Português

Crescem ataques a cientistas brasileiros durante pandemia de COVID-19

O gigantesco esforço científico internacional para entender os múltiplos aspectos do novo coronavírus, produzir vacinas inéditas em tempo recorde e entender a dinâmica da pandemia de COVID-19, assim como educar e alertar o público sobre os perigos que representa, tem se confrontado com os interesses de lucro da elite dominante em todos os países. Como consequência, os cientistas têm sido um alvo frequente e violento de ataques, muitas vezes estimulados diretamente por governantes, ao exporem a recusa da elite dominante mundial em levar adiante uma política baseada na ciência contra a pandemia.

No início de outubro, a prestigiada revista científica Nature publicou uma reportagem com o resultado de um levantamento mostrando que, dos 321 cientistas ouvidos pela revista que têm realizado entrevistas na mídia e se manifestado nas redes sociais sobre a pandemia, 15% deles receberam “ameaças de morte”. O levantamento também mostrou que quase 60% dos cientistas entrevistados sofreram “ataques a sua credibilidade” e mais de 40% deles sofreram “estresse emocional ou psicológico”.

Esses ataques têm sido mais frequentes e violentos em lugares onde foi implementada uma política aberta de imunidade de rebanho, como é o caso do Brasil, governado pelo presidente fascistoide Jair Bolsonaro.

Uma das últimas expressões da perseguição a cientistas brasileiros aconteceu em novembro e dezembro com uma série de demissões e protestos nas principais agências de ciência e de educação do país contra o que o presidente da Academia Brasileira de Ciências, Luiz Davidovich, chamou de um “expurgo político semelhante ao dos regimes autoritários do século XX”.

Esta semana, depois de a Anvisa liberar a vacina da Pfizer contra a COVID-19 para crianças de 5 a 11 anos, Bolsonaro disse que revelaria, “extraoficialmente, o nome das pessoas que aprovaram a vacina para crianças ... queremos divulgar o nome dessas pessoas para que todo mundo tome conhecimento de quem ... e obviamente forme seu juízo”. Os diretores da Anvisa, incluindo o presidente nomeado por Bolsonaro, o Contra-Almirante Antonio Barra Torres, receberam uma série de ameaças de morte no caso de a vacina ser liberada para crianças.

Lucas Ferrante: agredido e intoxicado após alertar sobre segunda onda em Manaus
Lucas Ferrante, pesquisador do INPA (Crédito:CNPq)

Lucas Ferrante, pesquisador do renomado Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, tem sido um dos cientistas mais atacados desde que Bolsonaro assumiu o poder, em 2019. Nesse mesmo ano, ele liderou um estudo no periódico Environmental Conservation denunciando que o desmonte ambiental do governo federal está ameaçando o meio ambiente amazônico, as comunidades indígenas tradicionais e o clima global. Desde então, o desmatamento e as queimadas na Amazônia têm registrado recordes ano após ano.

Em abril do ano passado, em meio ao colapso de saúde de Manaus, no Amazonas, durante a primeira onda da pandemia, Ferrante publicou uma carta na Science alertando que a negligência criminosa de Bolsonaro poderia ameaçar indígenas e comunidades tradicionais. Porém, no que foi considerado como um dos indícios de “crime contra a humanidade” apontado pelo relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Senado brasileiro que investigou as ações do governo Bolsonaro durante a pandemia, o governo federal não implementou medidas para evitar a chegada e a propagação do novo coronavírus nas comunidades indígenas e distribuiu amplamente o chamado “kit COVID”, que incluía a hidroxicloroquina, um medicamento já comprovadamente ineficaz contra a doença.

Em agosto do ano passado, Ferrante também foi o autor principal de uma carta na Nature Medicine alertando para o risco de uma segunda onda caso as escolas e os serviços não essenciais não fossem fechados em Manaus. Esse alerta se confirmou em janeiro deste ano, com consequências trágicas para a população da cidade.

Outro estudo liderado por Ferrante, publicado no Journal of Public Health Policy em agosto deste ano, mostrou que “o surgimento da variante gama em Manaus [no final do ano passado] aconteceu por causa da estratégia do governo federal de incentivar a infecção de crianças com o retorno das aulas presenciais para que a população atingisse a imunidade de rebanho”.

Esses estudos, publicados nas mais prestigiosas revistas científicas do mundo, assim como suas entrevistas frequentes nos maiores jornais do Brasil e do mundo, fizeram de Ferrante um alvo constante de ameaças e ataques. Em entrevista ao Intercept, em março deste ano, ele disse que sofreu três ameaças de mortes por celular, que alegavam “que eu estava interferindo em assuntos de segurança nacional.”

