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Segurança e a Quarta Internacional

Sylvia Ageloff e o assassinato de Leon Trotsky

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Publicado originalmente em 5 de fevereiro de 2021

Em 20 de agosto de 1940, Leon Trotsky foi assassinado pelo agente stalinista, Ramón Mercader, no subúrbio de Coyoacán, na Cidade do México. O acesso de Mercader ao grande revolucionário foi possibilitado pelo seu relacionamento com Sylvia Ageloff, membro do Partido Socialista dos Trabalhadores (SWP). Após o assassinato, Ageloff se apresentou como uma vítima inocente da enganação de Mercader, uma declaração que nunca foi contestada pelo SWP.

Esta série de artigos constitui a primeira investigação sistemática do movimento trotskista sobre o papel de Ageloff e continua o trabalho da investigação Segurança e a Quarta Internacional do Comitê Internacional da Quarta Internacional. Ela será publicada em quatro partes.

Introdução

O agente stalinista, Ramón Mercader, assassinou Leon Trotsky no final da tarde de 20 de agosto de 1940, no subúrbio de Coyoacán, na Cidade do México. Na noite seguinte, 26 horas após o ataque, o co-líder da Revolução de Outubro de 1917 morreu com o ferimento causado por Mercader.

O assassinato de Leon Trotsky é o assassinato político mais relevante do século XX. Ele privou a classe trabalhadora internacional do homem que, ao lado de Lenin, foi o maior teórico marxista e líder revolucionário do século XX. A morte de Trotsky enfraqueceu gravemente a Quarta Internacional, em cuja criação, em 1938, ele havia desempenhado um papel decisivo, e prejudicou o desenvolvimento do movimento socialista mundial por décadas.

Apesar das declarações mentirosas do regime stalinista soviético, foi imediatamente assumido em todo o mundo que o assassino era um agente da polícia secreta da União Soviética (URSS), a GPU. Porém, durante 35 anos, o mundo sabia muito pouco sobre a grande escala da conspiração e a rede de agentes utilizada pelo regime stalinista para preparar e executar o assassinato. A verdadeira identidade do homem que utilizava o nome de "Jacques Mornard" e, depois, "Frank Jacson" não foi estabelecida de forma conclusiva até 1950. O partido político principalmente responsável pela segurança de Trotsky – o Partido Socialista dos Trabalhadores (SWP) estadunidense, então a seção americana simpatizante da Quarta Internacional – não apenas deixou de realizar qualquer investigação significativa sobre os esforços da GPU para se infiltrar no movimento trotskista em escala global nos anos anteriores ao ataque, mas também se recusou a reconhecer e encobriu diretamente evidências da infiltração da GPU no alto escalão na sua própria organização. Qualquer referência, muito menos a exposição, à infiltração de espiões da GPU e do FBI no movimento trotskista foi denunciada pelos líderes do SWP, chamando-as de "agent-baiting", ou seja, acusações fabricadas.

Leon Trotsky (1879-1940)

Em maio de 1975, o Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI) iniciou uma investigação sobre o assassinato de Trotsky. As suas conclusões, publicadas sob o título Segurança e a Quarta Internacional, identificaram a rede internacional de agentes da GPU envolvidos no assassinato, incluindo agentes que permaneceram no SWP por décadas após a morte de Trotsky.

Apesar dos esforços para sabotar o trabalho do Comitê Internacional, a investigação sobre a Segurança e a Quarta Internacional continuou e levou a conclusões de enorme importância.

Após a decisão de iniciar a investigação, documentos críticos do governo americano relacionados ao assassinato, não-publicados e mantidos no Arquivo Nacional em Washington, foram descobertos por Alex Mitchell, editor da Workers Press (o jornal da seção britânica do CIQI). Em agosto de 1975, o trotskista americano, David North, trabalhando em nome do CIQI, localizou e fotografou Mark Zborowski em São Francisco. Nos anos 1930, antes de emigrar para os Estados Unidos em 1941, Zborowski havia desempenhado um papel central no fornecimento de informações que levaram ao assassinato pelos stalinistas do filho de Trotsky, Leon Sedov, dois dos secretários políticos de Trotsky, Erwin Wolf e Rudolf Klement, e um desertor da GPU que declarou seu apoio à Quarta Internacional, Ignace Reiss. Os resultados iniciais da investigação Segurança e a Quarta Internacional foram publicados no final de 1975 sob o título Como a GPU assassinou Trotsky.

Em dezembro de 1976, Mitchell e North viajaram para a Cidade do México, onde entrevistaram indivíduos que foram testemunhas dos eventos em torno do assassinato. O progresso da investigação nos Estados Unidos provou que a secretária pessoal do líder do SWP, James P. Cannon entre 1938 e 1947, Sylvia Caldwell (Callen era seu sobrenome de solteira), era uma agente da GPU. O CIQI descobriu documentos estabelecendo que Joseph Hansen, secretário de Trotsky no México de 1937 a 1940, que se tornaria um líder do SWP até a sua morte em 1979, havia sido um agente da GPU e, mais tarde, um informante do FBI. Como era de se esperar, dada a sua atividade como espião e informante do governo, foi Joseph Hansen quem funcionou na liderança do SWP por décadas como o mais determinado oponente do "agent-baiting". Os seus esforços incluíram chamar de "paranóicos" aqueles que procuraram defender a segurança do movimento trotskista contra as atividades de sabotagem e assassinas da GPU (mais tarde conhecida como KGB) e do FBI.

As descobertas iniciais da Segurança e a Quarta Internacional foram publicadas entre 1975 e 1978. Acontecimentos posteriores – especialmente documentos obtidos através da ação judicial iniciada por Alan Gelfand contra a espionagem do governo dentro do Partido Socialista dos Trabalhadores – confirmaram plenamente os elementos mais decisivos da investigação do Comitê Internacional. Outra confirmação foi obtida através da abertura de documentos policiais secretos da GPU-KGB após a dissolução da União Soviética em 1991.

Mais recentemente, o trabalho de pesquisadores independentes, que fizeram uso das descobertas da Segurança e a Quarta Internacional, bem como de outros documentos tornados públicos de arquivos estatais no México, revelou importantes evidências que tornam possível um entendimento muito detalhado de como o assassinato de Trotsky foi planejado e realizado.

