trabalhar juntos para garantir um resgate de vários trilhões de dólares a Wall Street e às grandes corporações, o que fez o mercado de ações disparar ao mesmo tempo que milhões de pessoas perdiam seus empregos.

A narrativa do Times também não explica por que o seu próprio histórico e de outros grandes veículos de comunicação é tão deplorável quanto o de Trump.

Apesar dos inúmeros avisos sobre o novo coronavírus na mídia internacional, desde o início de janeiro, o New York Times só foi dedicar seu primeiro editorial ao tema em 29 de janeiro. O jornal, que várias vezes serve como porta-voz de “fontes anônimas” dentro do aparato de inteligência, não reportou os “relatórios de inteligência no início de janeiro, prevendo a propagação do vírus para os Estados Unidos” como mais uma das “bombas” que recorrentemente estampam suas manchetes.

Em seu editorial de 29 de janeiro, advertiu que a “desconfiança” nas “instituições” – uma palavra que o jornal usa para se referir tanto a si mesmo quanto às agências de inteligência dos EUA – é o maior fator de risco para a disseminação da COVID-19. Ele não exigiu nenhuma medida de emergência para combater a doença, nem uma expansão da capacidade de testes, quarentena e rastreamento de contatos.

Em seguida, um silêncio total tomou conta do jornal durante um mês inteiro, ao longo do qual o New York Times não escreveu um único editorial sobre a pandemia. Foi só em 29 de fevereiro, quando havia 63 casos registrados nos Estados Unidos e estava confirmada a transmissão comunitária, que o conselho editorial do Times voltou ao assunto.

Nesse meio tempo, que abarcou a conclusão da tentativa abortada de impeachment de Trump com base em falsas alegações de “conluio” com a Rússia, o Times apresentou aos seus leitores sua cota habitual de alegações de “intromissão russa” na sociedade estadunidense, de propaganda a favor da guerra, de histeria do movimento #MeToo e de demandas por expansão do poder das agências de inteligência dos EUA.

Durante o mês de fevereiro, as bolsas de valores estadunidenses continuaram a atingir novos patamares. Trump tem insistido em deixar claro que sua principal preocupação com a pandemia é o seu impacto na economia e, em particular, nos mercados de ações. Não é difícil supor que preocupações semelhantes motivaram o conselho editorial do Times a tentar minimizar as “más notícias”.

De fato, quando seu conselho editorial voltou ao assunto, em 3 de março, possuía um novo foco: “Se o governo federal não for capaz de conter a disseminação do coronavírus e o panorama econômico escurecer, um estímulo tão amplo pode ser necessário”.

Enquanto o Times se calava sobre a pandemia da COVID-19, políticos democratas e republicanos preparavam um projeto de lei bipartidário de estímulo, que incluía US$ 450 bilhões em resgates corporativos e financiava os pagamentos de US$ 5 trilhões que o Federal Reserve destinaria a Wall Street e às grandes empresas.

O silêncio do governo Trump e do Partido Democrata contrasta com as extensas advertências do World Socialist Web Site.

Um artigo de Benjamin Mateus publicado em 24 de janeiro notou que “surgiram evidências de que a infecção de pessoa para pessoa está ocorrendo” e que “casos já foram confirmados na Tailândia, Japão, Coréia do Sul, Taiwan, Vietnã, Cingapura, Arábia Saudita e Estados Unidos”.

Em um artigo da seção “Perspectiva”, de 28 de janeiro, intitulado “O surto de coronavírus em Wuhan e a ameaça global de doenças infecciosas”, o WSWS observou: “O surto expôs a enorme vulnerabilidade da sociedade contemporânea a novas cepas de doenças infecciosas, perigos para os quais nenhum governo capitalista se preparou adequadamente”.

O WSWS afirmou: “Ainda que a situação na China seja terrível, os chamados países de primeiro mundo não estão melhor preparados para lidar com um surto na escala que está ocorrendo em Wuhan”.

