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As lições da traição do Sindicato dos Professores de Chicago

Na manhã de quarta-feira, 10 de fevereiro, o Sindicato dos Professores de Chicago (CTU) anunciou que o acordo a que chegou com a administradora escolar Escolas Públicas de Chicago (CPS) foi aprovado pelo voto favorável de 13.681 (54%) de seus membros, enquanto 6.585 (26%) votaram contra e outros 5.092 (20%) se abstiveram. Professores da educação infantil e do ensino especial estão programados para retornar às salas de aula nesta quinta-feira, com outras levas de retorno que garantirão que todos educadores e alunos da pré-escola ao 8º ano estejam de volta até 8 de março.

O cronograma de reabertura das escolas acordado pelo CTU coincide com o "furacão" de casos e mortes que o Dr. Michael Osterholm alertou estar se aproximando nas próximas semanas. É previsto que a variante mais infecciosa e letal B.1.1.7 da COVID-19, originalmente encontrada no Reino Unido, tone-se a variante dominante nos EUA até o final de março.

Professores de Chicago e apoiadores manifestam-se na semana passada. (Fonte: CTU - Facebook)

Destacando os enormes perigos colocados pela abertura das escolas, que provaram ser vetores centrais de propagação da COVID-19, nesta semana as autoridades sul-africanas suspenderam seu programa de vacinação porque a vacina AstraZeneca foi considerada ineficaz contra a variante dominante naquele país.

Durante as duas últimas semanas, a oposição à reabertura das escolas de Chicago foi a luta operária mais importante nos Estados Unidos. A mídia corporativa e o establishment político promoveram uma campanha propagandística orquestrada, falsamente alegando ser possível reabrir escolas com segurança. Nos bastidores, o governo Biden e o presidente da Federação Americana de Professores (AFT) Randi Weingarten realizam continuamente negociações para a reabertura das escolas em Chicago.

O objetivo com a retomada das aulas presenciais no terceiro maior distrito escolar dos EUA é criar um precedente a fim de reabrir as escolas nos demais distritos do país que permanecem em ensino remoto. Isso, por sua vez, visa pressionar o maior número de pais a retornar aos locais de trabalho inseguros para produzir lucros às grandes empresas.

Os líderes do CTU – principalmente seu presidente, Jesse Sharkey, e a vice-presidente, Stacy Davis Gates – desempenharam o papel fundamental de pressionar os professores a aceitar o acordo a que chegaram com Lightfoot e a CPS. Dessa forma, eles foram responsáveis por garantir o cumprimento da política de "assassinato social" promovidas tanto pelo Partido Democrata como o Republicano em nome da classe dominante americana. O CTU será responsável por quantos mais educadores, pais, alunos e membros da comunidade morram ou sofram sequelas permanentes como resultado da reabertura das escolas.

Em um comunicado à imprensa na segunda-feira, o sindicato declarou que os resultados o colocam "no caminho para a reabertura segura das salas de aula". Sabendo que essa política levará a mais infecções e mortes em toda Chicago, Sharkey cinicamente escreveu: "Milhares de estudantes perderam pelo menos um ente querido para a COVID. Essas crianças – nossos alunos – merecem segurança".

Os eventos ocorridos ao longo do mês passado em Chicago expõe incontestavelmente o caráter reacionário do chamado “sindicalismo de justiça social” pseudoesquerdista. Sob a direção da corrente Coligação dos Educadores de Base (CORE), composta por membros da extinta Organização Socialista Internacional (ISO), dos Socialistas Democráticos da América (DSA), e outros grupos da pseudoesquerda, o Sindicato dos Professores de Chicago tem servido há mais de uma década como modelo a sindicatos que promovem políticas identitárias pequeno-burguesas para encobrir suas traições.

Réplicas desse modelo ocupam a direção do Professores Unidos de Los Angeles (UTLA) da Associação Educacional de Oakland (OEA) e outros sindicatos regionais pseudoesquerdistas pelos EUA que traíram greves e hoje colaboram com políticos democratas para enviar educadores e estudantes para escolas em condições mortíferas. Todos eles são totalmente subservientes ao Partido Democrata e ao sistema capitalista.

Os processos de negociação e votação realizados pelo CTU foram, em todos os aspectos, antidemocráticos. Desde o outono passado, o sindicato realizou mais de 80 sessões secretas de negociação com a CEO da CPS Janice Jackson, a prefeita democrata de Chicago Lori Lightfoot e outros políticos, aceitando a premissa básica de que as escolas deveriam ser reabertas. Os membros do sindicato foram mantidos no escuro enquanto essa conspiração se desenrolava.

Com os educadores de base prevendo um possível locaute pelo governo Lightfoot na segunda-feira, 9 de fevereiro, o CTU convocou uma reunião às pressas com todos os membros para apresentar seu acordo para reabrir escolas. Durante a reunião, o chat foi bloqueado e nenhum professor de base foi permitido a falar. Sharkey leu uma longa lista de motivos para não entrar em greve, incluindo: "É uma pandemia. Está frio. Essa não seria uma greve fácil. Seria uma greve na qual a diretoria de ensino convocaria as pessoas para trabalhar remotamente. Logo, vocês precisam estar cientes de que as pessoas seriam capazes de furar os piquetes de greve simplesmente indo para casa e acessando seu computador".

Cumprindo o papel de testa de ferro de Lightfoot, e por trás dela Biden e Weingarten, Sharkey então ameaçou os educadores, dizendo que a greve seria utilizada como arma contra os professores, que não resultaria em nada e que eles estariam sujeitos a enormes cortes salariais.

