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Sánchez convoca eleições antecipadas para conter a oposição em massa, enquanto a extrema direita espanhola ameaça chegar ao poder

Publicado originalmente em inglês em 6 de outubro de 2026

O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, reagiu à explosão de protestos em massa pela esquerda contra seu governo de coalizão, formado pelo PSOE e pelo Sumar, dissolvendo o Parlamento e convocando eleições gerais para 29 de novembro.

Milhares de pessoas protestando em Barcelona, em 5 de outubro de 2026, contra a crise habitacional na Espanha poucas horas depois de o primeiro-ministro Pedro Sánchez anunciar a antecipação das eleições gerais. [AP Photo/Emilio Morenatti]

Centenas de milhares de pessoas foram às ruas de mais de 50 cidades espanholas no fim de semana para protestar contra a disparada dos aluguéis, os despejos e a crise habitacional, que tornou a moradia digna inacessível para milhões de pessoas. Setores do movimento passaram a reivindicar abertamente uma greve geral. Foi o avanço dessa mobilização da classe trabalhadora e da juventude – e não as manobras parlamentares da direita – que precipitou a queda do governo e levou Sánchez a convocar novas eleições.

Agora, Sánchez busca usar a ameaça real representada pela extrema direita para conter o próprio movimento que derrubou seu governo. Seu ultimato político aos trabalhadores e aos jovens é este: ou aceitam a continuidade de seu governo de direita, marcado pela austeridade, militarismo e ataques às condições de vida, ou terão de enfrentar um governo ainda mais reacionário, formado pelo Partido Popular (PP) e pelo partido neofascista Vox.

As pesquisas indicam que, se as eleições fossem realizadas hoje, o PP e o Vox poderiam conquistar juntos a maioria parlamentar e formar o primeiro governo espanhol com participação da direita fascistoide desde o fim da ditadura de Franco, em 1978.

Poucas horas depois do anúncio das eleições por Sánchez, o líder do Vox, Santiago Abascal, apresentou seu programa para um governo conjunto com o PP: “Prioridade nacional, para que os espanhóis não sejam discriminados em sua própria terra; desregulamentação, para eliminar de nossa economia toda a corrupção, a ideologia e a intenção confiscatória; e remigração, para reverter a invasão migratória”.

Na prática, isso se traduz em privilégio para os cidadãos espanhóis no acesso aos serviços públicos, medidas de austeridade, desregulamentação para financiar os grandes grupos empresariais e expulsões em massa de imigrantes. Isso ficou evidente em Ceuta, neste verão europeu, quando pelo menos 140 migrantes morreram ao tentar chegar ao território espanhol, enquanto o governo do PSOE-Sumar mobilizava o Exército e a polícia e realizava expulsões em massa. O Vox classificou até mesmo essa atuação como “traição”. O partido apoiou manifestações em massa contra imigrantes, ataques em forma de pogroms a acampamentos de migrantes e continua exigindo a deportação de milhões de pessoas.

A direita espanhola também ameaça não aceitar uma derrota eleitoral, deixando aberta a possibilidade de tentar reverter à força o resultado das urnas. Abascal afirmou que Sánchez poderia “manipular esse processo eleitoral” e o acusou de ser “capaz de absolutamente qualquer coisa”. Isabel Díaz Ayuso, presidente da Comunidade de Madri e integrante do PP, declarou: “Peço a todos que nem sequer pensem em votar pelo correio”.

Essas ameaças assumem um caráter particularmente sinistro porque setores do oficialato militar espanhol próximos ao Vox clamam abertamente por um golpe de Estado e uma ditadura militar.

Há apenas três semanas, o tenente-coronel aposentado Francisco Bendala Ayuso declarou, no Casino Militar de Madri – instituição administrada por militares aposentados –, que “chegou a hora de as Forças Armadas assumirem sua responsabilidade perante a pátria”. Ao desqualificar a oposição parlamentar como “inepta e passiva”, Bendala clamou por uma intervenção militar para instaurar um “governo provisório de emergência” e decretar estado de exceção.

Nas declarações do Vox e do PP, convergem duas estratégias políticas fascistoides. A primeira está enraizada na história da extrema direita espanhola: apresentar uma vitória eleitoral da esquerda como fraudulenta para justificar um golpe de Estado. Após a vitória da Frente Popular, em fevereiro de 1936, a ditadura franquista alegou que as eleições haviam sido fraudadas para legitimar o golpe de julho daquele ano, que deu início à Guerra Civil Espanhola de 1936 a 1939.

