O historiador brasileiro Mário Maestri enviou uma réplica ao nosso artigo “Mais uma vez em defesa da Revolução Americana: resposta a um historiador brasileiro”, publicado em 17 de agosto de 2026, na qual desenvolve melhor sua visão sobre o caráter da Revolução Americana e da independência do Brasil. Publicamos abaixo nossa resposta, seguida de sua carta na íntegra.
Quero começar dizendo que a “nanobiografia” incluída em nosso artigo original não foi escrita com o propósito de contaminar o debate. Para que fique claro: não estamos colocando em disputa sua dedicação de vida à causa da revolução socialista, nem a corajosa luta que você e toda a sua geração travaram contra as ditaduras militares, enfrentando perseguição, exílio e todos os riscos pessoais que a militância política nesse período implicava.
O propósito daquelas linhas era ressaltar a dimensão política de sua atividade intelectual, que nos parece ser tão publicamente notória quanto a acadêmica. Diante do desafio de descrevê-la brevemente, optamos por indicar as principais organizações políticas às quais você pertenceu ao longo do último meio século.
É significativo que, embora sua réplica tenha narrado essa trajetória em termos mais ricos e detalhados do que fizemos, nada do que você escreveu desmente as associações que estabelecemos: com a Convergência Socialista morenista e com a Democracia Socialista mandelista – ambas as quais, como já havíamos notado, posteriormente ingressaram no PT –; com o PSOL, em cuja primeira direção nacional provisória você atuou; e com o PCB. Por mais que esse “amontoado de siglas” lhe pareça “fantasioso, grotesco e hilário”, não é a veracidade dessas associações que você contesta. O que você disputa, especificamente, é a sua descrição como um “veterano do movimento pablista”. E é precisamente aqui que temos, de fato, uma diferença de concepção.
Sobre a cisão histórica com o pablismo
Para nós, o termo “pablismo” não serve como um epíteto. É a designação de uma divisão objetiva na história do movimento trotskista – uma divisão que remonta à cisão de 1953 na Quarta Internacional. Ao apresentá-lo como um veterano do movimento pablista, não estamos fazendo um julgamento sobre o seu caráter; estamos descrevendo uma filiação política historicamente verificável, que você mesmo, em sua réplica, confirmou ao acrescentar outras siglas partidárias – todas diretamente ligadas ao Secretariado Unificado pablista – pelas quais passou ao longo de sua militância.
Permita-me retomar brevemente essa história. A ruptura de 1953 opôs o Comitê Internacional, fundado em defesa do programa da Quarta Internacional e da construção de suas seções como partidos revolucionários independentes, orientados a dirigir a classe trabalhadora na luta pelo poder político, à tendência liquidacionista encabeçada por Michel Pablo e Ernest Mandel. Para os pablistas, essa construção já não era necessária: os partidos trotskistas deveriam dissolver-se, em cada país, nas organizações de massas dirigidas pelas burocracias stalinista, social-democrata e nacionalistas burguesas, às quais eles atribuíam, sob a pressão das “forças objetivas” e de seus supostos deslocamentos “à esquerda”, o papel de realizar as tarefas da revolução socialista.
Uma década depois, essa divisão política foi aprofundada pela guinada a uma reunificação sem princípios com os pablistas pelo Socialist Workers Party (SWP) norte-americano – e seus apoiadores na América Latina e na Ásia –, que deu origem ao Secretariado Unificado em 1963. Essa manobra, que ameaçava a continuidade do trotskismo, foi corajosamente combatida pela seção britânica do CIQI, a Socialist Labour League (SLL) de Gerry Healy, apoiada pela Organisation Communiste Internationaliste (OCI) francesa.
No cerne da luta contra a reunificação sem princípios estavam os desenvolvimentos na América Latina e, acima de tudo, a interpretação da Revolução Cubana. O SWP e seus apoiadores latino-americanos caracterizaram Cuba como um “Estado operário”, proclamaram que uma “nova época na história da revolução mundial” havia começado com a ascensão ao poder do movimento nacionalista pequeno-burguês liderado por Fidel Castro, e atribuíram ao trotskismo o papel servil de “fortalecer e enriquecer a corrente internacional do castrismo”. Com base nesse programa, proclamado na fundação do Secretariado Unificado pablista, essas organizações promoveram a política liquidacionista de reagrupamento político com as “forças liberadas pela Revolução Cubana”.
Healy e a SLL opuseram-se frontalmente a essa caracterização e perspectiva: Cuba não era um Estado operário, pois não existia ali ditadura do proletariado em nenhuma forma; as nacionalizações de Castro não alteravam o caráter capitalista do Estado; e a Revolução Cubana constituía, na verdade, uma confirmação negativa da Teoria da Revolução Permanente – segundo a qual, quando a classe operária não consegue dirigir as massas camponesas e destruir o poder de Estado capitalista, a burguesia resolve os problemas da “revolução democrática” à sua maneira. Acima de tudo, porém, a SLL se opunha à concepção que aquela caracterização consagrava: a de que o castrismo teria provado que outras forças de classe que não o proletariado, e outras direções políticas que não partidos marxistas conscientes – isto é, a Quarta Internacional –, poderiam levar adiante a revolução socialista na época atual.
É importante registrar que o Comitê Internacional não se opunha, em princípio, a uma discussão sobre a reunificação com os pablistas. O que o CIQI exigia era que essa discussão se baseasse em uma avaliação das causas do racha de 1953 e de sua relevância política persistente uma década depois. Essas exigências foram negadas. A reunificação se consumou precisamente sobre o aprofundamento das políticas pablistas – o empirismo, o objetivismo, a capitulação às direções não proletárias e a liquidação da Quarta Internacional. A resposta a essas exigências de princípio não foi um debate, mas ataques virulentos e caluniosos: o CIQI foi taxado de “sectário ultraesquerdista”, uma calúnia apresentada por Joseph Hansen em “Cuba: o teste do ácido”.
