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Trump designa CV e PCC como “organizações terroristas” em nova intervenção imperialista na América Latina

Na quinta-feira da semana passada, 28 de maio, o Departamento de Estado dos EUA anunciou a designação das organizações criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como Organizações Terroristas Estrangeiras e Terroristas Globais Especialmente Designados. A decisão, anunciada pelo secretário de Estado Marco Rubio, marca uma escalada virulenta da intervenção imperialista do governo Trump na política brasileira, com implicações diretas e imediatas para as eleições presidenciais do país em outubro.

O presidente Donald Trump com o senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente preso do Brasil, no Salão Oval da Casa Branca, em 26 de maio de 2026. [Photo: @FlavioBolsonaro]

Em seu comunicado oficial, Rubio descreveu o PCC e o CV como “duas das organizações criminosas mais violentas do Brasil”, afirmando que “juntas, elas comandam milhares de membros e têm orquestrado ataques brutais contra policiais brasileiros, autoridades públicas e civis. Sua influência e suas redes ilícitas se estendem muito além das fronteiras do Brasil, alcançando toda a nossa região e também o nosso país”. Nas redes sociais, acrescentou: “A Administração Trump continuará usando todas as ferramentas disponíveis para proteger nossos interesses de segurança nacional e negar financiamento e recursos a narcoterroristas”.

O subsecretário de Estado, Christopher Landau, repetiu esse enquadramento, declarando que as duas organizações representam “uma grave ameaça à segurança” não apenas para o povo brasileiro, mas “para todos os povos do Hemisfério Ocidental, incluindo os americanos”.

O anúncio ocorreu dois dias após o senador brasileiro e pré-candidato presidencial Flávio Bolsonaro se reunir com Trump no Salão Oval da Casa Branca, e um dia após ele se reunir separadamente com Rubio e o vice-presidente JD Vance, além de ser recebido no Departamento de Estado por Landau e pelo assessor sênior para a Política do Brasil, Darren Beattie.

A decisão de anunciar a designação após as reuniões com o candidato fascista brasileiro — filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe após perder as eleições de 2022 — representa um ato deliberado de provocação político-diplomática. Trump está dando um sinal inequívoco de que as eleições brasileiras deverão ocorrer sob a tutela de Washington, com todos os métodos de intervenção imperialista legitimados: de sanções e tarifas ao apoio a uma nova tentativa de golpe fascista ou uma agressão militar direta dos EUA.

Flávio Bolsonaro apresentou explicitamente sua operação política em Washington como um contraponto à visita diplomática do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Casa Branca, três semanas antes. Em coletiva de imprensa após sua reunião no Salão Oval, ele declarou: “O objetivo central da minha visita foi oferecer aos Estados Unidos uma alternativa ao que o Lula veio fazer aqui há poucas semanas. Enquanto o Lula veio à Casa Branca fazer lobby para traficantes, eu vim fazer exatamente o contrário: pedi enfaticamente ao presidente Trump que designe o quanto antes o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras”.

Dois dias depois, em vídeo publicado nas redes sociais comemorando o anúncio da medida, Flávio foi ainda mais direto: “Enquanto Lula foi de joelhos atrás do Trump tentar fazer lobby a favor do CV e do PCC, eu fui trabalhar para que eles fossem tratados como terroristas, que é o que eles são”. E acrescentou: “Um governo que não tem controle sobre seu próprio território é porque é conivente com o crime organizado. Agradeço a Trump e Rubio por atenderem rapidamente o meu pedido. Agora é com a gente, aqui no Brasil. E a partir de 2027 vamos libertar você”.

As reverberações da medida de Washington sobre o ambiente político brasileiro foram imediatas e reveladoras. 

A Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados — presidida por Luiz Philippe de Orleans e Bragança, do Partido Liberal (PL) de Bolsonaro — emitiu nota oficial saudando a decisão e afirmando que “enquanto o governo brasileiro relativiza e protege essas organizações, nós defendemos a adoção de medidas como essa”. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas — coordenador de campanha de Flávio no estado — parabenizou o senador pela “articulação firme e necessária” com o governo americano.

