Publicado originalmente em inglês em 3 de abril de 2026
A conclusão inevitável que se deve tirar do discurso proferido na última quarta-feira por Donald Trump é que o presidente americano é um criminoso político. Se admitirmos que existe um limite moral, mesmo no âmbito da geopolítica imperialista, entre a busca geralmente sinistra dos interesses das grandes potências capitalistas e a bestialidade fascista, então as autoridades do governo dos EUA já o ultrapassaram. Os nomes de Trump, Vance, Hegseth, Rubio e Miller viverão para sempre na infâmia ao lado dos dos líderes nazistas do Terceiro Reich: Hitler, Goering, Himmler, Von Ribbentrop e Goebbels. O julgamento da história será impiedoso.
Mas esse julgamento recairá não apenas sobre os indivíduos, mas também, e de forma mais profunda, sobre a classe social que os levou ao poder e em cujo interesse eles cometeram seus crimes monstruosos contra o povo do Irã. É aí que reside o significado do discurso inflamado de Trump na noite de quarta-feira. Ele expôs a putrefação política e moral irreversível da classe dominante americana.
Trump não é o primeiro presidente a cometer crimes. Seus antecessores ordenaram invasões de países, a derrubada de governos e a tortura e o assassinato de indivíduos identificados como opositores dos interesses americanos. Mas houve pelo menos alguma tentativa, por parte de governos anteriores, de fornecer alguma justificativa legal e democrática — por mais esfarrapada, cínica, enganosa e hipócrita que fosse — para suas ações. O desprezo pelas leis nacionais e internacionais — e, junto com ele, a rejeição de qualquer adesão aos princípios democráticos — não podia ser assumido abertamente como base das políticas de Estado. Quando atos criminosos eram expostos, eram justificados, com expressões formais de pesar, como desvios infelizes da aplicação oficial das normas legais.
Essa fase já passou. O discurso de Trump se destacou pela franqueza. Ele escolheu palavras que expuseram, com total clareza, os objetivos deliberadamente genocidas das ações americanas. “Vamos levá-los de volta à Idade da Pedra, onde é o lugar deles”, declarou. Ele ameaçou que os Estados Unidos atacariam “cada uma de suas usinas de geração de energia com muita força e provavelmente simultaneamente”. Ele se gabou da eliminação da liderança — “Estão todos mortos” — e então acrescentou, com a autoconfiança grosseira de um chefe da máfia: “Temos todas as cartas. Eles não têm nenhuma.”
Trump ameaçou destruir as bases materiais da vida social de um país inteiro, explicando que o setor petrolífero do Irã só havia sido poupado até então porque sua destruição “não lhes daria nem mesmo uma pequena chance de sobrevivência ou reconstrução”.
O que se manifestou nessas declarações não foi simplesmente a patologia de um indivíduo, mas o caráter essencial de uma camada social que se habituou à criminalidade e não se sente mais obrigada a pedir desculpas por isso.
Há 35 anos, desde a dissolução da União Soviética em 1991, a classe dominante americana conduz a política externa com um sentimento de impunidade. A existência da URSS, que surgiu de uma revolução socialista da classe trabalhadora e que desempenhou um papel decisivo na derrota do Terceiro Reich, impôs um certo nível de moderação na condução da política externa imperialista. Mas a dissolução stalinista da União Soviética eliminou todas essas restrições. A classe dominante estava encantada com a crença de que o uso da violência fornecia a solução para todos os problemas do sistema capitalista. Como proclamou o Wall Street Journal após a Operação Tempestade no Deserto: “A força funciona”.
O caminho que conduziu ao discurso de Trump passa pela invasão inicial do Iraque em 1991 e pelo bombardeio da Sérvia em 1999. Ele continuou, após a invasão do Afeganistão em 2001 e o ataque ao Iraque em 2003, passando pela vasta máquina de tortura e abuso exposta em Abu Ghraib e nos centros secretos da CIA, pelo afogamento simulado e por todo o léxico de “interrogatórios aprimorados” inventado para conferir respeitabilidade burocrática ao sadismo. Ele passou pelo bombardeio da Líbia em 2011, onde a destruição de um Estado e a degradação pública e assassinato de Gaddafi foram recebidos em Washington pela secretária de Estado Hillary Clinton com a comemoração arrepiante: “Nós viemos, nós vimos, ele morreu.” E, acima de tudo, chegou a Gaza, onde o genocídio foi elevado a política, a fome a estratégia, a destruição de hospitais e campos de refugiados a um instrumento reconhecido de guerra.