Em novembro do ano passado, Ferrante sofreu um atentado depois de solicitar um Uber e o suposto motorista o ameaçar por seus alertas sobre a segunda onda em Manaus e o agredir com um objeto pontiagudo. Segundo uma reportagem do mês passado da revista Veja, Ferrante hoje está tratando um câncer raríssimo na tireoide depois de ter encontrado pedaços de pilha no encanamento de sua casa. “Os médicos suspeitam que [o câncer] esteja relacionado à minha exposição a substâncias tóxicas”, disse à Veja.

Pedro Hallal: deixou o Brasil depois de realizar o maior estudo sobre a pandemia no país
Pedro Hallal durante depoimento a CPI da pandemia (Crédito: TV Senado)

Pedro Hallal, epidemiologista e ex-reitor da Universidade Federal de Pelotas, foi outro cientista atacado pelo presidente Bolsonaro, seus aliados políticos locais e o próprio Estado brasileiro.

Em maio de 2020, ele começou a coordenar o maior estudo epidemiológico sobre a pandemia do novo coronavírus no Brasil. Financiado pelo ministério da saúde, o estudo iriar testar 33 mil pessoas em 133 cidades dos 27 estados brasileiros. Logo no início do trabalho de campo, muitas equipes de pesquisadores foram ameaçadas por autoridades locais, detidas pela polícia e centenas de testes de COVID foram destruídos.

Em julho do ano passado, o estudo foi interrompido pelo ministério da saúde. Hallal, na época, disse que se tratava de uma decisão “totalmente política.” Além de apontar uma subnotificação de seis vezes de casos no Brasil, o trabalho mostrou que o risco de contaminação entre indígenas é cinco vezes maior do que a média nacional, e entre os pobres duas vezes.

Em março, depois de ser denunciado por um deputado estadual do Rio Grande do Sul aliado de Bolsonaro à Controladoria-Geral da União por supostamente ofender o presidente, Hallal foi forçado a assinar um termo de ajustamento de conduta para encerrar o processo, comprometendo-se a não se manifestar de maneira “desrespeitosa e de desapreço” contra Bolsonaro nos próximos dois anos.

Se ameaças de morte e de agressão física já eram constantes por causa de suas frequentes entrevistas na mídia brasileira, elas se intensificaram após o seu depoimento à CPI, em junho deste ano, em que Hallal mostrou os resultados de seu estudo e declarou que “Brasil poderia ter salvado 400 mil vidas” (80% do total de mortes na época), segundo manchete do maior site brasileiro, o UOL. Essa situação forçou Hallal e sua família a anteciparem uma viagem aos EUA, onde hoje é professor visitante da Universidade da Califórnia.

Marcus Lacerda: precisou de escolta policial depois de mostrar a ineficácia da hidroxicloroquina contra a COVID-19
Marcus Lacerda em uma coletiva de imprensa em abril de 2020 alertando que a hidroxicloroquina não deveria ser usada contra a COVID-19 (Crédito: SECOM/AMAZONAS)

Pesquisador da FIOCRUZ, o maior instituto epidemiológico no Brasil, em Manaus, o médico Marcus Lacerda trabalha há mais de 20 anos com malária na Amazônia, onde é uma doença endêmica que tem como um dos principais remédios a hidroxicloroquina.

Logo no início da primeira onda em Manaus, em abril do ano passado, ele e sua equipe de 27 pesquisadores realizaram o primeiro ensaio clínico controlado e randomizado para avaliar o uso da hidroxicloroquina, assim como a melhor dosagem do medicamento, em 81 pacientes graves de COVID-19. O ensaio clínico do grupo de Lacerda mostrou que, cinco dias após tomarem o medicamento, os pacientes tinham a mesma carga viral do primeiro dia. Pacientes que utilizaram uma alta dosagem da hidroxicloroquina apresentaram arritmia e lesões musculares, o que fez o ensaio ser imediatamente paralisado.

O estudo foi publicado no Journal of the American Medical Association, e se tornou o segundo artigo mais citado do periódico em 2020. Ele também foi utilizado pelos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA para desaconselhar o uso da hidroxicloroquina – ainda hoje promovida por Bolsonaro – para o tratamento da COVID-19. Por causa dessa contribuição científica, Lacerda havia recebido a medalha da Ordem Nacional do Mérito Científico no mês passado, mas o governo Bolsonaro anulou a condecoração, o que fez 21 cientistas que também haviam sido condecorados recusarem a medalha recebida.

