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Perspectivas

Trump, os arquivos de Epstein e a putrefação da oligarquia dos EUA

Publicado originalmente em inglês em 11 de fevereiro de 2026

Estamos publicando o prefácio do novo livro de David North, Aonde vão os EUA?, que será lançado em breve em inglês e alemão pela Mehring Books/Mehring Verlag e apresentado na Feira do Livro de Leipzig no próximo mês.

Um ano após o início do segundo mandato de Trump, os debates sobre se os Estados Unidos estão caminhando para uma ditadura fascista foram resolvidos pelas ações do próprio Estado. Os eventos de janeiro de 2026 em Minneapolis chocaram o mundo inteiro e deixaram claro que a transformação da democracia americana em um Estado policial-militar não é mais uma possibilidade teórica. É uma realidade em desenvolvimento.

Em 6 de janeiro de 2026, o Departamento de Segurança Interna enviou 2.000 agentes federais para a área metropolitana de Minneapolis-Saint Paul, no que chamou de a maior operação de fiscalização de imigração da história dos Estados Unidos. O que se seguiu foi a ocupação militar de uma cidade americana. Agentes mascarados com equipamentos de combate vasculharam bairros, terminais de transporte público, shoppings e estacionamentos, posicionando-se perto de igrejas, mesquitas e escolas. Em 7 de janeiro, o agente do ICE Jonathan Ross atirou e matou Renée Nicole Good, uma americana de 37 anos, mãe de três filhos, enquanto ela estava dentro de seu carro. Imagens de vídeo, analisadas por várias agências de notícias, contradizeram diretamente a alegação do governo de que ela havia atacado o agente. Em 24 de janeiro, agentes da Patrulha de Fronteira assassinaram Alex Pretti, um enfermeiro de terapia intensiva de 37 anos e funcionário federal, enquanto ele tentava proteger uma mulher que os agentes haviam empurrado ao chão. Um vídeo feito por uma testemunha e verificado pela Reuters, pela BBC, pelo Wall Street Journal e pela Associated Press mostrou Pretti sendo derrubado no chão por vários agentes e baleado pelo menos 10 vezes em cinco segundos.

Uma mulher passando em frente a cartazes de Renee Good e Alex Pretti, em 31 de janeiro de 2026, em Minneapolis. [AP Photo/Julia Demaree Nikhinson]

Milhões de pessoas em todo o mundo testemunharam não apenas esses assassinatos, mas também a defesa do presidente em relação a eles. Trump difamou Good, chamando-a de “terrorista doméstica”. Ele acusou as autoridades locais de “incitar uma insurreição” por criticarem a operação. Ele ameaçou invocar a Lei de Insurreição. O vice-presidente Vance declarou que a morte de Good foi “uma tragédia causada por ela mesma”. O governo federal recusou-se a permitir que as autoridades estaduais participassem da investigação. Um juiz federal concluiu que o ICE havia violado pelo menos 96 ordens judiciais em Minnesota somente em janeiro. Escolas fecharam ou passaram a oferecer ensino à distância. O comércio não abriu as portas. Crianças foram hospitalizadas após serem atingidas por gás lacrimogêneo lançado por agentes federais.

Mas Minneapolis é apenas a expressão mais visível de uma campanha muito mais ampla de terror estatal dirigida contra as comunidades de imigrantes em todos os Estados Unidos. Desde o retorno de Trump ao poder, agentes federais têm realizado batidas policiais antes do amanhecer em residências, prendido pessoas em escolas e locais de trabalho, tirado crianças de seus pais e realizado o que só pode ser descrito como uma operação sistemática de sequestro contra famílias de imigrantes. Pelo menos 31 pessoas morreram sob custódia do ICE durante 2025 – o maior número em duas décadas – com outras mortes nas primeiras semanas de 2026. Em Minneapolis, Liam Ramos, de cinco anos, foi apreendido por agentes federais quando voltava da pré-escola, ainda usando sua mochila do Homem-Aranha e um chapéu azul com orelhas de coelho, e transportado com seu pai – um requerente de asilo legal sem antecedentes criminais – para um centro de detenção em Dilley, no Texas, a mais de mil milhas de sua casa.

É em Dilley que foi possível presenciar uma cena digna dos anais do totalitarismo. No “South Texas Family Residential Center” – uma instalação que abriga 1.200 detidos, um terço dos quais crianças, operada por uma empresa prisional privada sob contrato federal – dezenas de crianças presas invadiram as áreas abertas do complexo e começaram a clamar por liberdade com suas vozes agudas ecoando pelo perímetro cercado por arame farpado. Oitenta por cento dos detidos da instalação aderiram ao protesto. Mães e pais seguravam cartazes escritos à mão com os dizeres “Libertad para los niños” [“Liberdade para as crianças”]. O advogado de imigração Eric Lee, que estava no local quando o protesto começou, relatou que a água para beber estava podre, que as refeições continham insetos e detritos e que os guardas tratavam as famílias com a mesma brutalidade aplicada nas prisões para adultos. Uma menina de 13 anos disse: “Não deveria haver jaulas para crianças”. Essa é a realidade no centro do “mundo livre” – crianças presas atrás de arame farpado, clamando por sua liberdade em uma língua que seus carcereiros não falam e não ouviriam mesmo que falassem.

A imprensa internacional foi obrigada a noticiar o colapso da democracia nos Estados Unidos. O editorial principal da edição de 31 de janeiro a 6 de fevereiro de 2026 da revista The Economist afirmou que a ação federal nas ruas de Minneapolis “vai muito além da imigração” e constitui “um teste ao poder do governo de usar a violência contra seus próprios cidadãos – uma linha divisória entre a liberdade e a tirania”. O editorial alertou: “E não será o último”. Durante a mesma semana, a rede de televisão alemã ARD transmitiu uma reportagem detalhada que traçava comparações explícitas entre os métodos do governo Trump e os do regime nazista na década de 1930 – uma invocação da Gleichschaltung, o alinhamento forçado das instituições com a vontade do Führer, que teria sido impensável por parte de uma grande emissora europeia há apenas um ano.

Mas, mesmo com o caráter fascista do governo sendo cada vez mais reconhecido, a maioria das análises continua focada na pessoa de Trump – sua psicologia, seu temperamento, sua suposta singularidade. As causas mais profundas do colapso da democracia americana são evitadas. Mas a teoria da história do “Trump mau” explica muito pouco. Ela levanta a questão que deve ser respondida: o que explica a ascensão desse indivíduo sociopata ao cargo político mais poderoso do mundo? Quais são os processos sociais, econômicos e políticos que produziram esse resultado? E quais forças de classe estão em ação?

Trotsky, em seus escritos sobre a ascensão do fascismo alemão, fez a seguinte observação perspicaz: “Nem todo pequeno burguês exasperado poderia se tornar Hitler. Mas uma pequena parte de Hitler está presente em todo pequeno burguês exasperado”. Pode-se adaptar essa percepção às condições contemporâneas dos Estados Unidos: nem todo empresário é um Trump. Mas há mais do que uma pequena parte de Trump em uma parte substancial da classe empresarial americana.

Entre os executivos de inúmeras operações imobiliárias comerciais, empresas de capital privado e empreendimentos de criptomoedas, há inúmeros indivíduos cuja personalidade, maneirismos, objetivos e métodos reproduzem, em maior ou menor grau, os do presidente americano. Trump não criou essa cultura. Ele é tanto a personificação da oligarquia corporativo-financeira dominante quanto seu desfecho criminoso. Em sua persona e modus operandi, a distinção entre um CEO e um chefe da máfia é apagada.

