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Reabertura de escolas em Manaus fez surgir variante Gama, mostra estudo

Publicado originalmente em 20 de outubro de 2021

À medida que as escolas estão reabrindo em todo o mundo, o papel delas como vetores da propagação do novo coronavírus está ficando cada vez mais claro, com um número crescente de crianças sendo infectadas e mortas.

Nos EUA, após a reabertura de escolas, a primeira semana de setembro registrou um aumento de 240% nos casos em crianças em relação ao final de julho. Nos últimos dois meses, 164 crianças morreram por COVID-19, uma média de quase 3 mortes por dia.

No Brasil, crianças e jovens de até 19 anos representavam 2,5% dos casos e 0,6% das mortes por COVID-19 em dezembro de 2020. No final de agosto deste ano, um mês após a maior reabertura de escolas desde o início da pandemia, esses números aumentaram para 17% e 1,5%, respectivamente. O Brasil já registrou a morte por COVID-19 de 2.398 crianças e jovens de até 19 anos, o maior número do mundo.

Coveiros colocam cruzes sobre uma vala comum depois de enterrar cinco pessoas no cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus, em 13 de maio de 2020. (AP Photo/Felipe Dana)

Isso está acontecendo apesar de muitos estudos, publicados nas maiores revistas científicas do mundo, terem alertado para o papel de escolas e crianças como vetores de transmissão do vírus. Esse experimento criminoso com a vida humana – particularmente a das crianças, o setor mais vulnerável da sociedade, que deveria estar sendo mais bem protegido em meio a uma pandemia ainda fora de controle – é uma condenação de toda a elite dominante mundial, que tem se recusado a implementar medidas amplamente conhecidas pela ciência para garantir os seus interesses de lucro.

No final de agosto, um estudo publicado no Journal of Public Health Policy ajudou a esclarecer ainda mais o papel de escolas na dinâmica da pandemia. Liderado pelo pesquisador Lucas Ferrante, do renomado Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), o estudo “How Brazil’s President turned the country into a global epicenter of COVID-19” (“Como o Presidente do Brasil transformou o país no epicentro global da COVID-19”) mostrou que a reabertura de escolas em Manaus, capital do Amazonas, em setembro do ano passado fez surgir a variante Gama mais contagiosa, que impulsionou a segunda onda em março-abril deste ano e foi a responsável por dois terços das mais de 600 mil mortes por COVID-19 no Brasil.

Manaus pode ser considerada o maior laboratório a céu aberto para o novo coronavírus. Por duas vezes, a cidade foi o símbolo da resposta negligente e criminosa da elite dominante brasileira à pandemia, expressa da maneira mais cruel pelo presidente fascistoide Jair Bolsonaro e seu aliado local, o governador Wilson Lima.

Na primeira onda, em abril-maio de 2020, Manaus chocou o mundo depois de ser a primeira cidade brasileira a começar a enterrar os mortos por COVID-19 em valas comuns. Na segunda onda, em janeiro deste ano, o mundo assistiu perplexo a pacientes morrendo por falta de oxigênio, enquanto o governo federal pressionava a cidade a usar hidroxicloroquina e ivermectina em pacientes com COVID-19, dois medicamentos cuja ineficácia já estava amplamente demonstrada pela ciência.

Mobilidade urbana em Manaus (Crédito: Nota técnica: Reavaliação da pandemia de COVID-19 em Manaus e necessidade de medidas restritivas para conter terceira onda)

De acordo com o artigo, “o retorno das aulas presenciais em 24 de setembro pode ser considerado um dos desencadeadores da segunda onda”. Três semanas depois, período que corresponde ao ciclo viral, “o número de hospitalizações dobrou, seguido de um aumento mais gradual até o colapso da saúde em dezembro de 2020.”

Em uma Nota Técnica referenciada no artigo, em que o modelo epidemiológico que sustenta as suas descobertas é apresentado detalhadamente, os autores mostram que a mobilidade do transporte público de Manaus logo depois do retorno das aulas presenciais aumentou 20%. Até meados de dezembro, quando terminou o ano letivo, foram registrados aumentos de mais de 40% na mobilidade urbana na cidade.

Baseando-se no modelo SEIRS (Susceptíveis – Expostos –Infectados – Recuperados e novamente Susceptíveis), que é amplamente utilizado por epidemiologistas de todo o mundo, o artigo afirma que, além da reabertura de escolas ter causado a segunda onda em Manaus, também levou ao “surgimento da variante Gama que potencializou a crise e rapidamente se espalhou pelo Brasil”.

O modelo SEIRS leva em consideração vários parâmetros para entender a dinâmica da pandemia e realizar previsões. Entre esses parâmetros estão, como o próprio nome diz, o número de pessoas que podem ser infectadas, o número de infectados e o número de recuperados, além da mobilidade urbana, o tempo que o infectado pode transmitir o vírus e a taxa de reprodução viral.

Esse modelo preditivo, porém, pode também ser utilizado de maneira retrospectiva, alterando os seus parâmetros para verificar o que determinou a situação atual da pandemia. Foi isso o que o estudo fez. Como o mostra o gráfico abaixo, o número de internações diárias em Manaus (linha amarela) é mais bem estimado quando se leva em consideração a circulação de uma variante duas vezes mais infecciosa (linha azul), como a variante Gama, do que a original (linha verde), responsável pela primeira onda. Assim, segundo o estudo, é possível verificar que a data de surgimento da variante Gama coincide com o aumento da mobilidade urbana causado pela reabertura de escolas.