Os outros dois principais candidatos de extrema direita foram igualmente efusivos. Romeu Zema afirmou que “Flávio foi capaz de fazer aquilo que o Lula já deveria ter feito há muito tempo”. Ronaldo Caiado declarou que “a única frustração minha é que não cheguei à Presidência da República para que eu tomasse essa iniciativa”.

A resposta de Lula ao mais novo ato de intervenção dos EUA expõe a posição desesperadora de seu governo burguês e a falência de sua política de manobras com o imperialismo e o reacionário establishment burguês brasileiro.

O Itamaraty emitiu uma nota oficial rejeitando “qualquer forma de interferência externa em seus assuntos internos”. Seu apelo é inconfundivelmente para o nacionalismo de direita. A nota apontou diretamente aos “integrantes da família Bolsonaro”, condenando-os como “falsos patriotas” — uma formulação com duplo propósito: ao adotar um enquadramento reacionário da disputa como sendo entre patriotas verdadeiros e falsos, ela simultaneamente atenua a responsabilidade do imperialismo americano por seus crimes, culpando primeiramente seus “maus conselheiros” do clã Bolsonaro.

Ao mesmo tempo, a resposta do PT foi marcada por uma enorme capitulação à agenda imperial-fascista da “luta contra o crime”. A própria nota do Itamaraty descreve o PCC e CV como organizações que “praticam o terrorismo nos territórios em que vivem milhões de famílias”, apresentando seu combate como “prioridade do Estado brasileiro”.

Essa linha capituladora foi ainda mais desenvolvida por Lula em discurso de 29 de maio, durante visita à fábrica estatal de fertilizantes, FAFEN, em Sergipe. “Hoje eu estou muito triste”, disse ele. “Fiquei triste com a notícia de que o secretário dos Estados Unidos da América do Norte, um tal de Marco Rubio, disse que nossos criminosos são terroristas e que os americanos poderiam fazer intervenção”.

Lula continuou:

Esse tal de Comando Vermelho e esse tal de PCC são terroristas para as comunidades brasileiras, para a sociedade brasileira, para o povo da periferia desse país eles são terroristas. Eles incomodam as famílias, eles incomodam o bairro, eles incomodam a cidade, eles roubam tudo que tem direito do povo. Então eles são terroristas e nós vamos combatê-los aqui dentro.

É a primeira vez que qualquer figura do governo petista apresenta tais organizações criminosas como “terroristas” — um vocabulário político que pertence inteiramente à direita fascistoide e sua exploração demagógica dos efeitos da desigualdade social e da miséria para promover a escalada da repressão militarizada e da ditadura capitalista.

A escalada da ofensiva imperialista contra o Brasil e a América Latina

A designação do PCC e CV como organizações terroristas por Washington é o mais recente elo de uma cadeia de intervenções imperialistas em ascensão. Em julho de 2025, Trump impôs tarifas de 50% ao Brasil, explicitamente destinadas a barrar o julgamento de Bolsonaro e seus cúmplices militares-fascistas. Em agosto, os EUA declararam uma “emergência nacional” contra o Brasil e impuseram sanções da Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes, que presidia o julgamento de Bolsonaro. Em novembro passado, o governo americano enviou uma carta oficial ao governo estadual carioca, parabenizando-o pela chacina de 117 civis cometida sob a justificativa de combate ao “narcoterrorismo”. Foi revelado que o governador Cláudio Castro — que desde então renunciou ao cargo e foi condenado a oito anos de inelegibilidade em caso de fraude eleitoral — havia viajado a Washington em maio de 2025 para solicitar formalmente a designação do CV e do PCC como terroristas.