Analisando essas novas informações – combinada com um exame dos antecedentes pessoais de Sylvia Ageloff, bem como das suas atividades políticas enquanto ostensivamente membro do SWP, e sua estreita relação de trabalho com Ramón Mercader – o Comitê Internacional é agora capaz de oferecer um relato preciso do papel crítico desempenhado por Ageloff na organização do assassinato de Trotsky.

O relato seguinte refuta a narrativa indiscutível de 80 anos de idade de que Ageloff era uma inocente vítima que foi usado por Mercader para obter acesso a Trotsky. Essa personagem pública foi inventada por Ageloff e Mercader no desfecho imediato do assassinato. Os fatos reais ocultados pelo conto patético da "pobre Sylvia" nunca foram investigados seriamente. A narrativa adquiriu uma aura mítica. Porém, esse mito não tem base na realidade.

A aceitação do mito exige a interpretação dos aspectos mais incertos e até mesmo inacreditáveis da relação Ageloff-Mercader da maneira mais inocente e não-política. Ageloff tinha que ser vista como uma tola enganada – uma mulher sem agência, vagando cegamente pela vida, e tão monumentalmente estúpida a ponto de ser incapaz de reconhecer as contradições transparentes e bizarras na misteriosa história de vida e nas atividades do homem com quem ela dormia há quase dois anos.

Entretanto, quando o mito é substituído por uma revisão objetiva do registro dos fatos, a jovem do Brooklyn aparece de uma forma totalmente diferente. De 1938 a 1940, Ageloff se envolveu em um padrão de comportamento intencional que promoveu tão consistentemente os esforços da GPU para cercar e matar Trotsky a ponto de tornar insustentável qualquer explicação inocente.

Em cada etapa da preparação do assassinato, foi Sylvia Ageloff quem desempenhou o papel decisivo na integração de Mercader no movimento trotskista e, finalmente, na casa fortificada em Coyoacán. A presente investigação chegou à conclusão de que Ageloff era uma agente da GPU e cúmplice de Ramón Mercader no assassinato de Leon Trotsky.

Em 1940, a polícia mexicana conduziu a única investigação sobre o assassinato naquele período e determinou que Ageloff era cúmplice no assassinato de Trotsky. As autoridades mexicanas prenderam Ageloff, acusaram-na de assassinato e a processaram. Aparentemente, ela foi salva de uma condenação pela intervenção diplomática das autoridades americanas. Na época, o SWP não forneceu relatórios sobre a investigação mexicana sobre Ageloff em andamento e manteve os membros do partido desinformados. O SWP não questionou o relato de Ageloff sobre o seu papel na sequência de eventos que levaram ao assassinato de Trotsky. Portanto, a presente investigação deve começar examinando o mito da "pobre Sylvia".

O mito de Sylvia Ageloff

Ageloff e Mercader

De acordo com a versão convencional dos acontecimentos, Sylvia Ageloff era uma assistente social ingênua e comum do Brooklyn. Aparentemente desesperada por afeto, a jovem membro do SWP teria sido rapidamente seduzida pelo arrojado Jacques Mornard, um dos muitos pseudônimos usados pelo assassino e o nome que ele utilizou quando se conheceram. Ele teria explorado cruelmente as vulnerabilidades emocionais e a inexperiência de Ageloff, e eventualmente enganado ela para que tivesse acesso à casa de Trotsky.

Mercader teria utilizado o acesso fornecido involuntariamente pela ingênua Ageloff para realizar o ataque. De acordo com essa narrativa, Ageloff, durante um caso íntimo com Mornard que durou quase dois anos teria ignorado ou descartado as contradições gritantes em sua história, que incluía o uso de múltiplos nomes, mentiras transparentes sobre o seu histórico familiar, atividades comerciais misteriosas e acesso inexplicável a grandes quantias de dinheiro.

Como os três macacos sábios, porém reunidos em uma única pessoa, Ageloff não viu o mal, não o ouviu mal e, acima de tudo, não fez o mal.

Essa história – que absolve Ageloff de qualquer responsabilidade pelas conseqüências de suas ações – foi originalmente inventada pelo próprio Mercader. "Sylvia não teve nada a ver com isso", disse ele aos interrogadores da polícia após a sua prisão. [1] Ele manteve sua história até a sua morte em Cuba, em 1978. O seu irmão, Luis Mercader, diria mais tarde: "Ele nunca traiu os seus". [2] O seu advogado, Eduardo Ceniceros, reconheceu após a morte de Mercader: "Ele nunca confessou nada a ninguém, apesar de ter passado pela mais forte tempestade". [3]

O álibi que o assassino Mercader forneceu a Ageloff – mesmo enquanto negava que ele próprio havia tido alguma relação com a polícia secreta stalinista – foi a base para a patética imagem da "pobre Sylvia".

Há muito tempo é declarado que Ageloff ficou tão chocada com a traição de Mercader que não conseguiu responder as perguntas feitas pela polícia mexicana ou por agentes federais dos EUA que investigaram o ataque. Ageloff disse que era um membro leal do SWP que havia sido apanhada em um drama que ela não estava equipada para entender. Parecendo estar traumatizada, Ageloff deixou o movimento trotskista e nunca mais apareceu na política radical. Exceto pelo governo mexicano, no desfecho imediato do assassinato, ninguém, incluindo o SWP, pareceu particularmente interessado em examinar de maneira crítica o álibi fornecido a Ageloff pelo assassino.

Dois grandes filmes sobre o crime – O Assassinato de Trotsky (1972) e O Escolhido (2016) de Antonio Chavarrías – colocaram o mito no centro de seus relatos sobre o enredo do assassinato. Ageloff passou os seus 55 anos de vida restantes no anonimato. Eventualmente residindo em um confortável apartamento em Manhattan, Ageloff morreu em 1995, aos 86 anos de idade, sem deixar qualquer explicação detalhada de como ela passou a desempenhar um papel tão decisivo em uma tragédia do século XX.

Sylvia Ageloff

Um fato irrefutável emerge da cuidadosa reconstrução da conspiração para assassinar Trotsky: Removendo Ageloff da sequência dos acontecimentos não teria havido assassinato em 20 de agosto de 1940. Sem o acesso proporcionado por sua relação com Sylvia Ageloff, Mercader não teria conseguido entrar na casa de Trotsky. No período que antecedeu o assassinato, a pergunta "Quem é realmente o noivo de Sylvia?" teria provocado várias perguntas em torno de Mercader e de Ageloff. Mesmo o exame mais passageiro do histórico de "Jacques Mornard-Frank Jacson's" – uma tarefa certamente justificada após a tentativa mal-sucedida contra a vida de Trotsky pelos agentes stalinistas em 24 de maio de 1940 – teria o tornado suspeito, interrompido o seu acesso a Trotsky e levantado a questão: por que Sylvia Ageloff o trouxe de volta?

