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Uma avaliação da década da revolução socialista e das tarefas do Partido Socialista pela Igualdade (EUA)

Estamos publicando a seguir o informe de abertura de David North, presidente nacional do Partido Socialista pela Igualdade (SEP) nos EUA, ao 9º Congresso do SEP, realizado de 2 a 7 de agosto de 2026. Este informe apresentou a primeira resolução, “O SEP e a luta contra a guerra imperialista”, que foi aprovada por unanimidade.

Um ponto de inflexão histórico

1. O 9º Congresso do Partido Socialista pela Igualdade acontece em um momento crítico na história política dos Estados Unidos e do mundo — o ponto de intersecção entre guerra, crise econômica e uma radicalização social em rápido crescimento. A aura de invencibilidade americana, construída ao longo de três décadas e meia com base na estratégia brutal dos bombardeios de “choque e pavor”, foi destruída.

2. A classe dominante colocou Trump no poder na convicção de que os interesses da oligarquia seriam bem defendidos por um gângster sem escrúpulos. O prefácio de Oligarquia: Trump e o Colapso da Democracia Americana — o livro contemporâneo mais importante sobre política americana — levanta a seguinte questão:

Que combinação de processos sociais e econômicos levou um homem assim ao poder? O que o manteve no poder durante uma década de escândalos e crimes, qualquer um dos quais teria destruído a carreira de qualquer político americano anterior? E, acima de tudo, em benefício de quem ele governa?

A resposta a essa pergunta não admite ambiguidade. Trump é o instrumento político da oligarquia corporativo-financeira que passou a governar os Estados Unidos, uma aristocracia financeira que acumulou riqueza em uma escala sem igual na história da humanidade e que é, em seus interesses essenciais, irreconciliavelmente hostil às formas democráticas de governo. [1]

3. Na luta para derrotar a escravocracia que ameaçava a destruição da União, a ainda jovem burguesia americana conseguiu encontrar um Abraham Lincoln na cidade provinciana de Springfield, em Illinois, e o colocou na Casa Branca. Na década de 1930, em meio à Grande Depressão, um imperialismo americano ainda em ascensão conseguiu produzir um político do calibre de Franklin Delano Roosevelt. Mas agora a degeneração da classe dominante americana encontra sua expressão mais obscena em um presidente que se assemelha a um personagem de um filme de Scorsese.

4. Mas a experiência de Trump no submundo do mercado imobiliário de Nova York e dos cassinos de Atlantic City não o preparou para as consequências desastrosas de sua guerra criminosa contra o Irã. Não é apenas o governo Trump que está desorientado e desacreditado. Esta é uma guerra que contou com apoio bipartidário. O Partido Democrata acolheu com satisfação o bombardeio inicial e a decapitação do governo iraniano. A estratégia que orientou a política externa dos Estados Unidos por 35 anos — resumida na infame frase do Wall Street Journal, “Force Works” [“Força Funciona”] — foi destruída.

O presidente Donald Trump falando durante uma reunião de Gabinete na Casa Branca, em 2 de dezembro de 2025, com o secretário de Estado Marco Rubio, à esquerda, e o secretário de Defesa Pete Hegseth, à direita. [AP Photo/Julia Demaree Nikhinson]

5. O desastre no Irã causará ondas de choque em todo o sistema político americano e internacional. Os primeiros tremores econômicos e políticos já estão sendo sentidos. Entre suas consequências imediatas está a exposição da podridão do sistema social existente baseado no capitalismo — de seu sistema bipartidário, da mídia controlada pelas corporações, da academia corrompida, das organizações sindicais burocráticas, da pseudoesquerda abastada obcecada por identidades e da cultura intelectualmente degradada.

6. A guerra não é um evento isolado, sem relação com processos mais amplos. A convergência entre derrota militar, radicalização social e crise política não é nem um acidente nem um golpe do nada. É o resultado das contradições do capitalismo americano e mundial, previstas e analisadas pelo movimento trotskista. O trabalho deste congresso deve, portanto, começar com uma análise da perspectiva que tem orientado o trabalho do partido.

I. A década da revolução socialista

7. Em 3 de janeiro de 2020, o World Socialist Web Site publicou sua declaração de Ano-Novo, intitulada “Começa a década da revolução socialista”. Nos seis anos e meio desde sua publicação, a declaração atraiu um certo tipo de crítica, cujo método consiste inteiramente em apontar para um calendário. Nenhum governo operário foi ainda estabelecido em lugar algum do mundo; portanto, o título se mostra refutado. O argumento não aborda uma única frase que o documento realmente contenha.

8. Esse gênero encontrou sua expressão acadêmica mais elaborada na obra de John Kelly, The Twilight of World Trotskyism [O Crepúsculo do Trotskismo Mundial], um volume dedicado à tese de que o movimento trotskista é uma relíquia histórica à beira da extinção, e no qual a declaração de Ano-Novo de 2020 é especificamente alvo de denúncia. Kelly escreve:

Hermeticamente fechadas em seu doutrinarismo e hostis à verdadeira investigação empírica ou à inovação teórica, as organizações do trotskismo ortodoxo estão condenadas a repetir para sempre os slogans e as políticas dos primeiros 25 anos do século XX, convencidas de que essas ideias — e somente elas — detêm a chave para sua iminente transformação em partidos revolucionários de massas que liderarão ataques ao estilo leninista contra o poder capitalista em todo o mundo. [2]

9. Esta passagem ilustra a falência intelectual e política do neostalinismo e das formas relacionadas de política pequeno-burguesa que florescem no meio acadêmico. Cada elemento da acusação inverte a realidade. O que Kelly ridiculariza como “doutrinarismo” é a defesa da continuidade histórica do marxismo, o fundamento teórico sobre o qual, e somente sobre o qual, é possível um prognóstico científico. A “investigação empírica” que ele alega ter realizado resultou em um livro que proclamava o crepúsculo do trotskismo na véspera da maior crise do capitalismo mundial desde 1945.

10. Os “slogans e políticas” ridicularizados por Kelly constituem os fundamentos teóricos e programáticos da estratégia da revolução socialista na época imperialista. Citemos alguns exemplos do “doutrinarismo” ao qual Kelly se opõe:

A guerra atual é, no fundo, uma revolta das forças de produção contra a forma política da nação e do Estado… o significado real e objetivo da guerra é o colapso dos atuais centros econômicos nacionais e a substituição desses por uma economia mundial. Mas a maneira como os governos propõem resolver o problema do imperialismo não é por meio da cooperação inteligente e organizada de todos os produtores da humanidade, mas por meio da exploração do sistema econômico mundial pela classe capitalista do país vitorioso… [Trotsky. A Guerra e a Internacional (1915)]

O fato de o imperialismo ser um capitalismo parasitário ou em decadência manifesta-se, antes de tudo, na tendência à decadência, característica de todo o monopólio sob o sistema de propriedade privada dos meios de produção. A diferença entre a burguesia imperialista democrático-republicana e a reacionária-monarquista é apagada precisamente porque ambas estão apodrecendo vivas… A reação política em toda a linha é uma característica do imperialismo. [Lenin. O Imperialismo e a Ruptura no Socialismo (1916)]

11. Indo vários anos além do limite exato dos primeiros 25 anos do século passado, citarei mais algumas passagens que exemplificam o “doutrinarismo” que, apesar das objeções de Kelly, continua sendo o alicerce essencial da estratégia revolucionária:

Em nossa época, que é a época do imperialismo, ou seja, da economia mundial e da política mundial sob a hegemonia do capital financeiro, nenhum partido comunista pode definir seu programa partindo exclusiva ou principalmente das condições e tendências de desenvolvimento de seu próprio país…

O programa internacional deve partir diretamente de uma análise das condições e tendências da economia mundial e do sistema político mundial considerados como um todo, em todas as suas conexões e contradições, ou seja, com a interdependência mutuamente antagônica de suas partes separadas. Na época atual, em uma extensão muito maior do que no passado, a orientação nacional do proletariado deve e pode decorrer apenas de uma orientação mundial, e não o contrário. Aí reside a diferença básica e primordial entre o internacionalismo comunista e todas as variedades do nacional-socialismo. [Trotsky. Crítica ao Projeto de Programa da Internacional Comunista (1928)]

Em tempos de crise, a hegemonia dos Estados Unidos se manifestará de forma mais completa, mais aberta e mais implacável do que em tempos de prosperidade. Os Estados Unidos buscarão superar e se livrar de suas dificuldades e males principalmente às custas da Europa, independentemente de isso ocorrer na Ásia, no Canadá, na América do Sul, na Austrália ou na própria Europa, ou de se dar de forma pacífica ou por meio da guerra. [Trotsky. Crítica ao Projeto de Programa da Internacional Comunista (1928)]

A revolução socialista começa no âmbito nacional, desenrola-se no âmbito internacional e se completa no âmbito mundial. Assim, a revolução socialista torna-se uma revolução permanente, num sentido mais novo e mais amplo da palavra; ela só alcança sua conclusão com a vitória final da nova sociedade em todo o nosso planeta. [Trotsky. O que é a revolução permanente (1930)]

Um “socialista” que prega a defesa nacional é um reacionário pequeno-burguês a serviço do capitalismo em decadência. Não se vincular ao Estado nacional em tempos de guerra, seguir não o mapa da guerra, mas o mapa da luta de classes, só é possível para aquele partido que já declarou guerra irreconciliável ao Estado nacional em tempos de paz. Somente ao compreender plenamente o papel objetivamente reacionário do Estado imperialista é que a vanguarda proletária pode tornar-se imune a todos os tipos de patriotismo social. Isso significa que uma ruptura real com a ideologia e a política da “defesa nacional” só é possível a partir do ponto de vista da revolução proletária internacional. [Trotsky. A Guerra e a Quarta Internacional (1934)]

Lenin discursando para uma multidão em maio de 1920, com Trotsky ao seu lado.

