A Argentina aproxima-se de um confronto revolucionário. Dois anos e meio do governo Milei produziram a destruição sistemática das condições de vida da classe trabalhadora, um giro fascistizante do aparato de Estado e a subordinação direta do país aos interesses do imperialismo americano. A Lei de Modernização Trabalhista, imposta em fevereiro, autoriza jornadas de doze horas, elimina acordos coletivos de trabalho e reduz drasticamente as indenizações por demissão. Trata-se de um ataque massivo aos direitos trabalhistas conquistados em mais de um século de luta.
O fechamento da fábrica de pneus FATE com 920 demissões, a repressão policial sistemática aos aposentados em suas manifestações semanais em frente ao Congresso, a autorização da entrada de tropas americanas em bases navais argentinas e o resgate de US$ 20 bilhões do FMI articulado em setembro passado pelo secretário do Tesouro de Trump, Scott Bessent, pavimentam o caminho para uma explosão social. É um regime, como o WSWS escreveu em março, conscientemente concebido para “levar o país 100 anos para trás”.
Nesse cenário, o Primeiro de Maio de 2026 foi um evento politicamente carregado, que foi observado de perto pela burguesia argentina, pela grande imprensa e por setores da intelectualidade pequeno-burguesa. Pela primeira vez desde a formação da Frente de Esquerda e Trabalhadores – Unidade (FIT-U) em 2011, os quatro partidos integrantes dessa frente eleitoral pseudoesquerdista realizaram dois atos separados.
Enquanto o Partido Obrero (PO), o Movimiento Socialista de los Trabajadores (MST) e a Izquierda Socialista (IS) realizaram um ato conjunto na Plaza de Mayo de Buenos Aires, o Partido de los Trabajadores Socialistas (PTS) — maior partido da FIT-U e seção dirigente da Corrente Revolução Permanente (CRP-CI) morenista — reuniu um público mais expressivo, de mais de 5 mil pessoas, em um ato separado, a oito quilômetros dali, no estádio coberto de Ferro.
O discurso de Bregman e as respostas do PTS à crise na Argentina
O ato dos morenistas teve intervenções de dirigentes do PTS, representantes das seções da CRP na França, no Brasil e no Chile, e ativistas sindicais da FATE e de empresas como Mondelez, Lustramax e Georgalos. A oradora principal foi a deputada Myriam Bregman, cujo discurso encerrou o evento.
La Izquierda Diario, site do PTS, noticiou com entusiasmo:
O evento também teve cobertura significativa de meios de comunicação em canais de televisão, emissoras de rádio e jornais, ao final de uma semana em que o “fenômeno Myriam Bregman” havia dominado o debate nacional na Argentina. A crescente atenção da mídia decorre das pesquisas que mostram Bregman como a dirigente política com a imagem mais positiva do país.
O objetivo fundamental do ato em Ferro, o PTS anunciou, era lançar a campanha por um “novo partido dos trabalhadores” na Argentina. Bregman definiu seu conteúdo político:
Não chegou a hora de pôr em pé um novo movimento histórico? Um novo movimento histórico que se organize desde baixo? Um movimento de trabalhadores? Um partido da classe trabalhadora? Por isso a nossa proposta é discutir como se organiza, como se põe em pé, um movimento por um partido da nova classe trabalhadora — dessa classe trabalhadora cada vez mais explorada, cada vez mais oprimida, feminizada, perseguida, discriminada. E temos para começar a força da Frente de Esquerda. Temos também um programa para começar a discutir: o programa da Frente de Esquerda — um programa de independência de classe.
O programa do partido a se construir é, segundo a formulação explícita de Bregman, “o programa da Frente de Esquerda” — não o programa da Quarta Internacional, não o programa do trotskismo, não um programa baseado em qualquer documento programático com conteúdo socialista definido.
Expondo ainda mais o projeto político dos morenistas, Bregman declarou:
Não escondemos que queremos transformar esta sociedade pela raiz. Acabar com o capitalismo é a forma de acabar com os genocídios — por isso nos colocamos o objetivo de construir nossa própria ferramenta política […], um grande partido da nova classe trabalhadora.
