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Federação sindical controlada pelo PT trai greve da Petrobras no Brasil

A Federação Única dos Petroleiros (FUP), filiada à CUT controlada pelo Partido dos Trabalhadores (PT), orientou em 22 de dezembro os seus 14 sindicatos filiados a acabarem com a greve da categoria iniciada em 15 de dezembro. Em assembleias realizadas entre 23 e 26 de dezembro, os trabalhadores de 13 sindicatos decidiram aceitar o Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) de 2026 proposto pela Petrobras. 

Trabalhadores da Petrobras em greve em frente à sede da empresa. [Photo: sindipetronf.org.br]

Os trabalhadores dos quatro sindicatos filiados a outra federação sindical, a Federação Nacional dos Petroleiros (FNP), filiada à CSP-Conlutas controlada pelo morenista Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), decidiram manter a greve. Esses quatro sindicatos e o do Norte Fluminense, o único filiado à FUP que decidiu manter a greve, estão localizados em regiões do Brasil que concentram mais de 50% da força de trabalho da Petrobras e onde é extraído cerca de 80% do petróleo do país.

Num claro ataque ao direito de greve, em 27 de dezembro o Tribunal Superior do Trabalho (TST) deu uma liminar favorável à Petrobras para manter 80% dos trabalhadores em atividade e fixou uma multa de R$ 200 mil aos sindicatos e às suas federações caso descumpram a determinação. Em de 2 janeiro haverá uma audiência de conciliação no TST entre os sindicatos em greve e a Petrobras, e em 6 de janeiro espera-se que a corte julgue o dissídio coletivo.

A FUP justificou a decisão de orientar o fim da greve alegando que o novo ACT proposto pela Petrobras possui avanços em relação ao que a empresa tinha anteriormente oferecido e que isso “contribui para que evitemos ao máximo os retrocessos que possam ocorrer durante o processo de dissídio coletivo”, como escreveu em seu site em 26 de dezembro.

Os trabalhadores que aprovaram a continuidade da greve, no entanto, não acreditam nisso. Mesmo um dirigente do sindicato do Norte Fluminense declarou a uma reportagem no site da FUP que a “Petrobras ainda não atendeu os principais anseios da categoria” e ela “não apresent[ou] uma proposta que contemple os principais eixos das nossas bandeiras de luta”.

A Petrobras apresentou promessas vagas presentes em três cartas-compromisso. Nelas, a empresa se comprometeu a não punir os grevistas, a apresentar um novo modelo para o fundo de pensão, que apresenta um déficit bilionário que tem feito os aposentados terem descontos regulares, e a discutir a chamada “Pauta Brasil Soberano”, um documento nacionalista e pró-corporativo apresentada pela FUP em outubro. 

No entanto, a Petrobras não apresentou nenhuma proposta para melhorar salários e condições de trabalho. Pelo contrário, ela manteve o reajuste salarial dos trabalhadores em 5,66%, um valor que, descontada a inflação no último ano, representa um ganho real de apenas 0,5%.

Esses desenvolvimentos na greve dos trabalhadores da Petrobras reforçam o papel histórico da FUP em dividir os petroleiros e impedir uma luta unificada com outras categorias do funcionalismo público federal lutando contra os ataques do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Seu principal objetivo tem sido encobrir os ataques do governo Lula, abafar a crescente raiva dos trabalhadores da Petrobras, que lançaram uma das maiores greves desde 1995, e desviar suas lutas para a política burguesa.

No começo da semana passada, quando a FUP estava orientando os seus sindicatos a acabarem com a greve, os trabalhadores dos Correios estavam ampliando sua greve iniciada em 16 de dezembro por melhores salários e condições de trabalho e contra um plano de reestruturação da empresa que levará a demissões em massa. Em 23 de dezembro, o número de sindicatos em greve passou de 12 para 18, de um total de 34, espalhados por todo o Brasil, incluindo os maiores estados.

Para a burocracia sindical da FUP, a greve também serviu para atender aos seus interesses político-partidários e preparar sua troca de comando. Nos vídeos no Instagram sobre a greve, o coordenador-geral Dayvid Bacelar sempre apareceu ao lado de sua sucessora, Cibele Vieira. Em 22 de dezembro, ele fez uma publicação no Instagram dizendo que, depois de “17 anos dedicados com exclusividade ao movimento sindical”, ele estava passando o bastão para Vieira, que foi “forjada na luta e [está] preparada para conduzir” a FUP. 