Internações diárias por COVID-19 registradas em Manaus (amarelo); internações diárias por COVID-19 estimadas pelo modelo SEIRS (linha preta); internações pela cepa original estimadas pelo modelo SEIRS (linha verde); internações pela cepa P.1 (Gama) estimadas pelo modelo SEIRS (linha azul) (Crédito: Nota técnica: Reavaliação da pandemia de COVID-19 em Manaus e necessidade de medidas restritivas para conter terceira onda)

A Nota Técnica diz que essa descoberta é reforçada por análises filogenéticas da FIOCRUZ. De acordo com ela, nenhum caso da variante Gama foi detectado em Manaus em novembro de 2020, enquanto em dezembro a predominância da variante na cidade era de 51%. No fim de janeiro deste ano, no pico da segunda onda, esse número chegou a 91%. Com isso, os pesquisadores puderam descartar “possibilidade de que a variante Gama tenha surgido por causa das eleições de novembro de 2020 ou pelas festas de Ano Novo”, eventos que apenas aumentaram a transmissão comunitária.

O modelo SEIRS, a Nota Técnica conclui, mostrou que “a segunda onda já havia começado em outubro, e foi potencializada pelo surgimento da variante P.1 [Gama] em novembro.” Portanto, a causa tanto dessa segunda onda quanto “do surgimento da variante P.1 por mutações, devido à maior circulação viral … com o aumento da circulação urbana que se deu em Manaus a partir de 24 de setembro de 2020, [foi] o retorno das aulas presenciais.”

As descobertas do estudo também reforçam o papel ativo das crianças na propagação do vírus. De fato, um estudo de fevereiro publicado na Scientific Report mostrou que “a carga viral em crianças não difere significativamente daquela de adultos”, enquanto um outro estudo de pesquisadores da Universidade de Montreal e da Universidade de George Washington descobriu que a infecção em crianças antecedeu a de adultos, indicando que estavam infectando seus parentes.

Em uma condenação política dos governos federal e estadual, o artigo diz que “o surgimento da variante Gama em Manaus ocorreu devido à ... estratégia do governo de incentivar o contágio de crianças com o retorno às aulas presenciais para que a população atingisse a imunidade de rebanho.”

Recentemente, isso foi substanciado pelas revelações da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Senado brasileiro que investiga a conduta do governo federal no combate à pandemia. O relatório da CPI, que será votado na semana que vem, acusa Bolsonaro de 11 crimes, entre eles o de “charlatanismo” ao promover medicamentos sem eficácia contra a COVID-19, “epidemia com resultado morte”, “crime contra a humanidade” e “homicídio comissivo por omissão”.

O fundamento das acusações desses crimes é uma ação deliberada de Bolsonaro em deixar o vírus se espalhar para que a população adquirisse uma imunidade de rebanho por contágio, algo que a ciência há muito tempo descartou com uma doença tão infecciosa e letal como a COVID-19. No Brasil, segundo um estudo realizado pelo epidemiologista Pedro Hallal, da Universidade Federal de Pelotas, isso levou a 400 mil mortes que poderiam ter sido evitadas caso tivessem sido implementadas medidas de isolamento social e vacinas tivessem sido adquiridas mais cedo.

A política de imunidade de rebanho do governo brasileiro, segundo o artigo, tem também ameaçado o mundo, colocando “em risco o controle da pandemia em escala global porque, se surgirem variantes resistentes às vacinas no Brasil, isso colocaria em xeque os programas de vacinação de outros países. Esse não é um cenário puramente hipotético, pois somente nos últimos dois meses foram identificadas três novas variantes no Brasil, que atualmente tem pelo menos 92 cepas em circulação e pode ser considerado um viveiro de novas variantes do SARS-CoV-2.”

As ações de Bolsonaro, que representa de maneira mais cruel toda a barbárie de um sistema que coloca o lucro acima da vida humana, possuem claras referências históricas. Durante a pandemia, a elite dominante mundial ressuscitou as mais reacionárias ideologias anticientíficas que justificaram as guerras imperialistas e as ditaduras fascistas – do malthusianismo, passando pelo darwinismo social até a eugenia – para normalizar as mortes em massa. O artigo coloca de maneira inequívoca Bolsonaro nessa tradição, citando o jurista Pedro Serrano, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo: “No campo filosófico político e moral, ... Auschwitz esteve para o exercício do poder político em tempos de guerra como Manaus está para o exercício do poder político em questões sanitárias”.

Por outro lado, todo o esforço científico mobilizado globalmente para combater o vírus mortal e salvar vidas ao longo da pandemia tem revelado todo o caráter progressista da ciência, que tem convergido com os interesses da ampla maioria da população mundial.

É sob essa base científica que o World Socialist Web Site e a Aliança Operária Internacional de Comitês de Base (AOI-CB), do qual o Comitê de Base pela Educação Segura no Brasil faz parte, têm defendido o fechamento de escolas como parte de uma estratégia de erradicação global da COVID-19 a partir da mobilização independente da classe trabalhadora internacional. Para levar essa luta adiante, fazemos um chamado para que todos participem do evento online de 24 de outubro “Como acabar com a pandemia: A necessidade da erradicação.”

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