Essa formulação capta com precisão o conteúdo oportunista da proposta do PTS. A defesa do socialismo — a declaração de que “não escondemos” querer “acabar com o capitalismo” — é apresentada como questão de opinião pessoal da direção do PTS. Não é, no entanto, o programa do partido que se propõem a construir. A “ferramenta política” projetada é um partido trabalhista reformista, orientado para uma burocracia sindical peronista em crise, baseado “no programa da FIT-U” — uma plataforma genericamente “de independência de classe” sem conteúdo socialista definido. A defesa do socialismo é incorporada como direito de tendência no interior de um partido trabalhista reformista, justificada pela necessidade de “unir forças” e “organizar a simpatia” demonstrada nas pesquisas.
A proposta do PTS se inscreve firmemente na tradição política podre do pablismo, da qual o morenismo é uma vertente: a adaptação de forças que se reivindicam revolucionárias aos aparatos burgueses encarregados de conter o movimento operário, mediada pela retórica da unidade e por pretextos táticos como o “isolamento” dos revolucionários. A operação não exige que a direção do PTS deixe de afirmar retoricamente sua oposição ao capitalismo. Ao contrário, exige que continuem a fazê-lo — porque é precisamente essa cobertura que permite ao partido amplo, programaticamente reformista, aprisionar trabalhadores e jovens radicalizados, desviando-os da tarefa histórica de construir uma direção marxista revolucionária.
A reivindicação de um “novo partido dos trabalhadores” foi combinada, no discurso de Bregman, com um chamado aparentemente radical à constituição de “organismos coordenadores, assembleias de bairro, assembleias populares — tudo o que for necessário para que os sindicatos, para que os centros estudantis voltem a ser ferramentas de luta”.
A função explícita desses organismos é fazer com que “os sindicatos voltem a ser ferramentas de luta”. A orientação não é à formação de organismos independentes de poder operário — sovietes, comissões de fábrica autônomas, estruturas de duplo poder no sentido elaborado pelo marxismo revolucionário a partir da experiência das Revoluções Russas de 1905 e 1917. É a formação de organismos intermediários destinados a pressionar as direções burocráticas existentes da CGT e a recuperá-las como instrumentos de luta. O aparato sindical peronista apodrecido e burocratizado não deve ser abolido; deve ser, segundo o PTS, empurrado para a esquerda e compelido a se autorreformar.
A obsessão dos morenistas com os números das pesquisas e com a aprovação de Bregman foi o tema dominante no palanque do ato. O dirigente do PTS Christian Castillo abriu sua intervenção citando a pesquisa Atlas Intel, que coloca Bregman em primeiro lugar em aprovação positiva (47% de imagem positiva contra 46% negativa, com todas as demais figuras políticas relevantes em saldo negativo e Milei enfrentando 62% de imagem negativa). Bregman encerrou seu discurso observando que “o povo começa a dizer — presidenta”.
Ao passo que o PTS planeja sua intervenção com base nos números das pesquisas, sob um contexto em que setores da opinião pública burguesa, da mídia e da intelectualidade pequeno-burguesa cotejam o partido como possível opção administrativa para a próxima fase da crise, ele dá as costas às massas de trabalhadores e jovens que estão alienadas do conjunto da política institucional argentina. Essas massas, que entrarão em cena nos levantes revolucionários que estão na ordem do dia, estão fora do horizonte estratégico do PTS.
O conceito de “nova classe trabalhadora” defendido pelo PTS merece ser diretamente examinado. Descrever a classe trabalhadora como “feminizada, perseguida, discriminada” não é uma interpretação marxista da sociedade de classes. É o vocabulário da política identitária, orientado para as preocupações da classe média alta — assim como a autodefinição do ato como “feminista” e “ecológico”. Mais fundamentalmente, é uma concepção que ignora totalmente a transformação mais decisiva da classe trabalhadora nas últimas décadas: sua massiva expansão e integração internacional pela globalização da produção.