O caso do Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR) chileno é a expressão mais concreta dessa política pablista de reagrupamento. O MIR não foi uma formação que surgiu paralelamente ao movimento trotskista no Chile, mas um produto de sua liquidação deliberada. Influenciado pelas perspectivas que animavam a reunificação pablista de 1963, o Partido Obrero Revolucionario (POR) foi dissolvido em um amálgama de tendências políticas pequeno-burguesas. Luis Vitale – o argentino enviado ao Chile por Nahuel Moreno, que estava à frente dessa operação – conclamou em 1961 os trotskistas latino-americanos a “reunir todas aquelas forças, independentemente de suas origens específicas, dispostas a tomar a experiência cubana como ponto de partida para as lutas revolucionárias em seus próprios países”. O resultado foi exatamente o que a SLL havia advertido: uma organização orientada para a guerrilha e para a aventura armada, em detrimento da construção do partido revolucionário da classe operária e da luta pelo poder de Estado com base na mobilização independente dos trabalhadores.
Levamos em conta, a esse respeito, sua oposição declarada ao guevarismo dentro do MIR a partir de 1971. Mas, naquele momento, as condições políticas para tal oposição já haviam sido significativamente impactadas pelos desvios políticos produzidos pelo pablismo, cujos apoiadores, incluindo Vitale, já haviam sido expulsos do MIR. Sem um balanço político profundo da reunificação de 1963 e de suas perspectivas oportunistas, o sucesso dessa luta era impossível. Na derrota da classe trabalhadora chilena, com a ascensão da brutal ditadura de Pinochet em 1973, e por toda a América Latina, o preço político do liquidacionismo pablista foi pago com o sangue de milhares de jovens, trabalhadores e camponeses, empurrados para lutas guerrilheiras desastrosas ou vitimados pelas derrotas que elas produziram.
Diante desses resultados catastróficos, o Secretariado Unificado fez giros políticos e se dividiu internamente em tendências hostis entre si. Mas as perspectivas que produziram essas derrotas, e que haviam sido sistematicamente combatidas pelo CIQI, jamais foram submetidas a um balanço sério. Ao contrário: as calúnias e os ataques contra o Comitê Internacional somente se intensificaram.
Em setembro de 1976, praticamente todos os dirigentes do movimento pablista – tendências que passaram anos se combatendo mutuamente – se uniram para denunciar a investigação “Segurança e a Quarta Internacional” do CIQI, a respeito do assassinato de Trotsky e da infiltração do movimento trotskista por agentes stalinistas e do Estado capitalista. Após terem declarado a investigação uma “armação” sem terem submetido suas evidências a qualquer exame, essas tendências se reuniram em janeiro de 1977, em Londres, em uma Plataforma da Vergonha, para denunciar o CIQI em termos histéricos, negando a Gerry Healy o direito de falar em sua própria defesa. O conteúdo dessa oposição virulenta ao CIQI era a defesa incondicional de Joseph Hansen, Sylvia Franklin e Robert Sheldon Harte – todos os quais foram subsequentemente provados como agentes da GPU infiltrados no movimento trotskista (e também do FBI, no caso de Hansen). Seu próprio relato de ter participado ativamente, de 1974 a 1977, na Ligue Révolutionnaire des Travailleurs – a própria seção de Ernest Mandel – nos parece, longe de contradizer nossa caracterização, confirmá-la. Esses foram exatamente os anos em que a oposição pablista ao CIQI atingiu seu ponto mais virulento.
Dito isso, não buscamos implicá-lo pessoalmente nesses ataques ao CIQI. Essa oposição à investigação sobre a infiltração stalinista no movimento trotskista, contudo, não foi um episódio isolado. Ela decorria da orientação, presente em toda a história do pablismo, de acomodação e reabilitação da burocracia soviética, à qual a exposição de seu papel como agência do imperialismo dentro do movimento operário mundial representava uma ameaça direta. Essa orientação encontraria seu desfecho lógico na capitulação completa de Mandel e de sua fração, à frente do Secretariado Unificado, a Gorbachev. Enquanto o CIQI denunciava as reformas de Gorbachev como os preparativos da burocracia stalinista para liquidar o Estado operário soviético, Mandel escreveu que “seria absurdo atribuir a ele e à sua equipe o desejo de restaurar o capitalismo na URSS”, que “nas atuais circunstâncias, seria irresponsável defender o enfraquecimento de Gorbachev”, e que “esse absolutismo esclarecido... continua sendo a única alternativa a uma sinistra ditadura”.
Na biografia política que você apresenta, você fala de passagem sobre sua recente militância no PCB, motivada pelo convite de “comunistas veteranos”. Em seu livro de 2020, Domenico Losurdo, um farsante na terra dos papagaios: ensaios sobre o Estalinismo e Neo-Estalinismo no Brasil, você narrou esse mesmo episódio em termos diferentes:
Em novembro de 2017, minha companheira e eu integramos, por oito meses, a Célula Internacionalista do PCB RS (...) Nossa incorporação deveu-se à avaliação das então possibilidades e oportunidades do PCB, partido pelo qual tivemos e temos grande simpatia, após sua decisão de abraçar o programa socialista. (...) Em junho de 2019, deixamos a Célula Internacionalista, e nossos queridos camaradas, com os quais seguimos mantendo contato. As razões foram múltiplas e simples: a inocuidade de militância em uma regional dominada por jovens “identitários”, picados de um eleitoralismo desenfreado e sobretudo pouco afeitos à discussão, sem termos praticamente nenhum contato com os órgãos partidários nacionais.
Aqui você declara sua “grande simpatia” pelo PCB – que você mesmo reconhece, no mesmo livro, estar infestado de fervorosos apologistas de Stalin – e atribui sua saída a uma conjunção de “razões simples”, inteiramente alheias a questões históricas e políticas fundamentais. As denúncias que você faz dos crimes do stalinismo e de seus apologistas contemporâneos – às quais não somos indiferentes – não alteram sua orientação básica em relação ao partido histórico do stalinismo brasileiro. Essa relativização da divisão histórica definitiva entre o trotskismo – a única continuidade genuína do marxismo revolucionário – e o stalinismo contrarrevolucionário está objetivamente inserida na tradição do pablismo, quer você o reconheça ou não.
A luta contra o Projeto 1619 e o racialismo
Chegamos agora às questões históricas que deram origem a este debate. Você escreve que ficou surpreso com nossa “repreensão professoral” – isto é, com nossa observação de que você ignorou o material que publicamos em defesa da Revolução Americana de 1776. Você explica que cada um busca, nas publicações que lê, aquilo que lhe interessa, e que o que lhe interessa no WSWS é sua cobertura das lutas dos trabalhadores americanos.