Em uma carreira de meio século no mundo obscuro do setor imobiliário de Nova York, dos cassinos de Atlantic City e dos reality shows, a trajetória de Trump foi marcada por fraudes financeiras, contratos não cumpridos, falências em série, inúmeros processos judiciais e universidades fraudulentas. Em seu universo, negociação e extorsão são primas de primeiro grau. Recentemente, ele declarou, sem qualquer traço de ironia, que a única restrição ao exercício de seu poder presidencial é sua própria moralidade. De fato. Mas é a “moralidade” da oligarquia, que não aceita restrições de qualquer tipo em sua busca por riqueza e poder pessoal.

Trump costuma se gabar de sua inteligência superior. Mas a característica mais notável de sua logorreia habitual é a completa ausência de qualquer coisa que se assemelhe a um pensamento sistemático. A resposta frequente de Trump a perguntas sobre suas políticas e intenções é a frase reveladora: “Vamos ver o que acontece”, indicando que o homem tem pouca compreensão das consequências de suas próprias ações, que são guiadas por uma espécie de maldade improvisada e impulsiva. Suas declarações públicas consistem em uma repetição interminável de superlativos autocomplacentes – “tremendo”, “incrível”, “como ninguém jamais viu” – encadeados sem conexão lógica, sem conteúdo factual e sem qualquer evidência de que tenha lido algum livro, além de Mein Kampf, de Hitler.

E depois há o elenco de desajustados e malfeitores com que ele se rodeou. Calígula brincava com a ideia de nomear o seu cavalo cônsul. Trump, sem o sentido de humor do imperador romano louco, tem sido ainda mais descarado na seleção dos principais membros da seu governo.

Stephen Miller, o imitador de Goebbels; Pete Hegseth, o ex-âncora de fim de semana da Fox News que é estranhamente obcecado pelas medidas da cintura de seus generais e coronéis; Kristi Noem, a secretária de Segurança Interna, que uma vez se gabou de ter atirado em seu próprio cachorro; Robert F. Kennedy Jr., o teórico da conspiração antivacina colocado no comando da saúde do país; Tulsi Gabbard, a diretora de Inteligência Nacional, cujas qualificações para supervisionar 17 agências de inteligência permanecem um mistério até mesmo para a própria CIA. Kash Patel, do FBI, um leal a Trump cuja principal credencial é a devoção subserviente ao seu Führer. 

É precisamente porque a teoria histórica do “Trump mau” é tão inadequada que é necessária uma análise mais profunda. E é neste contexto que as revelações sobre a interseção da vida de Jeffrey Epstein, o multimilionário do tráfico sexual, com a de Trump e inúmeras outras pessoas poderosas e famosas adquirem todo o seu significado.

Donald Trump e Jeffrey Epstein em uma festa em Mar-a-Lago, em Palm Beach, na Flórida, em novembro de 1992. [Photo: NBC]

A divulgação pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos de mais de 3 milhões de páginas de documentos, milhares de vídeos e centenas de milhares de imagens relacionadas aos crimes de Jeffrey Epstein é um grande acontecimento político. Mas seu significado vai muito além dos detalhes sórdidos da predação sexual de um homem, por mais monstruosos que tenham sido esses crimes. Os arquivos de Epstein revelam a fisionomia social de uma classe dominante degenerada e de uma sociedade oligárquica em avançado estado de decomposição. Suas ofensas são repugnantes; elas cheiram mal até o céu.

Os documentos confirmam o que há muito se suspeitava e o que milhões de trabalhadores compreenderam instintivamente: que os indivíduos mais poderosos da sociedade americana – os presidentes e ex-presidentes, os financistas bilionários, os titãs do Vale do Silício, os intelectuais célebres, os príncipes e diplomatas – moviam-se livremente e conscientemente na órbita de um criminoso sexual condenado por abuso infantil. Eles fizeram isso não por ignorância de seus crimes, mas por indiferença a eles e, em muitos casos, participando deles. O mundo social em que vivem opera de acordo com regras totalmente diferentes daquelas que regem a vida das pessoas comuns.

Jeffrey Epstein cultivou relações em todos os setores da elite americana e internacional. Trump, seu amigo íntimo há quase duas décadas, descreveu Epstein como um “cara fantástico”. O círculo de Epstein incluía o ex-presidente Bill Clinton; o príncipe Andrew, da família real britânica, que desde então foi destituído de seus títulos; Bill Gates, Elon Musk, Jeff Bezos, Mark Zuckerberg, Sergey Brin, Larry Page e Reid Hoffman – ou seja, os homens que controlam a infraestrutura digital da vida moderna; Larry Summers, ex-secretário do Tesouro e presidente da Universidade de Harvard, que agora foi obrigado a se afastar do cargo de professor; Steve Bannon, o principal ideólogo do fascismo americano e o célebre mentor de Trump nos bastidores; Noam Chomsky, amplamente celebrado como o intelectual liberal mais proeminente dos Estados Unidos, que descreveu Epstein em uma carta como seu “melhor amigo”; Leon Botstein, presidente do Bard College; Richard Branson, Peter Thiel, Alan Dershowitz e Leon Black. As agendas telefônicas de Epstein continham mais de 1.700 nomes, incluindo executivos da mídia, políticos, empresários, atores e acadêmicos.

Foto tirada em 2011 na mansão de Jeffrey Epstein em Manhattan. Da esquerda para a direita: James E. Staley, na época executivo sênior do JPMorgan; o ex-secretário do Tesouro Lawrence Summers; Epstein; Bill Gates, cofundador da Microsoft; e Boris Nikolic, que era consultor científico da Fundação Bill e Melinda Gates.

A rede se estendia além dos Estados Unidos: abrangia a princesa herdeira da Noruega, figuras políticas israelenses como Ehud Barak, empresários dos Emirados Árabes Unidos, políticos e aristocratas britânicos. Era, no sentido mais amplo, uma rede internacional sórdida da elite capitalista.

O tratamento convencional do escândalo envolvendo Epstein na mídia burguesa concentra-se na questão da culpa individual. Quais indivíduos específicos cometeram crimes? É possível instaurar processos judiciais? Existe uma “lista de clientes”? Essas questões são importantes. Mas, em um sentido fundamental, são secundárias. Elas não devem obscurecer a questão política mais significativa: o que a rede de Epstein revela sobre a natureza da sociedade que a produziu?

Não é como se Epstein escondesse suas atividades com grande habilidade. Ele foi condenado por crimes sexuais em 2008. Era um criminoso sexual fichado. E, no entanto – e este é o ponto essencial – as portas da sociedade de elite permaneceram abertas para ele. As universidades continuaram a aceitar seu dinheiro. Os acadêmicos continuaram a frequentar seus salões. O agente literário John Brockman continuou a organizar encontros intelectuais nos quais Epstein podia se misturar com cientistas e executivos da área de tecnologia. A assessora de imprensa Peggy Siegal continuou a convidá-lo para eventos privados. Professores de Harvard se reuniram com ele em seus escritórios. Ele recebeu ofertas para usar apartamentos, foi convidado para ilhas particulares, consultado sobre assuntos que iam desde preços do petróleo até namoro.

Noam Chomsky e Jeffrey Epstein.

No mundo em que essas pessoas vivem, a riqueza se sobrepõe a todas as outras considerações — incluindo o abuso sexual de crianças. O universo moral da classe dominante americana e internacional foi tão profundamente corroído pela adoração ao dinheiro que um criminoso sexual condenado, desde que permanecesse suficientemente rico e bem relacionado, poderia continuar agindo como um membro respeitado da sociedade de elite. O caso Epstein não é uma aberração dentro desse meio social. É sua expressão mais concentrada e sórdida.

Uma das características politicamente mais significativas da rede de Epstein é seu caráter bipartidário. Ela incluía democratas e republicanos. Clinton e Trump. Summers e Bannon. Reid Hoffman e Peter Thiel. Acadêmicos liberais e agentes da direita. As mesmas pessoas que se enfrentam através da tênue “divisão partidária” no teatro da política oficial jantavam com Epstein e, em um número ainda desconhecido de casos, participavam do abuso de crianças que ele orquestrava.

