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Segundo turno no Brasil: enquanto Lula se move à direita, Flávio Bolsonaro prepara ditadura

Após o candidato fascista Flávio Bolsonaro ganhar o primeiro turno da eleição presidencial brasileira de 4 de outubro contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (Partido dos Trabalhadores — PT) por 47,0% a 45,2% dos votos válidos, a crise interna do PT e de sua “frente ampla” se aprofundou, abrindo um debate sobre as causas do desastre que já se desdobra em uma nova guinada à direita do PT.

Manifestação em massa em apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Rio de Janeiro, em 12 de outubro. [Photo: Tomaz Silva/Agência Brasil]

Os números expõem a natureza do resultado. Lula perdeu quase 3,4 milhões de votos em relação ao primeiro turno de 2022 contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão por liderar a conspiração golpista de 2022-23 — de 57,3 milhões para 53,9 milhões —, enquanto seu filho Flávio obteve 56,1 milhões de votos, mais de 5 milhões acima dos 51,1 milhões obtidos pelo pai quatro anos antes. Ainda assim, Flávio recebeu menos votos do que Lula em 2022.

A eleição não expressou, portanto, um giro à direita das massas, mas a desintegração da base eleitoral do PT — um voto de protesto contra um partido que, nas palavras do próprio Lula, “se tornou o sistema” e foi incapaz de solucionar os problemas cada vez mais graves dos trabalhadores e pobres no Brasil.

Lula perdeu votos até mesmo entre seus eleitores tradicionais. Ele venceu por ampla margem entre os mais pobres, mas perdeu votos em quase todas as faixas de renda, registrando um crescimento apenas entre os 4% mais ricos. Mesmo no Nordeste, a região mais pobre do Brasil e reduto do PT nas últimas eleições, Flávio recebeu, nos nove estados da região, 1,6 milhão de votos a mais do que seu pai em 2022.

Para o segundo turno, a vantagem de Flávio tende a crescer. Na quinta-feira da semana passada, o Datafolha divulgou sua primeira pesquisa de segundo turno: Lula aparece com 48% dos votos válidos, contra 52% de Flávio. O dado mais revelador da pesquisa é a rejeição: Lula é rejeitado por 46% do eleitorado, mais do que Flávio, com 43% — ou seja, o candidato que se apresenta como o defensor da democracia contra o fascismo é mais rejeitado do que o fascista. A pesquisa também avaliou a transferência dos 9 milhões de votos dos quatro candidatos de direita atrás de Lula e Flávio — Augusto Cury, Ronaldo Caiado, Renan Santos e Romeu Zema —, mostrando que esses votos serão transferidos majoritariamente para Flávio.

A resposta do PT: aprofundar o giro à direita

A derrota no primeiro turno abriu uma crise interna no PT e em sua “frente ampla”, com um profundo debate sobre as causas do desastre. Mas esse debate é, em essência, uma farsa. Ao contrário daqueles que alegam que o PT é um partido “em disputa”, o rumo já está decidido — e é o aprofundamento do curso reacionário que produziu a derrota.

A confissão decisiva veio do próprio Lula. Segundo o Estado de S. Paulo, o presidente “admitiu que o PT errou ao não se aproximar da frente ampla que o apoiou nas eleições de 2022 contra Jair Bolsonaro”. Assim, a resposta, agora no segundo turno, é ampliar a “frente ampla”.

O caráter de classe dessa resposta está condensado no mote que, segundo informado pela imprensa na semana passada, orienta a campanha para o segundo turno: “mais Alckmin e menos Janja”. O vice-presidente Geraldo Alckmin, representante da burguesia paulista, e os ex-ministros Simone Tebet e Carlos Fávaro foram escalados para promover uma aproximação com o mundo corporativo e o agronegócio. Alckmin está sendo cotado para o Ministério da Fazenda como avalista da promessa de “responsabilidade fiscal” — isto é, de continuidade da austeridade. A primeira-dama Rosângela da Silva, cuja atuação se voltava à base do partido e aos movimentos sociais, está sendo posta de lado.

A mesma lógica está orientando o endurecimento do discurso sobre segurança pública. Lula adotou como novo lema de campanha: “Para o povo trabalhador, a proteção. Para o bandido, a prisão”, voltando a defender a PEC da Segurança Pública que fortalece o aparato repressivo no Brasil. Trata-se da adoção, pelo PT, do próprio programa policialesco da extrema direita — justamente a pauta que Flávio Bolsonaro explora.

A principal estratégia de Lula para o segundo turno é ir atrás dos eleitores que se abstiveram no primeiro turno — 33,4 milhões de pessoas, ou 21,08% do eleitorado, o maior índice desde 1998. A campanha priorizará o eleitor que não foi votar, pedindo à militância que convença os “desencantados com a política” a comparecer às urnas.