Mas você não nos escreveu para elogiar nossa cobertura da luta de classes nos Estados Unidos. Você escreveu para se opor à nossa suposta “insistência em caracterizar o movimento de independência dos EUA como algo mais do que uma revolução burguesa-nacional inacabada”. Uma crítica desse tipo não pode ser feita ignorando aquilo que se critica. Nossa exigência não foi pedantismo: foi apenas que você se debruçasse sobre o conjunto de textos em que nossa posição foi elaborada. Sua réplica procede, mais uma vez, como se esse trabalho não existisse.
A demonstração mais clara disso é o seu tratamento do Projeto 1619, que você descarta como “um projeto com o qual não tenho nenhuma familiaridade”. A luta contra o Projeto 1619 não é um tema incidental de nossos escritos sobre 1776; é o contexto político no qual eles foram realizados. Não lhe caracterizamos como “um apologista do ‘liberalismo americano’ e da ‘propaganda de guerra imperialista’”. O que afirmamos foi uma convergência entre sua posição e a do New York Times, e sua réplica só reforça essa avaliação.
Você escreve que “a independência dos EUA livrou o Sul escravista da pressão crescente exercida pela Inglaterra – a partir do início do século XIX – para pôr fim ao tráfico transatlântico de escravos”. Isso é precisamente o que Nikole Hannah-Jones afirmou no ensaio de abertura do Projeto 1619, ao sustentar que a Revolução de 1776 foi, em essência, uma contrarrevolução em defesa da escravidão. Essa afirmação foi exposta como uma fraude. O WSWS conduziu uma campanha sistemática contra ela, em colaboração com os principais historiadores do período, o que forçou o Times a alterar a passagem sem reconhecer o motivo.
Sua conclusão política é, igualmente, a mesma do Projeto: a de que os descendentes dos escravizados e dos despossuídos “nada têm a celebrar em relação a 1776” e devem se libertar das “fantasmagorias patrióticas”. E quando você explica os 184 anos seguintes invocando “dezenas de milhares de linchamentos” que foram, “em grande parte, perpetrados por trabalhadores brancos”, você adota sua categoria central – uma identidade branca supra-histórica cujo atributo definidor é o racismo, na qual a classe trabalhadora americana é dissolvida. A falsidade histórica da atribuição da violência racista aos “trabalhadores brancos” foi exaustivamente exposta em nossa resposta ao Projeto 1619, que, mais uma vez, o convidamos a ler.
Sobre o caráter revolucionário de 1776
Isso nos leva ao cerne da questão. Em sua primeira carta, você havia chamado a independência americana de “uma revolução burguesa-nacional inacabada”. Em sua réplica, essa formulação desapareceu silenciosamente, restando apenas isto: “Não faz sentido encobrir o caráter social restritivo e não revolucionário de 1776 enquadrando a Guerra Civil – ocorrida 84 anos depois – como uma ‘Segunda Revolução Americana’”.
Esteja você ciente ou não, esse ataque não é dirigido apenas contra o WSWS. É dirigido contra uma interpretação da Revolução Americana que remonta ao próprio Marx. Em 1864, em nome da Associação Internacional dos Trabalhadores, ele escreveu que “assim como a Guerra de Independência americana inaugurou uma nova era de ascensão para a classe média, a Guerra Contra a Escravidão americana o fará para as classes trabalhadoras”.
O caráter revolucionário de 1776 também foi poderosamente evocado por Lenin. Em agosto de 1918, quando a república soviética lutava por sua existência contra os exércitos combinados da reação czarista e das potências imperialistas, Lenin dirigiu-se aos trabalhadores dos Estados Unidos:
A história da América moderna e civilizada começou com uma daquelas grandes guerras verdadeiramente libertadoras, verdadeiramente revolucionárias, das quais houve tão poucas... Foi a guerra que o povo americano travou contra os ladrões britânicos que oprimiam a América e a mantinham sob escravidão colonial.
Lenin não contrapôs essa tradição à luta contra o imperialismo americano. Ele apelou à primeira para armar a segunda. Convocando os trabalhadores americanos a se unirem à “guerra civil contra a burguesia”, ele continuou:
O povo americano possui uma tradição revolucionária que foi adotada pelos melhores representantes do proletariado americano, os quais expressaram repetidamente sua completa solidariedade conosco, os bolcheviques. Essa tradição é a guerra de libertação contra os britânicos no século XVIII e a Guerra Civil no século XIX.
O movimento trotskista deu continuidade a essa tradição. James P. Cannon, fundador do movimento trotskista americano, escreveu em 1951, em “De Karl Marx ao Quatro de Julho”, que o movimento revolucionário dos trabalhadores é “o herdeiro legítimo dos homens de 1776”, e elaborou aquela formulação que você considera desprovida de sentido: os homens de 1776 asseguraram a independência da nação; a Guerra Civil, a “Segunda Revolução Americana”, destruiu a escravidão e unificou o país; a Terceira Revolução Americana deve tirar a indústria das mãos de “uma casta parasitária”.
Você escreve que “por mais que doa aos nacionalistas americanos, não podemos esquecer que o partido Patriota venceu com o apoio da França monarquista e absolutista”. Lenin respondeu a essa calúnia, significativamente, enquanto traçava um paralelo em defesa do acordo Brest-Litovsk contra aqueles que acusavam os bolcheviques de colaborar com o imperialismo alemão:
O povo americano recorreu a essas táticas muito tempo atrás, em benefício de sua revolução. Quando travaram sua grande guerra de libertação contra os opressores britânicos, tinham também contra si os opressores franceses e espanhóis, que possuíam parte do que é hoje os Estados Unidos da América do Norte. Em sua árdua guerra pela liberdade, o povo americano também firmou “acordos” com alguns opressores contra outros, com o propósito de enfraquecer os opressores e fortalecer aqueles que lutavam de maneira revolucionária contra a opressão...
Sua réplica retorna mais de uma vez ao que parecem ser insinuações de que somos “nacionalistas americanos”, de que cometemos “deslizes jingoístas” etc. Nada disso vem acompanhado de análise política. Você estende essas acusações também aos escritos de Marx, Lenin e Cannon?