A perversão bipartidária reflete a política bipartidária. A facilidade com que essas figuras cruzavam as linhas partidárias em suas vidas privadas reflete uma realidade política mais profunda: que a divisão entre os dois principais partidos, democratas e republicanos, que absorve a esmagadora maioria da energia política nos Estados Unidos, é, em aspectos decisivos, superficial. É uma divisão dentro de uma única classe dominante sobre questões de estilo, ênfase e gestão da opinião pública – não um desacordo fundamental sobre a organização econômica da sociedade.

Foto divulgada pelos democratas do Comitê de Supervisão da Câmara mostrando o ex-presidente Bill Clinton (ao centro) com Epstein (à direita) e Ghislaine Maxwell (entre Clinton e Epstein).

Apesar de todas as acusações mútuas, as diferenças entre democratas e republicanos são notavelmente pequenas. Na maioria das vezes, são “muito barulho por nada”. Obama, com uma franqueza incomum, declarou poucas horas após a primeira vitória eleitoral de Trump que não havia motivo para alarme e descreveu a disputa entre os dois partidos como nada mais do que um conflito “interno”. Em última análise, todos estão do mesmo lado. Apenas três dias após a tentativa de golpe de Estado de Trump em 6 de janeiro de 2021, o presidente eleito Joe Biden declarou em uma coletiva de imprensa: “Precisamos do Partido Republicano. Precisamos de uma oposição forte e com princípios.”  

Na medida em que existem diferenças sérias, elas dizem respeito, em grande parte, a aspectos da política externa e das táticas imperialistas. O conflito em torno do zelo insuficiente de Trump pela guerra imperialista por procuração na Ucrânia tem sido excepcionalmente intenso. Mas as denúncias dos democratas contra as políticas internas reacionárias de Trump não passam de encenação. Democratas e republicanos não divergem seriamente sobre a distribuição de riqueza, o poder do capital financeiro e a perpetuação do militarismo.

A desregulamentação financeira foi promovida por Reagan e concluída por Clinton. As guerras no Oriente Médio foram iniciadas por Bush e ampliadas por Obama. O resgate dos bancos em 2008-2009 foi uma operação bipartidária do início ao fim – Wall Street foi salva, enquanto milhões de trabalhadores perderam suas casas. O estado de vigilância construído após 11 de setembro de 2001 foi criado por ambos os partidos. Eles colaboraram na repressão às greves e na efetiva proibição do direito da classe trabalhadora de se defender contra o ataque das empresas ao seu padrão de vida.

É geralmente esquecido que a demissão dos controladores de tráfego aéreo do sindicato PATCO por Reagan implementou um plano elaborado pelo governo democrata do presidente Jimmy Carter. Foi o governador democrata do Arizona, Bruce Babbitt, que enviou a polícia estadual em 1983 contra os mineiros de cobre que entraram em greve contra o conglomerado Phelps Dodge. Podem ser dados inúmeros outros exemplos de repressão bipartidária às greves, até aos dias de hoje. 

Assim, do ponto de vista da sala de jantar, do quarto e da mesa de massagem de Epstein, a guerra partidária que é apresentada ao público americano como “política” era um espetáculo secundário. As pessoas com quem ele se relacionava compreendiam isso, mesmo que o público não compreendesse. Elas compartilhavam uma posição de classe, um conjunto de interesses materiais e – como os documentos agora deixam claro – um conjunto de padrões morais, ou melhor, a completa ausência deles.

Os intensos conflitos culturais e identitários que distinguem os dois partidos têm uma função objetiva: ocultar as divisões essenciais da classe social e sugar a energia política que, de outra forma, poderia ser direcionada ao próprio sistema capitalista. Enquanto a classe trabalhadora estiver dividida entre democratas e republicanos, discutindo sobre provocações da guerra cultural, ela não estará unida contra a classe que ambos os partidos servem. É uma característica estrutural de um sistema político em que ambos os partidos são financiados e dependentes da mesma classe de doadores ricos – a mesma classe que circulava no mundo de Epstein.

O escândalo envolvendo Epstein fornece um contexto essencial para compreender o significado político da presidência de Trump. Ele é a expressão política por excelência, no auge do poder, da putrefação da “livre iniciativa” americana.

As características bem conhecidas de Trump — a desonestidade patológica, a predatória sexualidade assumida, o desprezo pelas normas legais, o uso vingativo do poder estatal contra adversários políticos, o narcisismo que subordina todas as questões políticas à lealdade pessoal — não são segredo para ninguém. Mas este é o homem que dominou a vida política americana por mais de uma década. Ele foi nomeado candidato presidencial do Partido Republicano três vezes e eleito presidente duas vezes. Dois julgamentos de impeachment e uma condenação por crime grave não conseguiram pôr fim à sua carreira política, muito menos mantê-lo fora da Casa Branca. 

O próprio envolvimento de Trump com Epstein é, por si só, instrutivo. Ele manteve uma longa relação social com esse criminoso. A forma como a sua administração lidou com os arquivos de Epstein foi claramente seletiva — usando-os como arma contra adversários políticos, enquanto procurava minimizar a sua própria exposição. O fato de nada disso ser politicamente desqualificante revela o estado sórdido do sistema político americano.

A relação entre Trump e o processo de declínio americano está resumida no próprio slogan MAGA. “Make America Great Again” (Tornar os Estados Unidos Grandes Novamente) evoca uma espécie de nostalgia reacionária — um anseio por uma era de ouro perdida e em grande parte imaginária que nunca poderá ser restaurada.

Trump usando um boné do movimento MAGA, em 19 de março de 2016. [AP Photo/Matt York]

Há uma dimensão biográfica que vale a pena notar, pois a própria vida de Trump abrange toda a trajetória do capitalismo americano do pós-guerra, desde seu apogeu até seu estado atual de falência não reconhecida, mas muito real. Donald Trump nasceu em 14 de junho de 1946 – apenas dois anos após a conferência de Bretton Woods, em julho de 1944, estabelecer um novo sistema monetário internacional baseado na conversibilidade do dólar americano em ouro a uma taxa fixa de US$ 35 por onça. Esse acordo não era uma abstração. Baseava-se no domínio industrial esmagador dos Estados Unidos, que emergiram da guerra controlando aproximadamente metade da produção industrial global, detendo a grande maioria das reservas mundiais de ouro e possuindo um aparato militar e econômico sem paralelo histórico.

Mas a erosão constante desse domínio industrial ao longo das décadas de 1950 e 1960 obrigou o governo Nixon a repudiar o sistema de Bretton Woods. Em 15 de agosto de 1971 – apenas dois meses após Trump comemorar seu aniversário de 25 anos – Nixon suspendeu a conversibilidade do dólar em ouro, uma ação que marcou o fim efetivo da ordem econômica do pós-guerra e o reconhecimento de que o capitalismo americano não poderia mais sustentar os acordos globais que havia criado.

A dimensão do que aconteceu desde então pode ser resumida em um único número. Em 1971, o ouro era avaliado em US$ 35 por onça. Hoje, ele é negociado a aproximadamente US$ 5.000 por onça – uma desvalorização de mais de 140 vezes do dólar em relação à medida de valor historicamente estabelecida. Essa é a expressão monetária do prolongado declínio do poder econômico americano, um declínio que nenhuma quantia de gastos militares, engenharia financeira ou retórica nacionalista pode reverter.

O movimento MAGA promete a restauração da grandeza americana por meio de tarifas, restrições à imigração e intimidação de aliados e adversários – enquanto os processos econômicos subjacentes que produziram o declínio continuam operando com força inexorável. O próprio Trump é a personificação dessa contradição: um homem nascido no ápice do poder americano que passou toda a sua vida adulta em uma sociedade cujas bases econômicas foram progressivamente esvaziadas e que agora propõe reverter esse processo histórico por meio da violência bruta.

