O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (Partido dos Trabalhadores – PT) participou na sexta-feira da semana passada, 24 de julho, da retomada oficial da Avibras, que foi por décadas a maior empresa do setor de defesa do Brasil. A cerimônia reuniu os três chefes das Forças Armadas, ministros do governo, empresários e dirigentes do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região (SindMetalSJC), filiado à central sindical CSP-Conlutas, dirigida pelo morenista Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU). O evento representou a convergência no mesmo palanque do Estado burguês, do grande capital privado e da burocracia sindical pseudoesquerdista.
A retomada da Avibras é o ponto central de uma iniciativa que Lula vem promovendo ao longo do último mês para expandir a indústria de defesa do Brasil. A invasão da Venezuela pelos EUA e o sequestro do presidente Nicolás Maduro em 3 de janeiro de 2026 soaram o alarme do governo Lula. A ameaça de uma agressão militar direta dos EUA contra o Brasil foi recentemente reconhecida oficialmente pelo Ministério das Relações Exteriores, que considerou que a designação das facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como “Organizações Terroristas Estrangeiras” pelo governo Trump no final de maio “poderia ser invocada como justificativa para ações extraterritoriais”.
A designação das organizações criminosas brasileiras como terroristas se soma às tarifas punitivas contra o Brasil desde julho do ano passado, que fazem parte de uma ofensiva dos EUA contra o Brasil e toda a América Latina para afastar a influência da China e instalar governos alinhados aos interesses de Washington na região. Esse processo culminou com a imposição de novas tarifas contra o Brasil em 15 de julho com o objetivo de ajudar o candidato fascista aliado de Trump, Flávio Bolsonaro, a ganhar a eleição presidencial de outubro contra Lula. O governo Lula está respondendo a essa ofensiva com o rearmamento: uma resposta nacionalista e militarista à crise do capitalismo global.
Fundada em 1961, a Avibras produziu por décadas mísseis, foguetes, veículos blindados e lançadores espaciais para as Forças Armadas brasileiras e para dezenas de clientes internacionais. Em março de 2022, a empresa entrou em recuperação judicial. Mais de 400 trabalhadores foram demitidos, mas a Justiça suspendeu as demissões.
Sem receber salários, eles realizaram uma greve que durou três anos e meio, de setembro de 2022 até março deste ano, quando um fundo liderado pelo empresário Joesley Batista – do grupo JBS, um dos maiores beneficiários dos programas de crédito estatal durante os primeiros governos PT – anunciou um investimento de R$300 milhões para a retomada da produção. O governo Lula anunciou outros R$300 milhões ainda não investidos na Avibras, cujo objetivo principal é pagar os salários atrasados dos trabalhadores.
O primeiro a falar na cerimônia foi o vice-presidente Geraldo Alckmin. Voltando-se ao chefe do Exército, general Tomás Paiva, Alckmin sintetizou a lógica militarista que definiu o evento: “O exército pode ficar 100 anos sem ser usado, mas o Brasil não pode ficar um minuto sem estar preparado. Defesa, capacidade de persuasão.”
Alckmin também destacou o desbloqueio do financiamento público às exportações da indústria de defesa pelo Programa de Estímulo às Exportações. Os números anunciados pelo vice-presidente falam por si: as exportações da indústria de defesa brasileira saltaram de US$600 milhões em 2022 para US$1,7 bilhão em 2024, dobrando novamente em 2025, quando atingiram US$3,4 bilhões. Outro número ajuda a jogar luz sobre o programa militarista do governo do PT: no ano passado, os gastos militares no país aumentaram 13%, muito acima da média global de quase 3% no mesmo período.
Em seu discurso, Lula disse que “Hoje é um dia especial”, explicando que desde o início de seu governo, em 2023, realizou reuniões com chefes militares e ministros com o objetivo de reativar a empresa. Para Lula, manter a Avibras paralisada seria inadmissível: “Não tinha explicação política, econômica, social, e não tem explicação também como nação soberana, a gente presidir um país que tinha uma empresa que acumulou o conhecimento tecnológico da Avibras, que produzia uma coisa tão importante para a segurança do país, paralisada, sendo destruída.”
A passagem mais reveladora do discurso, no entanto, foi a comparação das Forças Armadas a Deus – uma instituição a que se recorre em todas as crises. “Eu quero as Forças Armadas bem preparadas, bem treinadas, com os soldados que forem suficientes para tomar conta deste país”, afirmou. O presidente enumerou os recursos que tornariam o país um alvo cobiçado: minerais críticos, terras raras, a maior floresta tropical do mundo, 12% da água doce do planeta.
A “soberania” invocada por Lula é inteiramente a do Estado burguês e de suas Forças Armadas – as mesmas forças que abrigaram e protegeram os conspiradores por trás da tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, cujo aparato permanece intacto e intimamente entrelaçado com as Forças Armadas dos EUA. Em um país que não trava uma guerra envolvendo sua soberania nacional há mais de um século e meio, e que foi governado por uma ditadura militar sangrenta por cerca de duas décadas, a partir de um golpe apoiado por Washington em 1964, é infinitamente mais provável que um exército reformulado volte suas armas contra a classe trabalhadora brasileira do que lute uma guerra de defesa nacional.