A classe trabalhadora é hoje uma classe globalmente unificada, articulada por cadeias de suprimentos, redes logísticas e fluxos financeiros de magnitude sem precedentes, cujas lutas são objetivamente internacionais em seu caráter e cuja força só pode ser organizada em bases internacionais. A rejeição dos morenistas à classe trabalhadora internacional se expressa no seu programa: um partido nacionalista, orientado aos sindicatos argentinos e à conjuntura eleitoral burguesa do país, cujo “internacionalismo” consiste em saudações de ocasião trocadas entre partidos afiliados entre si que operam em seus respectivos marcos nacionais.
Bregman encerrou seu discurso convocando uma “verdadeira rebelião, uma greve geral, para acabar com o sofrimento de milhões” — retoricamente apresentada como um Cordobazo del siglo XXI. A invocação do Cordobazo nesse contexto apaga a lição central daquele levante operário e estudantil que sacudiu a Argentina em 1969. Ele levantou objetivamente a questão do poder político. Foi derrotado pela ausência de uma direção marxista consciente — o próprio vácuo político que a tendência morenista, da qual o PTS representa uma das continuações diretas, ajudou a criar e manter. O Cordobazo é invocado como metáfora inspiradora justamente pela tendência cuja intervenção ajudou a pavimentar o caminho que vai do potencial revolucionário de 1969 à catástrofe contrarrevolucionária de 1976.
A fratura na FIT-U
A FIT-U saiu fraturada neste Primeiro de Maio. Pela primeira vez desde a sua formação em 2011, os quatro partidos que a compõem realizaram atos separados.
A Frente de Esquerda e Trabalhadores – Unidade reúne quatro partidos — o PO, o MST, a IS e o PTS. Os três últimos se formaram a partir de sucessivos rachas do tronco morenista; o PO emergiu de uma linhagem separada e puramente nacional. Constituída em 2011, a frente mantém representação parlamentar nas câmaras federal e provinciais. Como o World Socialist Web Site tem documentado ao longo dos anos, a função política da FIT-U tem sido dar cobertura à burocracia da CGT, canalizar trabalhadores radicalizados de volta ao peronismo e impedir o surgimento de uma direção política independente da classe trabalhadora.
Em meados de abril, o PTS anunciou que realizaria um ato próprio de Primeiro de Maio, justificando sua decisão a partir de dois eixo em uma carta aberta à FIT-U. Primeiro, denunciou os demais partidos da Frente por participarem de iniciativas que diluem “a delimitação com o peronismo e com a burocracia sindical, abrindo a perspectiva de uma ‘frente anti-Milei’ sem nenhum tipo de delimitação de classe com a direção sindical traidora”.
Segundo, posicionou o ato em Ferro como parte de “uma série de atividades internacionais de sua corrente” — referência aos atos da CRP em Paris e em São Paulo durante 2025. O PTS apresentou-se, assim, como mais consequentemente “internacionalista” e mais firme em sua delimitação de classe que seus parceiros de frente.
No ato unitário de Primeiro de Maio dos demais partidos da FIT-U, a intervenção mais notável coube ao dirigente do MST, Alejandro Bodart, secretário-geral da Liga Internacional Socialista (LIS). Como se estivesse às portas de assumir o governo, ele caracterizou situação política argentina nos seguintes termos:
Milei está mal, nunca esteve pior do que está agora. […] A outra pata do regime burguês argentino também está mal — o Partido Justicialista. […] Pela primeira vez na história, a esquerda está na boca de todos. […]
Sabemos que há companheiros que, diante dessa nova situação, se perguntam: Podemos governar? Temos forças para isso?
Olhem, companheiros, não só podemos governar, como devemos conduzir a esquerda a tirar o país desta crise.
Tanto no discurso de Primeiro de Maio de Bodart quanto em uma carta aberta de 22 de abril à direção do PTS, o MST acusou o partido de Bregman de estar desperdiçando uma “oportunidade histórica” para a esquerda por uma suposta atitude sectária e uma vacilação diante da tomada do poder.
Por “sectarismo”, o MST refere-se à recusa do PTS em partilhar do “forte apoio eleitoral e a imagem pública positiva, refletidos em diversas pesquisas e sondagens de opinião”, que “a companheira Myriam Bregman é quem melhor consegue capitalizar”.