Isso foi mais ou menos admitido pelo líder do SWP, James P. Cannon, em um discurso proferido em 28 de setembro de 1940, seis semanas após a morte de Trotsky:

Há um certo descuido no movimento como uma ressaca do passado. Não sondamos suficientemente o passado das pessoas mesmo em posições de liderança – de onde elas vieram, como vivem, com quem são casadas, etc. Sempre que tais questões – elementares para uma organização revolucionária – foram levantadas no passado, a oposição pequeno-burguesa gritaria: "Meu Deus, você está invadindo a vida privada dos camaradas!". Sim, era exatamente isso que estávamos fazendo, ou mais corretamente – ameaçando fazer – nada disso aconteceu no passado. Se tivéssemos verificado tais assuntos um pouco mais cuidadosamente, poderíamos ter evitado algumas coisas ruins no passado. [4]

As observações de Cannon, sobre as quais ele não elaborou, foram um reconhecimento de que o SWP havia deixado de investigar as pessoas ao redor de Trotsky em Coyoacán e "em posições de liderança" no partido.

Cannon declarou que era necessário fazer mais perguntas e "verificar as coisas um pouco mais cuidadosamente". Isso é, no mínimo, um eufemismo. Quando Cannon pronunciou essas palavras, Sylvia Ageloff estava detida pela polícia mexicana sob a acusação de homicídio. Porém, as ações de Cannon não corresponderam às suas palavras. O SWP manteve total silêncio em relação a Ageloff após a morte de Trotsky, permitindo que ela entrasse no anonimato. O jornal do SWP, The Militant, não informou sobre a sua prisão após o assassinato e, em 1950, quando Ageloff compareceu perante a Comissão de Atividades Anti-americanas do congresso dos EUA, o partido não fez qualquer relato de seu testemunho.

Contradições entre o mito e a realidade: Quem era Sylvia Ageloff?

Esta investigação examina questões decisivas em relação a Sylvia Ageloff: Qual era o histórico familiar dela? Qual era a sua história política? Ela tinha contatos pessoais com stalinistas, seja através de amigos ou familiares? Como ela foi apresentada ao movimento, e quais foram as suas contribuições, se alguma, que justificassem a sua proximidade com Trotsky? O que as autoridades do México acreditavam quanto à culpa ou inocência de Ageloff? Como os fatos se comparam com os álibis de Ageloff?

Hoje, essas perguntas podem ser respondidas com base em um registro factual, que inclui informações relacionadas à significativa formação acadêmica da Ageloff, registros da imprensa, observações contemporâneas de quem conhecia Ageloff e Mercader, declarações da família Ageloff apresentadas durante o julgamento mexicano de Ageloff e Mercader, publicações sobre o assassinato, relatórios do FBI descobertos pela investigação Segurança e a Quarta Internacional, e outros materiais valiosos.

Esta investigação também utiliza pesquisas recentemente realizadas em espanhol, incluindo "Ações Ministeriais no Homicídio de Leon Trotsky", publicadas pelo departamento federal de criminologia do México e de autoria do proeminente criminologista mexicano, Martin Gabriel Barrón Cruz (Instituto Nacional de Ciencias Penales do México, 2018). O trabalho contém uma análise retrospectiva detalhada da investigação criminal mais importante da história mexicana, e inclui uma reprodução de importantes arquivos legais no processo penal contra Ageloff e Mercader. Contém um apêndice com transcrições de interrogatórios de testemunhas-chave, incluindo a própria Ageloff e Mercader.

Este artigo também faz referências a dois importantes livros em espanhol: O céu prometido: Uma mulher a serviço de Stalin, de Gregorio Luri (Editorial Ariel, 2016); e Ramón Mercader: O homem do Piolet, de Eduard Puigventós López (Now Books, 2015).

É possível, com base nesse registro, comparar a mítica Sylvia Ageloff com a verdadeira pessoa.

A persistência do mito da "pobre Sylvia" requer uma aceitação acrítica da imagem de uma assistente social ingênua e inexperiente, ou seja, o tipo de pessoa que poderia estar escrevendo cartas para o conselheiro amoroso no romance Miss Lonelyhearts. Essa imagem foi atribuída a ela pelo Partido Socialista dos Trabalhadores e posteriormente popularizada em narrativas cinematográficas fictícias. A persistência desse mito depende de nunca ser questionado, porque a pessoa construída não tem qualquer relação com quem foi Ageloff realmente.

A investigação começa necessariamente com um exame da família Ageloff.

Samuel Ageloff

Nascida em 1909, Sylvia Ageloff era filha de Samuel Ageloff (1884-1972) e Anna Maslow (1881-1930), imigrantes russos que falavam russo em casa. Samuel nasceu em Lepel, Bielorússia e imigrou para os Estados Unidos por volta de 1900, casando-se com Anna em 1902. Após a morte de Anna, Samuel voltou a se casar.

Samuel Ageloff se tornou um rico homem de negócios imobiliários em Nova York. Segundo Roberta Satow, autora de um relato fictício da vida das irmãs Ageloff intitulado As Duas Irmãs de Coyoacán:

Até 1917, ele estava interessado principalmente em reformar moradias familiares, mas, mais tarde, foi um pioneiro na construção de garagens públicas. Ele também construiu moradias em Coney Island e Bensonhurst e lojas na Avenida Flatbush. Mais tarde, ele construiu condomínios em Williamsburg e arrendou edifícios de escritórios por 99 anos, disponibilizando-os, incluindo um prédio executivo em frente à Academia de Música. [5]

Embora a história de Satow seja fictícia, as informações que ela reuniu sobre Samuel Ageloff são factualmente precisas. A sua pesquisa descobriu que Samuel Ageloff construiu 48 casas em Coney Island, 65 em Bensonhurst, e muitas lojas na Avenida Flatbush no Brooklyn. Ele construiu as duas Torres Ageloff, localizadas na Rua East Third e na Rua Fourth em Manhattan, em 1929. [6]

Propaganda de Samuel Ageloff, Brooklyn Daily Eagle, 1923

"Esta foi uma família muito rica", disse Satow ao World Socialist Web Site. [7] Além dos empresários de sucesso, a família incluía artistas e psicólogos. O WSWS falou com Amy Feld, uma parente dos Ageloffs e psicóloga. Feld disse que as irmãs eram parentes do pintor franco-russo, Marc Chagall, e do psicólogo internacionalmente renomado, Abraham Maslow, que desenvolveu a teoria da "hierarquia de necessidades".

