Como parte de um movimento internacional da classe trabalhadora contra as políticas de austeridade e os cortes nos direitos sociais para financiar a repressão doméstica e o militarismo, o Brasil tem assistido nas últimas semanas a uma onda de greves nos setores público e privado.
Essas lutas estão eclodindo em um momento decisivo: na véspera das eleições gerais de 4 de outubro, com o governo Trump escalando a ofensiva imperialista contra a América Latina e intervindo abertamente no processo eleitoral brasileiro em favor do candidato fascista Flávio Bolsonaro.
As greves não são um acidente de calendário. Elas são a expressão do repúdio crescente da classe trabalhadora a todos os representantes do establishment político num dos países mais desiguais do mundo. Isso inclui o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (Partido dos Trabalhadores — PT), que desde 2023 aplica um programa de austeridade, privatização e ataques aos direitos sociais, abrindo o caminho mais uma vez para a ascensão da extrema direita no Brasil.
A amarga experiência tem mostrado que os trabalhadores no Brasil só podem garantir seus direitos levando adiante uma luta independente, nacional e internacionalmente, contra os sindicatos e as centrais sindicais que, mais uma vez, se colocam a serviço da candidatura de Lula e atuam para reprimir essas lutas.
Greves de metalúrgicos na Bahia e em São Paulo
Um caso politicamente revelador da onda de greves está ocorrendo no complexo industrial da BYD, na Bahia. Na sexta-feira, 25 de setembro, os trabalhadores paralisaram as linhas de montagem em uma greve de 24 horas, com os metalúrgicos exigindo um aumento salarial de 9,5%, contra a oferta da empresa de 4,5%.
É significativo que a montadora chinesa de carros elétricos seja um dos troféus da política de “neoindustrialização” do governo Lula, que também inclui um orçamento crescente para a indústria de defesa brasileira.
A greve é apenas a ponta de um iceberg. Em abril, o Ministério do Trabalho incluiu a BYD na “Lista Suja do Trabalho Escravo”, após uma força-tarefa resgatar 163 operários chineses — número depois elevado a 224 — submetidos a jornadas de até 70 horas semanais, com passaportes retidos, vigiados por seguranças armados e alojados em condições insalubres. A empresa obteve liminar para retirar seu nome do cadastro três dias depois, e o então secretário de Inspeção do Trabalho, Luiz Felipe Brandão de Mello, foi exonerado pelo ministro do Trabalho, o ex-burocrata sindical Luiz Marinho. O Sindicato dos Auditores Fiscais do Trabalho denunciou “interferência indevida” para blindar a multinacional parceira do governo.
A atual greve dos metalúrgicos na BYD em Camaçari é uma continuidade direta da efervescência e da luta dos trabalhadores iniciada em dezembro de 2025, quando cerca de 2 mil operários terceirizados da construção civil paralisaram as obras do complexo industrial contra as condições degradantes dos canteiros de obras. Os trabalhadores também denunciaram a postura da diretoria do sindicato dirigido pelo PT por proteger os interesses da montadora e do governo, o que acabou levando à criação de um novo sindicato.
O ano de 2026 tem registrado uma forte mobilização metalúrgica no Vale do Paraíba, em São Paulo, onde o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região, filiado à CSP-Conlutas, a central sindiical dirigida pelo morenista Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), tem um histórico de apoiar o militarismo e espalhar o veneno nacionalista entre os trabalhadores. No início de setembro, os trabalhadores da General Motors (GM) em São José dos Campos aprovaram estado de greve exigindo 3,5% de aumento real contra a recusa inicial da montadora. Antes, a cidade de Jacareí foi palco de uma greve histórica de 38 dias, entre julho e setembro, na Parker Hannifin, uma multinacional americana fabricante de componentes industriais e autopeças.