Em sua acusação de que o PTS recua diante da perspectiva de a FIT-U “chegar ao governo”, o MST não tem em mente um governo formado pela derrubada do Estado burguês argentino e pela instauração da ditadura do proletariado. Trata-se da participação da FIT-U como variante de esquerda em uma fórmula governamental dentro do regime democrático-burguês, na linha do Syriza na Grécia em 2015 e do Podemos na Espanha entre 2020 e 2023.
O Partido Obrero, representado no ato da Plaza de Mayo por Gabriel Solano, juntou-se ao MST e à Izquierda Socialista no ataque ao PTS pela divisão do ato. Solano denunciou como “uma vergonha” a decisão do PTS de convocar um “ato divisionista”, insistindo que o partido de Bregman ainda tinha tempo de reverter o que chamou de sua postura “autorreferencial”. Do palanque, encerrou o ato com um chamado a que a FIT-U convoque uma Assembleia Nacional aberta a todos os lutadores do país como caminho alternativo a seguir.
O PO ocupa uma posição particular no interior da FIT-U. Originado de um racha do MIR-Praxis (Política Obrera) dos anos 1960, grupo orientado à ação guerrilheira guevarista, estabeleceu várias alianças oportunistas com grupos internacionais que haviam rompido com a Quarta Internacional. Estas incluíram, durante a década de 1970, a corrente internacional liderada por Pierre Lambert, outro pablista que rompeu com o Comitê Internacional da Quarta Internacional em 1971 e mais tarde forjou uma aliança breve com Moreno.
O PO tem a atuação mais substancial nos sindicatos entre os quatro partidos: através de Romina del Plá no sindicato dos professores, do SUTNA dos trabalhadores em pneumáticos dirigido por Alejandro Crespo, e do Polo Obrero entre desempregados e trabalhadores do setor informal. Disputa com o PTS qual das formações se apresenta como maior defensora de uma política “classista”. Ao passo que o PTS convoca a formação de um novo partido dos trabalhadores nos moldes do PT brasileiro das origens, e o MST propõe um partido unificado da FIT-U com direito de tendências, o PO levanta a convocação de uma Assembleia Nacional aberta a “todos os lutadores” para “transformar a Argentina” em termos amplos.
Solano expôs a análise que baseia a proposta do PO em um editorial de 8 de maio do Prensa Obrera, “A Estratégia de Poder da Esquerda”: as pesquisas revelam um descompasso entre a imagem positiva de Bregman e a menor intenção de voto na FIT-U, indicando a tarefa de “fidelizar” setores populares. Os trabalhadores, na leitura do PO, estão se voltando a posições revolucionárias; a conjuntura, no entanto, ainda não está madura. Em consequência, exige-se uma adaptação à radicalização espontânea dos trabalhadores como caminho de menor resistência, sem romper ilusões na burocracia sindical ou no peronismo.
As polêmicas cruzadas entre os quatro partidos — sobre quem é mais sectário, quem se adapta mais ao peronismo, quem capitaliza eleitoralmente a popularidade de Bregman — não representam diferenças de princípio. O próprio Bodart deixou isso claro quando, na Plaza de Mayo, declarou o MST “aberto a qualquer saída” que permita à frente debater como aproveitar a “oportunidade histórica” — o partido dos trabalhadores proposto pelo PTS, o partido unificado com tendências proposto pelo MST ou a Assembleia Nacional proposta pelo PO são, para ele, opções intercambiáveis. O que une as três fórmulas é o diagnóstico subjacente: a situação ainda não está madura, a classe trabalhadora está sendo empurrada à esquerda, mas ainda não está pronta; a tarefa é administrar a conjuntura presente, não organizar a tomada do poder.
Esse é precisamente o diagnóstico que Trotsky respondeu em “Mais uma vez, aonde vai a França?”, em 1935, contra o bordão stalinista de que “a situação não é revolucionária”. Sua réplica foi categórica: “A situação é revolucionária, tão revolucionária quanto pode ser com a política não revolucionária dos partidos da classe trabalhadora”. A função da perspectiva centrista — ontem e hoje — é converter a alegada imaturidade da conjuntura em justificativa para a adaptação às próprias forças que bloqueiam a revolução: a burocracia sindical, o peronismo e o processo eleitoral burguês.