Os Ageloffs tinham quatro filhas: Lillian (1902-1986), Hilda (1906-1997), Sylvia (1909-1995), e Ruth (1913-2009); e dois filhos: Allan (1903-1997) e Monte (1907-1965). Sylvia veio de uma família altamente política, e três das irmãs entraram na política socialista na juventude.

Hilda Ageloff

Em 2 de setembro de 1931, o Brooklyn Daily Eagle informou que Hilda Ageloff havia viajado para a União Soviética e entrevistado Nadezhda Krupskaya, viúva de Lenin, que era membro da Comissão de Educação Pública da União Soviética. Essa viagem ocorreu dois anos após Trotsky ter sido exilado na Turquia, quando seus seguidores estavam sendo perseguidos pelo regime stalinista na União Soviética. Krupskaya, que havia sido simpática a Trotsky, já havia sido forçada a atacar a Oposição de Esquerda.

Brooklyn Daily Eagle, 2 de setembro de 1931

De acordo com o Brooklyn Daily Eagle:

A Sra. Hilda Ageloff morando Rua Westminster, 198, contou hoje sobre a sua entrevista com a Sra. Lenin, que foi o ponto alto da sua viagem de três meses e meio para a Rússia.

Como a Sra. Ageloff estava fazendo um estudo especial sobre os novos métodos de educação progressiva utilizados nos jardins de infância e nas creches que cuidam das crianças nas fazendas comunais e nas cidades, ela desejava fazer muitas perguntas à Sra. Lenin.

Não foi fácil marcar uma entrevista. Muitos correspondentes de jornais estrangeiros haviam sido recusados ... Porém, as dificuldades foram resolvidas e, finalmente, um dia, a Srta. Ageloff se viu na presença da esposa do homem que a Rússia reverencia como seu salvador.

Hilda Ageloff é citada dizendo: "Quando estavam começando esse trabalho após a revolução, não teria sido possível, mas a madame Lenin acredita que o povo foi conquistado para os princípios do comunismo".

O artigo concluiu: "A própria Sra. Ageloff compartilha de parte do entusiasmo da madame Lenin, e disse que pretende retornar à Rússia para avançar o trabalho com o movimento de educação progressista".

Em 27 de dezembro de 1931, o New York Times publicou um artigo com autoria de Hilda Ageloff sob o título "O soviete promove o trabalho pré-escolar: Grandes avanços reportados". Esse relato foi o artigo principal de uma série publicada aos domingos, intitulada "As tendências e a maré do mundo da educação moderna".

O seu artigo foi um relato pró-stalinista do sistema educacional no país e uma glorificação da burocracia stalinista. Era o tipo de artigo que só poderia ter sido escrito por um stalinista ou por alguém alinhado aos stalinistas.

O relatório de Ageloff elogiava especificamente os avanços que haviam sido realizados pelas "autoridades" na União Soviética "desde a deposição de Lunacharsky como Comissário de Educação Pública". Anatoly Lunacharsky foi deposto de sua posição em 1929 na campanha da burocracia para isolar qualquer pessoa associada a Trotsky, que havia sido expulso da União Soviética.

O artigo de Hilda Ageloff elogiava o fato de que "as autoridades embarcaram hoje em um programa de construção estável nos principais centros industriais e regiões agrícolas coletivizadas". Promovendo sem críticas a narrativa stalinista, ela escreveu: "As autoridades estão lutando muito" e estão realizando "um grande trabalho humanitário". Ao estilo da publicação Pravda, Ageloff escreveu que o sucesso do "próximo Plano Quinquenal” irá “depender dos jovens comunistas, os pais do futuro".

Apesar de alguns americanos terem conseguido viajar para a União Soviética durante esse período para fins de intercâmbio profissional e cultural, conseguir um encontro com a viúva de Lenin, entre as figuras mais proeminentes da União Soviética, para discutir a política de educação estatal não foi, como o Brooklyn Daily Eagle apontou, "nada fácil de organizar". Hilda Ageloff não poderia ter se encontrado com a viúva de Lenin sem a aprovação dos mais altos escalões do governo soviético, ou seja, do próprio Stalin. A família Ageloff tinha a confiança das autoridades soviéticas que possibilitaram a sua viagem.

Em sua viagem à Europa, Hilda havia sido acompanhada por suas irmãs, embora não esteja claro se elas a acompanharam à Rússia. Porém, Gregorio Luri escreveu em sua biografia sobre a família Mercader: "No final de agosto de 1931, as três irmãs voltaram aos Estados Unidos convencidas de que o futuro da humanidade passava pela URSS". [8] Nesse momento, Sylvia tinha 22 anos de idade e Ruth apenas 18.

Ruth Ageloff

Ruth Ageloff, a irmã mais nova de Sylvia, também teve uma vida política e se casou com um homem de outra família política complicada.

Segundo Christopher Phelps, o autor do livro O jovem Sidney Hook: Marxista e Pragmatista, Ruth e Sylvia foram chamadas a entrar no Partido dos Trabalhadores Americano (AWP), um partido de esquerda liderado pelo pastor radical, A.J. Muste, sob o conselho de James Burnham e Hook, que eram professores da Universidade de Nova York (NYU) quando Ruth e Sylvia eram estudantes na instituição. [9] Peculiarmente, Phelps declarou em nota de rodapé biográfica que as irmãs Ageloff "recusaram todas as entrevistas desde então e se recusaram a ser entrevistadas para esta biografia". [10]

Ruth Ageloff também serviu como secretária de Trotsky na Cidade do México a partir de 1937, aos 23 anos. Não está claro como ela obteve essa posição. Muito provavelmente, ela ofereceu seus serviços como voluntária. Dada a segurança frágil mantida pelos trotskistas americanos, a sua fluência em russo foi suficiente para permitir que ela fosse enviada ao México. Esse era um método empregado pelos stalinistas para infiltrar agentes na pequena equipe do SWP. Apenas um ano depois, em 1938, Sylvia Callen, uma stalinista de Chicago, mudou-se para Nova York e se ofereceu para trabalhar no escritório nacional do SWP. Em questão de meses, ela se tornou a secretária pessoal do líder do SWP, James P. Cannon.