A burocracia morenista também vem cultivando relações sistemáticas com a burocracia de Shawn Fain, do Sindicato dos Trabalhadores Automotivos (UAW) nos EUA, incluindo uma visita recente à sua sede para realizar “discussões sobre campanhas salariais, os desafios impostos pela transição para veículos elétricos, a reorganização da indústria automotiva e as perspectivas de fortalecimento da solidariedade internacional entre os trabalhadores do setor”. Mas os ataques aos trabalhadores da GM estão se espalhando além das fronteiras — só neste ano, a empresa demitiu 1.200 trabalhadores de sua fábrica em Oshawa, no Canadá, mesmo tendo registrado mais de US$ 12 bilhões em lucros antes dos impostos, e realizou novas demissões em sua fábrica Factory Zero, em Detroit, com o silêncio do UAW. A colaboração entre os dois aparatos não serve para desenvolver a luta unida necessária contra a corporação transnacional, mas para bloquear a unificação internacional dos trabalhadores da GM no Brasil e nos Estados Unidos.
O funcionalismo federal continua sua luta contra o governo Lula
A greve dos funcionários da Caixa Econômica Federal, um dos maiores bancos brasileiros, iniciada em 10 de setembro, é a mais forte da categoria desde a histórica “Greve das 6 horas” de 1985. O impasse central é o plano de saúde: o banco, que lucra R$ 15 bilhões por ano, se recusa a garantir o acesso à saúde de seus próprios funcionários. Apesar de o Tribunal Superior do Trabalho (TST) ter determinado a manutenção de 60% do contingente nas agências sob multa diária de R$ 100 mil aos sindicatos, os trabalhadores têm desafiado essa exigência.
A Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (CONTRAF), filiada à CUT, a central sindical controlada pelo PT, dividiu a luta dos bancários, realizando assembleias separadas dos funcionários da Caixa, do Banco do Brasil (BB) e dos bancos privados, com os trabalhadores criticando a burocracia sindical pela falta de transparência e de democracia. A base dos bancários rejeitou a proposta dos bancos em várias assembleias no final de agosto e no início do mês: no BB, 87 sindicatos rejeitaram o acordo contra apenas 39 que o aceitaram; nos bancos privados, a rejeição superou 30% mesmo com a campanha pesada da CUT pela aceitação.
Nos Correios, a greve nacional iniciada em 11 de setembro teve como ponto central também o ataque ao plano de saúde. Na noite de 15 de setembro, trabalhadores em greve ocuparam o centro logístico de Indaiatuba, de impacto estratégico nas entregas da região.
O desfecho, na sexta-feira da semana passada, expôs o conluio entre o governo Lula e a justiça capitalista na quebra das greves. Os Correios entraram com dissídio coletivo no TST no dia seguinte ao início da greve, solicitando que o movimento fosse declarado abusivo. O TST julgou o dissídio coletivo em 24 de setembro, considerando a greve não abusiva e impondo um reajuste de 4,09%.
Porém, ele alterou a cláusula do plano de saúde: a estatal deixa de ser mantenedora direta e passa a um modelo de subsídio com teto fixo, abrindo caminho para repassar reajustes abusivos ao bolso dos empregados. As próprias direções das centrais sindicais CTB e CUT — a primeira controlada pelo maoista PCdoB — reconheceram esse ponto como a maior derrota do movimento.
A greve dos Correios não pode ser separada do programa de reestruturação privatizante do governo Lula. A estatal acumula prejuízo de R$ 5,6 bilhões no ano e busca novo empréstimo de R$ 7 bilhões junto a um consórcio formado por Citibank, J.P. Morgan e Deutsche Bank. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, declarou não ter “dilema” em discutir “joint ventures” e parcerias com a iniciativa privada para os Correios.
As greves nos Correios e na Caixa acontecem depois de, no primeiro semestre, os funcionários da educação superior terem realizado uma greve de quatro meses cobrando do governo Lula o cumprimento do acordo da greve de 2024. Neste semestre, este movimento não se limita aos Correios e à Caixa: os trabalhadores do INSS estão em estado de greve e alerta permanente e os do IBGE realizam uma greve parcial há mais de um mês.
