Publicado originalmente em inglês em 26 de setembro de 2026
Enquanto os representantes dos Estados capitalistas se reuniam nas Nações Unidas nesta semana para planejar uma escalada da guerra, outra força ganhava expressão: o crescente movimento da classe trabalhadora em todos os continentes.
A 81ª Assembleia Geral foi um festival de militarismo e reação. Donald Trump ameaçou “aniquilar” o Irã, reivindicou o petróleo da Venezuela – “ao vencedor ficam os espólios” – e “controle permanente” sobre a Groenlândia, além de declarar que “o comunismo jamais chegará à América”. Zelensky exigiu a intensificação da guerra contra a Rússia, uma potência nuclear. Dois dias depois, Netanyahu celebrou as guerras e os assassinatos cometidos por Israel em todo o Oriente Médio, denunciou as delegações que deixaram o plenário como “covardes morais” e pediu a derrubada do governo iraniano.
Ao mesmo tempo, a classe trabalhadora – unida internacionalmente pela produção global – começa a se afirmar. Dentro desse movimento, cresce o anseio por unidade para além das fronteiras nacionais.
Neste mês, cerca de 300 caminhoneiros mexicanos bloquearam a passagem comercial entre Mexicali e Calexico, em protesto contra a decisão do governo Trump de revogar mais de 25 mil vistos de caminhoneiros que atuam entre os dois países, aproximadamente um quinto da força de trabalho. O bloqueio se estendeu à passagem entre San Luis Río Colorado e Yuma, no Arizona. A ação foi organizada por meio de um grupo de WhatsApp com mais de mil motoristas. Do outro lado da fronteira, circulam entre caminhoneiros americanos chamados para uma paralisação em 1º de outubro, principalmente devido ao preço do diesel, que já ultrapassa US$ 6,50 por galão.
Em outra parte da América do Norte, os trabalhadores da National Steel Car, em Hamilton, Ontário, no Canadá, entram na sétima semana de uma greve centrada em salários, segurança e em um sistema de remuneração por produção que resultou na morte de três trabalhadores. Membros da unidade de saúde de Saskatchewan, que reúne 14 mil trabalhadores, votaram com 99% de aprovação pela realização de ações trabalhistas, depois de anos sem aumento salarial.
Na United Airlines, técnicos de manutenção nos Estados Unidos rejeitaram na semana passada, por 53,5%, dos votos, um acordo apoiado pelos Teamsters. Mais de 9 mil trabalhadores votaram, na segunda rejeição de um acordo em dois anos. Os músicos da Orquestra de Cleveland entraram em greve na sexta-feira, pela segunda vez na história da orquestra, em protesto contra salários que não acompanharam a inflação. No Brigham and Women’s Hospital, em Boston, 2.986 enfermeiros votaram na quinta-feira pela autorização de uma greve por tempo indeterminado; apenas 215 votaram contra.
Na Argentina, mais de 350 organizações convocaram a “Marcha de la Bronca” de 19 de setembro contra o programa de austeridade do governo Milei. Dezenas de milhares de pessoas ocuparam a Plaza de Mayo enquanto uma missão do Fundo Monetário Internacional (FMI) chegava a Buenos Aires. Entre as reivindicações estavam aumentos salariais e das aposentadorias, proibição de demissões, revogação da reforma trabalhista, suspensão do pagamento da dívida externa e rompimento com o FMI. Os organizadores defenderam uma coordenação “pela base” nos locais de trabalho, escolas, universidades e hospitais e exigiram que as centrais sindicais CGT e CTA convocassem uma greve geral, mas elas se recusaram a apoiar a marcha.
Trabalhadores do transporte no Quênia entraram em greve nesta semana devido aos preços dos combustíveis. Trabalhadores da Hyundai, na Coreia do Sul, se prepararam para uma greve de um dia inteiro. Em 22 de setembro, 15 mil professores estonianos entraram em greve. Protestos contra os preços dos combustíveis se espalharam pela Síria, onde ocorreram as maiores manifestações desde a queda de Assad após um aumento de 40% no preço do diesel. Protestos semelhantes também ocorreram na Guatemala, nas Filipinas e na França.
A guerra concentra todas as condições que alimentam os protestos sociais e a luta de classes. Ela eleva os custos de energia em toda a economia mundial, aumenta as taxas de juros, acelera os ataques aos gastos públicos e exige a reorganização da indústria para a produção militar. Ela expõe, da forma mais aguda, a impossibilidade de resolver as condições enfrentadas pelos trabalhadores dentro das fronteiras nacionais.
A Alemanha está preparando um pacote de quase € 152 bilhões em gastos militares e para a guerra para 2027 – um aumento de 57% em apenas um ano. Isso ocorre enquanto sua indústria automobilística elimina postos de trabalho – 142.500 desde 2018, mais de 42 mil deles nos 12 meses até junho – e o governo promove amplos cortes nos gastos sociais. Nos Estados Unidos, Trump exige um orçamento militar de US$ 1,5 trilhão, enquanto seu governo cancela a cobertura do Affordable Care Act (lei federal de acesso à saúde) para 760 mil pessoas e elimina o auxílio-alimentação para mais de 5 milhões de pessoas.