12. Essas concepções, que surgiram ao longo das primeiras décadas do século XX, continuam sendo o alicerce da estratégia marxista neste início do segundo quarto do século XXI. Kelly, cuja própria linhagem política remonta ao movimento stalinista — que previu o desaparecimento do trotskismo por noventa anos, ao mesmo tempo em que liquidou primeiro seus quadros e, em seguida, a si mesmo —, escreve o obituário justamente da tendência cuja perspectiva foi confirmada pelos acontecimentos. Mas não condenemos o Sr. Kelly sem considerar, com o cuidado que merece, sua alternativa ao doutrinarismo do trotskismo. Ele nos informa que

Reduzir a política da classe trabalhadora à escolha binária entre socialismo reformista e socialismo revolucionário… omite uma terceira vertente ainda mais importante: a da “reforma social”, a busca por melhorias na qualidade de vida dentro dos parâmetros do capitalismo. [3]

13. Suspeito que o Sr. Kelly não tenha lido com atenção a resposta escrita por Rosa Luxemburgo a Edward Bernstein em 1898, intitulada Reforma ou Revolução. De qualquer forma, o que é bastante notável é que Kelly, cujo livro foi publicado em 2022, aponta a América Latina como prova da viabilidade de sua visão de reforma social. Mas será que a história dos últimos cinco anos — sem falar do século passado — confirmou a perspectiva de Kelly na América Latina, ou, aliás, na Europa, ou em qualquer outro lugar?

14. Nos quatro anos desde que Kelly relegou a revolução aos arquivos, os “parâmetros do capitalismo” dentro dos quais se deveria buscar pacificamente melhorias revelaram seu verdadeiro conteúdo: os parâmetros da austeridade, da ditadura e da guerra. A América Latina democratizada com a qual ele sonhava, e que tanto o entusiasmava há apenas alguns anos, é governada por um Fujimori em Lima, um pinochetista em Santiago, um admirador da junta que empunha uma motosserra em Buenos Aires — e, em Caracas, por um governo interino instalado depois que um comando americano sequestrou um chefe de Estado e entregou o petróleo do país a Wall Street.

15. Os partidos social-democratas que ele apresentou como modelos de “reforma social” estão rearmando a Europa e desmantelando o que resta do Estado de bem-estar social, cujas diretrizes e estatutos ele enumerou como prova do potencial de reforma do capitalismo. Kelly afirma que o trotskismo defende, em vão, um programa que nunca poderá ser concretizado.

16. Podemos responder, com justificativa consideravelmente maior, que Kelly apresenta uma perspectiva cujas premissas — a durabilidade da democracia burguesa, a impossibilidade de uma guerra mundial, o esgotamento da época revolucionária — foram refutadas pelos acontecimentos. O crepúsculo, ao que parece, não se abateu sobre a Quarta Internacional, mas sobre as ilusões daqueles que escreveram seu obituário.

17. A frase inicial da declaração de 2020 dizia: “A chegada do Ano-Novo marca o início de uma década de intensificação da luta de classes e da revolução socialista mundial.” A expressão-chave é “marca o início”. A declaração caracterizou a situação objetiva e sua trajetória; não estabeleceu um cronograma de insurreições. O curso dos últimos cinco anos confirmou plenamente a perspectiva com a qual iniciamos a década.

18. As resoluções apresentadas ao 9º Congresso constituem uma avaliação sistemática da situação mundial um ano após a metade da década. Todas as tendências fundamentais identificadas nas resoluções — a eclosão do militarismo imperialista, a crise da economia mundial, o colapso da democracia burguesa e a virada para o regime autoritário, a contradição explosiva entre o desenvolvimento tecnológico e o sistema de lucro baseado na propriedade privada, os níveis irracionais de concentração de riqueza e desigualdade social e a radicalização internacional da classe trabalhadora — se desenvolveram com uma amplitude e velocidade que superaram as próprias formulações da declaração de 2020.

II. A metástase da Terceira Guerra Mundial

19. A declaração de 2020 colocou o perigo de uma terceira guerra mundial no centro de sua análise da década que se iniciava. Ela atribuiu esse perigo à contradição central do sistema capitalista mundial, entre o caráter globalmente integrado das forças produtivas e a estrutura do Estado nacional na qual o capitalismo está historicamente enraizado. Seis anos e meio depois, a questão já não é mais se tal guerra irá eclodir.

20. A guerra mundial está em andamento, desenvolvendo-se à maneira de um processo metastático: está se espalhando globalmente como uma condição crônica e em expansão, colonizando novas regiões, fundindo conflitos antes separados e transformando progressivamente a economia mundial e cada Estado nacional, em preparação para a conflagração geral para a qual tende. Formulada dessa maneira, a conhecida pergunta “Haverá uma terceira guerra mundial?” revela-se equivocada.

21. Como afirmei no ato de Primeiro de Maio de 2026, “A Guerra Mundial não é uma ameaça futura, mas uma realidade que se desenrola no presente”. Trata-se de um processo contínuo a ser analisado, que consiste na multiplicação de frentes, no entrelaçamento de teatros de operações, na subordinação da vida econômica às necessidades militares, na reorganização do Estado para a ditadura e na preparação ideológica da população.

22. Essa análise está agora sendo confirmada pelos órgãos mais sensatos da opinião burguesa. Em 26 de julho, o Financial Times publicou uma coluna de seu principal comentarista de relações internacionais, Gideon Rachman, sob o título “Ucrânia, Irã e como as guerras regionais se tornam globais”. Rachman reúne os fatos essenciais: a guerra mais sangrenta da Europa desde 1945; uma guerra no Oriente Médio que já envolveu doze Estados diretamente nos combates; o fortalecimento militar da Coreia do Norte e sua renúncia à reunificação pacífica; os ensaios da China para cortar as linhas de abastecimento de Taiwan; conflitos regionais que “estão começando a se sobrepor” em dois continentes, ao mesmo tempo em que influenciam guerras na África; e a cristalização do que os estrategistas americanos chamam de “eixo de adversários”.

Soldados ucranianos se preparam para disparar contra posições russas com um obuseiro M777 fornecido pelos EUA na região de Kharkiv, na Ucrânia, em 14 de julho de 2022. [AP Photo/Evgeniy Maloletka]

23. Ele admite que o atual conjunto de conflitos “já atende a alguns” dos critérios que definem as duas guerras mundiais e cita a descrição de Zelensky sobre o envio de tropas norte-coreanas como o “primeiro passo para uma guerra mundial”, acrescentando que, com a Ucrânia agora atacando navios iranianos, “pode-se argumentar que um segundo passo já foi dado”. O que o movimento revolucionário apresentou como prognóstico em janeiro de 2020 é corroborado por um importante colunista do capital financeiro europeu.

24. O genocídio em Gaza, a guerra contra o Irã e o conflito em expansão na Ucrânia são frentes interligadas de uma guerra global. O que começou como uma guerra por procuração na Ucrânia, instigada pelas potências imperialistas, evoluiu agora, indiscutivelmente, para uma guerra não declarada, mas muito real, das potências da OTAN contra a Rússia. Os ataques com drones contra a Rússia estão sendo dirigidos, sem qualquer tentativa de dissimulação, pelos EUA e seus parceiros da OTAN. Conforme noticiou o Financial Times em 29 de julho, “informações de inteligência fornecidas pelos EUA e pela França ajudaram a mapear as posições das defesas aéreas russas e a identificar rotas que permitiram aos drones contorná-las e atingir alvos no interior da Rússia”.

25. Citando Robert Brovdi, comandante das Forças de Sistemas Não Tripulados da Ucrânia, o FT informou que o território europeu da Rússia agora estava sendo alvo de ataques. “Oitenta milhões de pessoas — cerca de dois terços da população da Rússia — vivem na parte europeia do país, dentro da zona de ataque, que não é mais e não será mais considerada a área de retaguarda segura da Rússia.” O FT relatou ainda que “os serviços de inteligência dos EUA e da França também aprimoraram a seleção de alvos… ajudando as equipes ucranianas de drones de ataque de longo alcance a ‘aprender onde atacar’…”

26. As implicações catastróficas da orientação dos ataques da OTAN contra a Rússia são evidentes. A probabilidade de um contra-ataque russo contra os países da OTAN aumenta a cada dia. Putin, o ex-agente da polícia soviética formado na escola stalinista da “coexistência pacífica”, não previu nada quando lançou sua “operação militar especial”, com plena expectativa de que seus “parceiros ocidentais” chegariam a um acordo com a Rússia. Estamos agora testemunhando as consequências desastrosas — sobre as quais o movimento trotskista alertou — da liquidação stalinista da União Soviética.

27. A guerra mundial que agora se espalha pelos cinco continentes eleva ao mais alto nível a luta histórica desta época: entre a guerra imperialista global e a revolução mundial, entre a tendência do imperialismo de organizar e subjugar a Terra e o esforço cada vez mais consciente da classe trabalhadora internacional para derrubar a ordem social que gera a redivisão pelo imperialismo.

III. 1991 e a gênese da guerra atual

28. O atual conflito mundial vem se desenvolvendo não desde 2022, nem desde 2014, mas desde 1990–91. A dissolução da União Soviética pela burocracia stalinista, o ato final de sua evolução contrarrevolucionária, foi saudada pelas classes dominantes do Ocidente como a vitória definitiva na luta que havia começado em 1917. A proclamação do “Fim da História” não foi, no fundo, uma tese sobre a democracia liberal. Foi a declaração de que o espectro do socialismo havia finalmente sido exorcizado, de que o desafio lançado pela Revolução de Outubro havia sido definitivamente liquidado e de que o século XX poderia agora ser anulado.

