Publicado originalmente em inglês em 15 de fevereiro de 2026
A divulgação de mais de 3,5 milhões de páginas dos arquivos de Jeffrey Epstein pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos provocou um terremoto político cujos efeitos continuam a repercutir em todo o mundo. De Washington a Londres e Tel Aviv, os documentos revelaram uma vasta rede de criminalidade que conecta magnatas da finança, chefes de Estado, agentes de inteligência, celebridades e acadêmicos em uma teia de tráfico sexual, chantagem e corrupção que envolve praticamente todas as principais instituições do regime capitalista.
Os arquivos de Epstein revelaram conexões entre Epstein e Donald Trump, Bill Clinton, Bill Gates, Ehud Barak, o príncipe Andrew, Elon Musk, Howard Lutnick e dezenas de outros representantes da oligarquia financeira e do establishment político, bem como inúmeros acadêmicos proeminentes. No entanto, apesar das amplas evidências de atividades criminosas nos mais altos níveis, a posição do governo Trump permanece a mesma: não há ninguém para ser indiciado.
Entre as revelações mais significativas do ponto de vista político estão aquelas envolvendo Noam Chomsky, o lingüista e intelectual anarquista de 97 anos do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), há muito promovido como o principal crítico “de esquerda” do imperialismo americano. Milhares de e-mails e mensagens de texto relacionados a Chomsky foram divulgados até agora como parte dos arquivos de Epstein, documentando um extenso vínculo pessoal que durou vários anos entre o notório traficante sexual e o acadêmico que já foi caracterizado pelo New York Times como “o intelectual vivo mais importante”.
Em uma carta, Valeria Chomsky escreveu a Epstein: “Caro Jeffrey, nós o consideramos nosso melhor amigo. Quero dizer, “o” melhor. É sempre ótimo vê-lo.” Em outra mensagem, Noam Chomsky concluiu com: “Como uma amizade verdadeira, profunda, sincera e eterna de ambos, Noam e Valeria.” Essas não são as palavras de um homem que, como disse ao Wall Street Journal em 2023, apenas “conhecia [Epstein] e nos encontrávamos ocasionalmente”.
Os documentos divulgados indicam que Chomsky viajou no avião particular de Epstein (amplamente conhecido como “Lolita Express”), aceitou se hospedar nas propriedades de Epstein em Nova York e Paris e repetidamente demonstrou interesse em visitar Little St. James Island, o local no Caribe onde Epstein cometeu seus crimes mais hediondos.
Não há evidências de que Chomsky, que tinha mais de 80 anos durante esse período, tenha participado de qualquer crime sexual cometido por Epstein. No entanto, seria preciso ser deliberadamente ignorante para não saber quem era Epstein, e os documentos deixam claro que Chomsky sabia que algo estava acontecendo — o que ele perdoou, minimizou e ajudou ativamente a ocultar. Essas revelações destruíram sua reputação como um opositor de princípios da classe dominante e um homem de integridade inquestionável.
Durante o período que antecedeu diretamente a prisão de Epstein em julho de 2019 por acusações federais de tráfico sexual, à medida que a cobertura da mídia se intensificava e revelava a vasta escala dos crimes de Epstein, Chomsky prestou consultoria de relações públicas a Epstein. Em um e-mail de fevereiro de 2019, Chomsky expressou empatia pela “maneira horrível como você está sendo tratado pela imprensa e pelo público” e descreveu os jornalistas investigativos como “abutres”, aconselhando Epstein: “Acho que a melhor maneira de proceder é ignorar isso”.
De forma mais significativa, os documentos expõem Chomsky como participante das sórdidas redes sociais e políticas da classe dominante, buscando reuniões com o ideólogo fascista Steve Bannon e o criminoso de guerra israelense Ehud Barak. As pretensões de Chomsky de “manter a verdade diante do poder” foram irreversivelmente comprometidas. Ele combinou autodegradação pessoal e traição política.