As políticas de Trump são uma resposta imprudente e violenta à deterioração da posição global do capitalismo americano. Na década de 1950, o PIB real cresceu a uma taxa média anual de 4,2%. Na década de 1960, foi de 4,5%. A indústria manufatureira representava entre 21% e 25% do PIB. Os dados da folha de pagamento do Departamento de Estatísticas do Trabalho mostram que, no pico do pós-guerra, em setembro de 1953, a indústria manufatureira empregava 16,4 milhões de trabalhadores, o que representava um terço de todos os empregos. 

Os dados do Departamento de Análise Econômica, extraídos das tabelas de lucros corporativos, mostram que, em 1962, a indústria manufatureira gerou 46,1% de todos os lucros corporativos, enquanto o setor financeiro foi responsável por apenas 15,1%. 

A desaceleração do crescimento econômico tem sido contínua e implacável. O crescimento médio anual do PIB caiu de mais de 4% nas décadas de 1950 e 1960 para aproximadamente 3% nas décadas de 1970 e 1980, e para menos de 2,5% nas décadas seguintes. A década de 2000 foi particularmente devastadora, com uma média de apenas 1,9%, prejudicada pelo colapso da bolha da internet e pela catastrófica crise financeira de 2008. Enquanto isso, a participação da indústria manufatureira no PIB caiu de 25% para aproximadamente 10%.

A contínua desaceleração do crescimento do PIB dos EUA entre os anos 1950 e 2000.

A trajetória do emprego na indústria manufatureira é igualmente devastadora. Os dados da folha de pagamento do Departamento de Estatísticas do Trabalho traçam o declínio com precisão implacável: de 32% do emprego fora da agricultura em 1953, a indústria manufatureira caiu para 25,7% em 1970, para 16,2% em 1990, para 8,7% em 2010 e para apenas 8,0% em janeiro de 2025 – aproximadamente um décimo segundo da força de trabalho. 

A participação dos lucros corporativos mostra a mesma história do outro lado: em 1963, a indústria manufatureira gerou 47,8% de todos os lucros corporativos e o setor financeiro apenas 13,4%. Em 1990, a diferença havia diminuído drasticamente — a indústria manufatureira representava 28,7% e o setor financeiro, 23,1%. Em 1991, o setor financeiro ultrapassou a indústria manufatureira pela primeira vez e, em 2010, a reversão estava completa: o setor financeiro representava 27,8% e a indústria manufatureira havia caído para 12,2%. A indústria manufatureira caiu de quase metade de todos os lucros em meados do século para apenas um oitavo, enquanto a participação do setor financeiro mais que dobrou. A desindustrialização dos Estados Unidos é o resultado da interação de poderosas forças econômicas objetivas e decisões políticas deliberadas da classe dominante, perseguidas por ambos os partidos, no interesse de retornos financeiros de curto prazo.

Participação nos lucros das empresas americanas entre 1962 e 2010: indústria manufatureira (linha azul) vs. setor financeiro (linha vermelha).

A resposta da classe dominante a essa crise não foi irracional do ponto de vista do capital. Se o excedente econômico não estava mais crescendo rápido o suficiente para sustentar tanto os lucros das empresas quanto as concessões sociais, então as concessões tinham que ser retiradas. O ataque aos sindicatos, a desregulamentação das finanças, a redução dos impostos sobre os ricos, o esvaziamento dos programas sociais, a terceirização da manufatura – tudo isso, perseguido com intensidade crescente desde Reagan por ambos os partidos, representou uma estratégia de classe coerente para restaurar a taxa de lucro às custas diretas da classe trabalhadora.

Os resultados dessa estratégia de classe estão registrados nas estatísticas de concentração de riqueza e desigualdade social – números tão extremos que seriam descartados como invenções de propagandistas socialistas, se não fossem extraídos dos bancos de dados do próprio Federal Reserve.

Dados do Federal Reserve para o terceiro trimestre de 2025 mostram que 1% das famílias americanas mais ricas controlavam 31,7% da riqueza total do país – a maior participação registrada desde que o Federal Reserve começou a acompanhar a riqueza das famílias em 1989. Esse 1% detinha aproximadamente US$ 55 trilhões em ativos – uma soma aproximadamente igual à riqueza detida por 90% da população americana mais pobre somada. Os 10% mais ricos controlavam mais de dois terços de toda a riqueza familiar. No outro extremo do espectro, os 50% mais pobres das famílias americanas – cerca de 66 milhões de famílias – detinham apenas 2,5% da riqueza total. Os 1% mais ricos da população possuem mais do que os 90% mais pobres. É preciso assimilar esse número.

A trajetória dessa concentração ao longo do tempo é igualmente condenatória. Em 1989, os 50% mais pobres detinham 3,4% da riqueza total – uma parcela já insignificante. Em 2025, mesmo essa parcela escassa havia sido ainda mais reduzida. Enquanto isso, a parcela detida pelos 0,1% mais ricos cresceu quase 60% no mesmo período. Os 905 bilionários dos Estados Unidos agora detêm, juntos, US$ 7,8 trilhões – quase o dobro da riqueza total da metade mais pobre de toda a população. Três indivíduos possuem mais riqueza do que os 160 milhões de americanos mais pobres somados.

A diferença entre aqueles que possuem e aqueles que trabalham é capturada com particular vivacidade na relação entre a remuneração dos CEOs e o salário dos trabalhadores comuns. De acordo com o Instituto de Política Econômica, os CEOs das 350 maiores empresas americanas de capital aberto receberam, em média, US$ 23 milhões em remuneração total em 2024 – 281 vezes o salário de um trabalhador típico. Em 1965, essa proporção era de 21 para 1. Em 1978, era de 31 para 1. Desde então, cresceu quase dez vezes. Nas empresas mais flagrantes, a proporção desafia a compreensão: o CEO da Starbucks recebeu US$ 97,8 milhões em 2024 – 6.666 vezes o salário médio dos trabalhadores da empresa. 

A diferença salarial entre um trabalhador e um CEO entre 1965 e 2024.

Desde 1978, a remuneração real dos CEOs aumentou 1.094%. No mesmo período, a remuneração de um trabalhador típico aumentou apenas 26%, enquanto a produtividade líquida cresceu mais de 80%. Praticamente todos os ganhos em produtividade do trabalho desde a década de 1970 foram expropriados pela classe capitalista.

As consequências dessa desigualdade permeiam todas as dimensões da vida americana. Os 10% mais ricos da população são responsáveis por quase metade de todos os gastos de consumo nos Estados Unidos — uma proporção que cresceu de 43% em 2020 para 49% em 2025. A economia americana está cada vez mais dependente dos padrões de consumo dos ricos, enquanto a maioria da população luta contra salários estagnados, dívidas crescentes e o aumento do custo da habitação, saúde e educação.

A expectativa de vida entre os americanos da classe trabalhadora caiu — um fenômeno praticamente sem precedentes em uma nação industrial avançada. A epidemia de opiáceos e as “mortes por desespero” que a acompanham, causadas por suicídio, alcoolismo e overdose de drogas, são as consequências fisiológicas de uma ordem social que condenou dezenas de milhões de pessoas a uma vida de insegurança econômica, degradação social e desesperança.

A resposta bipartidária ao início da pandemia da COVID-19 em janeiro de 2020 expôs a priorização dos lucros em detrimento da vida. Sob pressão direta da classe trabalhadora, a classe dominante acedeu por um curto período às exigências de fechamento das fábricas para impedir a propagação do vírus SARS-CoV-2. Mas assim que o Congresso votou a favor de um resgate maciço de Wall Street, a atenção foi desviada para forçar o retorno ao trabalho, independentemente do custo em vidas.

