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Pai do RJ denuncia reabertura total das escolas no Brasil

Estudante realizando uma prova no Amazonas, o primeiro estado brasileiro a reabrir escolas em 2020 (Crédito: Seduc/Amazonas)

Enquanto o presidente Jair Bolsonaro está sendo indiciado por crimes contra a humanidade por sua política homicida de “imunidade de rebanho” em resposta à pandemia de COVID-19, governantes de todo o Brasil estão ampliando radicalmente a reabertura de escolas. O efeito previsível dessa medida será a contaminação e mortes em massa de crianças e adolescentes.

O Brasil continua registrando números graves da pandemia, acima de 12 mil casos e 350 mortes diários. Cientistas sérios, como o neurocientista Miguel Nicolelis, continuam alertando para subnotificação gritante no país e à iminência de uma nova explosão de casos e mortes impulsionada pela variante Delta do coronavírus.

Como parte dos esforços para declarar um fantasioso “fim da pandemia”, estados como Rio de Janeiro e São Paulo, governados pelos partidos abertamente de direita PSC e PSDB, assim como Ceará e Bahia, governados pelo supostamente “progressista” Partido dos Trabalhadores (PT), decretaram o fim de qualquer distanciamento social dentro das escolas. Os chamados sistemas híbridos de ensino, com revezamento entre aulas presenciais e online, estão sendo substituídos por aulas exclusivamente presenciais em salas de aulas lotadas com crianças não vacinadas.

Há uma oposição crescente de pais e educadores brasileiros a essa política criminosa. Publicamos aqui um depoimento do músico Anderson Pequeno, que possui um filho de seis anos matriculado na rede pública municipal do Rio de Janeiro. Ele está lutando ativamente contra a campanha de desinformação dos governos e da mídia corporativa e exigindo uma educação segura no Brasil.

Com o objetivo de unificar a luta de pais como Anderson a de outros trabalhadores ao redor do mundo, e armá-los com os conhecimentos científicos mais avançados sobre a pandemia de COVID-19, o World Socialist Web Site e a Aliança Operária Internacional de Comitês de Base (AOI-CB) realizarão no próximo domingo, 24 de outubro, o evento online “Como acabar com a pandemia”.

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WSWS: Você pode falar sobre a situação que está vivendo com seu filho e o que o governo do RJ está impondo a pais como você?

Anderson: Eu moro com minha mãe e tenho a guarda compartilhada do meu filho, pois eu e a mãe dele somos separados. Quando começou a pandemia, com medo de colocar sua avó em risco, fiquei um tempo sem vê-lo. Nos víamos somente por videochamada. Mas, em outubro de 2020, minha mãe foi para casa das irmãs e eu comecei a ficar com meu filho, semana sim e semana não.

No ano passado, meu filho estava com atividades apenas online. Nós conseguíamos fazer as atividades próprias para a idade dele, passadas pela professora. Estávamos seguros dentro de casa e isso era o mais importante para mim. Mas este ano rolou uma pressão muito grande para as escolas voltarem. Eu não era a favor, mas a mãe dele sim.

Na semana que começariam as aulas, a diretora e uma das professoras da escola do meu filho, que já tinham voltado para preparar a escola, foram contaminadas pelo coronavírus. A escola suspendeu o reinício. Após uma semana, tivemos a notícia de que a diretora da escola faleceu. Foi bem pesado para os professores e para nós como família saber que ela faleceu no meio dessa pandemia, uma semana antes de começar o ensino presencial proposto.

Depois de ver essa desgraça de perto, eu imaginava que meu filho não voltaria para a escola. Mas a mãe dele quis. Quando a escola reabriu, ele voltou ao ensino presencial de forma híbrida, com divisão da sala para ficar com poucos alunos. Ia um grupo a cada semana, com atividades online para quem ficava em casa.