Em 26 de junho, numa cerimônia de entrega de uma fragata militar à Marinha no TKMS Estaleiro Brasil Sul, em Santa Catarina, Lula disse que essa embarcação representaria “o começo de um país que vai assumir de fato e de direito o direito de ser soberano”, enfatizando que seus governos – tanto o período 2003-2010 quanto o atual – foram sempre marcados por uma “boa relação com os militares.”
O programa que Lula anunciou em ambas as cerimônias é o de um governo que se prepara para se tornar um exportador de armas em escala crescente. No evento na Avibras, ele se comprometeu com a expansão militar, dizendo: “as Forças Armadas, junto com o ministério da defesa, vão se preparar para fazer as encomendas que for necessário fazer”, o presidente foi ainda mais longe: “A gente vai ter que viajar, Zé Múcio [ministro da defesa], vendendo coisas”.
Para suavizar o que seria a transformação do Brasil num vendedor internacional de armamentos, Lula recorreu a uma formulação cínica típica do militarismo burguês: “Quando eu vender uma arma lá fora, eu falo: foi feita por trabalhadores brasileiros e trabalhadoras… e não querem matar ninguém. Essa arma é da paz. É só para você falar que tem, para ninguém mexer com você.”
Lula invocou o expansionismo de Washington para justificar esse programa: “Agora mesmo o presidente americano quer tomar a Groenlândia, o Canadá vai virar estado dele, quer tomar o Canal do Panamá”, declarou o presidente no evento em Santa Catarina. Na verdade, a “arma da paz” de Lula tem um destino preciso no mundo real. Nas décadas de 1980 e 1990, a Avibras forneceu equipamentos para as guerras Irã-Iraque e do Golfo. Hoje, quatro dos cinco maiores compradores de produtos de defesa brasileiros fazem parte da OTAN, incluindo a Alemanha e os EUA, e podem ser usados nas guerras na Ucrânia e no Irã.
Na cerimônia em Santa Catarina, Lula ainda explicou claramente o papel que esse programa ocupa atualmente em seu governo: “além da educação, além da saúde, além da transição energética, além da inteligência artificial, a defesa faz parte das minhas prioridades para transformar esse país no verdadeiro país que ele tem que ser”, afirmou. E foi ainda mais longe, dizendo: “Pela primeira vez eu vou colocar a questão da defesa no programa de governo”.
Com a retomada da Avibras e a aprovação, no final do ano passado, de projeto de lei da oposição apoiado pelo governo Lula que permitiu o ministério da defesa gastar R$5 bilhões anuais fora do “novo arcabouço fiscal” – que limita os gastos governamentais – nos próximos seis anos, tanto o orçamento da defesa quanto as exportações certamente irão aumentar, colocando o Brasil cada vez mais dentro da engrenagem de guerra imperialista mundial.
Governo Lula, os militares e o sindicato dirigido pelo PSTU: uma divisão de trabalho contra a classe trabalhadora brasileira e internacional
Em seu discurso na cerimônia, Lula não deixou de render homenagens ao Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região (SindMetalSJC). “O sindicato é motivo de orgulho pela maturidade da compreensão da importância da empresa e do momento político que estamos vivendo”, disse o presidente petista. A frase resume o papel cumprido pelos dirigentes morenistas do SindMetalSJC: a de uma burocracia que, ao longo de três anos e meio, “amadureceu” na direção das mesas de negociação e segundo os interesses do Estado burguês, do militarismo e do capital privado nacional.
Presente na cerimônia, Weller Gonçalves, presidente do sindicato e membro do PSTU, discursou olhando diretamente para Lula, avançando essencialmente o mesmo programa nacionalista e militarista do governo PT. Ele disse que “Foram várias reuniões junto com o [vice-presidente] Geraldo Alckmin, junto com o [ministro da defesa] Múcio e com outros ministros”. Mais importantemente e ausente do discurso de Weller, está o fato de que ele também realizou uma campanha intensa junto aos militares brasileiros, cujo principal interlocutor foi o reacionário comandante brasileiro Robinson Farinazzo. Mais recentemente, essa parceria culminou numa campanha pública para o SindMetalSJC receber a Ordem do Mérito Militar, a mais alta condecoração do Exército Brasileiro.
Na cerimônia, Weller entregou a Lula um documento que sintetiza o programa pelo qual a burocracia morenista trabalhou ao longo de todo esse período. “A volta da Avibras é uma grande vitória para o nosso país”, o documento declarou, atribuindo à luta do sindicato o mérito de ter impedido que “a principal indústria de defesa do Brasil fosse entregue ao capital estrangeiro”. Em frente a Lula, Weller foi ainda mais enfático: “Nós não trememos a mão para defender a Avibras como uma empresa nacional”.
O documento apresentou ainda o que chamou de “proposta estratégica para o desenvolvimento nacional”: a reestatização da gigante Embraer, que também produz aviões militares, a estatização da Avibras e de todas as empresas estratégicas do setor de defesa, além da fusão dessas empresas numa grande indústria estatal articulada com universidades e centros de pesquisa.