O colunista liberal do New York Times e “mensageiro imperial” Thomas Friedman forneceu o slogan para a repudiar medidas de saúde pública eficazes e bem estabelecidas: “Não deixe que a cura [ou seja, interromper a transmissão viral em detrimento dos lucros] seja pior do que a doença.” Os resultados têm sido devastadores: mais de 1,5 milhão de mortes evitáveis nos Estados Unidos e pelo menos 30 milhões de mortes evitáveis internacionalmente. Seis anos se passaram e a pandemia continua a minar gravemente a saúde pública. Mas o S&P 500 e o Dow Jones Industrial Average mais que dobraram seu nível de 2020.

Essa é a realidade social que está por trás da alta nos índices do mercado de ações. A classe dominante vomitou Trump e Epstein e os elevou a posições de imenso poder e influência. A acumulação de riqueza obscena no topo é inseparável da exploração e da miséria da grande massa da população. A conexão entre os dois é estrutural. Os mesmos processos que enriqueceram a classe capitalista – a destruição dos sindicatos, a desregulamentação das finanças, o esvaziamento dos programas sociais, a terceirização da produção – simultaneamente empobreceram a classe trabalhadora e criaram as condições de desespero social das quais se alimentam demagogos autoritários como Trump.

À medida que os retornos sobre o investimento produtivo diminuíram, o capital migrou cada vez mais para a especulação financeira – derivativos, aquisições alavancadas, bolhas de ativos e todo o aparato de especulação de Wall Street que extrai riqueza sem produzir nada. A corrupção pessoal de Trump exemplifica esse mundo.

Mas, apesar de toda a sua arrogância, não há qualquer sinal do milagre econômico prometido por Trump. Em vez disso, o processo de decadência prossegue de forma tão implacável e visível quanto a própria deterioração física e mental de Trump. O Wall Street Journal noticiou em 2 de fevereiro de 2026:

O boom da indústria manufatureira que o presidente Trump prometeu que daria início a uma era de ouro para os Estados Unidos está indo na direção contrária. Após anos de intervenções econômicas dos governos Trump e Biden, menos americanos trabalham na indústria manufatureira do que em qualquer outro momento desde o fim da pandemia.

De acordo com dados federais, as indústrias demitiram trabalhadores em cada um dos oito meses após Trump anunciar as tarifas do “Dia da Libertação”, prolongando uma contração que já causou o desaparecimento de mais de 200 mil empregos desde 2023.

Não é apenas na esfera da produção industrial que a falência do trumpismo é exposta. O caráter delirante do slogan MAGA é revelado de forma ainda mais precisa no estado do dólar, a medida em moeda forte do declínio dos EUA. Longe de tornar o dólar grande novamente, ele continua a perder valor. No artigo principal intitulado “O dólar perigoso”, publicado em sua edição de 6 a 13 de fevereiro, a revista The Economist relatou: 

Desde o pico em janeiro de 2025 [quando Trump voltou ao poder], o dólar perdeu um décimo do seu valor em relação a uma cesta de moedas. Como resultado, em termos de moeda estrangeira, o desempenho dos ativos americanos tem sido ruim. Quando denominadas em euros, por exemplo, as ações americanas mal subiram no último ano.

Trump acreditava que poderia escapar das consequências da desvalorização do dólar – e enriquecer a si mesmo e à sua família – promovendo o bitcoin como uma alternativa e até mesmo superior como reserva de valor. Sua comercialização desse elixir foi inicialmente bem-sucedida. O preço do bitcoin disparou para mais de US$ 120.000. Mas a realidade cobrou seu preço. A criptomania está diminuindo e o bitcoin caiu de volta para a faixa de US$ 65.000 a US$ 70.000, onde estava antes da reeleição de Trump em novembro de 2024. E cresce a suspeita de que ele está longe de atingir seu potencial mínimo. Os detentores de bitcoin podem ser obrigados, no futuro, a medir seu valor pelo número de tulipas que podem ser trocadas por ele.

A conexão entre declínio econômico, parasitismo e a dependência cada vez mais desenfreada da violência militar é inegável. O recurso à violência e a rejeição crescente da legalidade pelo Estado americano têm suas raízes na fragilidade econômica e financeira aguda. O peso da dívida pública e os déficits estruturais persistentes limitam as opções políticas e tornam o sistema cada vez mais dependente de refinanciamento contínuo, baixos custos reais de empréstimos e demanda global ininterrupta por ativos em dólares. Ao mesmo tempo, os mercados de ações – sobretudo as grandes empresas de tecnologia – dependem de avaliações que pressupõem um crescimento indefinido dos lucros e condições de liquidez permanentemente favoráveis; qualquer reajuste sustentado ameaça um efeito riqueza negativo, retração corporativa e tensão nos mercados bancário e de crédito. 

O Estado federal está operando sob uma carga de dívida e juros que reduz drasticamente sua margem de manobra: a dívida pública total dos EUA era de US$ 38,43 trilhões em 7 de janeiro de 2026 (incluindo US$ 30,81 trilhões detidos pelo público), enquanto os custos líquidos com juros foram de cerca de US$ 970 bilhões no ano fiscal de 2025 – aproximadamente 3,2% do PIB e 13,8% dos gastos federais. 

A evolução da dívida federal dos EUA. [Photo: FRED]

Nessas condições, a coerção e os métodos extralegais tornam-se instrumentos para defender a inflação dos ativos, reforçar os canais de financiamento externo e suprimir a oposição interna à austeridade e à guerra.

A situação enfrentada pelo governo Trump – uma enorme dívida nacional, deterioração da moeda, declínio da produção industrial, perda de mercados globais, etc. – assemelha-se às condições enfrentadas pelo regime nazista em 1937-38. Como escreveu o brilhante historiador do Terceiro Reich, Tim Mason:

A única “solução” disponível para esse regime de tensões estruturais e crises produzidas pela ditadura e pelo rearmamento era mais ditadura e mais rearmamento, depois expansão, depois guerra e terror, depois pilhagem e escravidão. A alternativa gritante e sempre presente era o colapso e o caos, e assim todas as soluções eram temporárias, agitadas, precárias, improvisações cada vez mais bárbaras em torno de um tema brutal. ... Uma guerra pela pilhagem de mão de obra e materiais estava em consonância com a terrível lógica do desenvolvimento econômico alemão sob o regime nacional-socialista. [Nazismo, Fascismo e a Classe Trabalhadora (Cambridge, 1995), p. 51]

À medida que o capitalismo americano se tornou menos competitivo em termos produtivos, passou a depender cada vez mais da força militar e da coerção para manter sua posição global. As guerras no Iraque, Afeganistão, Líbia e Síria não foram aberrações, mas expressões de um sistema que não consegue mais garantir seus interesses apenas por meio do dinamismo econômico. A normalização da guerra permanente, dos assassinatos por drones, da tortura e das detenções extrajudiciais representa um endurecimento da vida política que inevitavelmente se reflete na política interna. 

Trump está aplicando à política externa os métodos da máfia nos dias da Lei Seca. Tendo sido colocado no poder pela classe dominante americana, ele tem à sua disposição não apenas as submetralhadoras Thompson usadas por Al Capone, mas todo o arsenal do imperialismo americano – a força militar mais destrutiva da história da humanidade, incluindo milhares de ogivas nucleares capazes de acabar com a civilização. Este é o perigo essencial da situação atual: os métodos de um gângster, apoiados pelo armamento de uma superpotência, empregados a serviço de uma classe dominante que perdeu a capacidade de tomar decisões racionais.