A perspectiva continuava:

Dito de outra forma, enquanto os governos do mundo, particularmente os Estados Unidos, montaram ao longo do último quarto de século planos meticulosos para uma guerra em larga escala, nenhum recurso ou planejamento foi dedicado ao combate da explosão de epidemias que assolaram o planeta durante o mesmo período. Desde 1996, houve 67 epidemias em todo o mundo, incluindo o surto da doença da vaca louca de 1996 a 2001, a gripe suína em 2009 e o Zika Vírus em 2015-2016, além da contínua epidemia de HIV/AIDS, que já matou ao menos 30 milhões de pessoas desde que surgiu, em 1960.

Estes desastres são evitáveis a cada vez que ocorrem. A ciência médica avançou ao ponto de ser capaz de identificar novos vírus em semanas e desenvolver vacinas em meses. E ainda, como a então Diretora Geral da OMS, Dra. Margaret Chan, observou em 2014 em relação ao surto de Ebola: “uma indústria movida pelo lucro não investe em produtos para mercados que não podem pagar”. …

Os esquemas mercenários de lucros a curto prazo, que são inerentes ao capitalismo, são incapazes de alocar os recursos necessários para se planejar com antecedência e se preparar para os riscos globais.

Ao longo do mês seguinte, no período em que o conselho editorial do New York Times esteve calado, o World Socialist Web Site escreveu quatro grandes declarações sobre a pandemia, além de sua cobertura jornalística diária.

Em “A pandemia do coronavírus: um desastre global”, de 11 de fevereiro, o World Socialist Web Site condenou as políticas nacionalistas e xenofóbicas da administração Trump e as declarações do Secretário de Comércio Wilbur Ross de que a pandemia “acelerará a volta dos empregos para a América do Norte”. O artigo advertia: “Como todos os problemas sociais – incluindo a crescente desigualdade social, as mudanças climáticas que se aceleram e a ameaça exacerbada de guerra – a epidemia do coronavírus é um problema global que requer uma solução internacional”.

Em 27 de fevereiro, o WSWS publicou uma Perspectiva intitulada: “A pandemia do coronavírus e a necessidade de uma medicina global socializada”. Alex Lantier escreveu: “É fundamental que o sistema de saúde mundial seja capaz de isolar pacientes, limitar a velocidade de propagação da doença e dedicar os recursos necessários para proporcionar cuidados intensivos aos pacientes que desenvolveram pneumonia a partir da infecção”.

No dia seguinte, o WSWS publicou uma declaração do Comitê Internacional da Quarta Internacional que afirmava: “O governo dos EUA está completamente despreparado para um grande surto. Não existe um sistema para ao menos detectar sistematicamente o vírus.”

E concluía: “A classe trabalhadora deve exigir que os governos disponibilizem os recursos necessários para conter a propagação da doença, tratar e cuidar das pessoas infectadas e garantir a subsistência de centenas de milhões de pessoas que serão afetadas pelas consequências econômicas”.

O World Socialist Web Site não possui os vastos recursos financeiros que o New York Times tem à sua disposição. E mesmo assim conseguimos alertar o público sobre o desastre que estava prestes a ocorrer.

A razão disso é que a orientação política do WSWS é totalmente diferente. A preocupação tanto do governo Trump quanto do New York Times, o principal meio de comunicação do Partido Democrata, é a preservação dos interesses financeiros e econômicos da elite dominante. A preocupação do WSWS é a defesa da classe trabalhadora e das amplas massas da população.

Assim como deixaram de alertar o público sobre os perigos do coronavírus que se espalhava pelo país, tanto o governo Trump como o New York Times procuram hoje, mais uma vez, minimizar a pandemia para criar um clima para um retorno prematuro ao trabalho. O World Socialist Web Site está focado em alertar sobre esses movimentos, argumentando que as vidas humanas devem ter prioridade sobre os lucros da elite dominante.

Há mais de duas décadas, o World Socialist Web Site, a publicação do Comitê Internacional da Quarta Internacional, tem se mostrado uma ferramenta indispensável na defesa dos interesses sociais e políticos da classe trabalhadora.

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Andre Damon