Duas características da intelectualidade pequeno-burguesa americana são destacadas na correspondência entre Chomsky e Epstein: uma paixão por celebridades e riqueza e uma falta de independência intelectual genuína em relação à sociedade burguesa. O foco deste ensaio é extrair as lições políticas — o que isso revela sobre a política pequeno-burguesa, anarquista e liberal de esquerda e quais conclusões os trabalhadores e os jovens devem chegar.
A fraude do “dissidente de princípios”
Nascido em 1928 na Filadélfia, Noam Chomsky alcançou fama acadêmica no final da década de 1950 por meio de suas contribuições à linguística teórica no MIT. Sua “gramática gerativa” foi aclamada como uma mudança de paradigma no estudo da linguagem. Mas a reputação mais ampla de Chomsky foi construída com base em seus escritos políticos, começando com seu ensaio de 1967 “A Responsabilidade dos Intelectuais” e sua oposição à Guerra do Vietnã.
Nas décadas seguintes, Chomsky produziu mais de 150 livros sobre política, mídia e imperialismo, incluindo a obra 'Manufacturing Consent' [“A Manipulação do Público”], de 1988. A tese central do livro — de que a mídia de massa funciona como um sistema de propaganda a serviço dos interesses da elite — foi apresentada como uma acusação devastadora à democracia capitalista. Mas sua mensagem subjacente era profundamente pessimista, argumentando que as massas são vítimas passivas da manipulação e que o melhor que se pode esperar é expor os mecanismos de enganação do público.
A pseudoesquerda há muito trata Chomsky como um semideus. A Jacobin, órgão oficial dos Socialistas Democráticos da América (DSA), publicou um artigo em junho de 2024 intitulado “Vamos celebrar Noam Chomsky, o campeão intelectual e moral”. Em uma entrevista com Chomsky em 2022, o jornalista Chris Hedges o apresentou como “o maior intelectual dos Estados Unidos” e afirmou que “todos os intelectuais da nossa geração, pelo menos se forem intelectuais genuínos, são, em certo sentido, filhos de Noam Chomsky”.
Essa avaliação, na medida em que se justifica, não faz jus a Hedges ou a outros “intelectuais” de sua geração. Chomsky só poderia parecer um gigante para os intelectuais liliputianos imersos no ambiente anticomunista da última metade do século, que não têm nenhuma conexão com ou compreensão da herança do pensamento marxista e da atividade revolucionária genuína enraizada nas lutas da classe trabalhadora.
Conforme amplamente documentado pelo antropólogo britânico Chris Knight, a vida profissional de Chomsky no MIT era indissociável do financiamento do establishment de defesa, um fato que os próprios ativistas da universidade da era do Vietnã enfatizaram quando condenaram a instituição como “parte da máquina de guerra dos EUA”. O emprego de Chomsky teve origem através do Dr. Jerome Wiesner, um especialista em defesa que foi fundamental no desenvolvimento da infraestrutura de mísseis nucleares dos Estados Unidos e que mais tarde serviu como alto funcionário do governo Kennedy. Seu trabalho teórico sobre estruturas linguísticas recebeu financiamento militar, com funcionários do Pentágono prevendo que essa pesquisa poderia eventualmente se mostrar aplicável às tecnologias de comunicação e comando. Quase uma dúzia de seus alunos de pós-graduação trabalharam posteriormente na MITRE Corporation, uma empresa contratada pelo Pentágono cuja missão de pesquisa incluía explicitamente o desenvolvimento de “sistemas de comando e controle fornecidos pela Força Aérea dos Estados Unidos”.
Já durante seu período no MIT, Chomsky formou estreitas relações com figuras cujas funções institucionais contradiziam sua postura pública antimilitarista. Entre elas, destacava-se John Deutch, um colega do corpo docente do MIT que havia dirigido programas de armas nucleares e químicas do Pentágono antes de ser nomeado para liderar a CIA. Quando o New York Times perguntou sobre Deutch, Chomsky elogiou-o de forma notável: “Ele tem mais honestidade e integridade do que qualquer pessoa que já conheci na vida acadêmica ou em qualquer outra área”. Ele acrescentou: “Se alguém tem que dirigir a CIA, fico feliz que seja ele”.