O porta-aviões classe Nimitz, USS Abraham Lincoln, durante os exercícios militares “Rim of the Pacific”, em 28 de julho de 2022. Hoje, ele está posicionado perto do Irã. [Photo: Canadian Armed Forces photo by Cpl. Djalma Vuong-De Ramos]

A erupção da agressão imperialista americana sob Trump – a invasão da Venezuela, as ameaças abertas de anexar o Canadá e a Groenlândia, os preparativos para um ataque militar contra o Irã – representa uma escalada qualitativa que surpreendeu os aliados europeus da OTAN, que não previram a repentina mudança na política americana. Eles foram pegos de surpresa. 

Mas a erupção vulcânica do imperialismo americano foi prevista há muito tempo – com notável precisão – por Trotsky e pelo movimento que ele fundou. Já em 1928, escrevendo após o boom do pós-guerra e às vésperas da Grande Depressão, Trotsky advertiu:

No período de crise, a hegemonia dos Estados Unidos funcionará de forma mais completa, mais aberta e mais implacável do que no período de prosperidade. Os Estados Unidos procurarão superar e livrar-se de suas dificuldades e males principalmente às custas da Europa, independentemente de isso ocorrer na Ásia, no Canadá, na América do Sul, na Austrália ou na própria Europa, ou de isso acontecer pacificamente ou através da guerra.

Trotsky não apenas previu uma tendência geral para o conflito imperialista. Ele identificou, com extraordinária especificidade, o alcance geográfico das ambições predatórias do imperialismo americano e a crueldade com que elas seriam perseguidas. Quase um século depois, Trump ameaça a soberania do Canadá, toma o controle do Canal do Panamá, invade a Venezuela, exige a cessão da Groenlândia pela Dinamarca e ameaça o Irã com destruição militar.

Leon Trotsky em Prinkipo, na Turquia, em 1931.

Em 1934, com a ascensão do fascismo alemão e a aproximação da Segunda Guerra Mundial, Trotsky aprofundou ainda mais sua análise: “O mundo está dividido? Ele deve ser redividido. Para a Alemanha, era uma questão de ‘organizar a Europa’. Os Estados Unidos devem ‘organizar’ o mundo. A história está colocando a humanidade frente a frente com a erupção vulcânica do imperialismo americano”. Essa frase – a erupção vulcânica do imperialismo americano – não é uma metáfora que envelheceu. É um prognóstico científico que está se cumprindo.

A análise que apresentamos até agora documentou, com considerável detalhe, a decadência e a putrefação do sistema capitalista e de sua classe dominante. Mas seria um erro político profundo – uma capitulação à desmoralização e ao pessimismo – ver apenas a ameaça na situação atual. A crise traz consigo não apenas o perigo do fascismo e da guerra, mas também a possibilidade objetiva de uma revolução social. De fato, as mesmas contradições que estão levando a classe dominante ao autoritarismo e ao militarismo estão simultaneamente criando as condições para um movimento revolucionário da classe trabalhadora em escala internacional.

Qual é a causa fundamental da crise? Não é, como sugerem incessantemente os comentaristas burgueses, um fracasso da liderança, um déficit de civilidade ou um colapso das normas democráticas. Esses são sintomas. A causa é estrutural e sistêmica: a contradição irreconciliável entre a propriedade privada dos meios de produção e o caráter cada vez mais social do próprio processo de produção. Essa é a contradição central identificada por Marx, e sua operação na época atual atingiu uma intensidade sem precedentes históricos.

A isso deve-se acrescentar uma segunda contradição, intimamente relacionada: entre o crescimento da economia mundial – o desenvolvimento de um sistema genuinamente global de produção, troca e comunicação – e o sistema obsoleto do Estado-nação, no qual o poder político continua organizado. O surgimento de redes transnacionais de produção, cadeias de abastecimento globais que abrangem dezenas de países e comunicação instantânea em todo o mundo tornou o Estado-nação um obstáculo ao desenvolvimento racional das forças produtivas. O capital flui livremente através das fronteiras; a mão de obra é organizada transnacionalmente; uma interrupção numa fábrica de semicondutores em Taiwan repercute-se nas fábricas de automóveis no Michigan, nas linhas de montagem de eletrônicos em Guangdong e nos servidores de fazenda na Virgínia. No entanto, o poder político permanece preso dentro das fronteiras nacionais, exercido por classes dominantes cujos cálculos estratégicos são ditados pelos interesses competitivos dos capitalismos nacionais rivais.

O porto de contêineres mais movimentado do mundo, Xangai, na China.  [Photo by Marqueed / CC BY 3.0]

A burguesia imperialista americana busca resolver essa contradição por meio da afirmação do poder militar – através da reorganização violenta das relações econômicas globais a seu favor. Esse é o conteúdo essencial da política externa de Trump, despojada de sua habitual embalagem de “defesa do mundo livre”. 

Há, no entanto, outra força que esse mesmo processo de globalização criou — uma força que a burguesia não pretendia criar e cujas implicações revolucionárias ainda não compreende totalmente. A integração global da produção criou uma enorme classe trabalhadora global, com uma dimensão, concentração e interconexão objetiva sem precedentes na história da humanidade.

Durante o último meio século, a urbanização e a proletarização da população mundial passaram por uma transformação de dimensões impressionantes. Na América Latina, a população urbana aumentou de 57% em 1970 para mais de 80% atualmente, criando enormes concentrações de população da classe trabalhadora em cidades como São Paulo, Cidade do México, Buenos Aires, Bogotá e Lima. Na África, a população urbana cresceu de aproximadamente 80 milhões em 1970 para mais de 700 milhões, um aumento de quase nove vezes. Em toda a Ásia — na China, Índia, Indonésia, Vietnã, Bangladesh, Filipinas — centenas de milhões de camponeses foram absorvidos pela produção industrial em uma única geração. Só a China testemunhou a maior migração da história da humanidade, com cerca de 300 milhões de pessoas se mudando das áreas rurais para as cidades industriais desde a década de 1980. A classe trabalhadora global hoje conta com bilhões de pessoas.

O caráter transnacional da produção moderna e da cadeia de abastecimento global unifica objetivamente essa classe trabalhadora de maneiras que não têm paralelo histórico. Uma greve em um porto de Los Angeles afeta as fábricas de montagem em Wuhan. Uma paralisação de mineiros na África do Sul interrompe a produção na Alemanha. Os trabalhadores que produzem um único smartphone – desde a mineração de terras raras no Congo, passando pelo refinamento de lítio no Chile, pela fabricação de chips na Coreia do Sul, pela montagem em Shenzhen até o desenvolvimento de software em Bangalore e Cupertino – estão ligados por uma cadeia de produção que se estende por continentes e torna as fronteiras nacionais tecnicamente obsoletas. Essa integração objetiva da classe trabalhadora global cria possibilidades revolucionárias sem precedentes na história. O que é necessário é a expressão política consciente dessa unidade objetiva – um programa socialista internacional e um partido revolucionário internacional.

Além disso, apesar do domínio político da reação, o último meio século testemunhou o que pode ser justamente descrito como a maior revolução científica e tecnológica da história da humanidade. Todas as esferas da ciência passaram por uma transformação extraordinária. 

Na biologia, o sequenciamento do genoma humano, o desenvolvimento da tecnologia de edição genética CRISPR e a revolução na terapia com RNA mensageiro – demonstrada com uma velocidade histórica mundial durante a pandemia de COVID-19 – abriram possibilidades para a superação de doenças que pareceriam fantásticas há uma geração atrás. 

Na astronomia e na física, a detecção de ondas gravitacionais, a imagem de buracos negros, a descoberta de milhares de exoplanetas e a extraordinária precisão do Telescópio Espacial James Webb transformaram nossa compreensão do universo.