Falando em meu próprio nome – como trotskista brasileiro e membro do Grupo Socialista pela Igualdade (GSI) –, devo dizer que me senti particularmente incomodado com sua observação de que “pode surpreender Tom Mackaman que esse evento tenha despertado pouco interesse no Brasil” – segundo você, “compreensivelmente”. Nisso, e em sua afirmação de que a Revolução Americana é “um tema bastante distante de minhas preocupações atuais”, não posso deixar de detectar um tipo de “antiamericanismo” que há muito circula na América Latina como um falso substituto ao anti-imperialismo genuíno. Sua função tem sido promover diversas formas de nacionalismo pequeno-burguês – do castrismo ao chavismo – hoje expostas como completamente apodrecidas. Essa política representa a armadilha mais mortal para a classe trabalhadora brasileira e latino-americana: ela acorrenta os trabalhadores às falidas burguesias nacionais e os impede de travar uma luta real contra o imperialismo americano – luta que depende da construção de uma colaboração invencível com os trabalhadores dos Estados Unidos.
A Conjuração Baiana de 1798
Sua réplica contém uma série de erros factuais elementares sobre a história dos Estados Unidos, resultado previsível de escrever sobre uma história que, segundo você mesmo, pouco lhe interessa. Mas seu erro mais grave diz respeito à história brasileira, contido justamente numa passagem escrita para nos ridicularizar. Você escreve:
Meus críticos entregam-se a fantasias a respeito da Conjuração Baiana de 1789, afirmando que foi obra de “artesãos, soldados e homens livres de cor inspirados pela Revolução Haitiana” – evento que só eclodiria em 1791, dois anos depois do movimento baiano!
A Conjuração Baiana ocorreu em 1798, como nosso artigo havia corretamente afirmado. Ela se deu sete anos depois da eclosão da revolução escrava em Saint-Domingue, a ilha que se tornaria conhecida como Haiti – não dois anos antes.
A influência do levante haitiano sobre os processos políticos em curso na Bahia ao final da década de 1790 – influência que foi também econômica, já que a interrupção da produção açucareira na ilha antilhana impulsionou um ressurgimento da economia açucareira baiana com profundas e explosivas implicações sociais – é um fato historiográfico sólido. Como escreve Patrícia Valim, especialista na Conjuração Baiana:
Além das notícias sobre a Revolução Francesa e a Independência das Treze Colônias, cabe lembrar que, no ano de 1798 a revolta dos escravos da colônia francesa de São Domingos estava em curso, fazendo com que as autoridades ficassem sobressaltadas. (...) Considerando que a oralidade era o modo pelo qual as pessoas tinham ciência do que ocorria no mundo, não parece exagerado sugerir que os cativos interpretaram as notícias, conferindo significados próprios e instrumentalizando, em alguma medida, ideias libertárias que circulavam.[1]
Reduzir a Conjuração Baiana – ou Revolta dos Alfaiates, como é mais conhecida – a nada mais que uma “conspiração das classes dominantes baianas” que “jamais propôs a abolição da escravidão” é uma falsificação histórica.
Em História da Sedição Intentada na Bahia em 1798, o estudo mais paradigmático sobre o tema, Luís Henrique Dias Tavares situa o início das discussões conspiratórias em 1793-94, “entre um pequeno grupo de 'homens de consideração', brasileiros que repudiavam a exploração colonial e sentiam atração pela França das ideias democrático-burguesas”. Essas ideias, no entanto, teriam uma disseminação genuína entre as camadas populares de Salvador, então uma cidade de 60 mil habitantes que atravessava uma polarização social crescente: a expansão agroexportadora, que enriquecia os grandes proprietários de terras e comerciantes, havia elevado dramaticamente os preços dos alimentos e itens básicos. Nesse contexto, escreve Tavares, “homens livres, mas socialmente discriminados, mulatos, soldados, artesãos, ex-escravos e descendentes de escravos conceberam a ideia de uma república que garantisse igualdade. São eles que estão falando em levante em 1798”.
Na manhã de 12 de agosto de 1798, Salvador amanheceu com 11 boletins manuscritos afixados em diferentes pontos da cidade, convocando o povo baiano à revolução. Passados mais de dois séculos, o conteúdo revolucionário desses documentos ainda reverbera poderosamente no presente. Um dos boletins, confiscado pela polícia, dizia:
Homens, o tempo é chegado para a vossa ressurreição, sim para ressussitareis do abismo da escravidão, para levantareis a Sagrada Bandeira da Liberdade. A liberdade consiste no estado feliz, no estado livre do abatimento: a liberdade é a doçura da vida, o descanso do homem com igual paralelo de uns para outros, finalmente a Liberdade é o repouso, e bem aventurança do mundo. A França está cada vez mais exaltada, a Alemanha já lhe dobrou o joelho, Castela só aspira a sua aliança, Roma já vive anexa, o Pontífice já está abandonado, e desterrado: o rei da Prússia está preso pelo seu próprio povo: as nações do mundo todas tem seus olhos fixos na França, a liberdade é agradável para todos: é tempo povo, povo o tempo é chegado para vós defenderes a vossa Liberdade o dia da nossa revolução, da nossa Liberdade e da nossa felicidade está para chegar, animai-vos, que sereis felizes para sempre.
Uma reunião realizada em 25 de agosto para planejar um levante armado foi delatada às autoridades, desencadeando uma onda de prisões que levou ao indiciamento de 33 pessoas. Entre elas estavam “11 escravos, cinco alfaiates, seis soldados da tropa paga, três oficiais militares, um negociante, dois ourives, um bordador, um pedreiro, um cirurgião, um carapina e um professor”.[2] Quatro homens, todos filhos ou netos de escravos, foram condenados à morte por liderarem uma conspiração contra a Coroa portuguesa: Luís Gonzaga das Virgens e Veiga, soldado; Lucas Dantas de Amorim Torres, soldado e marceneiro; João de Deus do Nascimento, mestre alfaiate; e Manuel Faustino dos Santos Lira, aprendiz de alfaiate. Foram enforcados, e suas cabeças e membros decepados foram expostos em pontos estratégicos da cidade a título de exemplo.
A história do movimento revolucionário baiano é reconstruída a partir dos fragmentos que se preservaram, sobretudo os registros do processo criminal. Eles indicam que Manuel Faustino desempenhou o papel mais ativo na mobilização dos escravos para o levante, e revelam seus métodos. Um dos escravos interrogados, Inácio Pires, declarou que o aprendiz de alfaiate o havia convidado para “um levante” destinado a estabelecer “um governo de Igualdade, ficando extinto o cativeiro”. No confronto entre os dois, o próprio Faustino confirmou o convite para “um levante” destinado a estabelecer um governo de “igualdade e liberdade para todos os escravos”.[3]
Não sou historiador, e não abordo este tema como especialista. Pelo contrário: o WSWS está ansioso para colaborar e dialogar com historiadores que investigam este e outros episódios extraordinariamente significativos da história brasileira. O que é mais preocupante em seu tratamento pouco cuidadoso da Conjuração Baiana – assim como da Revolução Americana – é que ele engendra desprezo por esse passado revolucionário.