A trajetória política de Chomsky foi caracterizada pela mesma contradição fundamental. Embora seu anarquismo o posicionasse como um crítico do poder estatal em termos abstratos, sua política real o levava consistentemente a se acomodar com a classe dominante que ele afirmava se opor. Ele apoiou todos os candidatos presidenciais democratas durante décadas, promovendo a estratégia falida do “mal menor”, que não produziu a derrota da direita, mas seu crescimento contínuo.
Na política externa, Chomsky repetidamente forneceu cobertura “de esquerda” para intervenções imperialistas quando elas eram apresentadas sob o pretexto dos “direitos humanos”. De forma mais significativa, na Síria, Chomsky emergiu como um defensor vocal da manutenção das forças militares dos EUA em solo sírio para “proteger” os curdos, juntando-se a David Harvey, Judith Butler e outros em uma carta que forneceu um verniz pseudoesquerdista para a ocupação ilegal dos EUA. “Na minha opinião, faz sentido que os Estados Unidos mantenham uma presença que impeça um ataque às áreas curdas”, disse ele ao The Intercept em 2018.
Nas últimas décadas, Chomsky tornou-se cada vez mais explícito em seu pessimismo sobre qualquer possibilidade de mudança revolucionária. Em uma entrevista reveladora à Jacobin em 2021, quando questionado se o socialismo continuava sendo um horizonte político útil para lidar com a crise climática, ele respondeu sem rodeios: “Não vamos derrubar o capitalismo em algumas décadas. Você pode continuar trabalhando pelo socialismo, mas precisa reconhecer que a solução para a crise climática terá que vir dentro de algum tipo de sistema capitalista regulamentado”. Isso equivalia a uma admissão de que, independentemente de suas críticas teóricas ao capitalismo, Chomsky havia concluído que a ordem existente persistiria e que os radicais deveriam se adaptar a ela.
Esse pessimismo decorria de uma orientação política mais profunda. Apesar de seus volumosos escritos contra a classe dominante, Chomsky sempre viu o poder como algo que residia nas elites, não na classe trabalhadora. Opondo-se ao marxismo e à concepção de Lenin do partido de vanguarda, ele rejeitou a necessidade de educar politicamente e organizar os trabalhadores para a luta revolucionária. O objetivo de Chomsky nunca foi elevar a consciência da classe trabalhadora, mas influenciar o pensamento da classe dominante e de seus representantes intelectuais.
Isso ajuda a explicar a disposição de Chomsky em cultivar relações com figuras como Epstein, Barak e Bannon. Ele buscava proximidade com o poder porque, apesar de toda a sua retórica, era lá que ele acreditava que as decisões importantes eram tomadas. O homem que dizia aos trabalhadores que o capitalismo não poderia ser derrubado se sentia cada vez mais à vontade na companhia daqueles que governavam o sistema.
As dimensões da relação com Epstein
Chomsky e sua esposa Valeria foram apresentados a Epstein em 2015, em um dos eventos profissionais de Chomsky. Naquela época, as atividades criminosas de Epstein já eram de conhecimento público. Depois que 36 vítimas, incluindo algumas com apenas 14 anos, se manifestaram, Epstein foi condenado em 2008 por crimes sexuais contra crianças. Ele recebeu uma sentença branda de 18 meses e cumpriu apenas 13 meses, com o procurador federal Alex Acosta alegando que lhe foi dito para “recuar”, pois Epstein “pertencia à inteligência”.
A história da conduta criminosa e abusiva de Epstein não incomodou Chomsky. O acesso à riqueza ostensiva claramente o impressionou. Os documentos mostram que Epstein proporcionou aos Chomskys uma amostra do luxo, incluindo estadias em sua mansão palaciana de quase 5 mil metros quadrados em Manhattan, reservas na suíte de US$ 1.400 por noite do Mark Hotel em Manhattan, voos em seu jato particular e uso de seu apartamento em Paris. “Caro Jeffrey, tivemos um dia maravilhoso. Valdson [mordomo de Epstein] cuidou muito bem de nós. Ele nos levou ao Louvre, foi nos buscar e nos levou ao seu maravilhoso apartamento para uma refeição deliciosa”, escreveu Valeria após visitar a propriedade em Paris.