Foto da Revista Time mostra Hilda e Ruth Ageloff em um encontro com Trotsky

O obituário de Ruth Ageloff (nome de casada, Poulos), publicado em 4 de fevereiro de 2009 no New York Times, diz:

POULOS-Ruth G. 13 de novembro de 1913 - 31 de janeiro de 2009. Viúva de John G. Poulos, filha de imigrantes russos, Anna Maslow e Samuel Ageloff, e a última das irmãs Ageloff. Bacharel pela Universidade de Nova York e, mais tarde, Mestre pela Universidade de Columbia, graduada pela Associação Nacional de Psicologia para a Psicanálise. Em 1936 [sic] e 1937 ela viveu na Cidade do México como secretária de Leon Trotsky e da Comissão John Dewey. Com seus 50 anos de idade, ela se tornou psicoterapeuta e trabalhou até os 80 anos de idade. [11]

Trotsky chegou ao México apenas em janeiro de 1937. Ruth trabalhava para Trotsky no México e, segundo Sylvia, ela havia sido recomendada por James P. Cannon. O criminólogo mexicano, Martín Gabriel Barrón Cruz, escreveu que, após o assassinato, as autoridades mexicanas "questionaram Sylvia em relação a quem havia recomendado Ruth a Trotsky e ela confessou que havia sido Cannon, "observando que sempre que qualquer pessoa nos Estados Unidos queria se relacionar com Trotsky, isso era feito através do Partido Socialista dos Trabalhadores [12] [e, dessa forma, sua irmã] obteve acesso apresentando ela a Trotsky". [13]

A vida política de Ruth continuou depois de seu trabalho no México. Em junho de 1940, após retornar da Cidade do México, Ruth se casou com John Poulos (1911-1980), um sindicalista que obteve destaque durante o movimento grevista dos anos 1930 e se tornou delegado para o congresso de fundação do Congresso de Organizações Industriais (CIO) em 1938, e membro do Comitê Nacional do Partido Socialista dos Trabalhadores. Mais tarde, Poulos deixaria o SWP para se juntar ao Partido dos Trabalhadores liderado por Max Shachtman. Ele permaneceu ativo no movimento Shachtmanista até o fim de sua vida, contribuindo regularmente para a publicação do partido, o Labor Action.

O irmão e colaborador próximo e de longa data de Poulos, Constantine Poulos, foi empregado durante a Segunda Guerra Mundial pela Agência de Notícias no Exterior, que foi financiada e utilizada pela inteligência britânica para fornecer credenciais de imprensa aos seus agentes. [14] Ele também tinha uma história política complexa e aparentemente era um stalinista. Durante a Guerra Civil da Grécia, Constantine Poulos foi o primeiro jornalista americano a ser incorporado à milícia EAM-ELAS, dirigida pelo Partido Comunista. Após a guerra civil, ele serviu como um intermediário entre os negociadores americanos e a liderança stalinista do EAM-ELAS. Depois, Constantine foi expulso da Grécia pelo governo monarquista por suas ligações com o Partido Comunista. Nos anos 1950, John foi colocado na lista negra e afastado de suas funções no sindicato dos trabalhadores automotivos, o UAW. [15]

John Poulos e Ruth Ageloff permaneceram casados até a morte de Poulos em 1980. O seu filho, Eric Poulos, que já havia dado entrevistas sobre a mãe e as tias, foi contatado por este autor, mas não respondeu a um pedido de comentário.

Sylvia Ageloff

Sylvia Ageloff tinha 29 anos de idade em meados de 1938 quando decidiu viajar para a Europa. Desde a viagem de sua irmã Hilda à União Soviética sete anos antes, Ageloff havia viajado várias vezes, obtido um diploma avançado e se envolvido profundamente na política socialista.

Além do inglês, Ageloff era fluente pelo menos em francês e russo. Ela havia terminado o ensino médio com uma especialização em teatro. Mais tarde, ela colocaria suas habilidades de atriz em prática no desfecho do assassinato de Trotsky. Ageloff continuou a sua educação após terminar o ensino médio. Em uma época em que era raro mulheres terem uma educação universitária e, mais ainda, uma pós-graduação, ela completou a faculdade com um diploma de bacharel em Psicologia pela Universidade de Nova York. Em seguida, Ageloff obteve um mestrado em Psicologia Infantil pela Universidade de Columbia em 1934.

Um relatório do FBI datado de 3 de setembro de 1940, preparado pelo agente George J. Starr, forneceu uma revisão detalhada da história política de Ageloff, compilada através de entrevistas com informantes.

Ageloff apoiou o pastor radical, A.J. Muste, tanto no Congresso para Ação Trabalhista Progressista (CPLA) quanto no Partido dos Trabalhadores Americano (AWP), que foi criado em 1933. Ela então aderiu ao Partido dos Trabalhadores (EUA) – o produto da fusão entre o AWP e a trotskista Liga Comunista dos EUA (CLA), em dezembro de 1934.

O relatório do FBI explica que Ageloff havia entrado inicialmente no AWP com suas irmãs.

O Partido dos Trabalhadores (EUA) foi uma formação política ampla e heterogênea formada durante a Grande Depressão e a onda de greves, que radicalizaram amplos setores da classe trabalhadora e da classe média. A fusão com o AWP tinha como objetivo proporcionar ao movimento trotskista americano um meio mais amplo no qual ele pudesse educar e trazer as camadas radicalizadas para o marxismo genuíno.

O AWP era composto por radicais e líderes trabalhistas que haviam se destacado na greve da Auto-Lite de 1934 em Toledo, Ohio, e também através da formação de conselhos para o desemprego pelo partido, em grande parte nas regiões industriais do Meio-Oeste e regiões empobrecidas nos Apalaches. O AWP era amorfo em composição social e eclético em sua promoção da política socialista. Porém, o partido se opôs ao stalinismo e conquistou um seguimento importante entre os trabalhadores e os desempregados.

A fusão com o movimento trotskista perturbou a direita do AWP, fazendo com que líderes do partido, como Louis Budenz e Harry Howe, rompessem com o Partido dos Trabalhadores (EUA) e se juntassem ao movimento stalinista. A fusão também perturbou a seção de cristãos progressistas abastados, que haviam apoiado financeiramente Muste e o AWP desde que isso implicasse principalmente no apoio radical aos desempregados. Esses apoiadores financeiros se afastaram conforme Muste e seu movimento flertaram com a política revolucionária.