29. A resposta do imperialismo à dissolução da URSS foi nada menos do que uma tentativa de recriar o mundo como ele teria sido se a Revolução de Outubro nunca tivesse ocorrido: restaurar o domínio direto do capital sobre todos os territórios, recursos e populações que a revolução e suas repercussões haviam retirado do sistema imperialista ou protegido contra ele, e concretizar, com setenta e cinco anos de atraso, a perspectiva com a qual os Estados Unidos haviam entrado na Primeira Guerra Mundial: a organização de todo o planeta sob o que o presidente George Herbert Walker Bush descreveu como a “Nova Ordem Mundial”, ou seja, a organização do planeta sob a hegemonia do imperialismo americano.

30. Daí decorreram as duas motivações estratégicas determinantes da política imperialista pós-soviética. A primeira foi a redivisão do próprio espaço ex-soviético. O fim da URSS colocou diretamente em jogo a possibilidade de desmembrar a vasta herança territorial, industrial e de recursos mantida no âmbito do Estado operário, o maior prêmio ainda não reivindicado na história do imperialismo. A partir daquele momento, a redivisão do mundo ficou, na prática, ligada à colocação de toda a extensão do antigo Estado soviético sob controle imperialista: suas terras, sua energia, seus minerais, sua mão de obra e sua posição estratégica que abrange a Eurásia.

31. Esse objetivo tem estado no centro da política americana e europeia há trinta e cinco anos. Ele foi codificado já nas Orientações de Planejamento de Defesa de 1992, que definiram a prevenção do surgimento de qualquer novo rival no continente eurasiano como o primeiro objetivo da estratégia americana, e foi teorizado abertamente na literatura geopolítica, que identificou o controle da periferia pós-soviética — sobretudo da Ucrânia — como a chave para a primazia mundial. Isso se concretizou na marcha da OTAN para o leste, por meio de cinco expansões até as fronteiras da Rússia [4]; na destruição militar e na partilha da Iugoslávia, a primeira guerra na Europa desde 1945, que serviu de modelo para a intervenção imperialista “humanitária”; e na orquestração em série de “revoluções coloridas” nas ex-repúblicas soviéticas, culminando no golpe de 2014 em Kiev, que transformou a Ucrânia na base avançada da ofensiva para o leste.

Mapa mostrando a expansão da OTAN para o leste desde 1949 (Crédito: Wikimedia) [Photo by Patrickneil / CC BY-NC-SA 4.0]

32. A guerra que eclodiu em 2022, apesar do caráter reacionário da resposta do regime de Putin à provocação da OTAN, é o ponto culminante de toda essa trajetória. Seu objetivo, agora declarado com crescente franqueza no discurso estratégico ocidental na linguagem da “derrota estratégica” e da “descolonização”, é a desintegração da Federação Russa.

33. A segunda motivação estratégica decorreu da eliminação do contrapeso soviético no resto do mundo. A política stalinista soviética nos países coloniais e menos desenvolvidos nunca teve um caráter genuinamente anti-imperialista. O Kremlin apoiou os movimentos nacionais de autodeterminação no “Terceiro Mundo” como forma de enfraquecer a pressão imperialista sobre a URSS. O Kremlin nunca apoiou, muito menos incentivou, a revolução socialista além das fronteiras da União Soviética.

34. No entanto, por mais cinicamente que o Kremlin os tenha utilizado e manipulado em prol da política externa stalinista, a existência da URSS proporcionou um certo grau de segurança — diplomática, militar e econômica — a toda uma camada de regimes nacionalistas burgueses no antigo mundo colonial, cuja margem de manobra dependia da capacidade de manter um equilíbrio entre os blocos imperialista e stalinista. O desaparecimento da URSS eliminou qualquer restrição à violência imperialista direta contra eles.

35. A Guerra do Golfo de 1990–91, desencadeada em meio ao processo de dissolução da União Soviética, deu início à era das “guerras eternas”. Em um informe apresentado a um Congresso Extraordinário da Workers League (antecessora do Partido Socialista pela Igualdade nos EUA), em agosto de 1990 — convocado em resposta à iminente invasão do Iraque pelos Estados Unidos e por uma coalizão de potências imperialistas —, afirmei:

Essa aliança internacional contra o Iraque é uma expressão da essência histórica da crise do Golfo Pérsico. Ela marca o início de uma nova divisão imperialista do mundo. O fim da era do pós-guerra significa o fim da era pós-colonial. Ao proclamar o “fracasso do socialismo”, a burguesia imperialista, em atos, se ainda não em palavras, proclama o fracasso da independência. O aprofundamento da crise que afeta todas as principais potências imperialistas as obriga a garantir o controle sobre recursos e mercados estratégicos. As ex-colônias, que haviam alcançado um certo grau de independência, devem ser subjugadas novamente. Em seu ataque brutal contra o Iraque, o imperialismo está deixando claro que pretende restaurar o tipo de dominação irrestrita sobre os países atrasados que existia antes da Segunda Guerra Mundial. [5]

Na Rodovia 80, ou “Rodovia da Morte”, veículos foram destruídos conforme as forças iraquianas recuaram do Kuwait durante a Operação Tempestade no Deserto. 8 de abril de 1991.

36. Todos os eventos subsequentes confirmaram essa análise. O Iraque foi submetido a um bloqueio e bombardeio permanentes ao longo da década de 1990 e destruído pela invasão em 2003. A Somália e a Iugoslávia foram atacadas; o Afeganistão ficou ocupado por vinte anos; a Líbia foi reduzida a escombros em 2011; a Síria foi consumida por uma década de guerra por procuração; o Iêmen foi submetido à fome; o Sudão foi desmembrado; e agora, em 2026, o Irã está sujeito a uma guerra aberta e ilimitada. Essas três décadas e meia de guerra ininterrupta, estendendo-se ao longo do arco que vai dos Balcãs ao Hindu Kush [6], constituem uma única campanha prolongada: a liquidação sistemática, Estado por Estado, de todos os obstáculos erguidos pelas revoltas revolucionárias e anticoloniais do século XX contra o domínio direto do imperialismo nas regiões decisivas de produção de energia do mundo.

37. A guerra contra o Irã é o ponto culminante de toda essa trajetória de 35 anos. É também seu acerto de contas histórico. A punição pela arrogância está agora se impondo à própria arrogância. Planejado como a operação culminante do projeto pós-1991, o ataque de 28 de fevereiro — lançado em meio a negociações e iniciado com o assassinato de um chefe de Estado e de sua família — deveria demonstrar, de uma vez por todas, que nenhum Estado poderia resistir à aplicação concentrada do poder militar americano.

38. Cinco meses depois, o resultado é um grande revés estratégico. O Irã não se rendeu. O Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto do petróleo mundial, continua sendo uma zona de guerra em disputa. Os estoques de munições americanas estão esgotados; a estrutura de bases regionais tem sofrido ataques contínuos. E os próprios analistas estratégicos de Washington admitem agora que os Estados Unidos chegaram a um “beco sem saída estratégico”, incapazes de alcançar seus objetivos. Essa avaliação não deve ser interpretada como significando que o governo Trump não tentará encontrar uma saída para o atual impasse por meio de uma nova escalada, incluindo uma invasão do Irã. Mas uma ação tão monumentalmente imprudente apenas aumentaria a magnitude do desastre.

Embarcações comerciais no Estreito de Ormuz, nas proximidades de Bandar Abbas, no Irã, em 30 de junho de 2026. [AP Photo/Amirhosein Khorgooi]

39. O significado desse desastre, mesmo sem uma invasão, se estende muito além do Golfo Pérsico. A convicção que tem guiado a política americana desde 1991 — de que uma Pax Americana poderia ser imposta ao mundo por meio do exercício irrestrito do poder militar — revela-se uma ilusão. As primeiras vítimas das guerras intermináveis foram Estados isolados, empobrecidos e militarmente prostrados; e mesmo contra esses, três décadas e meia de guerra não produziram uma nova ordem mundial, mas sim ruínas. Contra o Irã, uma nação de noventa milhões de habitantes, a fórmula falhou completamente. Mas a ilusão era um reflexo ideológico de uma classe dominante que buscou, por meios militares, reverter o prolongado declínio de sua posição econômica. Precisamente por essa razão, o revés estratégico no Golfo não produzirá um recuo, mas uma escalada ainda maior e mais desesperada, dirigida contra a Rússia e a China — ou seja, a extensão da própria guerra mundial cuja frente este informe analisa.

40. Os Estados Unidos lideraram a nova cruzada imperialista. Mas essa nunca foi uma iniciativa exclusivamente americana. Conforme observou o informe de 1990,

Os estrategistas imperialistas do “Velho Mundo” acolhem com satisfação a oportunidade que Bush proporcionou para restaurar o domínio de estilo colonial. A intervenção americana é vista como o início de uma nova repartição do globo. É por isso que todos os Estados imperialistas estão tão ansiosos para participar da cruzada moderna contra o infiel iraquiano. Até mesmo os velhos canalhas mais flácidos estão contraindo suas barrigas e tentando vestir uniformes imperiais, que as circunstâncias os haviam obrigado a guardar no armário por décadas. [7]

41. Trinta e cinco anos depois, o conflito crescente com a China faz parte do mesmo contexto histórico. A China tornou-se um poderoso concorrente econômico dos Estados Unidos, e isso não pode ser tolerado por Washington. Mas a tensão é agravada pelo fato de que o enorme crescimento econômico da China não pode ser dissociado de sua história revolucionária. A Revolução de 1949, ela própria um produto da época inaugurada pela Revolução de Outubro, pôs fim a um século de partilha imperialista, expulsou o capital estrangeiro, unificou o país e criou — apesar da evolução subsequente sob o maoísmo e da restauração capitalista iniciada em 1978 — um Estado cujas origens residem na revolução anti-imperialista inspirada pela Revolução de Outubro. Sua capacidade de desenvolvimento é a herança direta dessa revolução.