Técnicos levantando o espelho do Telescópio Espacial James Webb usando um guindaste, em 13 de abril de 2017, no Centro de Voos Espaciais Goddard, em Greenbelt, em Maryland (EUA). [AP Photo/Laura Betz/NASA]

Na química e na ciência dos materiais, o desenvolvimento de novos catalisadores, nanomateriais e tecnologias de energia sustentável – incluindo avanços dramáticos na eficiência das células solares e no armazenamento de baterias – demonstrou que existe uma base técnica para uma transição que abandone os combustíveis fósseis. 

Na medicina, os avanços na imunoterapia, transplante de órgãos, diagnóstico por imagem e compreensão do microbioma expandiram fundamentalmente os horizontes da saúde humana.

E agora existe a inteligência artificial (ou, como deveria ser conhecida, aumentada). O desenvolvimento de grandes modelos de linguagem, sistemas de aprendizado de máquina capazes de prever a estrutura das proteínas, descoberta de medicamentos assistida por IA e sistemas autônomos representa uma revolução tecnológica cujas implicações estão apenas começando a ser compreendidas. Sob o capitalismo, a IA está sendo desenvolvida principalmente como um instrumento de extração de lucro — para a intensificação da exploração do trabalho, a expansão da vigilância, a manipulação do comportamento do consumidor e a substituição de trabalhadores sem qualquer provisão para seu sustento. 

Mas considere por um momento o que a inteligência aumentada poderia realizar se fosse separada dos imperativos do lucro capitalista e colocada sob o controle democrático da classe trabalhadora. As possibilidades de planejamento social – para a alocação racional de recursos, a otimização da produção para atender às necessidades humanas em vez de maximizar a riqueza privada, a redução do desperdício e da destruição ambiental, a libertação dos seres humanos do trabalho repetitivo e degradante – são extraordinárias. A IA sob o controle dos trabalhadores poderia servir como um instrumento não de exploração, mas de emancipação – tornando possível um nível de planejamento econômico e coordenação que o movimento socialista há muito tempo imaginava, mas nunca antes teve os meios técnicos para realizar.

A contradição é flagrante. A humanidade possui, pela primeira vez em sua história, o conhecimento científico e a capacidade tecnológica para resolver os problemas mais fundamentais da existência material — fome, doenças, degradação ambiental, o trabalho árduo e explorador. E, no entanto, essas capacidades estão aprisionadas em um sistema social que as subordina à acumulação de lucro privado, que canaliza o gênio científico para a engenharia financeira e o desenvolvimento de armas, que permite que crianças morram de fome enquanto algoritmos otimizam a receita publicitária. Esta é uma acusação não contra a tecnologia, mas contra o sistema social no qual a tecnologia é empregada. A libertação da ciência e da tecnologia do domínio da propriedade capitalista privada é uma tarefa crítica da revolução socialista.

A tecnologia de IA controlada pela oligarquia dominante representa perigos imensos. Mas sua utilização pelo movimento marxista e socialista também abre possibilidades sem precedentes para a conscientização política da classe trabalhadora. Como explicou o World Socialist Web Site quando lançou “Socialism AI” em dezembro de 2025:

O significado decisivo de Socialism AI reside na sua capacidade de preencher a lacuna entre o movimento objetivo da classe trabalhadora e o nível subjetivo da consciência socialista. O marxismo sempre insistiu que as lutas espontâneas dos trabalhadores, por mais poderosas que sejam, não produzem por si só uma perspectiva revolucionária coerente. A consciência deve ser desenvolvida; a experiência histórica deve ser assimilada; a compreensão teórica deve ser alcançada. Os desenvolvimentos tecnológicos da era atual permitem agora a rápida transmissão de ideias em escala global, possibilitando à classe trabalhadora desenvolver sua compreensão política em um ritmo adequado à crise objetiva.

A crise global do atual ancien régime – a decadência da classe dominante, o colapso econômico, a erupção do imperialismo americano, a ascensão da política fascista, a destruição das formas democráticas – não foi analisada apenas pelo Comitê Internacional da Quarta Internacional e pelo World Socialist Web Site. Ela foi prevista, com notável precisão, anos antes dos eventos que agora se desenrolam.

Em março de 2016, logo após a vitória esmagadora de Trump nas primárias da Super Terça-feira, o World Socialist Web Site publicou uma perspectiva que afirmava:

A candidatura de Donald Trump não pode mais ser descartada – como tem sido até muito recentemente por tantos especialistas – como meramente um espetáculo bizarro e até mesmo um tanto divertido. Embora o resultado permaneça incerto, o favorito à indicação presidencial do Partido Republicano é um candidato cuja personalidade e apelo têm um caráter distintamente fascista.

A perspectiva identificou as raízes materiais do apelo de Trump na devastação econômica da classe trabalhadora e alertou que o fracasso da pseudoesquerda e do Partido Democrata em lidar com a crise social estava criando as condições para a demagogia da direita.

Dois meses depois, em maio de 2016, o WSWS publicou uma análise mais aprofundada alertando que a ascensão de Trump como provável candidato republicano marcava “uma virada perigosa para a política dos EUA e do mundo” e que “a escolha de um demagogo fascista como candidato de um dos dois principais partidos capitalistas é prova incontestável do estágio avançado de decadência da democracia americana”. A perspectiva chegou a uma conclusão histórica mais ampla: “A indicação de Trump não é um evento episódico ou acidental. Ela está enraizada na crise prolongada do capitalismo americano e no colapso relacionado de sua estrutura democrática burguesa histórica”.

O WSWS alertou – em maio de 2016, seis meses antes da eleição – que mesmo que Trump não vencesse, “o cenário estaria pronto para uma figura ainda mais ameaçadora. E quer Trump esteja à frente ou não, o governo que assumir o poder em janeiro será o mais reacionário, violento e autoritário da história americana”. Essas palavras, escritas há quase uma década, hoje não soam como previsões, mas como descrições de fatos comprovados. O CIQI não chegou a essas conclusões por acaso ou por meio de especulações inspiradas. Elas decorreram da aplicação do método marxista – de uma análise baseada nas contradições objetivas do sistema capitalista, na experiência histórica da classe trabalhadora internacional e na herança teórica do movimento trotskista.

É através da construção de um partido marxista-trotskista que a classe trabalhadora pode desenvolver uma compreensão consciente da situação histórica e levar a cabo a transformação socialista da sociedade. O fato de o CIQI, o Partido Socialista pela Igualdade e o WSWS terem antecipado a crise atual, identificado seu caráter de classe e formulado um programa para a mobilização política independente da classe trabalhadora demonstra que os instrumentos teóricos e políticos para essa tarefa existem. Eles não precisam ser inventados do zero. Eles precisam ser adotados, estudados e aplicados.

Quais conclusões, então, devem ser tiradas?

Trump não é a doença. Ele é o sintoma mais avançado. E seria a mais perigosa das ilusões acreditar que a crise pode ser resolvida removendo-o do cargo por meio de eleições. É improvável que as eleições de meio de mandato de 2026 — sem falar em qualquer futura eleição presidencial — sejam conduzidas em condições que se assemelhem aos padrões democráticos. Trump já está preparando o terreno para a supressão ou manipulação das eleições. É evidente que ele utilizará as forças estatais — os mesmos agentes do ICE e oficiais federais que ocuparam Minneapolis — para intimidar os eleitores e impedi-los de votar. Tendo tido tempo suficiente para se preparar, ele aprendeu muito com o fracasso de seu golpe de 6 de janeiro de 2021. A próxima tentativa não será um motim improvisado por uma multidão de fanáticos desorganizados. Será executada com todo o aparato do governo federal à sua disposição.

E mesmo que a biologia intervenha e Trump seja removido da cena, a descida à ditadura não será interrompida. Um novo “Trump”, talvez mais polido, mas não menos sinistro, será encontrado. As forças objetivas que criaram Trump – a crise do capitalismo americano, a decadência de sua base produtiva, o domínio do parasitismo financeiro, a desintegração das instituições democráticas sob o peso da desigualdade social – moldarão as políticas de seu sucessor. 

