Um dia após a turba fascista convocada pelo presidente Donald Trump invadir o Capitólio dos Estados Unidos em 6 de janeiro de 2021, o World Socialist Web Site escreveu que o ataque foi “um ponto de inflexão na história dos Estados Unidos”.
As glorificações antiquadas da invencibilidade e a atemporalidade da democracia americana foram expostas como um mito político vazio. A frase popular “Isso Não Pode Acontecer Aqui”, tirada do título do famoso livro de Sinclair Lewis sobre a ascensão do fascismo americano, foi superada pela história. Não só um golpe fascista pode acontecer aqui. Ele aconteceu aqui, na tarde de 6 de janeiro de 2021.
A correção dessa avaliação fica clara no que aconteceu nos últimos cinco anos.
Em 6 de janeiro de 2021, o Congresso se reuniu para certificar o voto do Colégio Eleitoral, confirmando a vitória de Joe Biden e Kamala Harris. O que deveria ser uma formalidade constitucional tornou-se alvo de uma operação organizada para derrubar a eleição pela força.
Uma turba de milhares de pessoas marchou da Casa Branca sob o comando de Trump, invadiu as barricadas policiais mal defendidas e atacou o Capitólio. Forças paramilitares organizadas – sobretudo os Proud Boys e os Oath Keepers – forçaram a entrada por portas e janelas e lideraram o ataque ao prédio. Processos judiciais posteriores determinaram que figuras importantes eram culpadas de sedição e crimes relacionados, com o objetivo de impedir a certificação. A violência foi grave e prolongada: mais de 140 policiais ficaram feridos durante o ataque.
O objetivo político era derrubar a Constituição e anular os resultados das eleições. A forca erguida do lado de fora do Capitólio não era um adereço grotesco, mas uma declaração de intenções. O próprio vice-presidente de Trump, Mike Pence, e a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, escaparam por pouco de serem capturados. Se as principais autoridades tivessem sido detidas, o golpe teria adquirido a influência necessária – por meio de execuções ou sequestros – para forçar a capitulação e impor um resultado político que o eleitorado havia rejeitado.
O 6 de Janeiro não foi uma erupção espontânea. Foi o resultado de uma conspiração que se desenvolveu ao longo de meses e ganhou força à medida que a posse se aproximava. O relatório de impeachment da Câmara, produzido imediatamente depois, documentou a conduta de Trump nos meses que antecederam o 6 de Janeiro, incluindo seus esforços para pressionar autoridades, convocar apoiadores para Washington e direcioná-los para o Capitólio.
Trump estava no centro da trama. Ele tentou obrigar autoridades estaduais e governadores a reverter resultados já confirmados – principalmente na Geórgia, onde pressionou o secretário da justiça a “encontrar” votos suficientes para mudar o resultado. Quando esses esforços fracassaram, a conspiração convergiu para o próprio dia 6 de Janeiro: um plano para bloquear a certificação, paralisar as instituições e usar a violência para impedir a transferência do poder.
A característica mais condenável do 6 de Janeiro não é apenas o fato de ter havido uma tentativa de golpe, mas também o fato de ela ter chegado tão perto do sucesso e não ter encontrado resistência política organizada por parte do Partido Democrata.
À medida que o ataque se desenrolava, os líderes democratas não convocaram a população a se mobilizar em defesa dos direitos democráticos. Senadores e deputados fugiram e se esconderam. Não houve nenhum apelo à ação em massa, nenhuma convocação para uma mobilização nacional da classe trabalhadora e nenhum esforço para transformar a indignação pública em resistência ativa. A resposta de Biden durante a tentativa de golpe não foi uma convocação ao povo, mas um apelo na televisão nacional para que Trump – o principal golpista – retirasse suas próprias forças.
Os democratas temiam, acima de tudo, que uma mobilização popular contra um golpe assumisse rapidamente a forma de uma erupção social mais ampla – uma oposição que escaparia ao seu controle e assumiria um caráter anticapitalista direto. Sua “defesa da democracia” foi limitada desde o início pelo medo de legitimar a luta de massas vinda de baixo.
O golpe não fracassou porque as instituições democráticas se mostraram “fortes”. Ele fracassou por pouco, devido à inexperiência, aos erros logísticos e à incoerência operacional dos conspiradores, combinados com sua incapacidade de garantir uma vantagem decisiva com rapidez suficiente.
A mobilização da Guarda Nacional de Washington D.C. foi adiada por horas. Testemunhos e documentos descrevem um intervalo de aproximadamente 3 horas e 19 minutos antes da chegada da Guarda Nacional ao Capitólio. Esse atraso proporcionou precisamente a janela de oportunidade em que o golpe poderia ter sido consolidado.
O resultado provavelmente teria sido diferente em condições ligeiramente diferentes. Se a turba tivesse conseguido fazer refém até mesmo um único senador ou deputado democrata proeminente, o Partido Democrata teria entrado rapidamente em negociações – sob condições de terror – em nome da “estabilidade” e da “unidade nacional”. A conduta dos democratas durante o ataque em si demonstrou que eles não tinham nem a vontade nem o programa para levar adiante uma luta genuína contra a ditadura.