O que move o CIQI a travar uma luta intransigente em defesa da tradição revolucionária da Primeira e da Segunda Revolução Americana é a compreensão de que o esforço da burguesia para liquidar essa história – para apresentá-la como uma “fantasmagoria” melhor esquecida – é um componente essencial de sua estratégia contrarrevolucionária: desorientar a classe trabalhadora e deslegitimar antecipadamente a revolução socialista que se aproxima.
Fraternalmente,
Tomas Castanheira
Nota e referências
[1] Valim também sustenta que a relação entre os dois episódios foi posteriormente exsagerada em sentido pejorativo pela historiografia do século XIX, tendo o historiador Francisco Adolfo de Varnhagen caracterizado a revolta baiana como uma “Conspiração Socialista, um arremedo da Revolução em São Domingo protagonizado por homens de ‘ínfima qualidade’”. VALIM, Patrícia. Corporação dos enteados: tensão, contestação e negociação política na Conjuração Baiana de 1798. FFLCH-USP. São Paulo, 2012.
[2] TAVARES, Luís Henrique Dias. História da Sedição Intentada na Bahia em 1798. Salvador: EDUFBA, 2016.
[3] TAVARES, Luís Henrique Dias. Da Sedição de 1798 à Revolta de 1824 na Bahia: estudos. Salvador/São Paulo: EDUFBA/Editora UNESP, 2003.
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O caráter não revolucionário da independência dos EUA
Mário Maestri
Respondo à longa réplica – de autoria do historiador Tom Mackaman e de Tomas Castanheira (WSWS, 24 de agosto de 2026) – ao meu breve questionamento sobre o caráter revolucionário da independência dos EUA em 1776. Antes de esclarecer minha posição, ofereço algumas breves considerações sobre o “método de discussão” necessário para um debate construtivo e exponho, em estilo telegráfico, meu entendimento sobre “revolução” na história.
1. Por uma discussão saudável
As oito linhas iniciais da resposta a mim dirigida – a respeito de meu passado como militante marxista revolucionário ao longo dos últimos 60 anos – vieram como surpresa. Essa nanobiografia, um amontoado de siglas, é fantasiosa, grotesca e hilária. Prefiro crer que não foi incluída para me desacreditar antes mesmo que meus argumentos fossem discutidos, mas sim escrita às pressas e de forma descuidada.
Rotular-me de “morenista” e “pablista” deve ter feito meus amigos políticos – e também os que não são meus amigos – rolar de rir. Vejo-me, portanto, obrigado a escrever uma descrição de minha atividade marxista revolucionária desde 1967 – passando pelo Brasil, pelo Chile e pela Bélgica –, que anexo a esta réplica.[1]
Surpreendeu-me também a repreensão professoral por eu me afirmar leitor regular do WSWS enquanto supostamente deixava de ler os diversos artigos da publicação que defendem 1776 como revolução. Buscamos, nas diversas publicações que lemos, a informação que nos interessa. No excelente WSWS, acompanho sobretudo a excelente cobertura das lutas dos trabalhadores nos EUA.
A chegada tardia dos EUA ao Brasil
A independência dos EUA em 1776 é um tema bastante distante de minhas preocupações atuais. Pode surpreender Tom Mackaman que esse evento tenha despertado pouco interesse no Brasil, onde é celebrado principalmente pelos consulados dos EUA em estilo trumpista.
Essa falta de interesse é compreensível. Ao contrário do que sugerem certos deslizes jingoístas nos textos de meus críticos, os Estados Unidos exerceram pouca influência sobre a história e a política brasileiras até o início do século XX. Após a independência em 1822, foram a Inglaterra – sobretudo quanto à economia e à diplomacia – e a França – quanto à cultura – que exerceram enorme influência sobre o Brasil. O inglês americano só começou a ser ensinado em escolas particulares e cursos de idiomas nos anos 1960.
Por negar o caráter revolucionário da independência americana de uma perspectiva marxista, sou também acusado de essencialmente adotar a postura do “Projeto 1619” do New York Times – um projeto com o qual não tenho nenhuma familiaridade. Assim, além de “morenista” e “pablista”, sou supostamente um apologista do “liberalismo americano” e da “propaganda de guerra imperialista”.
Sou também acusado de “depreciar” a “Revolução Americana” por ter afirmado – e continuar afirmando – que ela “não destruiu a ordem escravista”, não trouxe “nenhuma transformação de classe” e não alterou as “relações internas de exploração”, transferindo essencialmente o poder político para “‘capitalistas e senhores de escravos’“. No entanto, não “deprecio” 1776 nem qualquer outro evento histórico, pois julgamentos morais são alheios ao materialismo histórico.
2. Sobre a revolução na história
Na epistemologia marxista, quando a expansão das forças produtivas é obstruída pelas relações sociais de produção, a ação das classes ascendentes desencadeia uma crise revolucionária; em caso de êxito, essa crise dá lugar a novas relações de produção e a novas instituições políticas, ideológicas e culturais. Segundo o marxismo, esse movimento revolucionário é essencialmente determinado na esfera da produção.
Trata-se de uma realidade inerente a todos os modos de produção classistas da humanidade, moldada por seus determinantes tanto gerais quanto específicos. A transição da produção escravista clássica ao feudalismo – um processo de séculos – foi impulsionada pelas lutas dos escravizados, abrindo caminho para o surgimento da produção feudal.
As transições do feudalismo ao capitalismo, e deste ao socialismo, ocorreram de forma mais rápida, mas ainda assim foram impulsionadas pelas classes exploradas. Como vimos, essas transições revolucionárias foram predominantemente determinadas pela esfera da produção – isto é, no nível da infraestrutura (forças produtivas, relações de produção etc.) –, e não no nível da superestrutura (cultura, ideologia etc.), como meus críticos frequentemente parecem sugerir.
