Em 20 de maio, 10 mil estudantes, professores e funcionários das três maiores universidades estaduais de São Paulo — USP, Unicamp e Unesp — levaram sua greve às portas do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual, na maior manifestação desde o início do movimento em 15 de abril. A marcha de três horas até a residência oficial do governador de extrema-direita, Tarcísio de Freitas, marcou o ponto mais alto de uma mobilização crescente em defesa das condições nos campi e da educação pública sob ataque no maior centro econômico do país.
Embora a própria Polícia Militar (PM) tenha reconhecido a passeata como sendo pacífica, os manifestantes sofreram intensa provocação e intimidação policial.
Vários ônibus trazendo estudantes de campi do interior à capital foram parados e revistados pela PM Rodoviária, atrasando a chegada das caravanas. O caso mais grave envolveu estudantes da Unesp abordados por policiais fortemente armados e ordenados a desembarcar para serem revistados. A Secretaria de Segurança Pública não deu qualquer explicação da base legal da operação.
Durante o próprio ato na capital, o ex-deputado estadual fascistoide Douglas Garcia (Republicanos) compareceu com seguranças privados para filmar e hostilizar os manifestantes. Assim como em uma manifestação anterior, de 11 de maio – em que dois vereadores de extrema-direita do União Brasil provocaram uma briga que instigou a repressão policial aos manifestantes – Garcia tentou sem sucesso criar um incidente no ato desta semana.
O emprego da violência policial vem se intensificando desde a ocupação da reitoria da USP, em 7 de maio, pelos estudantes em greve. A ocupação foi brutalmente reprimida por uma operação sem mandado judicial da PM na madrugada de 10 de maio.
A resposta de Tarcísio à greve nas universidades não pode ser compreendida fora de um contexto político mais amplo. O governador de São Paulo é um expoente local da agenda fascistizante impulsionada pelo imperialismo americano por toda a América Latina. As privatizações, cortes orçamentários às universidades e a violência policial contra os grevistas são componentes locais de uma ofensiva de classe coordenada internacionalmente, promovendo a militarização, austeridade e destruição das conquistas sociais do século XX.
Nessas condições, os estudantes grevistas não somente estão enfrentando o aparato policial e setores de extrema-direita, mas também os esforços da pseudoesquerda para desviar seu movimento aos canais políticos inofensivos da “pressão” sobre o Estado burguês.
Ao longo do percurso do ato, os estudantes entoaram: “Trabalhador, olha para cá, eu estou na rua para o seu filho estudar”, demonstrando um instinto político correto ao dirigir-se à classe trabalhadora. Mas não é a esse sujeito social que as direções do movimento estudantil estão voltadas.
A passeata terminou a algumas centenas de metros do Palácio dos Bandeirantes, onde foi bloqueada por um forte esquema policial. Após uma hora parada, um grupo de lideranças dos Diretórios Centrais dos Estudantes (DCEs) das três universidades, acompanhados pela deputada estadual Mônica Seixas, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), entraram no palácio para reunir-se com um representante do governador e apresentar suas demandas.
À meia-noite, a União Nacional dos Estudantes (UNE) publicou em suas redes sociais: “A pressão das ruas funcionou! O ato convocado pelo movimento estudantil garantiu que os representantes dos DCEs das universidades em greve fossem finalmente recebidos pelo governo de SP para apresentar suas reivindicações”. O foco dessa negociação foram demandas em torno da extinção do atual modelo de repasse orçamentário do estado às universidades.
A questão do repasse orçamentário às universidades possui amplas consequências sociais. Com a aprovação da reforma tributária federal de 2023, o ICMS — imposto sobre consumo estadual que desde 1990 garante o repasse anual de bilhões de reais ao orçamento da USP, Unesp e Unicamp — será extinto a partir de 2029. Novas regras de repasse terão de ser votadas na Assembleia Legislativa (Alesp), dominada pela ultradireita, em acordo com o próprio governador.
Entretanto, não é acidental que seja esse o terreno para o qual o movimento foi conduzido. O reitor Aluísio Segurado anunciou sua candidatura no ano passado tendo como uma de suas plataformas exatamente esse plano de negociação com Tarcísio de Freitas e a Alesp. A reitoria da Unicamp já havia, em comunicado de 18 de maio, adotado o mesmo enquadramento: reconhecendo a precarização dos campi, mas condicionando qualquer melhoria à “estabilidade na arrecadação das quotas-partes do ICMS estadual e às negociações mediadas pelo Cruesp [Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas]”.
O resultado é que as demandas legítimas dos estudantes — bolsas de permanência, moradia, alimentação, infraestrutura — estão sendo recodificadas como pressão por um rearranjo orçamentário a ser decidido entre instâncias administrativas da universidade.
Mais do que um erro tático, essa política cumpre uma função ideológica precisa: semear entre os estudantes a ilusão de que as condições sociais que produziram a greve podem ser corrigidas por meio de reformas dentro do capitalismo — pela pressão sobre governadores, reitores e assembleias legislativas. Ela desvia o movimento do caminho oposto: a orientação consciente à classe trabalhadora, que compartilha essas mesmas condições intoleráveis e é a única força social capaz não de reformar, mas de derrubar o sistema que as produz.
A presença de uma deputada do PSOL na comissão que entrou no Palácio dos Bandeirantes ilustra o papel que este e os demais partidos da pseudoesquerda à frente dos DCEs desempenham nesse processo: o de legitimar, com uma fachada de esquerda, a canalização do movimento para dentro das instituições do regime burguês.
Enquanto isso, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), teme que a greve das universidades paulistas se torne o ponto focal de um movimento mais amplo da classe trabalhadora que varra o Brasil às vésperas das eleições presidenciais.
O senador Eduardo Suplicy, que se apresenta como uma figura mais à esquerda dentro do PT, marchou ao lado dos estudantes na manifestação de 13 de maio, na Avenida Paulista, pedindo “diálogo com a reitoria da universidade”. Durante o ato, Suplicy fez um apelo para que o reitor dialogasse com os grevistas e agisse “como Mahatma Gandhi”.
Suplicy, conhecido por demandas como a “renda básica da cidadania”, cumpre um papel de destaque na busca do PT por empurrar para a juventude brasileira o seu programa eleitoral podre de uma nova “frente ampla” dos partidos burgueses sob Lula. No dia seguinte ao ato da Avenida Paulista, o senador acompanhou Lula em uma cerimônia de lançamento de subsídio para motoristas de aplicativo e taxistas para a compra de veículos híbridos e sustentáveis. É mais um componente da estratégia do PT para recuperar apoio entre a juventude — faixa etária que, segundo pesquisa do Datafolha de abril, é a que mais desaprova o governo Lula.
O impasse enfrentado pelo movimento das universidades paulistas aponta para questões cruciais de perspectiva. É a consequência lógica de uma política semeia ilusões reformistas e mantém o movimento dentro dos limites do regime burguês. Ele fecha sistematicamente o caminho para a única saída real: a subordinação das demandas dos estudantes à luta da classe trabalhadora, mobilizada como força política consciente contra o sistema que produz a precarização das universidades, a austeridade e a repressão. Construir esse elo exige uma organização política internacionalista e socialista e seu braço entre os jovens – a Juventude e Estudantes Internacionais pela Igualdade Social (JEIIS).