De acordo com relatos no Second City Teachers, Sharkey repetiu esses mesmos argumentos em duas reuniões fechadas na Câmara dos Delegados, realizadas no domingo e na segunda-feira. Na última reunião, 85% desses delegados, muitos deles bem próximos à corrente política CORE que dirige o CTU, votaram pela aceitação do acordo mortal. Posteriormente, deram a justificativa hipócrita de que votaram pelo acordo somente para que os membros do sindicato pudessem “deliberar democraticamente”, enquanto continuavam afirmando ser a melhor oferta que os professores podiam esperar.

Entre as principais lideranças sindicais que apoiaram o plano de reabertura está a vice-presidente de área do CTU, Sarah Chambers, que depois postou nas redes sociais: “Eu votei SIM com base no apoio da minha escola à proposta. Esse acordo não é o que MERECEMOS, mas é diferente de qualquer acordo sindicato/diretoria de ensino que eu já tenha visto nos EUA”. Chambers, uma dirigente de longa data da CORE, se intitula "socialista" e é regularmente entrevistada pela Labor Notes e a revista Jacobin, a publicação semi-oficial do DSA.

Após a reunião de segunda-feira, foi dado um dia para que os professores de base votassem sobre o acordo, sem nenhum fórum para discutir esse acordo ou levantar objeções. Na terça-feira, professores relataram receber notificações de já terem votado sendo que ainda não o tinham feito, enquanto mais de 5.000 não conseguiram votar ou ficaram tão revoltados com todo o processo que se abstiveram.

Entre os professores de base existe uma enorme oposição ao acordo. Um post na manhã de quarta-feira na página do Facebook do CTU anunciando os resultados da votação teve mais de 300 comentários, a maioria deles negativos e muitos denunciando o sindicato. Um deles declarava: "Absolutamente vergonhoso! Nunca mais venham me falar de lutar pelo CTU. A cara de pau de dizer que o acordo não é bom e aceitar o acordo DO MESMO JEITO!".

Os educadores de Chicago e de todos lugares devem tirar conclusões abrangentes desta experiência. A principal delas é a necessidade de romper com a perspectiva do sindicalismo e construir novas organizações de luta, comitês de base controlados democraticamente pelos próprios trabalhadores e não subordinados às burocracias sindicais corruptas. Esses comitês precisam manter independência dos partidos Democrata e Republicano, que servem aos capitalistas, e lutar para unir-se aos educadores e ao conjunto da classe trabalhadora através das fronteiras municipais, estaduais e nacionais.

O Comitê de Segurança dos Educadores de Base de Chicago foi formado para defender esses princípios e servir como voz da oposição ao CTU. Esse comitê lutou pelo voto "Não" no acordo e apelou para os mais amplos setores da classe trabalhadora como seus aliados. Tais esforços serão aprofundados pelo comitê, que deve ser expandido por todas as escolas e bairros de Chicago e das regiões metropolitanas vizinhas.

Esse comitê faz parte de uma rede maior de comitês, que foram construídos em Nova York, Los Angeles, San Diego, Califórnia do Norte, Michigan, Tennessee, Alabama, Texas e Pensilvânia, bem como no Reino Unido, Alemanha, Austrália, Sri Lanka e um número crescente de cidades e estados em todo o mundo. Em cada país, esses comitês estão se preparando para uma greve geral nacional para fechar todas as escolas e produções não essenciais a fim de conter a pandemia, o que os coloca em confronto direto com os sindicatos e partidos capitalistas que impõe a reabertura das escolas e de todos os setores da economia.

Numa postagem no Facebook na quarta-feira de manhã, Sharkey demonstrou nervosismo. Ele escreveu: “Vamos precisar do nosso sindicato. Na história do movimento operário, a classe dominante sempre fez coisas horríveis com os trabalhadores. Enviou-nos para fábricas e minas inseguras, iniciou guerras injustas e nos enviou para lutar nelas, para começo de conversa. As minas eram inseguras e mesmo assim os membros do sindicato dos mineiros tinham que entrar nelas para trabalhar. Isso pode ser motivo para aumentar a organização, mas não é motivo para abandonar nosso sindicato”.

Com essa analogia distorcida, Sharkey revela mais do que pretende. As lutas intensas dos mineiros ao longo dos primeiros três quartos do século XX foram batalhas longas e sangrentas, muitas delas travadas contra a burocracia dos Mineiros Unidos, para proteger a vida e a segurança dos trabalhadores e para evitar mortes desnecessárias no local de trabalho em nome das exigências de lucro dos donos das minas. Hoje, é o CTU que desempenha o papel mais decisivo no bloqueio à resistência dos educadores e na sua permanência nas salas de aula que, como sugere o comentário de Sharkey, são tão mortíferas quanto as minas de carvão.

Essa luta está longe de ter acabado. Os professores de Chicago serão rapidamente levados a novos combates à medida que contaminações e mortes se espalhem pela cidade, e o CTU busque encobrir a situação. Ao mesmo tempo, novas batalhas estão surgindo na Filadélfia, Los Angeles, Detroit e outras cidades, como parte de uma onda mundial de lutas, incluindo a greve de mais de 200 mil professores brasileiros em São Paulo, o segundo maior distrito escolar das Américas.

Não há solução progressista para a pandemia por fora da mobilização de massas da classe trabalhadora em oposição ao capitalismo nos EUA e internacionalmente. Os educadores e toda a classe trabalhadora precisam adotar o programa do socialismo, que implica na expropriação da vasta riqueza acumulada pela oligarquia financeira, no fim do sistema de lucros baseado na exploração, e na unificação dos trabalhadores internacionalmente para reorganizar a sociedade e implementar uma planificação científica para suprir as necessidades humanas.

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