3. 1776: avanços históricos não revolucionários
Impulsionada pelas classes exploradas, a história não avança apenas por meio de saltos revolucionários. A social-democracia europeia obteve enormes conquistas – decorrentes das lutas dos trabalhadores e da sombra da Revolução de 1917 – sem que isso decorresse de uma revolução social. O mesmo ocorreu em 1776, no que viria a ser os Estados Unidos, e mesmo – em menor medida – em 1822, com a independência do Brasil; foram movimentos não revolucionários.
Aqueles que contestam minhas visões apontam múltiplos avanços resultantes da independência dos EUA: a abolição da primogenitura e da posse hereditária de cargos públicos; a eliminação das terras da coroa; a remoção de vestígios de direitos de propriedade aristocrático-feudais; e assim por diante. Eram consequências e remanescentes da ordem colonial e real britânica. De uma metrópole que havia passado por sua revolução burguesa em 1642, mas que permitia a sobrevivência subordinada da velha ordem aristocrática.
Concordo com a proposição de que a ruptura com a metrópole abriu caminho para o “rápido desenvolvimento das relações capitalistas” – relações que já existiam e já eram dominantes nas colônias do Norte, em vez de emergirem da independência política. De fato, 1776 também facilitou o desenvolvimento e a consolidação da produção escravista sulista.
A independência dos EUA livrou o Sul escravista da pressão crescente exercida pela Inglaterra – a partir do início do século XIX – para pôr fim ao tráfico transatlântico de escravos, movimento impulsionado pelo interesse britânico em matérias-primas africanas e pela penetração no continente africano. Sob a proteção da bandeira dos EUA, os navios continuaram a cruzar o Atlântico, financiados principalmente por capitalistas de Nova York e Rhode Island.
Constituições escravistas
Com a Independência em 1776, as constituições dos estados norte-americanos e da própria nação não refletiam “demandas de soberania popular” – a menos que se defina “o povo”, como era comum à época, simplesmente como os homens livres proprietários.
Só na década de 1850 – mais de setenta anos após a Guerra de Independência – as restrições ao voto baseadas em propriedade foram plenamente abolidas nos EUA... para os homens livres. Os nativos americanos só obtiveram formalmente o direito ao voto em 1920, cerca de 140 anos depois de 1776.
Mesmo depois de 1865, uma característica definidora dos EUA – no Norte, no Leste e no Sul – era a severa discriminação racial, com profundas consequências econômicas; algo bem distante da alegação progressista de que 1776 teria desencadeado uma “cultura democrática de massas”. A menos, é claro, que consideremos “democracia” no sentido ateniense do termo – com o direito ao voto reservado exclusivamente aos cidadãos livres de nascimento!
Além disso, a alegada “cultura democrática de massas” supostamente emergida da Independência não transformou “a escravidão em uma questão política pela primeira vez na história moderna”, como se afirmou. Transcorreram nada menos que 84 anos entre 1776 e a Guerra Civil sem que jamais se adotasse um programa claro!
Uma república sem democracia
E, ao longo desses mais de 80 anos, o legislativo dos EUA jamais debateu verdadeiramente a abolição da escravidão. Foram necessários nada menos que 184 anos – e dezenas de milhares de linchamentos – para que se aprovasse uma lei federal abrangente de direitos civis para a população afrodescendente! Linchamentos que foram, em grande parte, perpetrados por trabalhadores brancos.
Em 1776, nas colônias do Norte e do Centro, o modo de produção dominante era o mercantil-capitalista – manufatura, comércio marítimo, agricultura camponesa etc. –, apoiado principalmente no trabalho livre. No Sul, prevalecia o modo de produção escravista colonial, baseado no trabalho escravizado e sustentado pela população branca, que constituía a maioria.
Com a Independência em 1776, essas relações de produção dominantes não sofreram mudanças fundamentais. As antigas colônias romperam sua dependência da metrópole sem completar sua “revolução burguesa” por meio da abolição da escravidão – processo espelhado em muitas outras nações do chamado Novo Mundo. Tampouco realizaram uma revolução democrática enraizada nas massas.
Independência sem o apoio dos explorados
A chamada Revolução Americana carecia do alegado “caráter de massas”. Foi um movimento liderado por grandes, médios e pequenos proprietários. Os povos nativos – ainda numerosos à época – viram a situação com clareza e optaram por lutar majoritariamente ao lado dos britânicos. O mesmo vale para milhares de trabalhadores escravizados, que depositaram suas esperanças na promessa de liberdade para aqueles que lutassem por Jorge III.
Por mais que doa aos nacionalistas dos EUA, não podemos esquecer que o partido Patriota venceu com o apoio da França monarquista e absolutista, que enviou vastos recursos – armamento, tropas, navios de guerra e mais. Muitos historiadores sugerem que a revolta bem poderia ter sido derrotada sem o apoio francês.
A abolição da escravidão nos estados do Norte foi impulsionada pelo caráter anacrônico dessa relação de exploração em sociedades cada vez mais dominadas pela produção capitalista. Ainda assim, isso não garantiu direitos efetivos de cidadania aos antigos escravizados; mesmo legalmente, permaneceram cidadãos de segunda classe. Em Nova York, os homens negros livres só obtiveram formalmente o direito ao voto em 1870.
Não faz sentido encobrir o caráter social restritivo e não revolucionário de 1776 enquadrando a Guerra Civil – ocorrida 84 anos depois – como uma “Segunda Revolução Americana”. Seria como buscar as raízes da Revolução Russa de 1917 em 1833, ou as da Revolução Francesa de 1789 em 1705, durante o reinado de Luís XIV.
O fim da escravidão
Este não é o lugar para discutir a natureza da Guerra Civil, a abolição da escravidão e a expansão das relações mercantis capitalistas ao Sul – acompanhadas pela persistência de uma dominação semisservil por meio do Apartheid, tudo isso enquanto as classes dominantes do Norte permaneciam em silêncio.
É um tema complexo, que envolve a coexistência complementar de dois modos de produção dominantes – o sistema mercantil escravista no Sul e o sistema mercantil capitalista no Norte –, junto com suas respectivas formações sociais dentro de um único Estado, até que sua coexistência objetiva se tornasse impossível.
Vale lembrar, no entanto, que a guerra foi iniciada pelos estados escravistas e que Lincoln fez tudo o que estava ao seu alcance para mantê-los na União; ademais, a escravidão foi abolida em 1º de janeiro de 1863 apenas nos estados confederados. Por dois anos, os afro-americanos permaneceram legalmente escravizados nos estados da União. Foi somente com o fim da guerra – especificamente em 31 de janeiro de 1865 – que se decretou o fim do cativeiro nos EUA.