O governo Trump representa um rompimento decisivo com as tradições democráticas burguesas e uma transição cada vez mais evidente para a ditadura. Mas isso significa uma grande escalada do conflito de classes aberto e a transição para a revolução social.

Nenhuma solução para a crise do capitalismo americano surgirá das instituições e da estrutura política burguesa existentes. Ela só pode e irá se desenvolver fora e em oposição intransigente à estrutura política existente e à ordem econômica capitalista que ela defende.

Esta não é uma perspectiva utópica. A resposta de milhões de pessoas em todos os Estados Unidos ao ataque aos direitos democráticos revelou que um processo de radicalização política já está em andamento.

A questão colocada no título deste livro, Aonde vão os EUA?, não será decidida em debates acadêmicos, mas na luta de classes. É irresponsável subestimar a escala da crueldade contrarrevolucionária da classe dominante americana. Mas é catastroficamente míope, para não dizer autodestrutivo, desconsiderar o poder latente e o potencial revolucionário da classe trabalhadora. Do ponto de vista das condições objetivas, a tendência dominante do desenvolvimento é, sem dúvida, em direção ao socialismo. Mas esse potencial objetivo deve encontrar expressão na consciência subjetiva da classe revolucionária.

É de imensa importância política que as manifestações em massa contra o governo Trump tenham adotado, quase espontaneamente, o slogan “No Kings” [“Sem Reis”]. Em junho de 2025, milhões marcharam sob essa bandeira. Em outubro, mais de 7 milhões de pessoas participaram de mais de 2.700 protestos em todos os 50 estados. As manifestações de 23 de janeiro em Minneapolis, onde mais de 100 mil pessoas enfrentaram temperaturas abaixo de zero para protestar contra a ocupação federal de sua cidade, foram uma das expressões mais notáveis de resistência popular na história recente dos Estados Unidos. Um editorial de televisão em Boston traçou um paralelo explícito entre Minneapolis em 2026 e Boston em 1775 – entre a ocupação armada de uma cidade americana por agentes federais e a ocupação militar britânica que desencadeou a Guerra da Independência.

Uma parte do grande protesto em Minneapolis, em 23 de janeiro de 2026.

A classe trabalhadora americana não entra nessa luta sem uma tradição revolucionária. Pelo contrário, a herança democrática e revolucionária dos Estados Unidos está entre as mais profundas e poderosas do mundo. A Revolução Americana de 1775-1783 e a Guerra Civil de 1861-1865 – duas das grandes revoltas revolucionárias da história moderna – ainda vivem na consciência do povo americano. A Declaração da Independência, com sua proclamação de que todos os homens são criados iguais e dotados de direitos inalienáveis; a Carta de Direitos da Constituição, com suas garantias de liberdade de expressão, reunião e devido processo legal; a Proclamação da Emancipação e as 13ª, 14ª e 15ª Emendas, que codificaram na lei o que havia sido conquistado no campo de batalha: a derrubada da escravidão pela Segunda Revolução Americana.

Esses documentos históricos são tradições vivas, profundamente enraizadas na consciência popular, que fornecem uma base poderosa para a luta contra a ditadura.

A invocação do passado revolucionário em manifestações de protesto em massa é da maior importância. Ela demonstra que as tradições democráticas da Revolução Americana e da Guerra Civil não foram extintas. Elas estão sendo ativadas por milhões de pessoas que percebem, corretamente, que os princípios pelos quais seus antepassados lutaram estão sob ameaça mortal.

“A Marcha para o Vale Forge” (1883), famosa pintura de William Trego. Ela faz parte da coleção do Museu da Revolução Americana, na Filadélfia (EUA).

Mas essa tradição democrática, por si só, é insuficiente. A era das revoluções democráticas nacionais pertence a um passado agora distante. A época histórica atual é a da revolução socialista mundial. A classe trabalhadora americana deve estudar e aprender com a experiência da conquista do poder pela classe trabalhadora russa na Revolução de Outubro de 1917 e suas consequências. A barreira entre a militância instintiva dos trabalhadores americanos e a imensa herança teórica e política do marxismo deve ser superada.

A primeira Revolução Americana derrubou o domínio colonial e estabeleceu a independência. A segunda Revolução Americana destruiu a escravidão. A tarefa da terceira Revolução Americana, como componente decisivo da luta de classes internacional, é a derrubada do capitalismo. O que a classe trabalhadora precisa é de um programa e um partido que conectem suas aspirações democráticas profundamente sentidas com a luta pelo socialismo – com o entendimento de que a democracia genuína é incompatível com a ditadura da oligarquia financeira e só pode ser garantida por meio da transformação socialista da sociedade. 

Essa luta tem caráter internacional. A rede de Epstein era internacional. A política fascista de Trump não é, de forma alguma, exclusiva dos Estados Unidos. Ele tem imitadores políticos em toda a Europa: Meloni na Itália, Le Pen na França, Farage no Reino Unido, os líderes da AfD na Alemanha. Seu slogan não declarado, 81 anos após a queda do Terceiro Reich, é “Tornar a Europa Fascista Novamente”.

A crise do capitalismo é internacional. A classe trabalhadora é uma classe internacional. Não existe nem pode existir uma solução nacional. A luta contra a ditadura oligárquica que se consolida nos Estados Unidos – e em vários países ao redor do mundo – requer a construção de um movimento revolucionário internacional, guiado pelo programa e pelos princípios do marxismo, enraizado na classe trabalhadora e dedicado à derrubada do sistema capitalista.

Existe atualmente uma lacuna significativa entre a escala monumental da crise atual e o nível de consciência predominante. Como poderia não ser assim em um país onde a classe dominante praticamente elevou o anticomunismo ao status de religião oficial e promove incansavelmente todas as formas de atraso político e social? Tudo o que é possível é feito para privar o público de qualquer avaliação crítica do estado real da sociedade. A mídia é controlada pelas corporações mais poderosas e por bilionários reacionários. Sob seu controle e a seu pedido, a reportagem objetiva das notícias foi quase totalmente substituída pela propaganda. Os programas noturnos de notícias são dedicados em grande parte a boletins meteorológicos, histórias de interesse humano, esportes e marketing de produtos farmacêuticos.

A situação objetiva é, como observou Lincoln em outro período histórico de profunda crise, “repleta de dificuldades”. Mas as condições objetivas que deram origem aos problemas também criam a possibilidade de sua solução. A grande tarefa imposta pela situação atual é elevar a consciência da classe trabalhadora ao nível exigido pela crise objetiva. 

Como isso pode ser feito? Leon Trotsky respondeu a essa pergunta em uma discussão com seus apoiadores americanos em 1938, em meio à Grande Depressão e às vésperas da eclosão da guerra mundial: “Em primeiro lugar”, disse ele, “dar uma imagem clara e honesta da situação objetiva, das tarefas históricas que decorrem dessa situação, independentemente de os trabalhadores estarem ou não maduros para isso hoje. Nossas tarefas não dependem da mentalidade dos trabalhadores. A tarefa é desenvolver a mentalidade dos trabalhadores”.

Essas palavras adquirem hoje a mais urgente importância. O desafio que temos pela frente é a construção do Partido Socialista pela Igualdade, em solidariedade com seus correligionários nas seções do Comitê Internacional, como uma nova direção revolucionária da classe trabalhadora. Este não é um objetivo distante ou abstrato. É a necessidade prática mais urgente de nosso tempo.

A análise do movimento marxista-trotskista foi comprovada pelos acontecimentos. Seu programa oferece o único caminho viável para o futuro. Construa o Comitê Internacional da Quarta Internacional e suas seções. Expanda o trabalho e a influência do World Socialist Web Site. O futuro da humanidade depende disso.

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