Meses após a sua formação em 1934, o Partido dos Trabalhadores (EUA) foi lançado em uma série de conflitos em torno da proposta dos trotskistas de entrada no Partido Socialista (SP), que vinha atravessando um crescimento do número de membros e uma radicalização de sua linha política. Quando os membros trotskistas do Partido dos Trabalhadores (EUA) entraram no SP em 1936, o Partido dos Trabalhadores (EUA) já havia deixado de existir.

Ageloff, primeiro dentro do SP e, depois, dentro do SWP, era aparentemente próxima ao grupo de trotskistas de Nova York em torno de Martin Abern, um antigo membro do Trabalhadores Industriais do Mundo (IWW) e líder do movimento comunista da juventude nos anos 1920. Ele foi expulso do Partido Comunista em 1928 por seu apoio a Trotsky e se tornou um membro fundador do CLA com Cannon e Shachtman. Embora Abern tivesse desempenhado um papel corajoso na criação do CLA, a sua propensão à formação de pequenos grupos127053224 fez dele um pólo de atração para elementos pequeno-burgueses, especialmente na filial do partido em Nova York.

Ageloff se tornou membro do Partido Socialista dos Trabalhadores em sua criação em janeiro de 1938, mas apoiou a tendência da oposição minoritária liderada por Shachtman e Abern durante a luta entre frações de 1939-40. Em abril de 1940, ela deixou o SWP e entrou para o Partido dos Trabalhadores, criado pela minoria após a sua saída do SWP.

James Cannon, Martin Abern, Max Schachtman

A formação como psicóloga especialista de Ageloff

Em sua vida profissional, Ageloff foi uma psicóloga especializada, treinada para observar atentamente as pessoas e ouvir o que elas diziam. A sua tese de mestrado, intitulada "Um estudo do 'prestígio' e fatores 'objetivos' na sugestibilidade em uma comparação com diferenças sexuais e raciais", permanece arquivada na Biblioteca Butler da Universidade de Columbia.

A tese de Ageloff abordou a suscetibilidade das pessoas a serem enganadas por indivíduos que elas respeitam. Ela realizou uma extensa pesquisa e realizou testes sobre o tema da "sugestibilidade". As suas pesquisas a levaram a concluir que os indivíduos são psicologicamente suscetíveis a abandonar o bom senso quando pressionados por pessoas que respeitam. Essa era uma área curiosa de especialização para uma mulher que, mais tarde, afirmaria que ela própria foi enganada por Mercader.

Tese de 1934 de Sylvia Ageloff

A Associação de Psicologia Americana (APA) define "sugestibilidade" como "uma propensão a adotar pronta e acriticamente as idéias, crenças, atitudes ou ações de outros". A APA define "sugestão de prestígio", que foi o foco específico da tese da Ageloff, como "uma mensagem cuja capacidade de persuasão deriva da sua forma de transmissão ou a atribuição a uma pessoa de sattus reconhecido".

A dissertação da Ageloff testou crianças de escolas negras e brancas para determinar a sua suscetibilidade às declarações de uma figura que respeitavam – seu professor – mesmo quando as diretrizes do professor se tornavam cada vez mais duvidosas e inapropriadas. Ageloff delineou a sua abordagem: "Propomos aqui estudar as diferenças entre os mesmos grupos raciais, ou seja, brancos e negros, mas com uma série de testes" destinados a medir "a influência pessoal do experimentador". Ela antecipou que, quando uma criança era influenciada pela figura respeitada, "a pessoa pode mostrar uma tendência a formar julgamentos errôneos" ou "agir imitando o outro ou agir sob a sua influência", ao contrário de quando a criança simplesmente recebeu sugestões escritas ou instruções orais de um estranho. [16]

Eric M. Gurevitch, parente das irmãs Ageloff e autor do artigo de 2015, "Pensando com Sylvia Ageloff" publicado em Hypocrite Reader, foi a primeira pessoa a alugar a tese de Ageloff na biblioteca da Universidade de Columbia. Em uma entrevista com este escritor, Gurevitch disse: "Às vezes ela é descrita como a idiota enganada, às vezes ela é a mulher judia sexualmente frustrada e feia, ou variações dessas narrativas". Porém, esses são apenas clichês e imagens". Ele acrescentou mais tarde: "O que quer que se pense que aconteceu, ela não era idiota". [17]

Gurevitch explicou: "A dissertação, sua tese de mestrado, é claramente algo que foi produzido sob a orientação de psicólogos sociais realmente de vanguarda. Ela tem um verdadeiro entendimento deste campo novo e emergente da psicologia social".

"A sua pesquisa é sobre essa idéia de 'quem é ingênuo'", disse Gurevitch. "A parte engraçada de tudo isso é que a história é inteiramente sobre como você se molda às coisas que outras pessoas querem imprimir em você. É curioso que isso seja algo que a interessa muito".

Roberta Satow, autora de Duas Irmãs de Coyoacán, que também é psicanalista de profissão, explicou: "Pode-se dizer que sugestibilidade é uma forma de sedução”, e ela foi seduzida, então é fascinante que esse tenha sido o tema da sua dissertação". [18]

A história de que Ageloff foi "enganada" só é plausível se for aceito que ela nunca considerou a possibilidade de estar sendo enganada. Porém, como a sua tese mostra, Ageloff havia estudado com profundidade o próprio fenômeno do qual ela foi supostamente vítima apenas alguns anos mais tarde.

Meados de 1938: Ageloff viaja à Europa para a conferência de criação da Quarta Internacional

A viagem de Ageloff à Europa no verão de 1938, durante a qual ela conheceu Mercader (que utilizava o nome de "Jacques Mornard"), foi uma experiência crucial em sua vida. A sua viagem não foi uma viagem a lazer, como ela afirmaria mais tarde. Ao contrário, um exame das suas atividades na Europa estabelece que a Ageloff estava envolvida em trabalhos políticos relacionados à preparação da conferência de criação da Quarta Internacional, realizada em setembro de 1938. No livro Esta é minha história, o líder do Partido Comunista, Louis Budenz, que, em 1938, estava coordenando os esforços de infiltração da GPU no SWP, referiu-se a Ageloff como um "correio" para o movimento trotskista.

A viagem de Ageloff à Europa teve como contexto o Grande Terror de Stalin e uma campanha de extermínio de membros da Quarta Internacional na Europa pela GPU. Dificilmente era o momento e o lugar para um trotskista tirar férias. O contexto da sua viagem torna ainda mais inexplicável a sua escolha de parceira de viagem, a stalinista Ruby Weil.