O caráter político e social do “fenômeno Bregman”
Para entender o que o PTS está de fato fazendo, é necessário entender por que ele está sendo observado pela burguesia argentina. A FIT-U aparece com em torno de 9 a 10% nas pesquisas de intenção de voto. Bregman emergiu como a figura política com a maior aprovação no país. Aparece com regularidade em canais de televisão burgueses; a direção do PTS circula em entrevistas com a grande imprensa; setores da classe dominante argentina cotejam ativamente o partido como possível opção administrativa para a próxima fase da crise.
O “fenômeno Bregman” não é primariamente um fenômeno popular da classe trabalhadora, mas um fenômeno político-midiático produzido pela conjuntura específica: a crise do governo Milei e a desmoralização do peronismo criaram um vácuo que setores da burguesia tentam preencher, promovendo um instrumento “de esquerda” para conter a radicalização das massas. Os índices do PTS nas pesquisas, sua presença parlamentar, sua orientação para a opinião burguesa e sua proposta de um novo partido amplo com programa não socialista expressam a função política que o partido se prepara para cumprir.
Essa função tem sido documentada pelo WSWS ao longo de todo o período do governo Milei. Como escrevemos em março de 2026, a FIT-U operou em uma “sórdida divisão do trabalho entre o peronismo, a burocracia sindical com direção peronista e a FIT-U pseudoesquerdista para reprimir a luta de classes e impor os ataques [de Milei] contra a classe trabalhadora”. Na FATE — o exemplo concreto mais atual —, o sindicato SUTNA dirigido pelo Partido Obrero, saudado pelo PTS como um “farol” para os trabalhadores argentinos, tem oscilado entre apelos teatrais à ocupação da fábrica e petições para o governador peronista Axel Kicillof estatizar planta: pressão sobre o Estado capitalista, e não mobilização independente da classe trabalhadora. A combatividade retórica da FIT-U e a integração prática ao aparato político burguês não são contraditórias — são as duas faces da mesma moeda política.
É essa contradição que o conceito marxista de centrismo apreende com precisão. O centrismo adota a fraseologia da revolução socialista enquanto sua prática política concreta serve para conter o desenvolvimento da revolução. Distingue-se do reformismo declarado, que defende abertamente a colaboração de classes, e do oportunismo de direita, que abandona toda referência ao socialismo. O centrismo é mais perigoso porque, vestido com bandeiras revolucionárias, ocupa o espaço político em que uma direção revolucionária genuína deveria emergir e impede o seu desenvolvimento.
A função política do PTS e as lições do morenismo
A função que o PTS se prepara para cumprir como peça central da CRP-CI foi definida de antemão pelo Grupo Socialista pela Igualdade do Brasil (GSI) em sua declaração de março de 2026, “Morenistas mudam nome para “Corrente Revolução Permanente”: uma conspiração contra o trotskismo e a revolução socialista vindoura”. A mudança de nome da antiga Fração Trotskista — decidida na sua conferência em São Paulo em dezembro de 2025 — teve o objetivo de apagar a continuidade do PTS/CRP com a história do morenismo e suas traições, reabilitar as forças que traíram a classe trabalhadora no passado e preparar novas traições.
Na crise argentina, a função particular do PTS é resgatar os aparatos desmoralizados — a burocracia sindical peronista e o regime político burguês — fornecendo-lhes uma cobertura “de esquerda” capaz de absorver e desviar a radicalização revolucionária da classe trabalhadora.
As consequências de operações políticas dessa natureza em momentos de crise revolucionária aberta estão inscritas em sangue na história da América Latina. O Chile sob a Unidade Popular em 1973 e a Argentina sob o governo Perón e sob a junta de Videla entre 1973 e 1976 demonstram concretamente o que o bloqueio à direção revolucionária produz quando a classe trabalhadora confronta as condições objetivas da revolução socialista.
