Na quinta-feira, 7 de maio, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), se reuniu com Donald Trump na Casa Branca, em Washington. A sessão de três horas – descrita por ambos os líderes como “muito boa” – incluiu uma reunião bilateral a portas fechadas, uma sessão ampliada com as delegações ministeriais e um almoço de trabalho. Nenhum acordo formal foi assinado. As tarifas impostas pelo governo Trump contra o Brasil permanecem em vigor.
O que o encontro de fato produziu foi uma encenação política nauseante por um líder nacionalista burguês falido – mais um capítulo da longa atuação de Lula como auxiliar do imperialismo norte-americano na América Latina.
Ao sair da Casa Branca, Lula disse à imprensa: “Eu saio daqui com a ideia de que nós demos um passo importante na consolidação da relação democrática, histórica, que o Brasil tem com os Estados Unidos.” Lula deleitou-se com o sorriso de Trump – “vocês perceberam que o presidente Trump rindo é melhor do que ele de cara feia. E eu fiz questão de fazer ele rir um pouco” – e descreveu a relação entre os dois como “amor à primeira vista”, uma questão de “química”. Declarou-se “muito, muito satisfeito”.
Essa atuação precisa ser compreendida pelo que é. Apenas três semanas antes, na chamada “Mobilização Progressista Global” em Barcelona, Lula apresentava Trump como um unilateralista belicoso: “Nós não podemos permitir que o mundo circunde ao comportamento de um presidente que acha que por e-mail ou por Twitter ele pode taxar produtos, pode punir países e pode fazer guerra.” Em 16 de abril, declarou sem rodeios ao El País: “O Trump não tem o direito de acordar de manhã e achar que pode ameaçar um país.”
A guinada dessas declarações para a rasgação de seda nesta quinta-feira não foi motivada por nenhuma mudança na conduta de Trump. A mudança de atitude de Lula correspondeu, na verdade, a uma crise aguda do imperialismo americano provocada pelo desastre militar que sofreu no Irã.
Lula concordou em ser usado para conferir legitimidade internacional à administração fascista de Trump exatamente no momento em que ela mais precisava. A postura do presidente brasileiro como oponente “de esquerda” da guerra caiu por terra com uma única ligação de Trump – que teria se despedido com um “I love you” – convidando-o à Casa Branca.
“Não vou ficar brigando com ele por causa da visão que ele tem da guerra”
Quando questionado sobre o Irã, a Venezuela e Cuba, Lula os descartou como questões que não seriam, propriamente falando, “assuntos brasileiros”. Tratava-se de “opiniões” pessoais de Trump, e ele não permitiria que interferissem na sua relação. “Eu não vou ficar brigando com ele por causa da visão que ele tem da guerra”, disse sobre a invasão do Irã.
A invasão dos EUA à Venezuela – ocorrida apenas quatro meses atrás, com o presidente Nicolás Maduro ainda ilegalmente preso em solo americano – foi tratada como questão encerrada. Questionado sobre o assunto, Lula declarou:
Ele [Trump] acha que na Venezuela está tudo resolvido. Eu espero que esteja, porque eu lido com a Venezuela desde 2002. ... E Deus queira que a Delcy consiga cumprir com o mandato de presidenta, fazendo as coisas acontecer.
Essa declaração extraordinária implica uma legitimação dos crimes de Washington contra a Venezuela e seu povo e do arranjo político neocolonial sendo imposto pelo imperialismo americano à América Latina como um todo.
Essa legitimação não começou em 7 de maio. Como reportamos em fevereiro, Lula já havia sancionado na prática o sequestro de Maduro ao tratar do retorno do presidente venezuelano ao seu país como “não sendo a principal preocupação”. Desde sua parceria com o governo Biden no questionamento das eleições venezuelanas de 2023 até seu encontro cordial com Trump às vésperas da invasão americana ao país sul-americano, Lula atuou como um agente do imperialismo na América Latina. Esse trabalho preparatório fez de Lula um cúmplice direto na agressão consumada em 3 de janeiro.
A política de Lula em relação a Cuba aprofunda esse papel. Na quinta-feira, ele propagou a afirmação cínica da Casa Branca de que Trump “não pensa em invadir Cuba”. Acobertando o estrangulamento criminoso imposto a 11 milhões de cubanos pelo bloqueio total de Washington, Lula colocou-se inteiramente à disposição do governo dos EUA:
Eu disse para [Trump] que, se ele precisar de ajuda para discutir a situação de Cuba, eu estou inteiramente à disposição.... [Ele] disse que não pensa em invadir Cuba. E eu acho que isso é um grande sinal, até porque Cuba quer dialogar e encontrar uma solução.
A oferta de “ajudar” o imperialismo a lidar com Cuba incrimina Lula como um sócio menor da operação destinada a reverter a Revolução Cubana de 1959 e reverter a ilha em um protetorado colonial dos Estados Unidos.
A mudança traiçoeira da atitude de Lula é mais descarada em relação à guerra no Irã.