42. A política americana inicialmente acolheu com satisfação a restauração do capitalismo na China como a incorporação de uma reserva ilimitada de mão de obra barata. Presumiu-se que a integração levaria à subordinação e, por fim — por meio de uma combinação de pressão econômica imperialista e do incitamento a conflitos linguísticos, étnicos e nacionais —, à desintegração da China.

Mao proclamando a República Popular da China, em 1949.

43. Toda a orientação estratégica dos últimos quinze anos — o “pivô”, a guerra comercial, o bloqueio tecnológico, a rede de alianças que vai do Quad ao AUKUS — foi impulsionada pela constatação de que essa suposição fracassou. O Estado capitalista chinês recusou o papel subordinado que lhe foi atribuído e, portanto, sua ascensão econômica se apresenta a Washington não como uma oportunidade de mercado, mas como um desafio capitalista rival à busca dos EUA pela hegemonia global que se seguiu à dissolução da URSS.

44. Isso não altera o fato de que a trajetória política do Partido Comunista Chinês (PCC), impregnada de nacionalismo, é fundamentalmente reacionária. O “socialismo com características chinesas” é uma contradição em termos. Por mais poderoso que seja seu desenvolvimento econômico, o destino da China será determinado pelo desfecho da luta de classes internacional, na qual as lutas da classe trabalhadora chinesa contra o regime capitalista dominante desempenharão um papel imenso. Sem uma revolução social que ponha fim ao domínio da oligarquia capitalista e estabeleça um verdadeiro Estado operário na própria China, o desenvolvimento econômico do país conduz inexoravelmente a uma guerra catastrófica com os Estados Unidos.

45. Talvez a característica mais marcante da situação atual seja o fato de que os líderes das principais potências imperialistas já não escondem sua convicção de que a guerra contra a China e a Rússia é inevitável e que a tarefa da arte de governar consiste em se preparar para ela. No auge da Guerra Fria, independentemente da realidade de seus preparativos, os chefes das principais potências falavam publicamente sobre evitar a guerra. O presidente Kennedy disse ao seu público na Universidade Americana, em junho de 1963, que “a guerra total não faz sentido” na era nuclear e proclamou a paz como “o fim racional necessário para homens racionais”.

46. O famoso discurso de Kennedy foi proferido menos de um ano depois que suas próprias políticas levaram à crise dos mísseis em Cuba e apenas cinco meses antes de seu assassinato. Tendo sido levado à beira de uma guerra termonuclear em outubro de 1962, talvez ele fosse sincero ao afirmar que tal desfecho “não faz sentido”. Mas a falha fundamental na conclusão de Kennedy era que ela partia do pressuposto de que o imperialismo era regido por uma racionalidade moralmente limitada que priorizava a sobrevivência. Se os governantes atuais parecem agir como loucos, é porque suas decisões são determinadas pelos interesses essencialmente irracionais de uma oligarquia corporativo-financeira obcecada pela luta necessariamente violenta pela redistribuição do mundo, dos mercados, das matérias-primas e das esferas de investimento, quaisquer que sejam as consequências.

47. Hoje, a frase que está na boca de todos em todas as capitais imperialistas é “preparação para a guerra”. O chanceler Merz disse ao público alemão: “Não estamos em guerra, mas também não estamos mais em paz”, palavras proferidas enquanto seu governo aprova um pacote de medidas de guerra para tornar o Estado, a economia e a sociedade “à prova de crises”, e enquanto seu ministro da Defesa aponta 2029 como o ano em que a Alemanha deverá estar kriegstüchtig, pronta para a guerra. Merz, ex-presidente do conselho fiscal da BlackRock na Alemanha, não se pavoneia como o Kaiser Guilherme nem discursa com veemência como Adolf Hitler. Mas seus preparativos para a guerra contra a Rússia estão em continuidade histórica com os objetivos da política externa imperialista alemã que se estendem por mais de um século.

48. O ex-primeiro-ministro Keir Starmer anunciou, em junho de 2025, que o Reino Unido está “adotando a prontidão para a guerra como o objetivo central de nossas forças armadas” e se comprometeu a inovar “no ritmo de tempos de guerra”. O presidente Macron, ao anunciar a duplicação do orçamento militar francês, declarou que “desde 1945, a liberdade nunca esteve tão ameaçada” e instruiu seus cidadãos dizendo que “para ser livre neste mundo, é preciso ser temido; para ser temido, é preciso ser poderoso”.

Da esquerda para a direita: o chanceler alemão Friedrich Merz, o presidente francês Emmanuel Macron, o primeiro-ministro britânico Keir Starmer e a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni chegando ao Palácio do Eliseu, em Paris, para uma conferência sobre a crise no Estreito de Ormuz, em 17 de abril de 2026. [AP Photo/Jeanne Accorsini]

49. Em seu discurso de Ano-Novo, em janeiro deste ano, ele declarou às Forças Armadas que “estamos prontos” e que a década de rearmamento francês havia “dado frutos”. Em julho, Macron já proclamava a disposição da França de lutar “mesmo que isso custe nosso sangue”. Ao ler essas palavras, perguntamo-nos: “de onde vem essa loucura? Será que eles acreditam mesmo no que dizem?”. Não se trata de cálculos confidenciais dos chefes do Estado-Maior, vazados para a imprensa ou reconstruídos por historiadores após uma catástrofe militar. São discursos públicos de chefes de governo, dirigidos às suas próprias populações, e seu objetivo é acostumar essas populações à guerra que está sendo travada sobre suas cabeças e contra sua vontade.

50. A febre da guerra também não se limita aos antigos centros imperialistas. O agravamento do conflito mundial arrasta as potências regionais cada vez mais profundamente para seu turbilhão, e nenhuma de forma mais agressiva do que a Turquia. Com o maior exército de terra da OTAN europeia e uma indústria de armamentos em rápida expansão, o governo de Erdoğan interveio militarmente na Síria, na Líbia e no Cáucaso do Sul, ampliou sua influência econômica e militar na África e agora se apresenta como um árbitro indispensável da crise mundial — mantendo canais de comunicação entre Moscou e Kiev, oferecendo seus serviços como mediador na guerra contra o Irã, mesmo enquanto as instalações da OTAN em İncirlik, Konya e Kürecik servem como centros de preparação e inteligência do ataque dos EUA e de Israel, e sediando a cúpula da OTAN deste mês de julho em Ancara, na qual Erdoğan proclamou a Turquia como “não apenas um país anfitrião, mas um aliado fundamental”.

51. Essa intervenção cada vez mais intensa na política global não expressa força, mas sim a impossibilidade da neutralidade: a propagação metastática da guerra obriga a burguesia de todas as potências regionais a disputar um lugar na redivisão do mundo, para não se tornar ela própria objeto dessa redivisão. E, como em todos os lugares, a projeção externa do poder militar está indissociavelmente ligada à repressão interna — a prisão de líderes da oposição, a opressão de décadas da população curda e a perseguição sistemática da oposição antiguerra e socialista.

52. Ao nos reunirmos em agosto de 2026, há guerras sendo travadas nos cinco continentes: na Europa, na Ásia, na África e, por meio da operação venezuelana — com sua extensão em direção a Cuba e a consequente militarização do Caribe —, na América do Norte e do Sul. Embora ainda não estejam envolvidos em conflitos militares, o México, o Canadá, os Estados Unidos e a Groenlândia estão testemunhando uma escalada maciça de conflitos econômicos e políticos que ameaça se transformar em guerra.

53. Portanto, a terceira guerra mundial não é uma hipótese sobre o futuro. É uma descrição do presente. O alerta da declaração de 2020 de que a luta contra a guerra estaria no centro da década que se iniciava se confirmou. A guerra não é uma aberração imposta a uma economia saudável dos EUA. É uma consequência política das próprias contradições da economia. A declaração de 2020 identificou os índices objetivos de colapso. Seis anos e meio depois, todos os índices se agravaram ainda mais.

IV. A base econômica

54. No final de 2020, a dívida federal bruta situava-se em aproximadamente US$ 27,7 trilhões. Em 7 de janeiro de 2026, ela havia atingido US$ 38,43 trilhões — US$ 10,73 trilhões a mais do que cinco anos antes —, crescendo ao longo do ano anterior a uma taxa média de US$ 8,03 bilhões por dia, US$ 334 milhões por hora ou cerca de US$ 93.000 por segundo. Em junho de 2026, o total era de US$ 39,5 trilhões, e o ano fiscal de 2026 está a caminho de fechar perto de US$ 40 trilhões. A dívida cresceu, assim, cerca de US$ 12 trilhões, ou mais de 40%, em cinco anos e meio, com um novo trilhão de dólares sendo adicionado aproximadamente a cada cinco meses. O Comitê para um Orçamento Federal Responsável projeta que a dívida ultrapassará US$ 53 trilhões, ou 120% do PIB, até 2035.

55. No ano fiscal de 2020, os gastos líquidos com juros foram de aproximadamente US$ 345 bilhões, com a taxa média de juros da dívida negociável em torno de 1,5%. Desde então, os juros líquidos quase triplicaram. A taxa média sobre a dívida negociável situa-se agora em 3,36%, e o Escritório de Orçamento do Congresso prevê que os juros líquidos consumirão 13,85% de todos os gastos federais no ano fiscal de 2026, subindo para 14,52% até o ano fiscal de 2028. Ao ler esses números, questiona-se por que o ministro das Finanças francês Necker ficou tão preocupado com a dívida francesa em 1788. Comparado a isso, aquilo foi um exemplo de extrema frugalidade. Os pagamentos anuais de juros, que atingiram quase US$ 1 trilhão em 2025, devem chegar a US$ 1,8 trilhão até 2035. Os juros da dívida agora excedem o orçamento militar — um sintoma clássico da decadência fiscal do império.