Epstein ofereceu também suas outras propriedades. “Você também pode usar minha casa em Palm Beach. ... Você será bem cuidado”, escreveu ele em fevereiro de 2016. Em várias ocasiões, Chomsky expressou seu desejo de visitar a Ilha Little St. James, local onde o procurador-geral das Ilhas Virgens Americanas alegou que dezenas de meninas, algumas com apenas 12 anos, foram aprisionadas e estupradas. “Não consigo expressar o quanto o convite é tentador”, respondeu Chomsky a uma oferta em fevereiro de 2016. Meses depois, respondendo a um convite de Epstein para visitá-lo em Nova York ou no Caribe, Chomsky escreveu: “Valeria sempre gosta de Nova York. Estou realmente fantasiando com a ilha do Caribe”.
Os dois trocaram presentes, incluindo um suéter de cashmere para o aniversário de 87 anos de Chomsky e cestas de alimentos da Carnegie Deli. Eles compartilharam piadas sexuais; depois que Epstein brincou sobre a idade e a capacidade sexual de Chomsky, Chomsky respondeu: “Ai”.
À medida que as barreiras legais se fechavam em torno de Epstein no final de 2018 e início de 2019, após a investigação do Miami Herald, o bilionário recorreu a Chomsky como um gestor de crises não oficial. “Noam. Gostaria muito de receber seus conselhos sobre como lidar com a imprensa podre”, escreveu Epstein em fevereiro de 2019. Chomsky aconselhou Epstein a permanecer em silêncio.
Quando Epstein enviou a Chomsky um rascunho de artigo escrito na terceira pessoa, apresentando-se como um quase santo, Chomsky respondeu: “É uma declaração poderosa e convincente”. Ele estava, segundo o próprio Epstein, “totalmente comprometido” com um documentário planejado para reabilitar a imagem pública do traficante sexual.
De forma significativa, Epstein tornou-se o consultor financeiro e jurídico de maior confiança de Chomsky, um papel que levou a uma ruptura quase total entre Chomsky e seus três filhos. Eles se opuseram veementemente à insistência de Chomsky de que Richard Kahn — contador pessoal de Epstein, descrito em um processo judicial de 2021 como o “capitão da rede internacional de crimes sexuais de Epstein” — fosse incluído no conselho do fundo familiar. Chomsky ficou do lado de Epstein e Valeria contra seus próprios filhos, encaminhando toda a correspondência da família a Epstein para orientação.
Jantando com criminosos de guerra: Chomsky e Ehud Barak
Entre os encontros que Epstein organizou para Chomsky estava um jantar privado com o ex-primeiro-ministro israelense Ehud Barak no verão de 2015. “Espero que [você] tenha gostado tanto de ontem quanto os Baraks e eu”, escreveu Epstein depois.
Barak foi primeiro-ministro de Israel de 1999 a 2001 e ministro da Defesa de 2007 a 2013. Nesta última função, ele dirigiu a Operação Chumbo Fundido, o ataque de 22 dias a Gaza, de dezembro de 2008 a janeiro de 2009, que matou entre 1.385 e 1.419 palestinos, a grande maioria civis, incluindo mais de 300 crianças. O Relatório Goldstone da ONU encontrou “fortes evidências de crimes de guerra e crimes contra a humanidade”.
O nome de Barak aparece milhares de vezes nos arquivos de Epstein. Os documentos mostram que ele se hospedou repetidamente no apartamento de Epstein em Nova York, explorou vários empreendimentos comerciais com o traficante sexual e foi fotografado entrando na casa de Epstein em Manhattan com o rosto parcialmente encoberto.