Gaza estabeleceu uma nova norma. Esse é um dos fatos políticos mais críticos do período atual. Há mais de dois anos, o mundo tem assistido à destruição metódica de toda uma população, levada a cabo com o total apoio dos Estados Unidos e a conivência de todas as potências imperialistas. Dezenas de milhares de pessoas foram mortas. Famílias inteiras foram exterminadas. A vida civil foi destruída com uma frieza que chocou milhões de pessoas. A lição tirada pelos círculos dominantes não foi que tais crimes são intoleráveis. Foi que eles são admissíveis. A conclusão a que se chegou em Washington, Londres, Berlim e Paris é que as antigas restrições não se aplicam mais, que qualquer ato, por mais monstruoso que seja, pode ser normalizado, desde que seja realizado com força suficiente e apoiado por um aparato de propaganda suficientemente descarado. O discurso de Trump pertence a esse novo ambiente político. É a linguagem de uma classe dominante que aprendeu com Gaza que o assassinato em massa pode ser realizado em plena luz do dia e sem desculpas.
O ataque ao Irã deu a essa nova norma sua expressão mais completa e terrível. Medidas que foram inicialmente aplicadas contra um território habitado por 2,5 milhões de pessoas estão agora sendo empregadas contra um vasto país com uma população de mais de 90 milhões de habitantes. Em 28 de fevereiro de 2026, os Estados Unidos e Israel lançaram quase 900 ataques em 12 horas contra o Irã, programando o ataque para coincidir com as negociações nucleares em andamento — um ato deliberado de perfídia que zombou do próprio conceito de diplomacia. O ataque inicial matou o líder supremo, eliminou o alto comando militar e político e atingiu alvos em pelo menos 26 das 31 províncias do Irã.
O que se seguiu foi uma campanha contínua de devastação: mais de 11.000 alvos atingidos no primeiro mês, mais de 300 hospitais e instalações médicas danificados ou destruídos, dezenas de milhares de edifícios residenciais reduzidos a escombros, escolas arrasadas, locais de patrimônio cultural vandalizados, usinas de dessalinização destruídas e uma usina nuclear bombardeada repetidamente. A atrocidade mais horripilante da guerra — a destruição de uma escola primária para meninas em Minab, que matou mais de 170 crianças — não foi recebida com remorso, mas com indiferença. A operação foi batizada de “Fúria Épica”, um nome escolhido para celebrar a selvageria.
Durante décadas, temos sido submetidos aos sermões morais de jornalistas e acadêmicos pequeno-burgueses, cuja principal ocupação histórica tem sido descobrir, na conduta dos bolcheviques e, sobretudo, de Leon Trotsky, provas da suposta essência sinistra do “amoralismo” marxista. Eles encheram bibliotecas com denúncias da violência revolucionária, ponderações sobre o “impulso autoritário” e reflexões piedosas sobre o suposto desprezo dos marxistas pelas restrições éticas.
Os jovens estudantes e os trabalhadores são levados a acreditar que o principal problema moral da era moderna reside na intransigência daqueles que procuraram derrubar o capitalismo. No entanto, esses mesmos círculos, quando confrontados com a verdadeira barbárie do imperialismo, demonstram uma notável tolerância. Suas condenações categóricas se dissolvem em nuances. Seu fervor moral enfraquece, e sua hostilidade à violência torna-se extremamente seletiva. Eles encontram reservas infinitas de indignação moral — que não se dissipou mesmo após o passar de mais de um século — em relação à Revolução Russa de 1917. Mas ficam em silêncio quando os Estados Unidos incineram uma sociedade, quando Israel soterra crianças sob escombros, quando a tortura é sistematizada, quando a polícia executa os pobres e os despossuídos nas ruas americanas. O conteúdo de classe da moralidade surge aqui com extraordinária clareza.
O marxismo sempre insistiu que a moralidade não é um mandamento eterno que paira sobre a sociedade, igualmente aplicável a todas as classes, independentemente de seus interesses materiais e posição social. A moralidade tem uma história. Tem uma base de classe. A classe dominante, assim como seus servos intelectuais, fala incessantemente de princípios universais, de uma “ordem baseada em regras”, enquanto defende um sistema socioeconômico sustentado pela exploração, pela guerra e pela repressão. O que agora se desenrola diante dos olhos do mundo é a verdadeira moralidade da burguesia, despojada de sua ornamentação democrática.
Na época das históricas revoluções democráticas do século XVIII, o Iluminismo burguês baseou sua moral no segundo imperativo categórico formulado por Kant: “Aja de modo a tratar a humanidade, seja na sua própria pessoa, seja na pessoa de qualquer outro, sempre ao mesmo tempo como um fim, nunca meramente como um meio.”
Reformulado no verdadeiro espírito do fascismo de Trump, o princípio moral que orienta a classe dominante capitalista é: “Agir sempre para maximizar o poder e o lucro da oligarquia, tratando seres humanos, povos inteiros e até mesmo a própria civilização como bens descartáveis no exercício da força americana.”
Essa é a moral de uma classe cuja riqueza se baseia na exploração financeira e na ruína social. É a moral de líderes políticos que consideram populações inteiras como matéria-prima sobre a qual se pode exercer força com total crueldade.