A evolução da dívida federal dos EUA. [Photo: FRED]

56. O déficit em bens e serviços em 2020 foi de US$ 678,7 bilhões. Em 2025, esse valor chegou a US$ 901,5 bilhões — composto por um déficit em bens de US$ 1,24 trilhão, parcialmente compensado por um superávit em serviços de US$ 339,5 bilhões. A importância não reside apenas no nível, cerca de um terço superior ao de 2020, mas no fracasso comprovado da ofensiva tarifária: apesar do regime tarifário agressivo do governo Trump, o déficit de 2025 diminuiu apenas 0,2%, ou US$ 2,1 bilhões, em relação a 2024. Notavelmente, o maior déficit comercial é agora com a União Europeia (US$ 218,8 bilhões), superando os déficits com a China (US$ 202,1 bilhões) e o México (US$ 196,9 bilhões) — um dado diretamente relevante para a intensificação do conflito comercial entre os EUA e a UE.

57. O déficit do ano fiscal de 2020, de US$ 3,1 trilhões, foi extraordinário — resultado das medidas de emergência adotadas durante a pandemia. Mas déficits entre US$ 1,7 trilhão e US$ 1,9 trilhão passaram, desde então, a ser a norma permanente em tempos de paz. Estima-se que o déficit aumente de US$ 1,7 trilhão em 2025 para US$ 2,6 trilhões em 2035, com déficits acumulados de US$ 22,7 trilhões ao longo da próxima década. As projeções de longo prazo do Escritório de Orçamento do Congresso (CBO) mostram déficits com média de 7,2% do PIB nas próximas três décadas, com a dívida pública aumentando de 100% do PIB em 2026 para 175% até 2056. É evidente que isso é insustentável.

58. O ouro registrou uma média de aproximadamente US$ 1.770 por onça em 2020, fechando o ano perto de US$ 1.895. Em 30 de julho de 2026, ele era negociado a cerca de US$ 4.080 por onça — um aumento de 24% somente no último ano — e vem batendo recordes de alta repetidamente, com alta de mais de 25% desde o início de 2025. O preço do ouro, portanto, mais que dobrou desde 2020: um veredicto inequívoco do mercado mundial sobre o dólar e sobre os ativos financeiros em geral. O World Gold Council relatou uma demanda global recorde por ouro em 2025, impulsionada sobretudo pelas compras dos bancos centrais — a expressão concreta da desdolarização.

59. O dólar desvalorizou-se cerca de 10% em relação às principais moedas ao longo do último ano, com uma queda adicional de 1,2% somente em janeiro de 2026. Sua participação nas reservas cambiais globais, de cerca de 59% em 2020, caiu para 56,9% no terceiro trimestre de 2025 — o nível mais baixo desde 1995 e muito abaixo de seu pico de 72% registrado em 2001. O congelamento, em 2022, de US$ 300 bilhões em ativos do Banco Central da Rússia revelou-se um divisor de águas, alterando fundamentalmente o cálculo de risco dos gestores de reservas em todo o mundo e acelerando a diversificação para o ouro e ativos não denominados em dólar, enquanto o Sistema de Pagamentos Interbancários Transfronteiriços da China (CIPS) agora conecta participantes em 117 países.

60. O declínio econômico do capitalismo americano é indissociável do enriquecimento astronômico da oligarquia financeira que o comanda. De acordo com dados do Federal Reserve publicados em janeiro, a parcela da riqueza nacional detida pelo 1% mais rico dos americanos atingiu 31,7% no terceiro trimestre de 2025 — o nível mais alto já registrado —, enquanto os 10% mais ricos detêm mais de 68% e a metade mais pobre da população, apenas 2,5%. Globalmente, a riqueza dos bilionários cresceu em 2025 a uma taxa três vezes maior do que a média dos cinco anos anteriores, atingindo um recorde de US$ 18,3 trilhões — um aumento de 81% desde a publicação do relatório de 2020. O número de bilionários agora ultrapassa 3.000, e suas fortunas combinadas equivalem a 14% do PIB mundial, contra 2,5% em 1990. A riqueza da oligarquia cresceu em paralelo com a eclosão de guerras imperialistas ao longo de trinta e cinco anos, das quais ela é tanto a força motriz quanto a beneficiária.

61. Em conjunto, os números não retratam uma dificuldade cíclica, mas sim uma condição estrutural: um Estado que acumula um trilhão de dólares em dívida a cada cinco meses, aproximadamente; o serviço da dívida devorando um sétimo do orçamento federal; um déficit comercial imune a medidas protecionistas; uma moeda que perde tanto o valor de câmbio quanto o status de reserva; o ouro — a medida última de valor — registrando um voto de desconfiança em toda a estrutura de crédito denominada em dólares; e, presidindo a tudo isso, uma oligarquia financeira cuja parcela da riqueza nacional atingiu o nível mais alto já registrado.

62. Esses números refletem não apenas uma distribuição de riqueza, mas uma forma de governo. O Estado americano contemporâneo é, em sua essência, oligárquico. O relatório da Oxfam de janeiro de 2026, apropriadamente intitulado “Resistindo ao Domínio dos Ricos”, documenta que bilionários têm 4.000 vezes mais chances de ocupar cargos políticos do que outros cidadãos; que um em cada seis dólares gastos nas eleições americanas de 2024 veio de apenas 100 famílias bilionárias; que o gabinete de Trump, com uma riqueza combinada superior a US$ 7 bilhões, é o mais rico da história dos Estados Unidos; e que o presidente usou seu cargo para aumentar sua fortuna pessoal em mais de US$ 1 bilhão em um único ano. Mais da metade das maiores empresas de mídia do mundo e oito das dez principais empresas de IA são controladas por bilionários. [8]

Jantar na Casa Branca com Trump e os oligarcas do setor de tecnologia. [Photo: White House]

63. A caracterização que Marx fez do Estado como um comitê para administrar os assuntos comuns da burguesia adquiriu uma exatidão quase literal. O governo dos Estados Unidos funciona como instrumento direto de uma aristocracia corporativo-financeira, e a destruição das formas democráticas, a tendência à ditadura e o recurso à guerra são os métodos políticos necessários para a defesa de sua riqueza contra a classe trabalhadora. No futuro, quando esses dados forem examinados, registrados e estudados, a inevitabilidade de uma revolução parecerá tão óbvia aos historiadores. Todos escreverão: “Como isso não pôde ser percebido?” Mas, é claro, os historiadores não percebem isso, nem a vasta e esmagadora maioria dos comentaristas políticos.

64. Outro elemento crítico da crise econômica decorrente da vasta expansão do crédito e da dívida é o crescimento do capital fictício, que agora se concentra na mania especulativa em torno do que a classe dominante chama de “inteligência artificial”. O WSWS rejeita esse termo, preferindo o de inteligência aumentada. A tecnologia não é nem uma inteligência artificial nem uma inteligência alienígena. É a objetificação do trabalho intelectual humano acumulado, e a terminologia predominante, assim como o fetiche da mercadoria analisado por Marx, apresenta o próprio produto social da humanidade como um poder autônomo que se ergue acima dela.

65. Mas o significado dessa tecnologia se estende muito além das fortunas dos especuladores. Conforme desenvolvido nas palestras proferidas no final do ano passado em Berlim e Londres, a inteligência aumentada, ao expulsar o trabalho vivo — a única fonte de mais-valia — do processo produtivo em uma escala sem precedentes, mina objetivamente todo o sistema de valores no qual o capitalismo se baseia. Ela eleva a composição orgânica do capital a alturas inéditas, acelera a tendência de queda da taxa de lucro e avança em direção à condição prevista por Marx nos Grundrisse, na qual a produção fundamentada no valor de troca entra em colapso. Essa análise aprofundada não pode ser revisada aqui; mas ela define o quadro objetivo dentro do qual a mania especulativa deve ser situada.

66. Sob a propriedade capitalista, uma tecnologia de imenso potencial libertador tornou-se o veículo de uma bolha especulativa. Todo o edifício financeiro americano repousa agora sobre uma base extraordinariamente estreita: um punhado de monopólios tecnológicos. Três décadas de bolhas recorrentes, cada uma resgatada por uma expansão do crédito, resultaram em especulação conduzida sob condições nas quais os remédios tradicionais — expansão fiscal e flexibilização monetária — são limitados pela montanha de dívidas e pela própria fragilidade do dólar. Nessas condições, a classe dominante recorre à guerra como resposta à crise econômica. A guerra é a solução capitalista clássica para a crise de superprodução e superacumulação: a destruição física do capital, a apropriação de recursos e mercados — dos quais o petróleo venezuelano é o exemplo mais recente — e a disciplina da classe trabalhadora em condições de emergência nacional.

67. A transição para uma economia baseada na guerra está agora mais avançada na Europa. Na cúpula de Haia de 2025, a OTAN substituiu sua meta em gastos militares de 2% por uma de 5% — 3,5% para o núcleo militar e mais 1,5% para infraestrutura relacionada à guerra —, e na cúpula de Ancara, em julho deste ano, os Estados-membros apresentaram seus planos de cumprimento. Os Estados Bálticos e a Polônia já gastam entre 4% e 5%.

68. A Alemanha aprovou o maior orçamento de rearmamento da história da República Federal. Suspendeu seu freio constitucional à dívida para despesas militares, comprometeu-se a atingir a meta principal de 3,5% seis anos antes do cronograma da aliança, traçou rumo para gastos relacionados à guerra superiores a 200 bilhões de euros por ano e proclamou abertamente o objetivo de formar o exército convencional mais forte da Europa.

69. Desde janeiro, todos os alemães de 18 anos têm recebido um questionário sobre aptidão militar. A partir de julho de 2027, o exame médico se tornará obrigatório para a primeira turma de homens, com um mecanismo legal para o alistamento obrigatório total caso o recrutamento voluntário seja insuficiente. Nos Estados Unidos, o registro automático de todos os homens de 18 a 26 anos para fins de recrutamento militar, previsto para entrar em vigor em dezembro, prepara o mesmo mecanismo.