Chomsky construiu uma parte substancial de sua reputação com críticas à opressão israelense dos palestinos. Em uma carta de apoio encontrada nos arquivos de Epstein, Chomsky escreveu: “Em outra ocasião, Jeffrey organizou uma reunião com o ex-primeiro-ministro israelense Ehud Barak, cujo histórico eu havia estudado cuidadosamente e sobre o qual havia escrito”. Ele afirma que o objetivo era obter um relato em primeira mão sobre o motivo do fracasso das negociações de paz em Taba em 2001.
Mas os e-mails revelam uma atmosfera muito diferente de um confronto tenso entre um intelectual antissionista e um criminoso de guerra. O encontro foi um jantar social amigável, organizado por e incluindo Epstein, um homem que um informante do FBI descreveu como um “agente cooptado do Mossad” e que tinha laços documentados com a inteligência israelense. Um verdadeiro opositor dos crimes de guerra israelenses não aceitaria um jantar aconchegante organizado por um suposto agente de inteligência com um de seus principais arquitetos.
Unidos no anticomunismo: os encontros de Chomsky com Bannon
A revelação politicamente mais explosiva em todo o acervo de Epstein — e aquela que a pseudoesquerda tem evitado cuidadosamente discutir — diz respeito à busca ativa de Chomsky por um encontro com Steve Bannon, o ideólogo fascista e ex-estrategista-chefe de Trump.
Os documentos mostram que, em 2018, Epstein convidou os Chomskys para um jantar privado com Barak e Bannon. Chomsky expressou seu pesar por ter perdido a oportunidade e enviou um e-mail diretamente a Bannon: “Minha esposa Valeria e eu ficamos bastante desapontados por não termos podido encontrá-lo na outra noite e esperamos poder marcar outro encontro em breve. Temos muito o que conversar.” Meses depois, Valeria convidou pessoalmente Bannon para sua casa no Arizona, escrevendo: “Jeffrey é um amigo muito querido e estamos ansiosos para conhecê-lo. Seria possível você vir amanhã às 16h?”
Bannon realmente visitou Chomsky, e os dois evidentemente gostaram da companhia um do outro, com uma foto amplamente divulgada mostrando-os rindo e se abraçando.
Bannon está entre os fascistas mais proeminentes dos Estados Unidos, talvez perdendo apenas para Trump. Como presidente executivo do Breitbart News, Bannon transformou o veículo de comunicação no que ele abertamente descreveu como “a plataforma da extrema direita”. Como estrategista-chefe da Casa Branca de Trump de janeiro a agosto de 2017, ele foi fundamental na implementação da proibição aos muçulmanos, da política de separação de famílias e da agenda xenófoba mais ampla de Trump. Após sua saída da Casa Branca, ele trabalhou para construir um movimento fascista internacional, cortejando a Frente Nacional Francesa, a Liga da Itália, a AfD da Alemanha e Viktor Orbán da Hungria. Mais tarde, desempenhou um papel central na organização da tentativa de golpe de 6 de janeiro de 2021 e foi condenado por desacato ao Congresso por se recusar a cumprir a intimação da Comissão sobre o 6 de Janeiro.
O que Chomsky acreditava que tinha para “conversar” com tal figura? Qual é a interseção entre um autodenominado anarquista e o arquiteto do fascismo trumpista?
A resposta está no que os une: um anticomunismo visceral e feroz.
Chomsky passou décadas atacando o marxismo e a Revolução de Outubro de 1917. Em sua palestra de 1989, “O que foi o leninismo?”, ele declarou: “Lenin foi uma derivação de direita do movimento socialista”. Ele caracterizou a Revolução de Outubro como “o que se chama de revolução, mas, na minha opinião, deveria ser chamado de golpe” e afirmou que Lenin e Trotsky “imediatamente se dedicaram a destruir o potencial libertador” dos soviéticos e dos conselhos de fábrica. Ele foi além, afirmando que os bolcheviques criaram “as estruturas protofascistas básicas” posteriormente refinadas por Stalin, equiparando assim os líderes da primeira revolução operária da história ao próprio fascismo que combateram.