A segunda estratégia segue um precedente mais recente, estabelecido pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cujo governo estreitou laços com o Vox. Consiste em desacreditar sistematicamente o processo eleitoral antes mesmo do início da votação, tratar os votos pelo correio como inerentemente suspeitos e declarar fraudulento qualquer resultado desfavorável. Essa estratégia culminou na tentativa de golpe de 6 de janeiro de 2021, quando Trump tentou impedir a transferência constitucional do poder, incitando seus apoiadores a invadir o Congresso americano durante a certificação dos resultados eleitorais.

O perigo é real. Mas a conclusão que os trabalhadores devem tirar é oposta à defendida por Sánchez, Sumar e Podemos. A luta contra a ameaça do fascismo e da ditadura militar não pode ser travada subordinando a classe trabalhadora ao governo do PSOE-Sumar nem reprimindo a luta de classes sob o pretexto de impedir uma vitória do PP-Vox.

Sánchez deixou explícito essa chantagem política ao anunciar as eleições. Apresentou o dia 29 de novembro como uma escolha entre uma “onda da ultradireita” e a continuidade de um governo supostamente progressista. Ao afirmar que seu governo havia alcançado “os melhores resultados econômicos, sociais e ambientais” entre todos os governos democráticos, reconheceu a “insatisfação” popular, mas argumentou que, “para fazer mais, precisamos renovar e ampliar o apoio popular”. Exigiu a formação de uma “maioria progressista muito mais ampla” para “conquistar novos avanços sociais e continuar transformando a Espanha”.

Os aliados pseudoesquerdistas do PSOE rapidamente se alinharam a essa posição. Mónica García, uma das lideranças da nova Frente Ampla, liderada pelo Sumar, e parceira de coalizão do PSOE, apoiou a decisão de Sánchez. “Vamos dedicar todos os nossos esforços para garantir mais uma vez um governo progressista”, declarou, acrescentando que faria “o que for necessário” para “deter a extrema direita”.

Irene Montero, uma das principais lideranças do Podemos, defendeu a realização de eleições primárias abertas para escolher uma candidatura unificada à esquerda do PSOE. Segundo ela, essa candidatura representaria a maioria social que exige o fim da especulação imobiliária, a redução dos aluguéis e a defesa da paz. “Não há tempo a perder, e temos muito trabalho pela frente”, insistiu.

Todas essas posições buscam canalizar o movimento que vem se desenvolvendo nas ruas para o voto em uma ou outra força parlamentar, impedindo que ele se transforme em uma luta política independente da classe trabalhadora.

Todas evitam a questão decisiva: por que, após quase nove anos de governos liderados pelo PSOE – seis deles em coalizão com o Podemos ou com o Sumar, que surgiu de uma cisão do partido –, os herdeiros políticos do franquismo estão mais próximos do poder do que em qualquer outro momento desde o fim da ditadura?

A resposta não está em uma suposta guinada da população espanhola à direita. Está, sobretudo, no histórico dos governos do próprio Sánchez e no papel desempenhado pela pseudoesquerda ao sufocar a oposição independente a esses governos.

Mais de um quarto da população espanhola – 25,7% da população – estava em risco de pobreza ou exclusão social em 2025, incluindo um terço das crianças. O desemprego entre os jovens era de 23%. No outro polo da sociedade, os seis maiores bancos espanhóis registraram lucros recordes de € 34 bilhões em 2025, 7% a mais que no ano anterior.

A mesma contradição aparece na afirmação de Sánchez de que é pacifista. Em seu discurso de convocação das eleições, ele se vangloriou de “apoiar a Ucrânia”, ou seja, o governo ucraniano respaldado pela OTAN, que trava uma guerra contra a Rússia, com potencial para desencadear um confronto direto entre potências nucleares. Sob o governo Sánchez, os gastos militares atingiram o recorde de € 66 bilhões em 2025, cerca de 4,1% do PIB, e a previsão é de que ultrapassem € 80 bilhões em 2026. Trata-se da maior expansão militar da Espanha desde o fim do franquismo.

Em nenhum outro campo o abismo entre as afirmações do governo e a realidade social é tão evidente quanto na habitação. O custo médio do aluguel de um imóvel já equivale a 98,7% do salário médio de um trabalhador jovem. O despejo de uma inquilina de 87 anos em Madri tornou-se o estopim de uma indignação social acumulada, desencadeando protestos em massa.

Diante da pressão crescente, o PSOE e o Sumar apresentaram às pressas medidas emergenciais limitadas na área da habitação. Na última sexta-feira, porém, as medidas foram rejeitadas no Parlamento pelos partidos PP e Vox e pelo Junts, partido nacionalista catalão de direita.

No dia seguinte, centenas de milhares de pessoas protestaram em mais de 50 cidades espanholas. Setores do movimento reivindicaram abertamente uma greve geral.