Assim como Lula fizera anteriormente, o documento justificou essa proposta em função das “profundas transformações na geopolítica mundial”, das “guerras em curso” e da “disputa entre grandes potências imperialistas”, concluindo: “nenhum país que pretenda preservar sua soberania pode abrir mão de uma indústria de defesa nacional”.
A entrevista que Weller concedeu ao Brasil 247 em 24 de julho foi ainda mais esclarecedora sobre o papel político real que o sindicato cumpriu. Ele revelou que, no início da luta, representantes do governo argumentavam: “Olha, vocês falam de estatizar a empresa, vocês falam do governo investir. O Brasil não está em guerra. Se a gente fizer investimentos na Avibras, vai ter questionamento de por que a gente não faz na área da saúde, na área da educação, na área da infraestrutura.”
A declaração – cujo conteúdo foi repetido por Alckmin e Lula – revela que foi a pressão sistemática do sindicato dirigido pelo PSTU que ajudou a criar as condições políticas para que o governo PT apresentasse o rearmamento como prioridade nacional comparável às políticas sociais. “Indústria de defesa tem que ter aporte do governo. É a grana dos nossos impostos que nós pagamos que o governo tem que investir na Avibras”, concluiu Weller. Ele ainda defendeu que a empresa “vai precisar se aperfeiçoar” e “girar para produzir drones”.
Não passou despercebido a Weller que essa aliança entre um “sindicalista comunista” e um militar como Farinazzo levantou críticas. Numa referência que parece apontar diretamente ao WSWS – que tem um amplo histórico de artigos expondo o programa militarista do SindMetalSJC em meio a um amplo silêncio da pseudoesquerda –, ele declarou: “Tem até alguns sites aí, né, comandante, que polemiza falando: ‘poxa, um sindicalista comunista junto com um militar, o que é isso?’” Ele mesmo respondeu: “Cada um com as suas ideias. Agora, em relação à questão da luta da volta da Avibras, é uma unidade de ação”. Essa frente nacionalista e policlassista entre a direção sindical morenista e os militares representa uma paródia grotesca e reacionária da política de “frente única” defendida por Trotsky.
O conteúdo político desse “anti-imperialismo” fraudulento fica ainda mais exposto pelas posições adotadas pelo PSTU e pela CSP-Conlutas – a central sindical à qual o SindMetalSJC está filiado – em relação aos principais conflitos internacionais. Ao mesmo tempo em que clamam pela “soberania nacional” brasileira, eles têm defendido o fornecimento de armas pelos EUA e pela OTAN à Ucrânia em sua guerra por procuração contra a Rússia, a guerra na Síria e outras iniciativas dessas mesmas potências imperialistas.
Na entrevista ao Brasil 247, Weller foi ainda mais longe em seu nacionalismo. Ao proclamar que “quem é patriota é o peão” e disputar com a extrema direita os “símbolos nacionais”, o presidente do SindMetalSJC não está avançando uma perspectiva independente de classe. O “patriotismo do peão” que Weller reivindica é, na prática, o patriotismo que leva o trabalhador a se subordinar ao nacionalismo burguês e a aceitar os sacrifícios numa possível guerra exigidos pelo Estado e pelo capital em nome da nação, identificando os seus interesses com os de sua classe dominante.
Mas a classe trabalhadora não tem pátria. Ela é, por sua própria posição no processo produtivo, uma classe internacional. Um metalúrgico de São José dos Campos tem mais em comum com um trabalhador da Boeing em Seattle, com um operário de uma fábrica de armamentos na Alemanha ou com um trabalhador iraniano do que com Lula, com os generais brasileiros ou com os empresários controladores da Avibras. O que os une não é a bandeira, mas a exploração – e o que os divide não é a origem nacional, mas a classe.
A cerimônia na Avibras ocorre no momento em que as guerras imperialistas em curso atingem um novo estágio. A guerra entre a Rússia e a Ucrânia, apoiada pela OTAN, e a guerra travada pelos Estados Unidos contra o Irã estão se intensificando, enquanto o genocídio em Gaza continua sem cessar. Na semana passada, a Ucrânia atacou um navio de carga iraniano no Mar Cáspio, alegando que ele transportava drones e mísseis com destino à Rússia. O Irã denunciou o ataque como uma agressão contra uma embarcação comercial. Conforme analisou o WSWS, o ataque expôs o caráter global da guerra imperialista, com os conflitos na Ucrânia e no Irã convergindo cada vez mais para uma única guerra.
A resposta à escalada da guerra imperialista e à ameaça crescente de uma terceira guerra mundial não pode vir do nacionalismo burguês – nem do governo PT, nem dos militares, nem da burocracia sindical que marcha ao lado deles. Ela exige a mobilização política independente da classe trabalhadora brasileira em unidade com seus irmãos e irmãs de classe nos Estados Unidos, na Ucrânia, no Irã e em todo o mundo – numa luta comum contra o capitalismo e o sistema de guerra imperialista que ele engendra.