No Chile, a coalizão socialista-stalinista da “Unidade Popular” de Salvador Allende, eleita em 1970 em meio a um ascenso revolucionário, implementou o programa do “caminho chileno ao socialismo”: estatizações parciais combinadas com a defesa intransigente do Estado burguês e das Forças Armadas chilenas como “alicerce de granito do processo revolucionário”. Quando os trabalhadores começaram a formar cordones industriales e organismos autônomos de poder em resposta à conspiração patronal de outubro de 1972, o governo aplicou a Lei de Controle de Armas para desarmá-los e nomeou o general Augusto Pinochet comandante-em-chefe do Exército. O resultado foi o golpe de 11 de setembro de 1973, dezenas de milhares de trabalhadores e jovens detidos, torturados e mortos, e duas décadas de ditadura fascista.
O fator decisivo naquela derrota foi a ausência de um partido marxista revolucionário capaz de liderar a classe trabalhadora chilena na ruptura com o stalinismo e a social-democracia e na luta pela tomada do poder. Essa ausência é indissociável do ataque revisionista-pablista contra a Quarta Internacional. O Partido Obrero Revolucionario (POR), seção chilena da Quarta Internacional, rompeu com o Comitê Internacional em 1963 sob a liderança pablista e em seguida se dissolveu, fundindo-se em 1965 com forças castristas e maoistas para constituir o centrista Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR). O MIR ofereceu “apoio crítico” a Allende e canalizou trabalhadores e camponeses que rompiam com o stalinismo e a social-democracia para uma orientação de “pressão” sobre o governo da Unidade Popular, em vez de organizar a luta pelo poder operário. Foi a dissolução pablista do partido trotskista e sua substituição pelo centrismo do MIR que impediram a classe trabalhadora chilena de superar suas direções traidoras e abriram o caminho à derrota de 1973.
Na Argentina dos mesmos anos, a operação morenista cumpriu papel análogo. O Partido Revolucionario de los Trabajadores (PRT), formado em 1965 pela fusão do grupo morenista com a Frente Revolucionario Indoamericanista Popular de Mario Santucho, rachou em 1968 às vésperas do Cordobazo: Nahuel Moreno integrou-se progressivamente ao aparato burguês peronista, enquanto Santucho adotava os métodos do guerrilheirismo.
Em 1973, sob o governo Perón — enquanto os esquadrões da morte do Triplo A levavam a cabo uma onda sistemática de assassinatos contra a esquerda —, os morenistas declararam: “Nosso partido é o único, no campo da esquerda revolucionária argentina, que publicamente proclamou seu apoio ao ‘processo de institucionalização’”. Após o golpe militar de Jorge Rafael Videla, em março de 1976, os morenistas sustentaram que o regime de Videla não era “nem objetiva nem subjetivamente” contrarrevolucionário. O que se seguiu foi a destruição física da vanguarda operária argentina: 30 mil assassinados ou desaparecidos.
O PTS busca conscientemente enterrar essa história. Mas sua política presente está integralmente enraizada nela. A proposta central do ato em Ferro — o “gran partido de la nueva clase trabajadora” — é a reedição contemporânea de uma operação que o morenismo executou pela primeira vez nos anos 1980.
Em 1982, em meio à crise da ditadura, Nahuel Moreno reconstituiu sua organização como Movimiento al Socialismo (MAS, Movimento ao Socialismo), explicitamente concebido como instrumento para canalizar a radicalização que emergiria sob o processo de transição democrática negociada entre os militares e o imperialismo americano. O panfleto de Moreno “1982: A Revolução Começa” atribuiu a derrota de 1976 não às traições do peronismo e do próprio morenismo, mas à “consciência política reacionária e ultracapitalista” do trabalhador argentino. O MAS lançou Luis Zamora — advogado de classe média sem nenhum histórico no movimento operário — como candidato presidencial em 1983, operação que demarcou sua perspectiva pequeno-burguesa.