70. A situação mundial não pode ser avaliada apenas com base em fatos objetivos; é preciso também examinar a consciência das classes que atuam nela. A edição de julho-agosto da revista *Foreign Affairs*, órgão do Conselho de Relações Exteriores, pergunta em sua capa: “Quem vencerá a próxima guerra?” O principal órgão teórico do imperialismo americano dedicou uma edição inteira não à questão de saber se ocorrerá uma guerra entre grandes potências, muito menos como ela poderia ser evitada, mas sim sobre quem a vencerá. O debate permitido varia entre aqueles que gostariam de travar a próxima guerra mais cedo e aqueles que gostariam de travá-la mais bem preparados; a posição de que ela não deveria ser travada não está presente. A classe dominante internalizou a terceira guerra mundial como sua hipótese de trabalho.

V. A radicalização da classe trabalhadora e a crise de direção

71. A lição central do período de 1914 a 1945 tem implicações diretas para o presente. A guerra mundial e a revolução social são fases interligadas de uma única crise. A Primeira Guerra Mundial gerou, em três anos, a maior onda revolucionária da história. A Segunda Guerra Mundial gerou as convulsões de 1943–1948, que só foram contidas pelos esforços conjuntos do imperialismo e do stalinismo. E, é claro, os grandes movimentos anticoloniais que persistiram ao longo das décadas de 1950, 1960 e até a década de 1970 foram, em si mesmos, as repercussões da Segunda Guerra Mundial e da onda revolucionária.

72. A guerra total exige a mobilização total da classe trabalhadora, desencadeando um processo de radicalização social e política, como ocorreu em 1917 e durante os últimos anos e o período posterior à Segunda Guerra Mundial. Os governantes do período atual conhecem essa história. Ela está enraizada na memória institucional de todo Estado capitalista. A classe dominante é assombrada pelas consequências revolucionárias da guerra imperialista que começou em 1914. Como escreveu o historiador de direita Sean McMeekin no centenário da Revolução de Outubro: “Assim como as armas nucleares, fruto da era ideológica inaugurada em 1917, o triste fato sobre o leninismo é que, uma vez inventado, ele não pode ser desinventado.” [9]

Uma sessão do Soviete dos Soldados de Petrogrado durante a Revolução de 1917.

73. A propagação metastática da guerra imperialista encontra seu antípoda dialético na expansão global da luta de classes. Seu crescimento prossegue, nos termos que Trotsky aplicou ao amadurecimento da consciência revolucionária, de forma molecular, sob a superfície da política oficial, em milhões de experiências individuais de exploração, guerra e violência de Estado que se acumulam silenciosamente até encontrarem expressão coletiva com uma força que pega todos os governos de surpresa. Enquanto a guerra divide o mundo em frentes, a luta de classes o une.

74. A unificação internacional da classe trabalhadora foi prevista no relatório de abertura do 13º Congresso Nacional da Workers League [então seção americana do Comitê Internacional, predecessora do SEP], em 30 de agosto de 1988:

Prevemos que a próxima etapa das lutas proletárias se desenvolverá inexoravelmente, sob a pressão combinada de tendências econômicas objetivas e da influência subjetiva dos marxistas, seguindo uma trajetória internacionalista. O proletariado tenderá cada vez mais a se definir na prática como uma classe internacional; e os internacionalistas marxistas, cujas políticas são a expressão desse processo orgânico, cultivarão esse processo e lhe darão forma consciente. [10]

75. Em 1988, a integração global da produção estava, em comparação com sua escala atual, em sua infância. A corporação transnacional estava apenas começando a substituir a forma mais antiga de organização multinacional. Nas quatro décadas desde então, esse processo foi levado até sua conclusão. A empresa multinacional do tipo mais antigo era, em essência, uma empresa nacional com operações no exterior — uma empresa americana, alemã ou japonesa que estabelecia subsidiárias no exterior, enquanto seus produtos mantinham um caráter nacional identificável. Esse mundo não existe mais. A produção foi reorganizada como um único processo globalmente integrado e, no decorrer dessa reorganização, a própria mercadoria foi despojada de sua identidade nacional.

76. Hoje em dia, não existe mais algo como um carro americano, uma peça de máquina alemã, um telefone coreano ou um computador chinês. O veículo montado em Michigan contém semicondutores fabricados em Taiwan sobre fatias de silício japonesas, produzidas por máquinas de litografia holandesas, chicotes elétricos de Ciudad Juárez e Honduras, terras raras refinadas na China, software escrito em Bangalore e Seattle e alumínio fundido a partir de bauxita da Guiné. O rótulo de origem, que antes designava a proveniência nacional de um produto, tornou-se uma ficção econômica. O que ele oculta é o fato essencial: toda mercadoria significativa é agora o produto de um processo produtivo mundial composto por redes complexas de produção, incorporando o trabalho combinado de trabalhadores de todos os continentes.

Contêineres no porto de Guangzhou, na província chinesa de Guangdong, em 17 de abril de 2025. [AP Photo/Ng Han Guan]

77. O que predomina hoje é a própria organização da produção além das fronteiras nacionais — um processo contínuo e interdependente no qual nenhum segmento nacional é autossuficiente ou mesmo coerente por si só. A fábrica, na verdade, se estendeu por todo o planeta. O trabalhador em Guangdong, o trabalhador em Stuttgart, o trabalhador em São Paulo e o trabalhador em Detroit não produzem meramente coisas semelhantes em paralelo; eles trabalham em diferentes etapas de um mesmo processo, em um mesmo produto.

78. A burguesia tirou dessa transformação suas próprias conclusões: que os recursos, os mercados e as rotas de abastecimento de todo o mundo são interesses nacionais vitais, a serem garantidos pela força. Mas a classe trabalhadora está sendo levada pela mesma transformação à conclusão oposta.

79. As cadeias globais de suprimentos, os sistemas de comunicação e as redes integradas de produção são as artérias por meio das quais os trabalhadores de todos os continentes descobrem que enfrentam os mesmos bancos, as mesmas corporações e os mesmos governos.

80. A base humana dessa confluência é a escala historicamente sem precedentes da classe trabalhadora internacional. Segundo cálculos das organizações internacionais de trabalhadores, a força de trabalho global conta hoje com cerca de três bilhões e meio de seres humanos, a maior força social já reunida na história, e a maioria da humanidade vive agora nas cidades, um limiar ultrapassado pela primeira vez neste século.

81. Somente a classe trabalhadora industrial da Ásia é muitas vezes maior do que todo o proletariado mundial de 1917. A classe trabalhadora da China, da ordem de três quartos de bilhão, é a maior da história do mundo. As greves gerais na Índia mobilizaram repetidamente mais de 200 milhões de trabalhadores em um único dia, as maiores ações coletivas já realizadas pela humanidade. Em A Sagrada Família, em uma passagem à qual o CIQI tem voltado repetidamente, Marx e Engels estabeleceram a lei que rege a relação entre essa massa e sua tarefa histórica: “Com a profundidade da ação histórica aumentará, portanto, o volume da massa de quem ela constitui a ação.” [11] Em termos políticos, essa percepção é tão importante quanto a fórmula de Einstein E = mc².

82. A proposição também pode ser interpretada de forma inversa, e é nessa interpretação inversa que emerge todo o seu significado para a nossa época. A dimensão da massa que agora está sendo mobilizada é, por si só, a medida da profundidade da ação histórica que se aproxima. Uma força social de três bilhões e meio de pessoas, concentrada nas cidades, unida pelo aparato produtivo mais integrado já criado e confrontada simultaneamente com a guerra mundial, a ditadura e a miséria social, não está sendo mobilizada pela história para um protesto. Está sendo mobilizada para a transformação social mais profunda já empreendida: a revolução socialista mundial.

83. A radicalização da classe trabalhadora, que a Perspectiva de 2020 identificou como a tendência decisiva da década, está claramente em andamento. A declaração tomou como ponto de partida a onda global de 2018–2019 — os coletes amarelos, as revoltas massivas do Chile ao Sudão, a retomada das greves nos Estados Unidos. Os seis anos e meio subsequentes confirmaram essa trajetória em escala cada vez maior.

84. A pandemia, que ceifou mais de trinta milhões de vidas por meio da política deliberada de infecção em massa, expôs da forma mais cruel a subordinação da própria vida ao lucro e desencadeou ondas de greves em todos os continentes. As lutas contra a reforma previdenciária na França, as ondas de greves no Reino Unido, as greves nos setores automotivo, de logística e de saúde nos Estados Unidos, as greves gerais em toda a Europa do Sul e no Sul da Ásia, mais de dois anos de manifestações contra o genocídio em Gaza e os três protestos “No Kings” — as maiores manifestações em um único dia da história americana — formam uma única curva ascendente. Após um tabu de oitenta anos, o socialismo está ressurgindo nos próprios Estados Unidos, ainda que de forma distorcida, canalizado pelos Socialistas Democráticos da América de volta ao Partido Democrata, mas expressando uma mudança de consciência que nenhum aparato pode conter permanentemente.

Pessoas reunidas no protesto “No Kings” em Portland, no estado de Oregon, em 18 de outubro de 2025. [AP Photo/Jenny Kane]

85. Na América do Norte, a classe declarada morta como força social voltou à luta em todos os setores — as rebeliões na Amazon e na UPS, as greves espontâneas em Matamoros que anunciaram a entrada de uma classe trabalhadora integrada em todo o continente como uma única força. Dentro dos sindicatos, rejeições de acordos coletivos acima de 90% e a resposta à campanha de Will Lehman à presidência do UAW registram uma revolta contra a própria burocracia. Esse despertar está se desenrolando no próprio centro do imperialismo mundial, dentro da classe trabalhadora cuja subserviência a hegemonia americana pressupõe, e está fundindo a luta econômica e política em uma única corrente.

