Publicado originalmente em inglês em 17 de julho de 2026
O discurso de Donald Trump no horário nobre, transmitido da Casa Branca na noite de quinta-feira, é um forte aviso à classe trabalhadora nos Estados Unidos e internacionalmente. Seu objetivo era criar um pretexto para suprimir, fraudar ou anular as próximas eleições, começando pelas eleições de meio de mandato de novembro.
O discurso em si, frenético e, por vezes, quase incoerente, foi a expressão de um governo e de uma classe dominante em meio a uma crise avassaladora. Trump divagou por uma série de alegações absurdas e infundadas — de que a China teria roubado os arquivos de 220 milhões de eleitores americanos, de que “sacos para queima” com documentos incriminadores deixados por Obama teriam escapado da incineração devido a “grande incompetência”, e de que as urnas eletrônicas teriam sido fraudadas em conluio com a Venezuela “de maneiras que não poderiam ser detectadas nem mesmo com uma auditoria”.
Trump acusou a China de ser a autora de uma vasta conspiração para destruí-lo, mesmo enquanto seu governo prepara uma cúpula em setembro com Xi Jinping.
O discurso começou com uma enxurrada de autoglorificação — os Estados Unidos como “o país mais badalado do mundo”, os mercados em seu nível mais alto “de todos os tempos”, a fronteira fechada, a criminalidade no nível mais baixo em 125 anos, “vencemos na Venezuela”, “estamos vencendo com folga no Irã”. Esse universo paralelo é, por si só, um sintoma de um regime que está perdendo o contato com a realidade e com os acontecimentos.
Toda a encenação transparecia um desespero que tem fundamentos sólidos. Geopolíticamente, o imperialismo americano não conseguiu atingir nenhum de seus objetivos na guerra contra o Irã, que agora está intensificando — elevando os preços do petróleo e a inflação, ameaçando um colapso dos mercados financeiros supervalorizados e agravando uma dívida pública já insustentável.
Economicamente, o governo preside uma desigualdade social sem precedentes, mesmo com novos relatos surgindo a cada dia sobre a pilhagem da sociedade por parte de Trump, sua família e seu círculo íntimo: mais de US$ 1,4 bilhão embolsado em empreendimentos com criptomoedas em um único ano, enquanto pequenos investidores se afogam em bilhões perdidos.
Politicamente, amplos setores da classe trabalhadora e da juventude estão se movendo para a esquerda. A resposta da oligarquia é intensificar a violência contra a classe trabalhadora, em primeiro lugar contra os imigrantes.
Trump proferiu seu discurso em meio a protestos contra mais dois assassinatos cometidos pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) — Lorenzo Salgado Araujo, no Texas, e Joan Sebastián Guerrero, no Maine —, enquanto o governo intensificava sua onda de repressão violenta por todo o país.
No mesmo dia do discurso na Casa Branca, o secretário de Estado Marco Rubio e o assessor da Casa Branca Stephen Miller proferiram discursos fascistas em uma conferência do Departamento de Estado que promovia um ataque global ao chamado “terrorismo de esquerda”.
As alegações do discurso são mentiras evidentes, e todos sabem que são mentiras. Avaliações anteriores dos serviços de inteligência, incluindo aquelas elaboradas por autoridades nomeadas pelo próprio Trump em seu primeiro mandato, não encontraram evidências de que as eleições nos EUA tivessem sido comprometidas. Mas o objetivo das mentiras não é persuadir. É estabelecer, com quatro meses de antecedência, a justificativa para tratar uma derrota republicana amplamente prevista como resultado de subversão estrangeira e preparar a estrutura necessária para agir de acordo com isso.
Essa máquina já está sendo montada. Trump anunciou que estava ordenando às agências de inteligência, ao FBI e ao Departamento de Justiça que identificassem, demitissem e processassem as autoridades acusadas de ocultar a suposta fraude — um expurgo do Estado de todos aqueles que não lhe fossem pessoalmente leais. Ele ameaçou a ABC e a NBC com a revogação de suas licenças de transmissão depois que elas se recusaram a interromper a programação regular, acusando-as de se aliarem a uma conspiração para ocultar a verdade.
Trump também exigiu a aprovação da Lei “SAVE America”, que, por meio de exigências abrangentes de comprovação de cidadania e identificação com foto, além da abolição efetiva do voto por correspondência, privaria do direito de voto milhões de cidadãos naturalizados, idosos, eleitores de baixa renda e da classe trabalhadora. Citando uma alegação forjada de que 278 mil não cidadãos constam nos registros eleitorais, ele ordenou que os estados os excluíssem.
O mais significativo é a ausência de qualquer resposta séria por parte da classe política. As formas constitucionais defendidas há dois séculos como garantias contra a ditadura foram esvaziadas. Isso mostra até que ponto a crise já avançou.
A suposta oposição, o Partido Democrata, apresenta uma mistura de complacência e cumplicidade. O líder da minoria no Senado, Chuck Schumer, chamou Trump de “fraco e desorientado” e disse para ele “desistir” de seu projeto de lei eleitoral. O líder da minoria na Câmara, Hakeem Jeffries, chamou-o de “fraco” e “patético”. O governador da Califórnia, Gavin Newsom, descartou o discurso como “fantasia” e disse aos eleitores para se organizarem para novembro.
Bernie Sanders fez um apelo para que “TODOS os americanos” se “unissem contra o autoritarismo” — uma fórmula que oculta as forças de classe por trás do ataque aos direitos democráticos. Não pode haver unidade contra a ditadura ao lado das corporações, dos bancos e das agências de inteligência e militares que criaram Trump e estão apoiando suas políticas de Estado policial.
A capacidade de Trump de seguir em frente depende do Partido Democrata. Duas preocupações orientam a conduta dos democratas. A primeira é impedir um movimento independente de trabalhadores e jovens vindo de baixo, que eles temem mais do que temem Trump, e que canalizam para os tribunais, a mídia e as eleições de novembro. A segunda é pressionar pela escalada da guerra, acima de tudo, um envolvimento mais profundo contra a Rússia na Ucrânia.
O papel dos democratas decorre de sua natureza como partido da mesma classe dominante. O que está ocorrendo não é a criminalidade ou o declínio mental de um único homem. Trump é o instrumento de uma oligarquia financeira que monopolizou a riqueza da sociedade em um grau sem precedentes e que já não consegue mais governar por meio de formas democráticas.
O colapso da democracia é a expressão política do colapso da ordem social — uma sociedade dividida entre um punhado de bilionários e a massa dos trabalhadores. Os direitos democráticos não podem coexistir com a desigualdade nessa escala. A guinada para a ditadura é da classe dominante como um todo, incluindo os democratas, que divergem de Trump em questões táticas, mas não na defesa da oligarquia.
A defesa dos direitos democráticos é inseparável da luta contra a oligarquia e contra o próprio sistema capitalista. As mesmas forças que levam a classe dominante à ditadura — a guerra, a desigualdade, o colapso de sua legitimidade — estão levando os trabalhadores e a juventude à luta, como já demonstra a oposição ao ICE, à guerra e à burocracia sindical.
Para pôr um fim à marcha rumo à ditadura, é necessária a mobilização industrial e política independente da classe trabalhadora, munida de um programa socialista e voltada contra a ditadura, a guerra e o sistema capitalista que gera ambas.