O papel dos sindicatos nessas lutas já havia sido exposto no final do ano passado, quando os trabalhadores dos Correios e da Petrobras realizaram greves simultâneas em dezembro. As greves foram deliberadamente isoladas, desviadas para o nacionalismo burguês e suprimidas. Assim como a greve da Caixa hoje, as greves nos Correios e na Petrobras do final do ano passado estão entre as maiores dos últimos 30 anos nesses setores, que, se unificadas, poderiam colocar o governo Lula contra a parede e expô-lo pelo que ele é: um governo da burguesia que administra o capitalismo contra a classe trabalhadora.
A educação em luta contra precarização e privatização
As diversas categorias da educação em praticamente todos os estados brasileiros realizaram inúmeras greves e protestos ao longo deste ano lutando por melhores salários, melhores condições de trabalho e estudo e contra programas pró-corporativos e privatizantes da educação.
Agora, os professores da rede estadual de Sergipe estão em greve desde 8 de setembro, ocupando a secretaria de educação e desafiando uma decisão judicial que declarou a greve ilegal com multa diária de R$ 60 mil. O ponto politicamente decisivo: o PT formalizou aliança com o governador direitista Fábio Mitidieri (PSD), chancelada pelo próprio Lula, e apoia oficialmente sua reeleição.
No Rio Grande do Norte, os professores paralisaram em 21 de setembro contra a administração da governadora petista Fátima Bezerra, cobrando o pagamento de férias atrasadas e o retroativo do Piso Salarial Nacional do Magistério.
Em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, os professores da rede privada realizaram uma greve entre 16 e 22 de setembro, com forte mobilização que afetou colégios tradicionais e conquistou amplo apoio de alunos e pais. O impasse central é a tentativa patronal de dividir a Convenção Coletiva de Trabalho entre professores da educação básica e superior, além de os professores lutarem por melhores condições de trabalho e salário.
No Rio de Janeiro, os professores da rede privada também realizaram uma paralisação em 2 de setembro. Depois, os profissionais da rede pública estadual aprovaram estado de greve em meados de setembro. Eles realizaram um ato público na terça-feira, 29 de setembro, e já aprovaram uma paralisação de 24 horas para o dia 7 de outubro, cobrando o cumprimento do Piso Salarial Nacional do Magistério e recomposição salarial.
Essas greves recentes na educação são uma continuidade de um forte movimento, que no primeiro semestre envolveu a luta de professores, estudantes e funcionários da educação básica e superior. O epicentro desse movimento foi São Paulo, o estado mais rico e industrializado do Brasil. Os professores municipais da capital e estaduais realizaram greves em abril e maio contra a privatização da educação, enquanto as universidades estaduais paulistas viveram uma greve massiva ao longo de 54 dias entre abril e junho. Esse movimento continuou em meados de setembro, com funcionários de escolas (ETECs) e faculdades (FATECs) técnicas de São Paulo cruzando os braços em mais de 70 unidades de todo o estado por melhores salários e condições de trabalho.
As centrais sindicais mais uma vez apoiam a candidatura de Lula
Enquanto os trabalhadores estão em luta contra o governo Lula, as centrais sindicais se mobilizam para elegê-lo. Em 20 de agosto, os presidentes das nove centrais sindicais e mais de 500 dirigentes aprovaram o manifesto “Sindicalistas com Lula”. O manifesto afirma que o projeto do governo Lula “coloca o trabalho e a valorização das trabalhadoras e dos trabalhadores no centro da estratégia de desenvolvimento do país” — e promete, entre suas pautas, o “fim da escala 6×1” e a “redução da jornada”.
A hipocrisia é flagrante. As mesmas centrais que prometem em manifesto o fim da escala 6×1 apoiam um governo cuja principal “vitrine” industrial foi flagrada submetendo operários a trabalho análogo à escravidão — e que exonerou o secretário responsável por puni-la. As mesmas centrais que falam em 'valorização do salário mínimo' apoiam um governo que discute “joint ventures” para privatizar os Correios.