Muito mais importante para o Partido Democrata do que defender os direitos democráticos era manter a unidade “bipartidária” para as prioridades estratégicas do imperialismo americano, acima de tudo, a escalada do confronto com a Rússia.
Mesmo logo após o 6 de Janeiro, Biden e os líderes democratas insistiram na necessidade de um “Partido Republicano forte”, sinalizando sua determinação em restaurar o próprio instrumento político que havia viabilizado Trump. A orientação de governo dos democratas era garantir a colaboração republicana na política externa, nos recursos para a guerra e na expansão do aparato de segurança nacional, ao mesmo tempo em que suprimiam qualquer mobilização política independente da população.
O histórico da guerra na Ucrânia ressalta essa lógica de classe. O governo Biden buscou repetidamente vastos pacotes de financiamento e contou com mecanismos “bipartidários” para conduzir a guerra indireta contra a Rússia, culminando na aprovação pelo Congresso de grandes alocações de ajuda à Ucrânia, com significativo apoio multipartidário. Na prática, a “defesa da democracia” interna ficou subordinada às exigências da guerra no exterior.
O colapso dos democratas ficou mais evidente em sua conduta na campanha de 2024 e suas consequências. Durante essa campanha, os principais democratas declararam que Trump era um fascista e que sua eleição significaria uma ditadura. No entanto, quando Trump venceu, eles aceitaram o resultado passivamente e não fizeram nada para construir resistência ao novo regime. Suas advertências funcionaram como propaganda eleitoral, não como uma estratégia para impedir a ditadura. Era necessário garantir uma “transição suave”.
Após o retorno de Trump ao cargo, a normalização se acelerou. As primeiras ações de Trump incluíram clemência geral para os réus do 6 de Janeiro, indultos e reduções de pena emitidos como um decreto presidencial.
As investigações que se arrastaram por anos foram então encerradas ou neutralizadas após sua vitória eleitoral. O procurador especial Jack Smith, que agora é alvo de perseguição legal por parte dos republicanos do Congresso e do Departamento de Justiça de Trump, disse ao Comitê de Supervisão da Câmara no mês passado que Trump claramente planejou o golpe de 6 de Janeiro: “Nossa opinião sobre as evidências é que ele causou isso, explorou a situação e que era algo previsível para ele”, disse Smith.
Ao longo do último ano, desde seu retorno ao poder, o governo Trump implementou uma conspiração sistemática rumo à ditadura, com o objetivo de realizar o que não conseguiu em 6 de Janeiro. Isso se concretizou na forma do envio de tropas da Guarda Nacional para cidades americanas, ataques violentos contra imigrantes, desafio aberto aos tribunais, criminalização da oposição política e ameaças de invocar a Lei de Insurreição.
A invasão da Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro são atos de gangsterismo descarado. A declaração de Trump de que os Estados Unidos “governariam” a Venezuela após a operação marca um ponto sem volta. Sua linguagem dispensa qualquer pretensão de legalidade e replica as operações militares criminosas do Terceiro Reich nazista.
Essas ações são inseparáveis da trajetória dentro dos EUA: impunidade para os golpistas, perseguição política, governo por decreto e normalização da violência como política de Estado. A conclusão fundamental é inevitável: a defesa e o renascimento dos direitos democráticos são impossíveis sem uma luta pelo socialismo.
O Partido Socialista pela Igualdade luta pelo desenvolvimento de uma nova base de resistência em massa à ditadura. Isso está ligado ao desenvolvimento da luta de classes, animada por uma perspectiva anticapitalista clara. O que é necessário não é uma “ampla coalizão” por trás do Partido Democrata, mas a mobilização política independente da classe trabalhadora contra a oligarquia e seu Estado.
Isso significa, essencialmente, o desenvolvimento sistemático de comitês de base da classe trabalhadora – em fábricas, locais de trabalho, centros logísticos, escolas, hospitais e bairros. Esses órgãos de auto-organização democrática dos trabalhadores são fundamentais: eles fornecem os meios práticos para quebrar o domínio da burocracia corporativa, unificar as lutas entre indústrias e regiões, defender os imigrantes e as comunidades visadas e transformar a raiva dispersa em ação coordenada, guiada por um programa socialista.
Essa luta deve ser levada adiante em 2026. As lições de 6 de Janeiro – e do que se seguiu – devem ficar gravadas na memória coletiva da classe trabalhadora, não como um lamento, mas como um guia para a ação: a ditadura não será detida por apelos às mesmas instituições e partidos que a possibilitaram. Ela só pode ser detida por meio da mobilização política consciente da classe trabalhadora para tomar o poder, expropriar a oligarquia e reorganizar a sociedade, dentro dos Estados Unidos e internacionalmente, sobre bases socialistas.