No mesmo período, o MAS levantou explicitamente a proposta da construção de um “partido dos trabalhadores” amplo. Seu programa de 1985 afirmava:
É possível que o exemplo próximo do poderoso desenvolvimento do Partido dos Trabalhadores do Brasil leve alguns dirigentes sindicais a repetir essa experiência em nosso país. É bem sabido que os principais dirigentes sindicais ligados à social-democracia ou à Igreja impulsionaram o desenvolvimento do PT, calculando que ele bloquearia a canalização da vanguarda operária para o comunismo ou para os trotskistas. De nossa parte, chamamos também aqueles que pensam dessa forma a fundar um Partido dos Trabalhadores, deixando de lado o sectarismo.
A demanda da construção de um partido dos trabalhadores — originalmente formulada por Trotsky em 1938 como tática para a mobilização política independente da classe trabalhadora nos Estados Unidos — foi convertida pelo MAS em demanda “esvaziada de seu conteúdo revolucionário e colocada a serviço dos agentes da burguesia no movimento operário”, como o CIQI escreveu em sua declaração de 1987 “Não ao stalinismo e à frente popular! Construir a Quarta Internacional!”. O PT brasileiro foi invocado como modelo — um partido construído por dirigentes sindicais ligados à social-democracia e à Igreja precisamente para bloquear a canalização da vanguarda em direção aos trotskistas, como o próprio MAS reconheceu.
O “gran partido de la nueva clase trabajadora” defendido por Bregman no Estadio Ferro no ato de Primeiro de Maio de 2026 exporta a mesma operação para a situação presente. Bregman ainda não era politicamente ativa quando Moreno promoveu esse projeto pela primeira vez nos anos 1980, mas o tipo de liderança política que ela representa é a continuação direta do modelo Zamora: uma figura midiática, advogada, atrativa para setores urbanos pequeno-burgueses, inteiramente alheia à tradição teórica e programática trotskista.
O próprio PTS emergiu do MAS, sendo fundado em 1988 após sua tendência ser expulsa do partido. Longe de constituir uma ruptura com a tradição morenista, o novo partido foi fundado reivindicando a história do MAS, divergindo de sua direção pós-Moreno. As estruturas internas do PTS, formadas em sua maioria por quadros do MAS e seus descendentes políticos, reproduzem essa orientação como prática política natural. O caminho que Bregman propõe neste momento de aprofundamento da crise revolucionária é o mesmo cuja aplicação prática conduziu à catástrofe de 11 de setembro de 1973 no Chile e ao golpe de 24 de março de 1976 na própria Argentina.
O ato de Primeiro de Maio do CIQI e o caminho para a classe trabalhadora na Argentina
A tarefa política colocada à classe trabalhadora argentina não pode ser cumprida no quadro da FIT-U, nem com base na política do PTS, cuja função objetiva é a de obstáculo centrista ao desenvolvimento da direção revolucionária. Não pode ser cumprida pelo PO, pela IS e pelo MST, cuja convergência política com o PTS em torno da orientação de integração no sistema político argentino foi novamente confirmada no Primeiro de Maio. Não pode ser cumprida pela burocracia da CGT nem por suas alas dissidentes, comprometidas com a contenção da luta de classes; nem por qualquer tendência peronista dissidente, comprometida com a continuidade da função histórica do peronismo como mediador entre o capital nacional argentino e o imperialismo americano.
A tarefa é a construção, na Argentina, de uma seção do Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI), o partido revolucionário internacional da classe trabalhadora e a autêntica continuidade programática do trotskismo. Isso requer uma ruptura programática consciente com toda a tradição morenista e pseudoesquerdista e a assimilação das lutas históricas do CIQI contra o pablismo, o stalinismo e todas as variantes do oportunismo. Requer a formação política de quadros marxistas em meio à própria erupção da luta de classes que se avizinha.
O ato de Primeiro de Maio deste ano do CIQI deu corpo a essa tarefa. Ao contrário do “internacionalismo” do ato em Ferro — uma acumulação de saudações a lutas em diferentes países sem articulação programática —, o ato do CIQI reuniu 18 intervenções de 14 países em cinco continentes, com transmissão legendada em 11 idiomas, articulando, a partir de uma única orientação estratégica internacional, as tarefas políticas colocadas à classe trabalhadora em todos os continentes. O CIQI é hoje a única tendência política no mundo que aborda a crise mundial como erupção das contradições históricas e insolúveis do sistema capitalista, e que identifica a classe trabalhadora internacional como a força revolucionária capaz de resolvê-la. A autêntica linguagem do marxismo não é falada em nenhum outro lugar.