Bacelar, que é membro do diretório nacional do PT e se apresenta no Instagram como “Membro de 2 Conselhos do [governo do] Presidente Lula”, ainda escreveu que planeja “novos desafios”. No início deste ano, ele já tinha declarado ao jornal A Tarde que será candidato a deputado federal na eleição de 2026 para renovar o PT e aproximar o partido de suas bases sociais e sindicais.

As bases dessa candidatura não poderiam ser mais falidas, totalmente alinhadas ao programa nacionalista e pró-corporativo do governo do PT. Como ele declarou no início de dezembro no lançamento no “Comitê Brasil Soberano” na Bahia, seu estado natal, “Entendemos que a soberania brasileira vem sendo pressionada em diferentes frentes... Nesse contexto, defender soberania significa garantir que decisões fundamentais sobre o futuro do país permaneçam sob controle do povo brasileiro, assegurando desenvolvimento, empregos, indústria e democracia.”

No lançamento do Comitê, ele também denunciou que, no governo do ex-presidente fascista Jair Bolsonaro (2019-2022), “setores estratégicos foram não somente ameaçados, mas totalmente desmontados, a exemplo da Petrobras Distribuidora, que foi privatizada, ou da Refinaria Landulpho Alves, que foi vendida para o Grupo Mubadala, dos Emirados Árabes, pela metade do seu valor”.

Porém, desde que assumiu o poder em 2023, Lula não reverteu essas privatizações nem adotou medidas para alterar a condição da Petrobras como empresa de economia mista controlada pelo Estado brasileiro. Ele também manteve a política de pagamento de dividendos do governo Bolsonaro, que apenas neste ano ofereceu R$ 45 bilhões aos acionistas da maior empresa brasileira em faturamento.

Apesar de avançar uma retórica supostamente mais radical nos sindicatos da Petrobras filiados à FNP, a pseudoesquerda brasileira é incapaz de oferecer uma resposta progressista aos ataques do governo Lula. Pelo contrário, ela repete a velha linguagem do nacionalismo burguês avançada pelo PT e pela FUP, oferecendo-se como os “patriotas de verdade” na greve.

Essa perspectiva foi avançada abertamente pela seção brasileira da morenista Corrente Revolução Permanente – Quarta Internacional (antiga Fração Trotskista), que possui dirigentes sindicais no Rio de Janeiro. No artigo de 28 de dezembro intitulado “5 motivos para apoiar a greve nacional dos petroleiros” publicado no Esquerda Diário, ela escreveu que “apoiar a greve petroleira, assim como a dos trabalhadores dos Correios, é defender a soberania do país de verdade”.

A luta dos petroleiros por melhores salários e condições de trabalho, no entanto, não tem nada a ver com a garantia de “soberania energética” para o “desenvolvimento nacional”, como o artigo também declarou. Nele, a seção brasileira da CRP-QI também defendeu que, para superar a traição da FUP, é necessário um “comando de greve nacional onde a base tenha o controle das decisões.”

Um comando como esse apenas repete a lógica nacionalista da FUP e continua sendo totalmente subordinado à burocracia sindical, servido para encobrir os ataques do governo Lula e as traições da FUP controlada pelo PT. 

O que os trabalhadores da Petrobras precisam não é defender a soberania nacional, mas avançar uma luta independente do governo Lula, do PT e da pseudoesquerda ao seu redor, além dos sindicatos controlados por eles. Isso significa formar comitês de base filiados à Aliança Operária Internacional de Comitês de Base (AOI-CB) para unificar suas lutas com seus irmãos e irmãs internacionalmente. 

Diante do assalto global das elites dominantes aos empregos e condições de trabalho à medida que ela vira para a guerra e a ditadura, a AOI-CB tem avançado a necessidade de esses comitês erguerem um programa internacionalista contra a causa raiz desses ataques, o sistema capitalista. 

Desde o início de dezembro, os trabalhadores brasileiros também podem contar com um poderoso instrumento de educação, organização e união das lutas internacionalmente: “Socialism AI”, um chatbot único desenvolvido pelo Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI) baseado nas obras clássicas do marxismo e no imenso arquivo publicado no World Socialist Web Site.

Fazemos um chamado aos trabalhadores da Petrobras e de outras categorias para que levantem esse programa, apropriem-se conscientemente de seu conteúdo e o levem adiante, além de utilizarem “Socialism AI” como um instrumento de esclarecimento, organização e fortalecimento de suas lutas presentes e futuras.

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