Durante esse período de ensino híbrido, teve contaminações na escola, porém ela não fechou. Acho que só a turma com alguém contaminado foi fechada, algo que eu também achei absurdo. Eu acredito que professores e diretores deviam estar recebendo uma pressão grande para continuar com a escola aberta. Deve ter sido difícil para eles também ter perdido a diretora da escola, estar ali vendo contaminações, mas com uma pressão para continuar com a escola aberta.

Há mais ou menos duas semanas, o prefeito do Rio de Janeiro [Eduardo Paes, do Partido Social Democrático (PSC)] e a Secretaria de Educação anunciaram o retorno de 100% dos alunos, sem distanciamento entre as carteiras. Desde então eu não consigo mais dormir. Não tenho mais paz. Já faz duas semanas que estou vendo alguma forma de ir contra isso.

Anderson Pequeno

Porque ainda estamos com surtos na Inglaterra; crianças sofrendo de COVID longa em Israel; os Estados Unidos com muitas mortes de crianças. Inclusive eu tenho família nos EUA, um sobrinho que se contaminou. Então, estamos assistindo tudo o que acontece lá fora e estamos cometendo os mesmos erros no Brasil.

Não estou vendo a mídia falar sobre essas questões dos outros países, que são gravíssimas nos dias de hoje. Eu já mandei e-mails para deputados, vereadores, senadores e ninguém responde. Parece que está todo mundo concordando, que não estão vendo o que está acontecendo no mundo. No mínimo é isso. Mas, com certeza, tem outras questões no meio.

WSWS: Na sua opinião, que interesses estão envolvidos nessa reabertura irresponsável?

Anderson: Eu acho que os grandes interessados nesse retorno forçado das escolas aqui no Brasil são os canais televisivos, que lucram bastante com as festas de fim de ano e com o carnaval. Mas também há um interesse de políticos, pois em 2022 teremos eleições para presidente, governadores, deputados e senadores e já começam as campanhas. Muitos políticos se diziam defensores da ciência no meio da pandemia, mas já passou esse momento e agora o interesse é só eleitoral.

Eu não posso deixar de citar também os grandes empresários. Nós vimos durante a pandemia o quanto os bilionários ganharam dinheiro em cima de todo o sofrimento. Eles, com certeza, estão interessados em que a vida volte mais rápido ao normal e o lucro deles continue. Não estão interessados se vai morrer um ou mil. Então, eles têm interesse nesse retorno mais rápido para a economia do jeito que eles gostam.

Especificamente, aqui no município do Rio de Janeiro, esse retorno tem a ver também com cartões alimentação que o governo é obrigado a dar às famílias mais necessitadas. É uma recarga de apenas R$ 54 que essas famílias ganham para comprar alimentos. Há alguns meses o governo foi à justiça para não pagar e perdeu. Foi depois dessa derrota na justiça que veio o anúncio do retorno presencial, sem revezamento e com todos os alunos. Assim a prefeitura não precisaria mais recarregar os cartões dessas pessoas que precisam tanto neste momento de tanta fome e dificuldade aqui no Brasil.

O que acontece é que os governantes estão querendo que nossas crianças se infectem. Eles estão cientes de que as crianças pegam essa doença e não estão ligando para isso. Porque eles sabem que elas vão ficar num ambiente fechado com muitos alunos e que haverá contaminação, mas não estão preocupados.

WSWS: E qual é a atual situação das escolas no Rio de Janeiro?

Anderson: Mesmo antes da pandemia, as escolas brasileiras precisavam de uma maior atenção, principalmente o ensino público. Quem estuda em escola particular, que pode pagar por um ensino melhor, tem uma vantagem imensa para entrar nas universidades. E quem vem de escola pública luta muito para conseguir chegar lá.

Agora com a pandemia, o que vai acontecer é que as salas vão ficar lotadas. Às vezes

salas com 40 alunos, sem ventilação, sem funcionários suficientes para fazer a limpeza das escolas, sem estrutura. E é o cenário perfeito para o vírus aprender a quebrar a imunidade de qualquer um.