Em fevereiro de 1938, semanas antes de Ageloff decidir viajar para a Europa, a rede da GPU havia assassinado o filho de Trotsky, Leon Sedov, na clínica Mirabeau, em Paris. O agente da GPU, Mark Zborowski, cujo nome partidário dentro do movimento trotskista francês era Etienne, forneceu à GPU informações decisivas que permitiram a execução do assassinato. Zborowski também estava envolvido na organização de três outros assassinatos: 1) Erwin Wolf, secretário político de Trotsky, que foi assassinado pela GPU após entrar na Espanha em julho de 1937; 2) Ignace Reiss, ex-integrante da GPU que havia desertado e foi assassinado na Suíça em setembro de 1937; e 3) Rudolf Klement, secretário da Quarta Internacional, que foi assassinado em Paris em julho de 1938.

Em meio a essa chacina, onde os trotskistas eram alvo dos stalinistas, Sylvia Ageloff viajou para Paris com alguém que ela sabia ser uma stalinista ativa: a agente da GPU, Ruby Weil. [19]

O que Sylvia Ageloff sabia sobre a sua parceira de viagem, a agente da GPU, Ruby Weil em 1938?

Ageloff declarou mais tarde que não sabia que Weil era uma agente stalinista e concordou em viajar com ela para a Europa porque elas eram amigas. Essa amizade se tornou um aspecto decisivo da falsa história stalinista utilizada nos planos para introduzir Mercader/Mornard nos círculos trotskistas. Se alguma vez lhe perguntassem como entrou em contato com o movimento, ele poderia explicar inocentemente que a sua conhecida, Ruby Weil, apresentou ele à sua amiga Sylvia.

Foto do colégio de Ruby Weil, Evansville, Indiana

Porém, se Sylvia Ageloff sabia que Ruby Weil estava no Partido Comunista, por que ela viajaria com Weil em uma viagem para preparar a conferência secreta de criação da Quarta Internacional, especialmente durante o Grande Terror stalinista e em condições nas quais a GPU estava matando trotskistas em Paris e em toda a Europa?

Investigar o que Sylvia Ageloff e suas irmãs sabiam sobre os Weils na época em que decidiram viajar juntas à Europa requer uma revisão das suas declarações após o assassinato de Trotsky.

Em dezembro de 1950, Sylvia e Hilda Ageloff foram chamadas para testemunhar perante o Congresso sobre o assassinato de Trotsky e sobre o papel da GPU no mesmo. Ambas as irmãs declararam saberem que Weil era ativa no movimento stalinista: "Os rumores eram de que ela estava se unindo ao Partido Comunista", disse Sylvia Ageloff sob juramento. [20]

Em seu testemunho, Hilda Ageloff explicou que conheceu Ruby Weil "no Partido dos Trabalhadores Americano ao qual pertencíamos em 1936 ou próximo dessa data". [sic: o AWP se fundiu com o CLA trotskista e deixou de existir como uma organização independente em dezembro de 1934]. Ruby Weil trabalhava no jornal com seu cunhado, Harry Howe. Foi assim que eu a conheci. Depois, ela deixou o partido e parou de trabalhar no jornal. Harry Howe também deixou o jornal, eu acredito". [21]

Em 1940, Sylvia Ageloff disse à polícia mexicana durante o interrogatório logo após o assassinato de Trotsky que, na época em que concordou em viajar com Ruby Weil, ela sabia da filiação stalinista de Weil. Uma transcrição de uma entrevista policial diz: "Ela sabia que o marido de uma das [as irmãs Weil], chamado Harry Howe, havia pertencido ao AWP e que, mais tarde, filiou-se aos stalinistas. Howe vive atualmente em Nova York, mas ela não sabe seu endereço". [22]

Harry Howe não era apenas um apoiador de A.J. Muste. Em 1935, Howe havia sido o editor adjunto do New Militant, o jornal do Partido dos Trabalhadores (EUA), que havia sido formado após a unificação do AWP Musteista e do CLA trotskista. O nome de Howe aparece ao lado de Cannon na lista de editores do jornal. [23] Howe havia sido um membro proeminente da Escola Trabalhista de Nova York, dirigida pelo Congresso para Ação Trabalhista Progressiva, dirigido por Muste, e foi listado como palestrante de um curso de jornalismo trabalhista em 1932. [24]

Cartas privadas mostram que Howe havia sido muito hostil à fusão com os trotskistas. Uma carta de 1934 escrita por Howe a um colega do AWP deixa clara a sua hostilidade ao trotskismo: "Estamos nos movendo na direção desse sectarismo que temos negado tão ferozmente". O partido estava "indo para a esquerda tão rápido ... Estou ficando bastante cansado desse negócio de competir com todos os outros pequenos grupos pela pureza revolucionária". [25]

A biógrafa de Muste, Leilah Danielson, disse que Howe estava entre "os mais importantes líderes nacionais" do AWP. Após a fusão com o CLA, Howe seguiu a liderança de Budenz e abandonou o Partido dos Trabalhadores (EUA) em 1935. [26]

A esposa de Howe era irmã de Ruby Weil, Marion Weil. Mais tarde, em 25 de setembro de 1940, em um comunicado do consulado mexicano ao Departamento de Estado dos EUA, foi revelado que Joseph Hansen havia dito ao governo dos EUA que, quando decidiu viajar com Ruby Weil, Sylvia Ageloff sabia que sua irmã Marion também era stalinista e que uma terceira irmã de Weil, Gertrude, também poderia ter estado envolvida na organização do encontro entre Ageloff e Mercader. O comunicado, divulgado através da investigação Segurança e a Quarta Internacional, diz:

O Sr. Hansen disse que informações valiosas poderiam ser obtidas da seguinte maneira: o Departamento deve se lembrar de uma menção a Ruby Weil em mensagens [sic] anteriores deste escritório. Ela, segundo Hansen, é uma de três irmãs, sendo as outras duas Gertrude e Marian. [27] A primeira é casada com um rabino e mora em Albuquerque, Novo México; nunca esteve envolvida em política de qualquer tipo, embora ela tenha sido mencionada em uma carta de Marian endereçada a Sylvia Ageloff, em Paris, em 1938, estando interessada em um encontro entre Sylvia e Jacson. A explicação de Hansen para o uso do nome de Gertrude nesse contexto é que Marian é uma stalinista radical e devota há muito tempo, e que, se ela se mostrasse como a parte interessada em um encontro entre Jacson e Sylvia, Sylvia poderia ter motivos [sic] para suspeitar de Marian. O Departamento pode ser capaz de obter algumas informações valiosas com Gertrude. Hansen disse que as informações acima foram contadas por Sylvia a seu irmão, Monte.

