As eleições gerais de 4 de outubro no Brasil transcorrem em meio à crise mais profunda do regime burguês erguido sobre a Constituição de 1988 — a primeira após o fim da ditadura militar (1964–1985) apoiada pelos EUA. O peso da crise global, com a escalada militar e a guinada da elite dominante rumo à ditadura, manifesta-se intensamente no Brasil.
O curto-circuito da ordem burguesa brasileira é a forma nacional dessa crise. Ela eclodiu com força nas últimas semanas com um conflito aberto na Suprema Corte brasileira. Frações rivais dessa mais alta instância do Estado burguês — apresentada nos últimos anos como fiadora da ordem constitucional — passaram a se digladiar publicamente, com acusações de interferência eleitoral e envolvimento de ministros da corte no maior escândalo financeiro brasileiro, o caso Banco Master.
Como outros governos nominalmente de esquerda ao redor do mundo, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (Partido dos Trabalhadores – PT), incapaz de oferecer qualquer saída para os trabalhadores do Brasil, avança um programa de austeridade, nacionalista e militarista. A consequência direta dessa política foi a ascensão eleitoral de Flávio Bolsonaro, candidato fascista e herdeiro direto da conspiração golpista de 2022–23, que está tecnicamente empatado com Lula nas simulações de segundo turno.
A este quadro soma-se a intensificação da ofensiva do imperialismo americano contra a América Latina — uma das frentes da escalada da nova guerra mundial. Washington intervém abertamente no processo eleitoral brasileiro em favor de Flávio, que jurou dar continuidade ao projeto fascista do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, preso pela tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, e convocou abertamente a intervenção de Washington no processo eleitoral.
Nesse contexto, as organizações da pseudoesquerda convocam em sua maioria apoio à candidatura de Lula para, supostamente, mais uma vez — como em 2022 — “barrar o fascismo” no Brasil. Trata-se de uma farsa, exposta pelos resultados desastrosos dessa estratégia passados quatro anos.
O caso mais revelador é o do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), o maior partido da pseudoesquerda. O partido surgiu em 2004 como suposta “oposição de esquerda” ao primeiro governo Lula, para se integrar cada vez mais completamente ao PT com o passar dos anos. Hoje, possui dois ministérios no governo Lula, com sua figura mais notória, Guilherme Boulos, ocupando o cargo de ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República. Parte e impulsionador da “Frente Ampla” do PT com partidos burgueses, o PSOL rejeitou uma federação com o PT no início deste ano apenas para confirmar o apoio à reeleição de Lula já no primeiro turno.
Há outro conjunto de organizações da pseudoesquerda que, recusando chamar voto em Lula no primeiro turno, apresenta candidaturas próprias. A principal delas é a candidatura de Hertz Dias, do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) morenista, em torno da qual se reúnem uma série de organizações que dizem representar uma alternativa de “independência de classe” — para, no segundo turno, voltar ao campo de Lula, como já fizeram nas eleições anteriores. A função que essas organizações da pseudoesquerda ocupam é subordinar a classe trabalhadora ao PT, à burocracia sindical e, em última instância, ao Estado nacional burguês.
A ala “radical” da Frente Ampla
Lançada em julho, a Bancada da Esquerda Radical reúne candidatos do Movimento Esquerda Socialista (MES), tendência morenista que esteve entre as fundadoras do PSOL, e de outras correntes do partido, como Sâmia Bomfim, Fernanda Melchionna e Glauber Braga. Completam o grupo o neostalinista Jones Manoel e ao menos uma figura do PT. Apresenta-se como mais à esquerda não só que o PT, mas que a própria direção majoritária do PSOL, e falam em revolução e socialismo. Esse bloco de candidatos parlamentares está a serviço da construção da Frente Ampla de Lula pelo PSOL, revestindo-a com uma retórica pseudorrevolucionária.