Antes de o governo americano tomar a medida, Argentina e Paraguai — ambos sob governos de extrema direita que operam como instrumentos da agenda regional de Trump — já haviam designado CV e PCC como organizações terroristas. Essa decisão se insere inteiramente no arcabouço da coalizão regional fascistoide “Escudo das Américas”, formalmente estabelecida por Trump em março de 2026 como a “Coalizão das Américas contra os Cartéis”. Seu objetivo é a subordinação plena da América Latina à estratégia geopolítica do imperialismo americano.

Os objetivos vorazes de Washington que alimentam sua redesignação das gangues brasileiras foram bem expostos por especialistas acadêmicos consultados pela Agência Brasil. O professor Paulo Borba Casella, da faculdade de relações internacionais da USP, foi direto: “O enquadramento como organização terrorista, pela lei americana, permite que o governo dos EUA ataque agentes de tais entidades, sem necessidade de declaração de guerra, nem autorização do Congresso dos EUA”.

O professor Francisco Carlos Teixeira da Silva, da UFRJ, descreveu a doutrina mais ampla: “Os EUA estabelecem o fato de que os países da América Latina têm soberania limitada pelos interesses americanos. E eles podem intervir sempre que acharem necessário, conforme os parâmetros americanos”. Ele citou o México como exemplo imediato: após a designação dos cartéis mexicanos como organizações terroristas, agentes da CIA operaram em seu território sem autorização do governo central. “Os exemplos imediatos desses meses mostram que a classificação não vem sozinha, ela vem com consequências”.

O precedente da invasão americana da Venezuela torna essas observações ainda mais contundentes. A designação fraudulenta do chamado “Cartel de los Soles” como Organização Terrorista Estrangeira levou à declaração de um “conflito armado não internacional” e, finalmente, ao bombardeio de Caracas e ao sequestro do presidente Nicolás Maduro em 3 de janeiro de 2026. Alegações semelhantes foram apresentadas como justificativa para o assassinato de pescadores em ataques a mísseis no Caribe e no Pacífico Oriental pelos EUA, que já somam mais de 200 vítimas.

Os Bolsonaros estão operando diretamente sob o guarda-chuva do “Escudo das Américas” para provocar uma intervenção similar dos EUA no Brasil. A caracterização feita por Flávio do governo Lula como cúmplice de organizações terroristas — “de joelhos fazendo lobby pelo CV e pelo PCC” — reproduz o roteiro político que precedeu o bombardeio de Caracas. Ele e seu irmão Eduardo celebraram as execuções extrajudiciais de pescadores no Caribe e exigiram sua expansão para a Baía de Guanabara. O alcance pleno do que Flávio oferece a Washington foi explicitado em sua participação na CPAC, onde declarou: “O Brasil vai ser o campo de batalha onde o futuro do hemisfério será disputado, porque o Brasil é a solução da América para quebrar a dependência da China por minerais críticos, especialmente as terras raras”.

O PT e a pseudoesquerda apresentam sua adaptação ao imperialismo e à direita fascista como a única resposta realista diante do que apresentam como uma “correlação de forças desfavorável”. Trata-se de uma inversão da situação real. As ações brutais sendo tomadas pelo imperialismo americano e seus fantoches regionais não são as ações de uma classe dominante que controla a situação. São as medidas desesperadas de uma ordem capitalista em profunda crise, aterrorizada pela escala da erupção social que suas próprias contradições estão engendrando.

A reação, contudo, vai continuar avançando enquanto a classe trabalhadora for impedida de manifestar sua posição política independente. A resposta necessária à ofensiva imperialista e à ameaça fascista não é uma “frente mais ampla” com setores cada vez mais à direita da burguesia brasileira. É uma ruptura completa com toda a orientação em direção ao establishment capitalista e uma virada em direção à classe trabalhadora internacional — cujas lutas contra a desigualdade, a violência estatal e a guerra imperialista, das Américas à Europa e à Ásia, são inseparáveis das lutas dos trabalhadores brasileiros e apontam para a mesma solução socialista revolucionária.

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