Em março, na cúpula da CELAC em Bogotá, Lula comparou a invasão do Irã às mentiras que justificaram a guerra do Iraque:
E agora se invadiu o Irã a pretexto de que o Irã estava construindo bomba nuclear. Cadê as armas químicas do Saddam Hussein?... Nós não podemos viver mais num mundo de mentiras, em que as pessoas constroem o inimigo, constroem a imagem negativa do inimigo para justificar a destruição.
Em Barcelona, em abril, declarou: “O Trump invade o Irã e aumenta o preço do feijão no Brasil. Aumenta o preço do milho no México. Aumenta a gasolina no outro país. Ou seja, é o pobre que vai pagar a irresponsabilidade de guerras que ninguém quer”.
Mas três semanas depois, quando questionado por jornalistas se mantinha sua avaliação de que Trump é um “belicista”, Lula reformulou suas críticas como um mero desacordo entre cavalheiros: “Eu acredito muito mais no diálogo do que na guerra. Eu acho que a invasão do Irã vai causar mais prejuízo do que ele está imaginando”.
Lula relatou ter falado com Trump “com a maior tranquilidade” sobre “a questão de mudança no conselho da ONU” e colaborar com esse suposto agente da paz na busca de soluções para “as guerras que estão acontecendo no mundo”, convidando a raposa para reformar o galinheiro. Que tremenda hipocrisia!
“Não temos preferência”
Tendo descartado a criminalidade de Trump no plano internacional como um assunto “não brasileiro”, Lula chegou ao que realmente veio a discutir em Washington: o objetivo dos EUA de reafirmar sua hegemonia imperialista sobre a América Latina e confrontar a influência da China.
Com admirável franqueza, Lula reconheceu que “os Estados Unidos começaram a perder a hegemonia a partir de 2008”, com “o Brasil passando a ter na China o seu principal parceiro comercial”. “Disse ao presidente Trump que é importante que os Estados Unidos voltem a ter interesse nas coisas do Brasil”, concluiu.
No centro dos interesses predatórios do imperialismo sobre o Brasil estão as extraordinárias reservas de minerais críticos e terras-raras do país – as segundas maiores do mundo. Esses materiais “são muito importantes, sobretudo na questão dos armamentos dos países”, e “o Brasil tem obrigação de compartilhar com quem queira participar conosco”, declarou Lula.
Numa demonstração cristalina das perspectivas falidas do nacionalismo burguês, Lula declarou: “Nós não temos preferência. O que nós queremos é fazer parceria, compartilhar com as empresas americanas, chinesas, alemãs, japonesas, francesas, ou quem quiser participar conosco para ajudar a gente fazer a mineração, para fazer a separação e para produzir a riqueza que essas terras-raras nos oferecem”.
Esse é o programa de uma burguesia compradora interessada em leiloar os recursos nacionais para a potência imperialista que der a maior oferta – com o governo Lula no papel de pregoeiro. Suas objeções ao imperialismo americano situam-se inteiramente no terreno dos métodos, não dos objetivos. “O diálogo é mais barato do que a guerra”, diz ele a Trump, argumentando do ponto de vista das perturbações dos lucros capitalistas.
A “guerra ao crime”, um pretexto imperialista
O chamado “combate ao crime organizado” foi tema central no encontro de quinta-feira. Lula falou com entusiasmo sobre uma proposta de que os países latino-americanos “construam um grupo” com Washington para coordenar uma ofensiva hemisférica. “Acho que podemos fazer uma grande parceria com os Estados Unidos”, declarou.
A bandeira fraudulenta do combate ao “narcoterrorismo” tem servido de principal pretexto para o avanço militar e político do imperialismo norte-americano sobre a América Latina durante o governo Trump. Foi usada para justificar o massacre em curso de pescadores no Caribe e serviu de cobertura para a própria invasão da Venezuela.
Lula não ignora esse fato. Mas, incapaz de oferecer qualquer resistência real a essa conspiração sórdida – o que inevitavelmente incitaria uma onda de oposição popular no Brasil e em toda a região –, o presidente “de esquerda” brasileiro busca um papel de liderança dentro dela.
“Trump gosta do Brasil”, ele disse aos jornalistas, dirigindo-se, de fato, ao povo brasileiro. Assegurou, com fria confiança, que o presidente fascista dos EUA “não vai ter qualquer influência nas eleições brasileiras”. Isso não é apenas ingenuidade, mas uma mentira completa que acoberta conscientemente a intervenção imperialista em curso dos EUA na política brasileira.
Como o WSWS escreveu após o encontro na Malásia, “os esforços conscientes de Lula para desarmar a classe trabalhadora diante da crescente ameaça do fascismo e da agressão imperialista” expressam “o beco sem saída a que levou o programa nacionalista burguês defendido pelo Partido dos Trabalhadores no Brasil e pelos governos da Maré Rosa em toda a América Latina”. O espetáculo infame desta quinta-feira somente o confirma.
Um programa nacionalista – isto é, que aceita a legitimidade da ordem capitalista imperialista – não tem resposta para a irrupção da guerra, do fascismo e da agressão neocolonial. O que a classe trabalhadora da América Latina necessita é da construção de seu próprio partido revolucionário, que lute pela revolução socialista internacional: construir o Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI).