Depois do estudo fraudulento do Dr. Didier Raoult, o estudo do grupo de Lacerda foi primeiro a mostrar a ineficácia da hidroxicloroquina. Por causa do estudo do Dr. Raoult, Trump e Bolsonaro começaram a promover freneticamente o medicamento como parte da campanha deles para reabrir totalmente a economia.

Um dos filhos de Bolsonaro, Eduardo, o representante latino-americano da organização internacional de Steve Bannon, O Movimento, publicou no Twitter a mentira de que o estudo liderado por Lacerda, por utilizar uma alta dosagem de hidroxicloroquina, tinha matado 11 pacientes e que “os responsáveis são do PT”.

Loading Tweet ...
Tweet not loading? See it directly on Twitter

Mostrando uma coordenação internacional de suas calúnias, três dias antes do tuite de Eduardo Bolsonaro, o ativista americano fascistoide Michael Coudrey, de quem Trump re-tuitou uma mensagem sobre o estudo do Dr. Raoult, comentou o estudo de Lacerda, dizendo que os pacientes que morreram foram usados como “cobaias de laboratórios”. “Viva os conservadores e o presidente Bolsonaro”, o tuite ainda dizia em português.

Depois do tuite de Eduardo Bolsonaro, Lacerda começou a receber ameaças de morte e precisou de escolta armada da polícia militar do Amazonas por duas semanas. Três procuradores do Ministério Público Federal, todos eles apoiadores de Bolsonaro, também abriram um inquérito para apurar a atuação dos pesquisadores no ensaio clínico.

Tuite de Bolsonaro promovendo os resultados do suposto ensaio clínico da Prevent Senior (Crédito: Twitter)

Comentando a sua situação, Lacerda disse que “Desde o fim da ditadura militar, nenhum cientista brasileiro passou por isso no Brasil.” De fato, durante os 21 anos de ditadura militar no Brasil, que tem em Bolsonaro seu maior herdeiro político, a comunidade científica, apesar de pequena, foi proporcionalmente um dos setores que mais sofreu com a perseguição do regime repressivo, com centenas de pesquisadores sendo presos, demitidos, aposentados compulsoriamente, torturados ou mortos.

O experimento bárbaro da Prevent Senior e o “holocausto social” em Manaus

Enquanto Lacerda e sua equipe de pesquisadores estavam mostrando a ineficácia e a toxidade da hidroxicloroquina contra a COVID-19 na maior instituição científica brasileira promotora de saúde pública, Bolsonaro e seus filhos estavam promovendo os resultados de um ensaio clínico fraudulento e bárbaro realizado pela operadora de saúde privada Prevent Senior, que tinha como objetivo mostrar a suposta eficácia dos medicamentos do “kit COVID”, particularmente da hidroxicloroquina.

O ensaio clínico não teve o consentimento dos pacientes, não foi aprovado pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa e mortes de pacientes que utilizaram o “kit COVID” foram ocultadas do resultado do ensaio para supostamente mostrar a eficácia do tratamento.

Os crimes do governo Bolsonaro em Manaus estenderam o experimento bárbaro da Prevent Senior para toda uma cidade: ignorando os alertas de uma segunda onda e da possibilidade de faltar oxigênio em hospitais, em janeiro deste ano, pacientes morreram por falta de oxigênio dentro e fora dos hospitais de Manaus enquanto o governo Bolsonaro estava pressionando a cidade a usar o “kit COVID”.

O que aconteceu em Manaus é apenas o exemplo mais claro do que o WSWS chamou de “holocausto social” cometido pela elite dominante mundial contra milhões de vidas humanas. Em sua completa minimização do perigo do novo coronavírus, o seu boicote às medidas mais básicas de mitigação, como o uso de máscaras, e sua campanha sistemática contra a vacina da COVID-19, Bolsonaro se alinha às tradições anticientíficas mais bárbaras do capitalismo global – da eugenia, passando pelo darwinismo social ao nazismo.

O ataque a cientistas faz parte de uma ampla campanha da elite dominante capitalista para fazer a população mundial a “aprender a viver” com o novo coronavírus e suas variantes mais infecciosas e resistentes a vacinas como a ômicron.

Os mesmos métodos utilizados contra cientistas, incluindo a aberta repressão do Estado, serão intensificados contra a classe trabalhadora como um todo à medida que a crise social e econômica do capitalismo global aumentar. Os trabalhadores não apenas devem se opor a caça às bruxas aos cientistas, como estabelecer a mais estreita aliança com eles para eliminar o vírus mortal globalmente e a causa que impede que isso aconteça, o sistema capitalista de lucro.

Loading