Em “Understanding Power” [“Para entender o poder”] (2002), Chomsky rejeitou o conceito de um partido revolucionário de vanguarda como “uma fraude intelectual”. Em relação a Trotsky, ele tem sido particularmente virulento, difamando o fundador do Exército Vermelho e líder da Oposição de Esquerda contra o stalinismo como um defensor de um “exército operário submisso ao controle de um único líder”.
Bannon ataca o “marxismo cultural” e glorifica o nacionalismo cristão. Chomsky denuncia Lenin e Trotsky como autoritários de “direita” e equipara a ditadura do proletariado ao “protofascismo”. A retórica difere, mas o alvo é o mesmo. Ambos buscam desacreditar o movimento revolucionário da classe trabalhadora.
Poucas semanas após se encontrar com Bannon em Tucson, Chomsky discursou para 700 pessoas na Old South Church, em Boston, em 27 de maio de 2019, e proferiu um discurso transmitido pelo Democracy Now! no qual descreveu Bannon como “o empresário” de um movimento “ultranacionalista e reacionário internacional” e alertou para a propagação do fascismo. A hipocrisia é impressionante. O homem que acabara de receber Bannon em sua casa com prazer, que escreveu que eles tinham “muito o que conversar”, que pediu à sua esposa para dizer a Bannon que Epstein era “um amigo muito querido”, depois apareceu na televisão nacional para se apresentar como um crítico destemido do mesmo fascismo que cultivava em particular.
Conclusão
A exposição de Chomsky é politicamente significativa, mas deve ser colocada em seu devido contexto. Embora não haja evidências de atividade criminosa por parte do próprio Chomsky, os 3,5 milhões de páginas dos arquivos de Epstein implicam amplos setores da classe dominante — presidentes, primeiros-ministros, bilionários, agentes de inteligência — em tráfico sexual, estupro e exploração de crianças. O World Socialist Web Site exige a divulgação completa de todos os arquivos de Epstein, sem censura, exceto quando necessário para proteger as vítimas, e o julgamento imediato de todos os indivíduos implicados nesses crimes.
Os eventos do início de 2026 demonstraram que a verdadeira força de oposição à degeneração e criminalidade da oligarquia vem da classe trabalhadora. Em 7 de janeiro, agentes federais de imigração assassinaram Renée Nicole Good em Minneapolis. Duas semanas depois, eles atiraram em Alex Pretti. Os assassinatos provocaram protestos em massa em Minneapolis e em todos os Estados Unidos em 23 e 30 de janeiro, sob a bandeira “ICE Out” [“Fora ICE”], com os trabalhadores abandonando seus postos de trabalho para denunciar a campanha de terror do governo Trump.
O termo “greve geral” voltou a entrar no vocabulário político por meio da experiência direta de milhões de trabalhadores que enfrentam a violência assassina do Estado. Esses acontecimentos confirmam na prática o que o marxismo sempre insistiu e Chomsky sempre negou: a classe trabalhadora é a força revolucionária na sociedade moderna.
Ao contrário das calúnias que Chomsky proferiu ao longo de toda a sua vida contra o marxismo, a mobilização independente e politicamente consciente da classe trabalhadora internacional é a única força capaz de pôr fim ao sistema que produz Epsteins e Bannons, e os Chomskys que se associam a eles.
Os trabalhadores e os jovens devem tirar as conclusões mais precisas dessa experiência. Devem rejeitar o cinismo, o pessimismo e o colaboracionismo de classe de Chomsky e todas as variantes do pseudorradicalismo pequeno-burguês. Devem voltar-se para o otimismo revolucionário de Marx, Engels, Lenin e Trotsky – a convicção, fundamentada em toda a experiência da luta de classes, de que a classe trabalhadora internacional, organizada e liderada por uma vanguarda socialista consciente, pode derrubar o capitalismo, levar os criminosos da oligarquia à justiça e construir uma sociedade verdadeiramente humana baseada na igualdade social.