86. Na África, a classe trabalhadora mais jovem e de crescimento mais rápido do planeta está emergindo como um fator revolucionário de dimensões históricas mundiais. As greves gerais na Nigéria, a revolta da juventude queniana que invadiu o parlamento e os movimentos grevistas da classe trabalhadora sul-africana são as primeiras ações de uma classe que estará no centro da revolução mundial do século XXI.

87. Na Rússia e na China, o cerco imperialista e as provocações estão despertando a memória histórica cuja supressão sustenta ambas as oligarquias. Na Rússia, os trabalhadores lotam as listas de vítimas de uma guerra travada para defender os bens soviéticos saqueados; o regime condena Lenin porque teme a conclusão que os trabalhadores tirarão de 1917. Na China, um Estado cujo orçamento de segurança interna rivaliza com seus gastos militares atesta quem é o principal inimigo do PCC. Os movimentos que se aproximam em ambos os países não serão revoluções coloridas organizadas a partir de Washington. Eles serão dirigidos tanto contra o imperialismo quanto contra as oligarquias nacionais e encontrarão suas respostas na herança defendida pela Quarta Internacional contra o stalinismo.

88. O que se interpõe entre esse movimento e sua expressão política é a crise da direção revolucionária. O CIQI nunca sustentou que o problema da direção se resolve automaticamente. Os movimentos de massas permanecem politicamente capturados. Os protestos “No Kings” foram canalizados de volta para o Partido Democrata, o partido da guerra. As burocracias sindicais atuam cada vez mais abertamente como a polícia industrial da economia de guerra.

89. A AFL-CIO, com seus milhões de membros, não emitiu nenhuma declaração sobre a guerra no Irã. O presidente do UAW invoca o velho mito imperialista do “Arsenal da Democracia” da Segunda Guerra Mundial como seu modelo. O aparato que ele lidera sabota votações de greve, impõe acordos rejeitados em votações nas quais mais de 90% dos participantes votaram contra e responde à oposição da base, como documentou detalhadamente a experiência da campanha de Will Lehman e suas batalhas judiciais, com censura, eleições fraudadas e intimidação, precisamente porque a aliança da burocracia com o Estado e os empregadores não pode mais ser defendida perante os filiados por meio de argumentos.

90. A Aliança Operária Internacional de Comitês de Base foi fundada em 2021 com a perspectiva de transferir o poder das burocracias para os próprios trabalhadores.

VI. Conclusão

91. A declaração de 2020 avaliou as tendências de desenvolvimento da nova década: a eclosão do militarismo imperialista rumo a uma terceira guerra mundial; o colapso da economia mundial capitalista; o desmoronamento da democracia burguesa e a tendência para o regime autoritário; e a radicalização internacional da classe trabalhadora, diante de uma crise de direção revolucionária. Na metade da década, cada uma dessas tendências se afirmou com uma força que excedeu as próprias formulações da declaração.

92. O conflito atual, em termos históricos, é o terceiro ato de um drama que teve início em 1914. O imperialismo americano entrou na guerra europeia em abril de 1917 com o objetivo de reorganizar o planeta sob sua hegemonia, e, por sete décadas, esse projeto foi interrompido pela Revolução de Outubro e suas consequências históricas mundiais. A dissolução da URSS em 1991 foi recebida como a remoção do obstáculo e a autorização para concluir o projeto, recriando o mundo como se a Revolução de Outubro nunca tivesse ocorrido.

93. Se a guerra é, em sua essência, a continuação da luta secular do imperialismo contra a revolução socialista, então a luta contra a guerra é, e só pode ser, a retomada dessa revolução. Ela não pode assumir a forma da defesa de nenhum Estado nacional, nem da restauração de uma “ordem baseada em regras” que era, ela própria, um instrumento do projeto contrarrevolucionário, nem da política de pressão da pseudoesquerda. Exige a mobilização política independente da classe trabalhadora internacionalmente em torno de um programa de revolução socialista.

94. Uma perspectiva é um instrumento de luta. Sua publicação, sua verificação e sua defesa são, por si só, momentos na resolução da crise de direção, que não se resolve apenas por processos objetivos, mas pela construção consciente do partido revolucionário no âmbito desses processos. As contradições analisadas neste informe assumem um caráter cada vez mais explosivo, o que confere à luta pela direção revolucionária seu caráter crítico e inadiável.

95. A metástase da guerra imperialista e a confluência da luta de classes mundial não são dois processos, mas um só: a mesma crise, vista sob os pontos de vista das duas classes em conflito, cujo confronto determinará qual dos dois desfechos possíveis da época prevalecerá. Há quase noventa anos, às vésperas da segunda guerra imperialista, Trotsky definiu a essência da época no documento fundador da Quarta Internacional: a crise histórica da humanidade resume-se à crise da direção revolucionária.

Leon Trotsky.

96. A Quarta Internacional é um partido da história. Do ponto de vista do marxismo, isso significa que a perspectiva e a prática do partido estão enraizadas e são definidas por uma concepção da natureza da época histórica. As tarefas do partido só podem ser determinadas corretamente na medida em que ele situe conscientemente os eventos no contexto de toda a época histórica. O desafio teórico e político fundamental que o movimento revolucionário enfrenta é situar corretamente o desenvolvimento da luta de classes na trajetória histórica da época de guerra e revolução.

97. A Perspectiva publicada em 3 de janeiro de 2020 não foi fruto de uma percepção repentina. Na escola de verão internacional do Partido Socialista pela Igualdade, realizada em agosto de 2019, fizemos uma ampla revisão da história do Comitê Internacional. No decorrer dessa revisão, identificamos cinco fases na história do movimento trotskista.

98. A primeira fase abrangeu um período de 15 anos, desde a fundação da Oposição de Esquerda sob a liderança de Trotsky em 1923 até o congresso de fundação da Quarta Internacional em 1938. A segunda fase abrangeu o período desde o congresso de fundação até a divisão histórica na Quarta Internacional — a ruptura com os revisionistas pablistas — em novembro de 1953. A terceira fase estendeu-se desde a fundação do Comitê Internacional até a ruptura com o Workers Revolutionary Party (WRP) em 1985-86. Ela foi marcada pela prolongada luta contra a influência maligna da teoria e da política pablistas sobre e dentro da Quarta Internacional. A quarta fase se estendeu desde a conclusão da ruptura com o WRP, em fevereiro de 1986, até a escola de verão de 2019. Essa fase concentrou-se no restabelecimento e no desenvolvimento da herança do movimento trotskista e das lições extraídas da experiência anterior na época da revolução socialista mundial.

99. A escola identificou 2019 como o início da quinta fase na história do movimento trotskista. É claro que esse ponto de partida tinha um caráter um tanto aproximado. Ele não se identificava com um único evento crítico, como foi o caso em 1923, 1938, 1953 e 1985-86. No entanto, a identificação de uma nova fase na história do movimento trotskista não teve caráter arbitrário. No verão de 2019, já havia ficado suficientemente claro que se havia alcançado um novo estágio da crise global; e que isso afetaria profundamente o papel do Comitê Internacional nas lutas da classe trabalhadora.

100. O informe inicial da Escola do SEP de 2019 afirmou que a nova quinta fase na história do movimento trotskista

testemunhará um vasto crescimento do CIQI como Partido Mundial da Revolução Socialista. Os processos objetivos da globalização econômica, identificados pelo Comitê Internacional há mais de trinta anos, passaram por um desenvolvimento colossal. Combinados com o surgimento de novas tecnologias que revolucionaram as comunicações, esses processos internacionalizaram a luta de classes a um grau que seria difícil de imaginar até mesmo há vinte e cinco anos. O Comitê Internacional da Quarta Internacional será construído como a direção política consciente desse processo socioeconômico objetivo. Ele oporá à política capitalista da guerra imperialista a estratégia de classe da revolução socialista mundial. Esta é a nova fase na história da Quarta Internacional. [12]

101. O desafio que se coloca a este congresso é avançar no alinhamento da prática do partido com suas concepções interligadas da quinta fase da Quarta Internacional e do ressurgimento da luta de classes revolucionária.

102. O que esse alinhamento significa na prática? Significa, acima de tudo, a construção do partido na classe trabalhadora. A análise apresentada neste informe não é um comentário sobre os acontecimentos, mas um guia para a intervenção neles. A radicalização da classe trabalhadora, em andamento em todos os continentes, coloca a questão da direção; e a questão da direção se resolve de uma única maneira — por meio da construção do partido revolucionário no seio das próprias lutas da classe trabalhadora.

103. Fundamental para essa tarefa é a expansão do trabalho da Aliança Operária Internacional de Comitês de Base. Os comitês de base devem ser construídos, em primeiro lugar, como instrumentos da luta de classes: órgãos por meio dos quais os trabalhadores formulam suas reivindicações, coordenam suas ações entre locais de trabalho, setores e fronteiras nacionais e rompem o isolamento imposto a cada luta pelo aparato oficial. Devem ser construídos, em segundo lugar, como centros de organização de uma insurgência antiburocrática — os instrumentos pelos quais a base arranca o poder das burocracias corporativistas e assume o comando de suas lutas. E devem ser construídos, em terceiro lugar, como algo mais do que organizações defensivas: devem ser formas antecipatórias de autêntica democracia operária e poder operário. Ao criá-las, a classe trabalhadora não se limita a resistir à ordem existente; ela começa a se constituir como a futura classe dominante, desenvolvendo em embrião os órgãos por meio dos quais reorganizará a vida social, econômica e política.

104. A construção do partido na classe trabalhadora é indissociável da expansão da Juventude e Estudantes Internacionais pela Igualdade Social (JEIIS). Cerca de 38–39% da população dos EUA tem menos de 30 anos — aproximadamente 128–130 milhões de pessoas de um total de cerca de 340 milhões. Isso inclui aproximadamente 22% com menos de 18 anos e outros 16–17% na faixa etária de 18 a 29 anos. O processo de radicalização social concentra-se com particular intensidade entre os jovens.