Um governo que brutaliza populações no exterior empregará os mesmos métodos em seu próprio território. Métodos desenvolvidos na guerra imperialista encontram sua contrapartida na vida doméstica. Os assassinatos de Renée Nicole Good e Alex Pretti, perpetrados por agentes federais, fazem parte de um padrão mais amplo de violência estatal que antecede em muito a invasão do Irã: a epidemia de mortes causadas pela polícia, a militarização dos departamentos locais, a transformação de bairros inteiros da classe trabalhadora em zonas de segurança interna, a presunção rotineira de que as vidas dos pobres são descartáveis. A violência do Estado americano não se divide em compartimentos separados, um externo e outro interno. Ela surge da mesma fonte. Uma classe dominante que mantém sua riqueza por meio de fraude, roubo, especulação e guerra governa por meio de coerção ilegal quando as normas constitucionais se tornam um obstáculo.
A degeneração da vida política é indissociável da estrutura oligárquica da sociedade americana. Não pode haver concentrações extremas de riqueza sem as correspondentes concentrações de poder. O domínio de uma minúscula aristocracia financeira sobre o resto da sociedade corrói e destrói todas as instituições democráticas. Os tribunais, o legislativo, a mídia, as universidades, a polícia, o aparato de inteligência, os partidos governantes — todos se tornam instrumentos através dos quais uma elite parasitária assegura seus interesses. Nessas condições, métodos criminosos são inevitáveis. Uma sociedade governada por bilionários, predadores corporativos, agentes da inteligência militar e vigaristas políticos adquire o caráter daqueles que a dominam. Descrever tal sociedade como governada por criminosos é uma constatação de fato político.
No entanto, o processo de decadência não avança sem gerar seu oposto. A classe dominante avançou bastante no caminho da desintegração moral, mas amplos setores da população não a seguiram até o mesmo destino. Os Estados Unidos foram fundados há 250 anos em uma revolução que derrubou o domínio colonial despótico e proclamou a igualdade entre os homens. Sua existência foi consolidada em uma Guerra Civil que aboliu a escravidão.
As palavras de Jefferson e Lincoln ainda vivem na consciência coletiva da população dos Estados Unidos. Os impulsos democráticos, o senso de justiça, a repulsa instintiva contra a crueldade, o ódio às mentiras e à brutalidade — tudo isso permanece profundamente enraizado entre os trabalhadores e os jovens. Esses sentimentos estão sendo despertados e intensificados pela escalada da luta de classes. O conflito entre a criminalidade da oligarquia e a consciência moral das massas está assumindo um caráter cada vez mais explosivo. Cada ameaça arrogante, cada ato de violência de Estado, cada glorificação pública da devastação amplia o abismo entre a elite dominante e a população sobre a qual ela reivindica o direito de governar.
Apesar das atrocidades de Trump, o povo iraniano não se submeterá ao imperialismo americano. Ele continuará a resistir, e é responsabilidade da classe trabalhadora americana e internacional sair em defesa do povo iraniano. O poder da classe trabalhadora deve ser mobilizado para impedir o bombardeio do Irã e forçar o fim desta guerra ilegal.
A classe trabalhadora e a juventude devem tirar da guerra as conclusões necessárias. Não basta ficar horrorizado. O horror, deixado por conta própria, esgota-se em frustração impotente ou em episódios isolados de resistência individual. O que é necessário é o desenvolvimento de um movimento socialista de massas da classe trabalhadora, guiado por um programa socialista internacionalista, imbuído de uma genuína moralidade revolucionária e oposto em todos os aspectos à depravação da classe dominante.
Essa moralidade não tem nada em comum com os sermões presunçosos dos acadêmicos ou com a indignação seletiva dos liberais hipócritas. Ela surge da luta contra a exploração e a opressão capitalistas. É uma moralidade de luta de classes aberta, fundamentada na solidariedade, na veracidade, na defesa dos oprimidos, na hostilidade intransigente à crueldade e à dominação, na convicção de que os seres humanos não podem ser tratados como objetos descartáveis a serviço do lucro e do poder. Nela estão contidos os mais elevados princípios da civilização e as mais profundas aspirações da humanidade.
Esta é a resposta às antigas calúnias contra o marxismo. Os verdadeiros “amoralistas” não são os socialistas revolucionários, mas as classes dominantes e seus cúmplices, que armam, financiam e realizam genocídios. A criminalidade da classe dominante americana e de seus colaboradores internacionais está sendo exposta aos olhos do mundo. Contra essa criminalidade deve ser mobilizada uma força guiada por um princípio social superior e uma concepção moral superior. Essa força é a classe trabalhadora internacional. Sua luta pelo socialismo não é meramente politicamente necessária. É a expressão indispensável de tudo o que há de humano, decente e emancipatório na civilização moderna. A sobrevivência da humanidade depende de sua vitória.