Hilda Ageloff disse em testemunho mais tarde que as irmãs Ageloff haviam conhecido Marion Weil na época em que Sylvia Ageloff viajou com Ruby Weil: "Uma vez eu liguei para Marion, sua irmã, e perguntei como ela estava, e ela disse que estava indo bem". [28]

O caminho para o local de estudo de Trotsky na vila em Coyoácan (Crédito: David North)

Julho de 1938: Ageloff e “Jacques Monard” se encontram em Paris

No início de julho em Paris, de acordo com a versão incontestada da história, Weil apresentou Ageloff a "Jacques Mornard". Ele tratou Ageloff com ostentação e a induziu a se apaixonar por ele. Mornard disse que era jornalista esportivo, escrevendo para jornais como La Nation Belge, Le Soir, Les Dernieres Nouvelles, Auto e Les Sports. [29] Ele disse que tinha muito dinheiro para gastar porque era filho de um diplomata belga que morreu em 1926.

Em uma declaração feita pela polícia mexicana após o ataque, Ageloff explicou que nunca o havia visto trabalhar ou lido seus artigos publicados. Ela "aceitou como verdade o que Jacson lhe disse", usando o nome "Jacson", que ele utilizou ao chegar na América do Norte em 1939. Ele "sempre teve muito dinheiro e freqüentava os melhores lugares", continuou Ageloff. [30]

A primeira pergunta óbvia é por que Ageloff, uma intelectual com alto grau de formação e supostamente uma socialista revolucionária comprometida com responsabilidades de alto escalão no movimento trotskista, entraria impensadamente em um relacionamento com um “playboy” rico cuja família – supondo que Mornard estivesse falando a verdade – possuía ligações próximas com o reacionário estado belga?

De qualquer forma, era evidente, desde os primeiros estágios do relacionamento de Ageloff com Mornard, que o seu novo amante era um indivíduo muito duvidoso. As circunstâncias do seu encontro inicial eram improváveis e havia contradições gritantes em sua narrativa pessoal. Dado o contexto político – os Processos de Moscou e o terror stalinista na União Soviética e os assassinatos de trotskistas na Espanha (Erwin Wolf), Suíça (Ignace Reiss) e França (Leon Sedov e Rudolf Klement) – é impossível acreditar que Ageloff nunca considerou a possibilidade de que Mornard fosse um agente stalinista.

Continua

***

Notas:

[1] Martín Gabriel Barrón Cruz, “Actuaciones Ministeriales en el Homicidio de León Trotsky,” Instituto Nacional de Ciencias Penales, Mexico D.F., 2018, p. 39.
[2] Excerto de Asaltar los Cielos, (Storm the Skies), 1996 documentário longa-metragem dirigido por Javier Rioyo e José Luis López Linares.
[3] Ibid.
[4] James P. Cannon, The Socialist Party in World War II: Writings and Speeches, 1940 43 (Pathfinder Press, 1975), pp. 81–82.
[5] Veja o site de Satow, disponível em: https://www.twosistersofCoyoacán.com/about
[6] Aisha Carter, “Sunny East Village Pad in Ageloff Towers Is the Perfect Starter Apartment,” 6 Sq Ft, April 16, 2015.
[7] Entrevista com Roberta Satow por Eric London, August 18, 2020.
[8] Gregorio Luri, El Cielo Prometido: Una Mujer al Servicio de Stalin (Barcelona: Editorial Planeta, 2016), p. 214.
[9] O movimento trotskista se fundiria com o AWP em 1934 nos EUA.
[10] Christopher Phelps, Young Sidney Hook: Marxist and Pragmatist (Ann Arbor: University of Michigan Press, 2005), p. 111 n. 32. Publicado pela primeira vez pela Cornell University Press em 1997. Phelps indica que conduziu a sua pesquisa quando as três irmãs estavam vivas.
[11] Disponível aqui.
[12] O movimento trotskista nos EUA formou o Partido Socialista dos Trabalhadores (SWP) em janeiro de 1938.
[13] Barrón Cruz, pp. 54–55.
[14] P.J. Grisar, “Sharks Defending Britain from Nazis? How ‘Fake News’ Helped Foil HitlerForward, October 22, 2018. (“A publicação fornecia credenciais de imprensa para os espiões britânicos.”)
[15] Dan Georgakas, “The Greeks in America”, Journal of the Hellenic Diaspora, NY, Spring-Summer 1987, Vol. 14 Nos. 1 and 2, pp. 29–31.
[16] Sylvia Ageloff, “A Study of ‘Prestige’ and ‘Objective’ Factors in Suggestibility In A Comparison of Racial and Sex Differences,” maio de 1934, disponível na Biblioteca Butler, Universidade de Columbia.
[17] Entrevista com Eric M. Gurevitch por Eric London, August 17, 2020.
[18] Entrevista com Roberta Satow por Eric London, August 18, 2020.
[19] O custo de $200 de um quarto médio em um navio de passageiros transatlântico também era proibitivo para a maioria em 1938. Veja aqui folhetos com preços em 1938). Corrigindo para os preços atuais, um ingresso médio custaria $3.700.
[20] American Aspects of the Assassination of Leon Trotsky, US House of Representatives Committee on Un-American Activities, 1950, p. 3,402.
[21] Ibid., p. 3,407.
[22] Barrón Cruz, p. 163.
[23] Veja aqui por exemplo.
[24] Veja, por exemplo, Labor Age of November, 1932, p. 2.
[25] Leilah Danielson, “Howe to Hardman, June 21, 1934,” American Gandhi: AJ Muste and the History of Radicalism in the Twentieth Century (Philadelphia: Penn Press, 2014), p. 188.
[26] Ibid., p. 404 n. 57.
[27] A maior parte das referências soletra o nome da irmã de Ruby Weil como “Marion,” não “Marian.”
[28] American Aspects of the Assassination of Leon Trotsky, p. 3,409.
[29] Eduard Puigventós López, Ramón Mercader, el Hombre del Piolet: Biografía del asesino de Trotsky (Barcelona: Now Books, 2015), e-book na locação 2.424.
[30] Ibid. na locação 2.415.

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