Os fatos recentes expõem o caráter de classe do PT sem margem para dúvida. Em 19 de setembro, Lula declarou em Florianópolis que “não é marxista, não é comunista”, e se vangloriou de que o agronegócio “deveria não só votar [nele], mas se ajoelhar” diante do dinheiro do governo. Em 25 de setembro, jantou com 700 empresários e banqueiros em São Paulo — incluindo a JBS, também incluída na “Lista Suja do Trabalho Escravo” —, ouvindo cobranças por “corte de gastos” e “ajuste fiscal”. Enquanto isso, o ministro José Guimarães defende a elaboração de um documento com “compromissos fiscais” para um possível novo mandato, em comparação explícita com a “Carta ao Povo Brasileiro” de 2002, o compromisso de Lula com os mercados financeiros e o FMI de que um governo do PT honraria a dívida pública e manteria a ordem econômica existente.
Até o recente reajuste do Bolsa Família foi decidido por cálculo eleitoral: segundo relatos de auxiliares, Lula só bateu o martelo após uma reunião com eleitoras em que ouviu que “o dinheiro não chega ao fim do mês” e que a aprovação do governo não sobe. As migalhas sociais são administradas como instrumento de campanha, não como direito.
A luta contra o fascismo exige uma ruptura com o PT
A ascensão de Flávio Bolsonaro nas pesquisas — em empate técnico com Lula no segundo turno — é o resultado direto da falência do PT como “gestor do capitalismo” brasileiro e da sua função de suprimir, através da CUT e dos sindicatos que controla, a luta de classes no Brasil. O argumento de que a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro pela tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 teria “enterrado” a ameaça fascista revelou-se falso e politicamente cúmplice. Flávio, na CPAC 2026, jurou continuar a conspiração golpista do pai e pediu a intervenção do imperialismo americano nas eleições brasileiras.
Washington atendeu ao chamado, intervindo abertamente no processo eleitoral em favor de Flávio. Em 19 de setembro, a Folha de S. Paulo informou que um relatório sigiloso da ABIN (agência brasileira de informações) de agosto classificou como “crítico” o risco de interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras, apontando pressões comerciais e sanções como tentativas do governo americano de conter a influência da China e desgastar o atual governo.
Nos últimos dias, um grupo de parlamentares americanos, incluindo o senador Bernie Sanders — com quem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se encontrou na semana passada durante a Assembleia Geral da ONU —, enviou uma carta ao secretário de Estado de Donald Trump, Marco Rubio. No documento, eles cobram esclarecimentos da Casa Branca sobre sinais como tarifas comerciais, encontros políticos e nomeações diplomáticas provocativas, e solicitam formalmente que o governo dos Estados Unidos se comprometa a reconhecer os resultados certificados da eleição presidencial no Brasil.
Mas a resposta do PT não é mobilizar os trabalhadores contra o imperialismo: é capitular a cada passo, minimizar a ameaça de Trump e elevar os gastos militares a níveis históricos. Ao mesmo tempo, ele promove uma “unidade nacional” chauvinista entre trabalhadores e patrões para garantir uma posição mais segura para a burguesia brasileira em meio à guerra comercial global. Isso expõe ainda mais o PT como um partido da burguesia brasileira que não consegue romper com o imperialismo americano sem ameaçar os capitalistas nacionais que representa.
Além disso, a alegação do PT, da burocracia sindical e da pseudoesquerda de que a candidatura de Lula é a única maneira de mais uma vez impedir a chegada da extrema direita ao poder é uma farsa. O fascismo de Flávio Bolsonaro não será derrotado votando em Lula, o governo que está criando as condições para o seu crescimento ao aplicar a austeridade que empurra os trabalhadores ao desespero e cortejar o capital que os explora. Ele será derrotado pelo mesmo movimento que enfrenta Lula nas greves: a auto-organização independente da classe trabalhadora, em comitês de base fora e contra a burocracia sindical, em escala nacional e global, armada de um programa socialista internacionalista.
A luta contra a austeridade, contra o fascismo e contra o imperialismo é a mesma luta. Todas exigem uma ruptura com o PT, com as centrais sindicais e com a pseudoesquerda que orbitam essa força política burguesa, bem como a construção de uma alternativa política revolucionária da classe trabalhadora, em união com os trabalhadores dos Estados Unidos que se opõem à agenda fascista de Trump e Rubio.
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