Na intervenção de abertura do ato, David North, presidente do Comitê Editorial Internacional do WSWS, situou a guerra americano-israelense contra o Irã lançada em 28 de fevereiro de 2026 como “a culminação de um período histórico distinto, de 35 anos, iniciado com a dissolução da URSS em 1991” — não como um “episódio isolado” ou “política de um presidente particular”, mas como um estágio qualitativamente novo da barbárie capitalista. “A guerra mundial”, declarou, “não é uma ameaça futura, mas uma realidade que se desdobra no presente”. A guerra contra a classe trabalhadora em cada país — o desmantelamento dos direitos sociais, a redistribuição da riqueza para o topo, a guinada das elites dominantes para governos autoritários e métodos fascistas — é componente inseparável da mesma trajetória.
O ato identificou 2026 como um ponto de virada fundamental da história moderna. “O período de relativo equilíbrio social chegou ao fim”, declarou North. “Os primeiros meses de 2026 marcam o ponto em que a resistência da classe trabalhadora emergiu como uma força global, em uma escala que coloca diretamente na agenda histórica as questões fundamentais da época — guerra ou paz, ditadura ou democracia, socialismo ou barbárie”.
A questão decisiva da época, formulou North, é socialismo ou barbárie, qual dessas duas tendências prevalecerá. A resposta concreta a esta questão é a construção consciente da direção política revolucionária da classe trabalhadora internacional. O elemento qualitativamente decisivo da intervenção do CIQI é o próprio CIQI — o partido mundial da revolução socialista, com suas seções nacionais, os Partidos e Grupos Socialistas pela Igualdade, como partidos trotskistas guiados por uma estratégia internacional comum. North encerrou seu discurso de abertura:
A questão agora colocada não é se devemos lutar, mas como lutar e sob qual bandeira. Nossa resposta a essas questões é esta: o caminho a seguir é a luta consciente e organizada da classe trabalhadora internacional pelo poder. A bandeira é a da Quarta Internacional. Construam seções do Comitê Internacional da Quarta Internacional em todos os países. Assumam a luta pelo socialismo. Adiante rumo à revolução socialista mundial!
A Aliança Operária Internacional de Comitês de Base (AOI-CB) opera como instrumento para mobilizar a classe trabalhadora internacional independentemente das burocracias sindicais nacionais, construindo comitês de base em fábricas, centros logísticos, escolas e universidades nos diferentes países. Tanto o partido mundial quanto a AOI-CB dão expressão política àquilo que o morenismo é estruturalmente incapaz de conceber: a existência objetiva de uma classe trabalhadora globalmente integrada, cujos interesses estão em conflito direto com a forma de dominação capitalista organizada em torno dos Estados-nação e das burocracias sindicais nacionais. O “internacionalismo” morenista permanece preso ao quadro nacional argentino porque sua estrutura política e seu horizonte estratégico estão integralmente determinados pela conjuntura eleitoral do Estado nacional argentino.
O WSWS chama os trabalhadores e jovens argentinos que acompanham com seriedade a crise política em seu país e que se sentem atraídos pelas posições aparentemente combativas do PTS e da FIT-U a estudarem rigorosamente a história do Comitê Internacional da Quarta Internacional e o programa do trotskismo revolucionário. O legado político do pablismo e do morenismo — o Chile em 1973, a Argentina em 1976, o MAS em 1982 — não é um passado a ser evocado retoricamente; é o teste objetivo do que tais tradições produzem em momentos de crise revolucionária. A repetição desse padrão não é um fato predestinado, mas é a consequência inevitável da continuidade da direção política morenista. A alternativa é a construção consciente de uma direção revolucionária internacional na Argentina como tarefa política imediata em meio à explosão da luta de classes.
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