As próprias guerras são impulsionadas pela disputa por mercados, matérias-primas e cadeias de suprimentos, e pela tentativa de superar uma situação econômica insustentável e montanhas de dívidas impagáveis por meio do confisco e da pilhagem. As mesmas classes dominantes que travam essa disputa no exterior impõem demissões, austeridade e exploração intensificada aos trabalhadores em seus próprios países.
Nesses processos paralelos de guerra imperialista e luta de classes, a burocracia sindical está se colocando ao lado da guerra. Há décadas, ela impõe acordos que prejudicam os trabalhadores e se integra às administrações das empresas e aos partidos capitalistas. Agora, o aparato sindical está diretamente envolvido na mobilização econômica e política para a guerra e busca integrar-se ao Estado capitalista nacional e à sua estratégia militar.
Na semana passada, durante a conferência do Michigan Community Action Program do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Automobilística (UAW), Shawn Fain e Abdul El-Sayed, candidato ao Senado apoiado pelos Socialistas Democráticos da América (DSA), atacaram Trump pela direita, criticando sua afirmação de que montadoras chinesas poderiam construir fábricas nos Estados Unidos em nome dos “empregos americanos” e da “segurança nacional”. Na Alemanha, o IG Metall apoia a conversão de fábricas automobilísticas ameaçadas de fechamento em unidades de produção de armamentos. Seu vice-presidente, Jürgen Kerner, afirmou que a preocupação do sindicato é estar envolvido “desde o início” nessa transição.
A mentira fundamental promovida pela burocracia é que capitalistas e trabalhadores de cada país estão unidos por um interesse “nacional”. Na realidade, a produção integrou os trabalhadores internacionalmente em uma escala sem precedentes, enquanto as organizações que afirmam representá-los ajudam a colocar trabalhadores de um país contra seus irmãos e irmãs de classe de outros países. Aos trabalhadores mexicanos dizem que os trabalhadores americanos são seus concorrentes; aos trabalhadores americanos, que seus empregos dependem de tarifas impostas aos trabalhadores estrangeiros.
As organizações da pseudoesquerda trabalham deliberadamente para desorientar o movimento da classe trabalhadora em direção à esquerda, defendendo o nacionalismo e o Estado capitalista em uma trajetória que as leva cada vez mais a uma aliança com a extrema direita. Bernie Sanders apareceu no mesmo palco que Steve Bannon, ex-assessor de Trump, em 15 de setembro, na “Assembleia Pró-Humana”, sobre inteligência artificial. O prefeito de Nova York, Mamdani, recebeu Trump na Gracie Mansion, residência oficial do prefeito, um dia antes de Trump ameaçar “aniquilar” o Irã na ONU. Mamdani negou ter “incentivado” protestos contra Netanyahu e supervisionou a prisão de mais de 100 manifestantes pela polícia de Nova York durante o discurso do primeiro-ministro israelense.
Mas, enquanto essas forças trabalham para conter a classe trabalhadora, seu poder objetivo, transformado por décadas de produção globalizada, nunca foi maior.
A percepção cada vez maior da necessidade de unidade para além das fronteiras nacionais e de uma organização independente ganhou expressão concreta em 20 de setembro, quando trabalhadores dos Estados Unidos, Canadá, México e Noruega participaram de uma reunião online com Will Lehman, trabalhador da Mack Trucks e candidato à presidência do UAW.
A reunião, intitulada “Pelo poder da base e pela unidade internacional da classe trabalhadora”, foi copatrocinada pela Aliança Operária Internacional de Comitês de Base (AOI-CB) e reuniu representantes de comitês de base da América do Norte e da Europa para discutir uma estratégia global contra demissões, guerra comercial, militarismo e ditadura. Entre os participantes estavam um trabalhador da National Steel Car em greve, um trabalhador da MAN, subsidiária da Volkswagen, na Noruega, um trabalhador da General Motors de Silao, no México, além de trabalhadores do setor automotivo e dos correios nos Estados Unidos.
Uma reunião como essa é a forma inicial e ainda limitada de um movimento cujos fundamentos objetivos são imensos. Em seu relatório de abertura ao 9º Congresso do Partido Socialista pela Igualdade (EUA), David North escreveu que a produção global estendeu “a fábrica ... por todo o planeta”, enquanto “a força de trabalho mundial agora soma cerca de três bilhões e meio de pessoas, a maior força social já reunida na história”.
Ele concluiu: “Uma força social de três bilhões e meio de pessoas, concentrada nas cidades, unida pelo aparato produtivo mais integrado já criado e que, ao mesmo tempo, enfrenta a guerra mundial, a ditadura e o empobrecimento social, não está sendo formada pela história para realizar um protesto. Ela está se formando para realizar a mais profunda transformação social já empreendida: a revolução socialista mundial.”
O Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI) luta para dar a esse movimento uma organização consciente e independente por meio da Aliança Operária Internacional de Comitês de Base. A AOI-CB foi fundada em 2021 para transferir o poder das burocracias para os próprios trabalhadores, conectando comitês de base em diferentes locais de trabalho, setores e países, libertando a classe trabalhadora das amarras do aparato sindical e dos partidos capitalistas. A expressão mais elevada dessa luta é o recrutamento e a formação dos trabalhadores com maior consciência de classe como marxistas nas seções do CIQI.
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