Nossa história e a deles
Uma gênese revolucionária, democrática e popular para a independência dos EUA seria uma dádiva para a esquerda americana, servindo como poderoso contraponto à narrativa elitista em torno dos Pais Fundadores – que foram, em sua maioria, grandes senhores de escravos. Thomas Jefferson, autor da Declaração de Independência, manteve cerca de 600 pessoas em cativeiro ao longo da vida. George Washington, primeiro presidente dos EUA, possuía mais de 300 escravizados à época de sua morte. E assim por diante.
O pior caminho para a esquerda revolucionária é reconstruir o passado segundo seus próprios desejos, obliterando assim a realidade histórica. Pior ainda é acreditar nas próprias fantasias. O passado – tal como de fato ocorreu, e não como se gostaria que tivesse ocorrido – é o melhor instrumento para compreender o presente e transformá-lo pela revolução.
De “classe em si” a “classe para si”
O caráter elitista, limitado e conservador de 1776 significa que a independência dos EUA não constituiu uma genuína revolução popular-democrática ou burguesa. Foi um movimento liderado por uma aliança de classes dominantes mercantil-capitalistas.
Os atuais descendentes dos trabalhadores escravizados, dos nativos americanos, dos trabalhadores manuais sem propriedade (tanto rurais quanto urbanos) e dos servos contratados nada têm a celebrar em relação a 1776; pelo contrário, devem superar as fantasmagorias patrióticas – seja da direita, seja da esquerda, por mais bem-intencionadas que sejam – que envolvem aqueles eventos.
O fracasso em alcançar uma revolução popular-democrática em 1776 pesou fortemente sobre o futuro dos Estados Unidos, contribuindo para o caráter restrito de sua democracia e para a árdua transição – ainda em curso – de sua poderosa classe trabalhadora de “classe em si” a “classe para si”.
4. Sobre a independência do Brasil
Na parte final do artigo, meus detratores tratam da independência do Brasil – tema que abordo apenas brevemente. Seu argumento se apoia em uma leitura do passado centrada em grandes figuras nacionais – Dom João, Pedro I, José Bonifácio e assim por diante –, repetindo os tropos patrióticos da historiografia positivista tradicional e ignorando os avanços feitos pelas interpretações marxistas.
Os movimentos de independência nos EUA e no Brasil asseguraram o controle do Estado para suas respectivas classes dominantes. A grande diferença está no fato de que as colônias inglesas do norte eram dominadas pela produção mercantil-capitalista, e as do sul pela escravidão colonial; enquanto isso, o Brasil – que já havia transcendido o status colonial em 1808, quando o Rio de Janeiro se tornou a capital do Império Português – era dominado exclusivamente pelo modo de produção escravista colonial.
Desde o período colonial, o Brasil estivera organizado em capitanias – e depois províncias – que importavam pessoas escravizadas da África e bens manufaturados da Europa, ao mesmo tempo em que exportavam produtos primários para a Europa, tudo isso sem vínculos inter-regionais ou um mercado interno unificado. No início do século XIX, o Rio de Janeiro havia substituído Lisboa como capital do Império e como eixo das economias regionais.
O grande problema
Apesar de poderosas forças centrífugas provinciais, o Brasil emergiu da independência como um Estado unitário sem nação, devido à preocupação das classes dominantes hegemônicas em manter a produção escravista e a população escravizada em submissão.
Mesmo antes da crise colonial, facções das classes dominantes haviam lançado movimentos pela independência de suas regiões específicas – indiferentes às demais –, como em São Paulo (1641), no Maranhão (1684), em Minas Gerais (1707), em Pernambuco (1710–1711) e novamente em Minas Gerais (1789). As facções da classe dominante portuguesa que se transferiram para o Rio de Janeiro com a família real em 1808 não pretendiam retornar a Portugal; ao contrário, pretendiam ali estabelecer a sede de um novo império português, temendo os próprios movimentos de independência que surgiam no que era então a principal fonte de riqueza de Portugal.
O Brasil, filho da escravidão
Não foram Dom João, Dom Pedro, José Bonifácio, nem – muito menos – “correntes revolucionárias atraídas pelos princípios da Revolução Americana” que impulsionaram a independência unificada do Brasil; ao contrário, esse movimento foi contrário aos interesses das classes dominantes provinciais, que sonhavam com a independência plena de suas próprias regiões.
O caráter unitário do Estado brasileiro não foi impulsionado, em medida significativa – como ocorreu nos EUA –, pelo temor de retaliação britânica. Portugal carecia de força para reter ou reconquistar suas antigas possessões. De fato, logo procurou manter controle apenas sobre a Bahia e o Norte.
A principal preocupação era que um conflito interprovincial por fronteiras ameaçasse a ordem escravista, e que pequenas nações brasileiras fossem incapazes de resistir à pressão britânica para pôr fim ao tráfico de escravos. As classes dominantes das principais províncias escravistas – Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Pernambuco – impuseram às forças federalistas e separatistas das províncias periféricas uma independência centrada no herdeiro do trono; esse arranjo oferecia diversas vantagens, embora listá-las todas alongasse indevidamente esta réplica.
Independência conservadora
Ao entronizar o herdeiro da coroa metropolitana, a independência do Brasil tornou-se a mais conservadora das Américas. Ainda assim, assegurou tanto o poder das classes escravistas hegemônicas quanto a independência política do país. O “Estado brasileiro” não foi uma continuação da “estrutura absolutista do império português”. Nem poderia ter sido.
No Brasil, a ordem escravista reinava suprema. Em Portugal, a liberdade individual prevalecia havia mais de mil anos, desde a abolição da servidão por volta do ano 1000. Por baixo da superfície, modos de produção diversos dão origem a formas diversas de dominação.
No plano organizacional, a monarquia brasileira rejeitou a aristocracia hereditária e o governo absolutista; colocou o poder militar nas mãos da Guarda Nacional – de estrutura provincial – e manteve uma ordem liberal-escravista ao longo do Segundo Reinado, entre outras características. Como nos EUA, a independência não resultou da intervenção das classes subalternas e exploradas – grupos que haviam desempenhado papel limitado nas disputas políticas passadas do Brasil, devido ao próprio peso demográfico da população escravizada.