Essa estratégia é, em si mesma, uma confissão de falência. A abstenção recorde é a expressão mais honesta da rejeição da classe trabalhadora a todo o sistema político — incluindo o PT. Lula agora está tentando convencer as pessoas que rejeitaram o sistema a votar no partido que defende a “responsabilidade fiscal”. A “estratégia do medo” que o PT promete contra Flávio — desconstruir sua imagem nas redes sociais — é a confissão de que o partido não tem nada a oferecer à classe trabalhadora além de chantagem, exigindo que ela aceite a austeridade sob a ameaça de um futuro ainda mais sombrio sob um governo fascista.

Parte significativa do debate interno no PT e em sua “frente ampla” se concentra na comunicação. Dirigentes do PT atribuem a culpa pelos problemas do primeiro turno ao ministro da Comunicação, Sidônio Palmeira, também responsável pela campanha eleitoral de Lula. O próprio Lula declarou que esta foi “a campanha menos organizada que eu participei desde 1989”, quando foi candidato a presidente pela primeira vez.

Essa discussão é reveladora precisamente pelo que ela exclui. O PT trata a derrota como um problema de marketing — de organização, de redes sociais, de “conceitos teóricos” que não se “conectaram” com o eleitor — e não como um problema político. A coordenação da campanha lamenta que Flávio tenha sido “mais pragmático”, usando o preço dos alimentos no supermercado, enquanto Lula falava de soberania e terras raras.

Mas a questão não se resume a técnicas de publicidade. A rejeição a Lula tem um conteúdo de classe real: um governo que impôs austeridade, deixou 80,9% das famílias endividadas e manteve as taxas de juros em 13,75% não tem nada melhor a “comunicar” sobre sua postura diante da crise do custo de vida enfrentada por milhões de trabalhadores. E não faltou dinheiro para a campanha do PT. O partido que recebeu a maior parcela do fundo eleitoral, atrás apenas do Partido Liberal (PL) de Flávio — R$ 615 milhões, dos quais R$ 127 milhões foram destinados à campanha de Lula —, não sofre de falta de recursos, mas de falência política.

Na reta final, o governo Lula lançou um pacote de medidas eleitoreiras: ampliou o subsídio à gasolina, concedeu um reajuste de 15% no Bolsa Família e lançou um programa que perdoa R$ 12,6 bilhões em dívidas de 3,6 milhões de microempreendedores. Essas e outras medidas são uma confissão de que o PT não tem programa: depois de quatro anos de austeridade, a resposta à derrota eleitoral é um punhado de esmolas de última hora, pequenas demais para compensar o que o próprio governo tirou. 

Flávio Bolsonaro: o “tesouraço” e a ameaça de uma ditadura no Brasil

A resposta de Flávio Bolsonaro ao resultado do primeiro turno foi uma combinação de demagogia social e de preparação golpista. O candidato reagiu com “forte indignação” às acusações da campanha de Lula de que cortaria verbas e extinguiria benefícios, classificando a alegação como “mentira” da estratégia petista. 

Porém, segundo reportagem da Folha de S. Paulo de 7 de outubro, a equipe econômica de Flávio estuda um pacote de medidas fiscais para conter os gastos obrigatórios da ordem de 2% do PIB — cerca de R$ 250 bilhões. Entre as medidas estão a desvinculação dos reajustes da Previdência e do BPC em relação aos ganhos reais do salário mínimo, além do fim dos pisos constitucionais que atrelam os gastos com saúde e educação às receitas federais. Em outras palavras: o candidato que promete “não tocar” nos programas sociais planeja, nos bastidores, o maior ataque aos gastos sociais da história recente.

O “Ministério da Prosperidade” anunciado no horário eleitoral é a peça ideológica dessa operação. Apresentado como “porta de saída” dos programas sociais por meio da qualificação, do empreendedorismo e do microcrédito, ele é, na verdade, o mecanismo para desmontar a rede de proteção social — substituindo direitos por “oportunidades” individuais, no mais puro estilo do neoliberalismo. A mesma lógica explica a virada sobre a escala 6x1: após meses classificando a proposta como “oportunista”, Flávio cedeu à pressão eleitoral e declarou que votará pelo fim da jornada — mantendo, nos bastidores, o compromisso com empresários de flexibilizar a matéria no Congresso caso seja eleito.

A intenção de Flávio é explícita: implementar o modelo Milei-Bukele no Brasil. O presidente argentino participou do lançamento de sua candidatura. No lugar da motosserra, Flávio prometeu um “tesouraço” para equilibrar as contas públicas. Seu coordenador de campanha, o senador Rogério Marinho, declarou que o atual modelo econômico está “estourando” e que as reformas da Previdência (2019) e trabalhista (2017) seriam “revisitadas” — isto é, aprofundadas.