Por isso eu acho que ainda não é o momento. Daqui a pouco as vacinas chegam para as crianças. Enquanto isso, vamos lutar por um ensino de qualidade remoto. Vamos dar uma assistência aos professores também. Isso é possível, e é por isso que temos de lutar agora. Porque colocar crianças podendo se contaminar dentro das escolas é a pior opção.

WSWS: Como você e outros pais estão respondendo a essa política de reabertura irresponsável?

Anderson: A causa que eu defendo e acho justa nada mais é do que defender as crianças e adolescentes de um vírus mortal, um vírus que já matou milhares de crianças e adolescentes só aqui no Brasil. Nosso país é um dos líderes em mortes de jovens por esse vírus. Como não vou defender o meu filho disso? Que pai quer arriscar que o filho tenha uma COVID longa, com perda de memória num período de formação?

Nessa busca por apoios, eu conheci algumas mães, pais e responsáveis aqui do Rio de Janeiro e de outros estados no Brasil que também pensam como eu. Estamos nos unindo e buscando alguma forma de ter nossa voz passada adiante. Está difícil até isso, porque ninguém está interessado em falar de escolas fechadas. Quando você olha o repórter na televisão falando sobre retorno das escolas abertas com 100% dos alunos eles passam essa mensagem sorrindo, como se não estivéssemos mais numa pandemia. Mas nós que não concordamos com o retorno das escolas dessa forma estamos nos unindo.

Depois de ter tentado com políticos e não ter tido o mínimo apoio, eu me juntei a grupos de pais do Rio de Janeiro e São Paulo que estão nessa mesma luta para que nossas crianças possam continuar se protegendo de serem contaminadas. E eu criei um abaixo-assinado aqui no Rio de Janeiro para mostrar aos governantes nossa insatisfação com esse retorno repentino no final do ano letivo brasileiro.

WSWS: Como você decidiu apoiar a greve escolar internacional do 15 de outubro?

Anderson: Vendo que as mídias brasileiras não estavam mais interessadas em falar sobre pandemia, eu procurei na internet informações e cheguei no Twitter. Encontrei grupos de cientistas que fazem um trabalho incrível no Brasil e estavam alertando que vivemos ainda um momento crítico no país. Essa mensagem foi muito mais real para mim e vi o tanto que era diferente da mídia e da mensagem política atual.

Também encontrei pais, mães e responsáveis de outros países que estavam passando dificuldades semelhantes nos EUA, Reino Unido e vários outros países. Vi que uma mãe do Reino Unido, a Lisa Diaz, tinha acabado de postar um vídeo falando sobre tudo que está acontecendo com as crianças que voltaram para as escolas no país dela e em outros países, sobre a quantidade de mortes de crianças acontecendo nos EUA. Então passei a seguir a Lisa e outros seguidores dela.

Eu vi que a causa era mais do que justa e que havia pessoas que pensando como eu. Aquilo foi até um alívio, você se sentir pertencente a uma causa. A partir de então, passei a usar bastante o Twitter, repostar as publicações deles e vi que na semana do 15 de outubro estaria com meu filho aqui em casa e poderia participar do movimento da greve escolar. E foi o que fizemos. Eu fiz uma postagem com as hashtags propostas pela Lisa e eu e meu filho participamos dessa greve. E estamos preparados para outras datas futuras.

Eu queria lembrar que já passamos de 600 mil mortes oficiais pela COVID-19 no Brasil. Mas há uma subnotificação, e alguns afirmam que está acima de 700 mil ou 800 mil mortos por essa doença. Estamos cansados, há relatos nos grupos que participo de mães com problemas psicológicos, pais que não conseguem dormir como eu. Mas não vamos desistir. Para nós é tão justo o que estamos fazendo: de um lado é possível resolver a pandemia, e do outro pôr tudo a perder e ter problemas maiores mais uma vez por causa de um retorno irresponsável das escolas. Muito obrigado pela oportunidade e vamos em frente!

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