Uma conspiração das classes dominantes
Membros das elites mencionadas, envolvidos na conspiração, recuaram quando o movimento se intensificou. Dado o clima internacional turbulento da época, permaneceram impunes. Apesar de ser o movimento de base popular mais ampla, jamais propôs a abolição da escravidão – assim como outras conspirações semelhantes.
Meus detratores argumentam que “nenhum desses movimentos regionais” – sejam nativistas, sejam da época regencial – “foi capaz de transcender seus limites locais e assumir caráter nacional”. Não o fizeram porque foram historicamente impedidos de fazê-lo; como vimos, uma nação ainda não existia. O processo de constituição do Brasil como Estado-nação começou com o início da industrialização na região Centro-Sul do Brasil, no início do século XX, acelerando-se após 1930 e 1937.
Movimentos dissidentes
A independência de 1822, assim como os movimentos liderados por facções regionais dominantes, não contou com a participação de indígenas aculturados, libertos ou trabalhadores escravizados. Sempre que esses setores intervinham em movimentos autonomistas e federalistas regionais, as lideranças liberais separatistas ou federalistas desses movimentos recuavam, temendo o avanço das chamadas “classes infames” – como ocorreu notadamente na Balaiada, no Maranhão e no Piauí, e na Cabanagem, no Pará.
A luta e a resistência das comunidades escravizadas tiveram características próprias – como nos EUA –, incluindo fugas, atos de justiça retributiva, quilombos e insurreições. Após a Abolição e a Proclamação da República, as classes subalternas rurais livres lançaram magníficos movimentos messiânicos enraizados em questões sociais; exemplos notáveis incluem a guerra camponesa de Belo Monte (Canudos), na Bahia, e o conflito do Contestado, em Santa Catarina e no Paraná.
A independência do Brasil e o Primeiro e o Segundo Reinados foram regidos pela preocupação em manter a reprodução e a subjugação da força de trabalho escravizada. Pedro I foi deposto por recusar-se a se submeter às facções escravistas dominantes. Seu filho foi um intérprete disciplinado das necessidades da escravidão e foi enviado ao exílio meses depois do fim da instituição, já tornada totalmente anacrônica.
Os EUA: um farol da escravidão
A vitória da revolta anticolonial de 1776 não despertou sentimentos antiescravistas pelas Américas; pelo contrário. Os liberais conservadores e radicais do Brasil buscaram inspiração na Constituição dos EUA – e não na francesa – justamente porque ela propunha um liberalismo federalista que acomodava a escravidão confortavelmente, sem escrúpulos. Até 1865, os EUA serviram de inspiração e pilar de apoio para os senhores de escravos brasileiros, não como farol de liberdade.
Como nas antigas colônias inglesas da América do Norte, a independência do Brasil em 1822 assegurou ganhos significativos – embora não revolucionários – ao manter, em vez de alterar, as relações de produção. A independência pôs fim ao caráter parasitário do comércio português e fortaleceu os portos brasileiros, sobretudo o do Rio de Janeiro.
A independência reduziu o custo das importações, pôs fim ao privilégio dos portugueses natos quanto aos cargos públicos, manteve no país receitas fiscais que antes eram enviadas a Portugal, e reteve no Rio de Janeiro instituições estatais que antes tinham sede na metrópole.
A Abolição: a única revolução social do Brasil
Após a separação de Portugal, a administração da Igreja foi colocada sob controle do Estado, e o sistema português de concessão de terras (sesmarias) foi abolido, estabelecendo efetivamente um regime de posse da terra que favorecia os grandes proprietários. O sistema de morgado (vínculo de bens) foi abolido após a deposição de Dom Pedro.
A abolição da escravidão no Brasil – a única revolução verdadeira do país – pôs fim à ordem escravista e extinguiu o modo de produção dominante; não foi de forma alguma inspirada ou determinada pelo fim da instituição nos EUA mais de 20 anos antes. O fim da era escravista no Brasil, em 1888, deveu-se, por um lado, à cessação do tráfico de escravos em 1850 sob pressão da Inglaterra; isso levou a uma concentração dos trabalhadores escravizados no centro-sul cafeeiro – em meio a uma população escravizada em declínio –, criando assim áreas do país livres da escravidão. O golpe final na instituição veio com o abandono em massa das plantações de café pelos escravizados – particularmente em São Paulo – no final de 1887 e início de 1888.
Nota
[1] Em 1968, fui membro do minúsculo e efêmero Grupo Trotskista Revolucionário (GTR). Em novembro de 1970, exilei-me no Chile, onde atuei no Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR), opondo-me à mentalidade guerrilheira pró-Fidel da direção (1972–1974). Após uma breve tentativa de resistência militar ao golpe, refugiei-me na Bélgica em 1974; lá, junto com um camarada chileno, fundei a Fração Dissidente do MIR – um grupo trotskista que defendia a centralidade da classe trabalhadora. Operando sob o nome de Izquierda Socialista (Esquerda Socialista), o grupo permaneceu ativo no Chile por muitos anos. Na Bélgica, fui membro da Liga Revolucionária dos Trabalhadores (LRT) – seção do então Secretariado Unificado da Quarta Internacional –, embora discordasse da linha alinhada a Mandel a respeito da América Latina. Ao retornar ao Brasil em novembro de 1977, ingressei na Convergência Socialista, seção do Secretariado Unificado. Opus-me ao revisionismo “morenista” e desempenhei papel de liderança na cisão antimorenista de 1980. A nova organização resultante – já em fragmentação – fundiu-se com a Democracia Socialista; deixei esse grupo em 1982, devido ao viés eleitoralista que este havia adotado. De 1984 a 1988, trabalhei como correspondente internacional para um jornal diário do Sul. De volta ao Brasil, como comunista sem filiação partidária, dediquei-me a promover o marxismo revolucionário na academia e na grande mídia por meio de livros, artigos, palestras e mais. Em 1990, fundei o Grupo de Estudos Marxistas (RS), que se mostrou uma iniciativa duradoura. Em 2004, fui convidado a integrar a primeira direção nacional provisória do PSOL e organizei a fração “1º de Maio” para se opor ao rumo eleitoralista do partido – posição da qual logo me distanciei. Desde 2000, colaboro extensamente com o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), ministrando cursos, escrevendo publicações etc. Em 2018, a convite de comunistas veteranos, minha companheira e eu participamos por oito meses da célula internacionalista do PCB – mantida isolada pela direção regional em meio a um estado de amplo e generalizado desmantelamento.