105. Pesquisa após pesquisa confirma que é entre a juventude que o sentimento pelo socialismo encontra sua expressão mais ampla — em uma geração que não conheceu nada além de guerra, crise econômica, pandemia e o crescimento implacável da desigualdade social, e que associa o capitalismo não à prosperidade e à democracia, mas à catástrofe. O ensino superior tornou-se um fenômeno de massas, mas milhões de jovens deixam os campi sobrecarregados com dívidas esmagadoras, hipotecando seus futuros pelo direito de serem explorados. Os estrategistas da burguesia estão plenamente conscientes desse desenvolvimento. Como o partido observou em declarações anteriores, os think tanks e os conselhos editoriais da classe dominante acompanham o movimento para a esquerda da juventude com ansiedade indisfarçável, reconhecendo nele uma ameaça mortal à estabilidade da ordem existente.

106. Além disso, são os jovens que serão arrastados para o turbilhão da guerra. À medida que a conflagração imperialista se alastrar, o serviço militar obrigatório será inevitavelmente colocado na agenda. A classe dominante, que em tempos “normais” não oferece aos jovens nada além de dívidas e precariedade, exigirá deles suas vidas na guerra. A luta contra o militarismo imperialista assumirá, portanto, importância crucial no trabalho da JEIIS. Nessa luta de vida ou morte, os jovens devem recorrer à classe trabalhadora, a única força social capaz de impedir a guerra, e basear-se na estratégia da revolução socialista internacional.

Estudantes se manifestando contra o genocídio em Gaza na Universidade de Michigan, em 28 de março de 2024.

107. Trotsky, no Programa de Transição, invocou o “entusiasmo renovado e o espírito agressivo” da juventude como um elemento indispensável para a revitalização do movimento revolucionário. Mas o partido não se baseia simplesmente nesse entusiasmo, por mais precioso que seja. O entusiasmo que não é educado se dissipa ou é mal direcionado. A tarefa da JEIIS é transformar o radicalismo instintivo dos jovens em convicção revolucionária consciente: educar estudantes e jovens trabalhadores teoricamente e politicamente, municiá-los com o conhecimento da história do movimento marxista e das experiências estratégicas da classe trabalhadora internacional e treiná-los como quadros da Quarta Internacional. Filiais da JEIIS devem ser construídas nos campi de todo o país. A JEIIS também não pode negligenciar seu trabalho entre os jovens do ensino médio, cuja radicalização é impulsionada pelas condições sociais que testemunharam desde os primeiros anos de suas vidas e que não devem ser abandonados à influência da pseudoesquerda ou aos recrutadores das forças armadas.

108. O crescimento do partido não é meramente quantitativo. O recrutamento deve ser acompanhado pela — e é, de fato, inseparável da — formação sistemática dos quadros. Os trabalhadores e os jovens radicalizados pela guerra, pela ditadura e pela desigualdade social só se transformarão em uma força revolucionária na medida em que assimilarem a experiência estratégica do movimento operário internacional, concentrada na história da Quarta Internacional. A teoria marxista não é um adorno da prática do partido. É o seu alicerce. Sem teoria revolucionária, não pode haver movimento revolucionário.

109. Isso assume particular importância em condições nas quais o crescimento dos sentimentos socialistas encontra uma expressão inicial e distorcida na expansão dos Socialistas Democráticos da América (DSA). O significado objetivo desse crescimento deve ser reconhecido: ele reflete um movimento para a esquerda das massas de trabalhadores e jovens e o colapso do tabu antissocialista que durou décadas. Mas reconhecimento não significa adaptação. Os DSA são uma organização pequeno-burguesa ligada programática e organizacionalmente ao Partido Democrata. Sua função é conter a radicalização da classe trabalhadora e da juventude e subordiná-la ao imperialismo americano. O Partido Socialista pela Igualdade não se adaptará a essa tendência nem a outros desvios pequeno-burgueses do socialismo revolucionário. De qualquer forma, nenhum desses partidos, muito menos os DSA, tem futuro. Eles não estão equipados nem preparados para as tempestades que se aproximam. O SEP lutará para conquistar para o trotskismo os trabalhadores e jovens recém-radicalizados por meio da explicação paciente das questões históricas e de classe e da crítica intransigente à política da pseudoesquerda e a todas as manifestações do imperialismo, incluindo tudo o que resta do stalinismo e sua influência ainda maligna no movimento operário internacional.

110. O SEP não esqueceu o alerta emitido pela Socialist Labour League (SLL) do Reino Unido, há quase 60 anos, quando ainda fazia parte do movimento trotskista e liderava a luta contra o oportunismo pablista. Opondo-se ao desvio da OCI — na época, a seção francesa do Comitê Internacional — em direção ao centrismo e ao oportunismo, a SLL advertiu:

Nessa fase de desenvolvimento [ou seja, nos estágios iniciais da radicalização da classe trabalhadora], há sempre o perigo de que um partido revolucionário responda à situação na classe trabalhadora não de maneira revolucionária, mas adaptando-se ao nível de luta ao qual os trabalhadores estão restritos por sua própria experiência sob as antigas lideranças, ou seja, à inevitável confusão inicial. [13]

111. Essas advertências se confirmaram, não apenas pelas traições subsequentes da OCI, mas também pelas da própria SLL. É precisamente nesse contexto que a história do partido adquire tamanha importância crítica. A luta travada pelo Comitê Internacional contra o revisionismo pablista foi, em sua essência, a luta contra a liquidação da independência política da classe trabalhadora em tendências pequeno-burguesas exatamente desse tipo. As cinco fases da história do movimento trotskista analisadas pela escola de 2019 não são uma periodização acadêmica; elas constituem o capital estratégico acumulado da revolução socialista mundial.

112. O próximo congresso do SEP, em 2028, coincidirá com o centenário da fundação da Oposição de Esquerda Internacional, em 1928, na qual James P. Cannon desempenhou um papel tão decisivo. A preparação para esse aniversário histórico deve ser o foco de atenção para a formação de uma nova geração nessa história. Essa é a pré-condição indispensável para a resolução da crise de direção da classe trabalhadora. Socialism AI, lançado pelo WSWS em dezembro de 2025, desempenhará um papel fundamental na formação dos quadros do partido e da classe trabalhadora como um todo.

113. O 9º Congresso se reúne, como este informe procurou demonstrar, no ponto em que a perspectiva do partido e o movimento objetivo da história convergem visivelmente. A tarefa que ele enfrenta é preparar o partido — politicamente, teoricamente e organizacionalmente — para as lutas revolucionárias que essa convergência torna inevitáveis.

Notas e referências

[1] NORTH, David. Oligarchy: Trump and the Breakdown of American Democracy. Mehring Books, 2026. p. x.

[2] KELLY, John. The Twilight of World Trotskyism. New York: Routledge, 2023. p. 97.

[3] KELLY, 2023, p. 78.

[4] Primeira etapa (1999): Polônia, Hungria e República Tcheca — os primeiros países do antigo Pacto de Varsóvia a serem admitidos, durante o governo Clinton, em violação direta às garantias dadas a Gorbachev em 1990 de que a OTAN não avançaria “nem uma polegada para o leste” além de uma Alemanha reunificada.

Segunda etapa (2004): A maior rodada de expansão — Estônia, Letônia, Lituânia, Eslováquia, Eslovênia, Romênia e Bulgária. Isso levou a OTAN, pela primeira vez, ao território da antiga União Soviética, com as três repúblicas bálticas colocando a aliança diretamente na fronteira noroeste da Rússia.

Terceira etapa (2009): Albânia e Croácia, estendendo a aliança pelos Bálcãs Ocidentais após o desmembramento da Iugoslávia, no qual a campanha de bombardeios da OTAN em 1999 desempenhou um papel decisivo.

Quarta etapa (2017 e 2020): Montenegro (2017) e Macedônia do Norte (2020), completando a incorporação da maior parte do antigo espaço iugoslavo e consolidando a posição da OTAN no Adriático e no sul dos Bálcãs.

Quinta etapa (2023–2024): Finlândia (abril de 2023) e Suécia (março de 2024), abandonando décadas de neutralidade formal em resposta direta à guerra na Ucrânia. A adesão da Finlândia, por si só, mais que dobrou a extensão da fronteira terrestre da OTAN com a Rússia.

[5] NORTH, David. A Quarter Century of War: The U.S. Drive for Global Hegemony 1990–2016. Oak Park: Mehring Books, 2016. p. 6.

[6] O Hindu Kush é uma cordilheira que se estende por aproximadamente 800 quilômetros pelo centro e leste do Afeganistão até o norte do Paquistão. Suas extremidades ocidentais se prolongam em direção à fronteira iraniana, enquanto sua extremidade oriental se conecta ao Karakoram e, mais adiante, aos sistemas montanhosos do Pamir e do Himalaia.

[7] NORTH, 2016, p. 6.

[8] OXFAM. Resisting the Rule of the Rich: Protecting freedom from billionaire power. 2026. Disponível em: https://oi-files-d8-prod.s3.eu-west-2.amazonaws.com/s3fs-public/2026-01/EN%20-%20Resisting%20the%20Rule%20of%20the%20Rich.pdf

[9] MCMEEKIN, Sean. The Russian Revolution: A New History. New York: Basic Books, 2017. p. 351–352. Apud NORTH, David. Why Study the Russian Revolution?. Oak Park: Mehring Books, 2017–2018. p. 327.

[10] NORTH, David. Fourth International, jul./dez. 1988. p. 39.

[11] MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. The Holy Family. 1845. cap. 6. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/marx/works/1845/holy-family/ch06.htm

[12] The Fourth International and the Perspective of World Socialist Revolution 1986–1995. Mehring Books, 2020. p. 30–31.

[13] Trotskyism versus Revisionism. London: New Park, 1975. v. 5, p. 113–114.

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