Mas o “tesouraço” é apenas a metade econômica do projeto. A outra metade é a continuação da trama golpista de seu pai, Jair Bolsonaro. Flávio prometeu que, se eleito, concederá indulto ao pai — e que Bolsonaro subirá a rampa do Palácio do Planalto junto com ele na posse. A declaração de que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”, feita em transmissão ao vivo em agosto, não é um detalhe folclórico: é a expressão ideológica de um projeto teocrático, que funde o fundamentalismo religioso ao autoritarismo de Estado.

O centro do projeto golpista é a reforma do Judiciário. Além de defender o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) — em primeiro lugar, Alexandre de Moraes, responsável pela condenação de Jair Bolsonaro —, Flávio prometeu “mudar a Constituição e redemocratizar o Brasil” — uma formulação que, na boca de um herdeiro do golpismo, significa exatamente o contrário: a captura do aparato estatal para liquidar os freios institucionais que ainda limitam o poder executivo. O ministro do STF nomeado por Bolsonaro, Kassio Nunes Marques, já sinalizou que analisará o caso que pode levar à soltura de Jair Bolsonaro após o segundo turno.

O paralelo com El Salvador é explícito e assumido. O ministro da Segurança e Justiça de Bukele, Gustavo Villatoro, declarou em 2024 na CPAC no Brasil que em El Salvador “mandamos ‘al carajo’ a Corte Suprema de Justiça. E não apenas isso, também mandamos ‘al carajo’ o procurador da República”. Villatoro participou do Congresso FIESP (Federação das Indústrias de São Paulo) de Segurança Pública em São Paulo em agosto, quando também se encontrou com Flávio, defendendo o modelo de Bukele diante da burguesia industrial brasileira. Isso expõe a base social do projeto: a FIESP, o coração do capital industrial brasileiro, corteja abertamente o modelo de ditadura de Bukele. 

Os protestos estudantis contra Flávio e a armadilha do “mal menor”

A ameaça representada por Flávio Bolsonaro provocou uma reação real e espontânea. Na noite de segunda-feira, 5 de outubro, começaram as primeiras mobilizações universitárias na Universidade Federal Fluminense, em Niterói, e ao longo da semana se espalharam por mais de 40 universidades em 14 estados e no Distrito Federal, com assembleias, plenárias e passeatas reunindo dezenas de milhares de jovens. A preocupação é legítima: um governo Flávio Bolsonaro significaria um ataque brutal à educação, à ciência e aos direitos democráticos.

Mas é preciso dizer com clareza o que esses protestos são — e o que não são. O caráter de classe das manifestações, como a de 11 de outubro em São Paulo, é pequeno-burguês: estudantes universitários e profissionais liberais, não a classe trabalhadora organizada. E sua orientação política já está definida: a UNE (União Nacional dos Estudantes) está convocando abertamente a mobilização nas universidades para eleger Lula — “A juventude brasileira ocupará as universidades em todo o país para garantir a vitória de Lula no segundo turno!”

A preocupação dos estudantes com a educação é real — e é precisamente por isso que a resposta do PT é tão cínica. O partido que agora se apresenta como o defensor da educação contra Flávio é o mesmo que, sob o “novo arcabouço fiscal” de Lula, promoveu o desmonte das universidades federais, levando professores e funcionários a inúmeras greves.

A juventude que se mobiliza contra Flávio tem uma história: ela protestou contra o governo Bolsonaro — e foi desviada pelo PT para as eleições, onde sua energia foi dissipada em apoio a um governo que continuou a política de seu antecessor. Repetir esse ciclo é repetir o desastre.

A questão essencial não é se Flávio Bolsonaro representa uma ameaça. A questão é como combatê-la. E a lição de quatro décadas do PT é inequívoca: a política do “mal menor” — votar no PT para conter a extrema direita — não contém a extrema direita; ela a fortalece. O PT não representa uma luta genuína contra o fascismo, abrindo o caminho para ele ao destruir toda alternativa à esquerda e entregar à extrema direita a capacidade de se apresentar como oponente do sistema.

A única força capaz de derrotar a extrema direita é a mobilização independente da classe trabalhadora — a classe que, enquanto o establishment se move à direita, se move à esquerda, como demonstram as greves de bancários, dos Correios, de professores e de metalúrgicos que se chocaram com o governo Lula nos últimos meses.

A tarefa central nesta eleição é construir a unidade dos trabalhadores e da juventude em comitês de base independentes do PT, das centrais sindicais e da pseudoesquerda — ligados internacionalmente pela Aliança Operária Internacional de Comitês de Base e pelo Grupo Socialista pela Igualdade no Brasil. Contra a ditadura de Flávio e a traição do PT, a resposta é a luta pelo socialismo — a única alternativa real ao fascismo.

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