Essa sequência de acontecimentos revela a fraude política por trás do ultimato eleitoral de Sánchez. Trabalhadores e jovens entraram em luta contra as condições sociais que se agravaram sob seu governo. Em vez de atender às suas reivindicações, Sánchez dissolve o Parlamento e lhes diz que continuar a se opor ao seu governo pode abrir caminho para a extrema direita chegar ao poder.

A resposta não pode ser abandonar a luta de classes. Pelo contrário, o único caminho progressista consiste em ampliar sistematicamente essa luta e aprofundar seu desenvolvimento político.

Uma greve geral colocaria em discussão a questão fundamental: qual classe social deve decidir as prioridades da sociedade? A moradia, os salários, as aposentadorias e os serviços públicos devem permanecer subordinados ao lucro privado, aos gastos militares e ao enriquecimento de uma oligarquia financeira, ou devem ser organizados de acordo com as necessidades sociais?

A ascensão do Vox demonstra a falência da tese de que é possível combater o fascismo apoiando o PSOE e seus satélites da pseudoesquerda como um “mal menor”. Foram as políticas desses partidos – desigualdade social, austeridade, guerra imperialista, ataques aos imigrantes e fortalecimento do aparato repressivo do Estado – que criaram as condições políticas para o avanço da extrema direita.

Meio século depois do início da tão celebrada “transição” espanhola para a democracia, após a morte de Franco, em 1975, toda a estrutura política estabelecida naquele período está desmoronando.

Em meio às greves em massa e às lutas sociais dos anos 1970, o PSOE e os stalinistas do Partido Comunista de Espanha (PCE) trabalharam para impedir um acerto de contas revolucionário com o franquismo. Diziam aos trabalhadores que a integração à Comunidade Econômica Europeia e à OTAN garantiria à Espanha um futuro próspero e democrático. As Forças Armadas, a polícia e o aparato estatal herdados do franquismo foram preservados, enquanto a classe trabalhadora foi subordinada ao Estado capitalista por meio das burocracias sindicais e dos partidos parlamentares.

Esses arranjos, consagrados na Constituição espanhola de 1978, estão agora se desintegrando sob o impacto da crise capitalista, da guerra e de um movimento emergente da classe trabalhadora.

A crise espanhola faz parte de um processo internacional mais amplo. Em toda a Europa, as classes dominantes guinam à direita, reforçam o aparato militar, impõem medidas de austeridade e ampliam os poderes repressivos do Estado. Ao mesmo tempo, trabalhadores e jovens entram em luta contra as consequências dessas políticas.

Na França, greves e protestos em massa de trabalhadores e jovens abalam o sistema político. Em Portugal, intensificam-se as lutas no setor público, enquanto dezenas de milhares de jovens na Alemanha protestam contra o serviço militar obrigatório e os planos de preparar uma geração inteira para a guerra.

A contradição central está entre a elite dominante capitalista que conduz a sociedade à guerra, à ditadura e ao fascismo e a classe trabalhadora cada vez mais empurrada para a oposição, mas ainda impedida de desenvolver seu próprio programa político independente.

Na Espanha, a mobilização por moradia precisa se ampliar e se transformar em uma luta de toda a classe trabalhadora contra a austeridade, militarismo, repressão estatal e ameaça fascista. Os trabalhadores devem rejeitar todas as tentativas de dividir espanhóis e imigrantes e uni-los em torno de seus interesses de classe comuns.

Isso exige construir organizações independentes de base nos locais de trabalho e nos bairros, capazes de unificar as lutas entre diferentes setores e regiões, combater as traições das burocracias sindicais e mobilizar a classe trabalhadora contra a austeridade, repressão policial e qualquer tentativa de golpe de Estado.

Acima de tudo, exige um acerto de contas político com o PSOE, Podemos e Sumar, bem como com a perspectiva de subordinar os trabalhadores a partidos capitalistas em nome do combate ao “mal maior”.

A extrema direita não pode ser derrotada por meio do apoio a uma fração da classe dominante capitalista contra outra. Essa política não deteve o Vox. Pelo contrário, fortaleceu-o.

A tarefa decisiva é construir uma nova direção revolucionária para a classe trabalhadora: uma seção espanhola do Comitê Internacional da Quarta Internacional. Essa direção deve promover a unificação das lutas por moradia, salários, aposentadorias, direitos democráticos e contra a guerra em um movimento político independente da classe trabalhadora. Deve também conectar as lutas em curso na Espanha às que irrompem em toda a Europa e internacionalmente e lutar pelo poder dos trabalhadores e pela reorganização socialista da sociedade, como parte da luta pelos Estados Unidos Socialistas da Europa.

A alternativa colocada pela crise não é Sánchez ou a aliança PP-Vox. É a reação capitalista, qualquer que seja sua forma parlamentar, ou a mobilização política independente da classe trabalhadora em torno de um programa socialista internacional.

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