O manifesto da Bancada da Esquerda Radical define como seus objetivos promover “uma inversão da lógica que organiza o Estado e a economia”. Ele continua:
As medidas apresentadas não encerram o debate: pretendem abrir um novo horizonte estratégico de soberania popular, justiça social e reorganização ecossocialista da economia.
Se o imperialismo pretende manter o país de joelhos, apoiado pelas frações rentista, mineral e latifundiária da burguesia brasileira, nossa resposta deve ser organização, mobilização popular, soberania e direção política revolucionária.
A passagem condensa o método e programa dessa “esquerda radical”. O inimigo é definido exclusivamente como o imperialismo apoiado por frações específicas da burguesia brasileira. Isso ecoa a velha tese stalinista de uma burguesia nacional produtiva, à qual a classe trabalhadora deve se subordinar em nome do desenvolvimento do capitalismo no país. A revolução socialista é tratada como uma segunda etapa, pertencente a um futuro indefinido.
As dez medidas do manifesto dão a esse projeto “desenvolvimentista” um conteúdo preciso. Diante da guerra tarifária de Trump, a Bancada propõe “revisar acordos comerciais que limitem a política industrial, tecnológica e de compras públicas do país” e “Restabelecer a capacidade do Estado de utilizar tarifas, conteúdo local, subsídios e instrumentos de política industrial sem restrições externas.”
Como explicou a declaração do Grupo Socialista pela Igualdade sobre as tarifas de Trump em 2025, a guerra tarifária é uma etapa da preparação da guerra militar. Diante dessa ameaça, a Bancada se limita a propor devolver ao Estado brasileiro seus instrumentos protecionistas “sem restrições externas”. Essa política amarra os trabalhadores brasileiros à sua “própria” burguesia nacional e nada tem a oferecer aos trabalhadores internacionalmente – nem na América Latina e nos demais países oprimidos pelo imperialismo, nem aos trabalhadores nos Estados Unidos, também atingidos pelas tarifas de Trump.
O mesmo vale para a medida que melhor expõe o sentido estratégico do programa: “Reestatizar setores estratégicos, garantir soberania energética e criar a Terrabras”. Esta última seria uma nova empresa estatal – nos moldes daquelas criadas pelo governo corporativista de Getúlio Vargas em meio à Segunda Guerra Mundial – “para explorar, processar industrialmente as terras raras e minerais estratégicos, com agregação de valor no país”.
Terras raras e minerais críticos são a matéria-prima da guerra moderna: mísseis, drones, radares, sistemas de guiagem e toda a eletrônica militar. Estão no centro do conflito entre os Estados Unidos e a China, e as reservas brasileiras são objeto da cobiça de Washington. Durante sua última visita à Casa Branca, Lula anunciou: “Nós não temos preferência. O que nós queremos é fazer parceria, compartilhar com as empresas americanas, chinesas, alemãs, japonesas, francesas, ou quem quiser participar conosco”. A “estatal das terras raras”, defendida pela pseudoesquerda, estaria a serviço desse programa, que corresponde aos interesses de uma burguesia nacional intrinsecamente subordinada ao impulso imperialista de redividir o mundo.
A resposta da Bancada às duas grandes questões que definem o futuro da humanidade, a crise climática e o desenvolvimento da inteligência artificial, segue a mesma lógica. Seu manifesto propõe um “Sistema Nacional Verde e Soberano de Inovação”, que reúne universidades, institutos de pesquisa e empresas sob coordenação estatal e subordina a política industrial a “missões” de “soberania nacional” e à redução da dependência externa.
Nenhum problema é mais evidentemente planetário do que a catástrofe climática. Ela só pode ser enfrentada pelo planejamento internacional da produção e da energia, que exige a superação do sistema de Estados nacionais e da propriedade privada dos meios de produção. A Bancada transforma a crise climática em “missão de soberania nacional” do Estado brasileiro.
Em relação às “big techs”, a Bancada propõe criar “redes sociais nacionais” e regulamentar as plataformas. Expressão acabada do seu nacionalismo utópico pequeno-burguês, a proposta não toca na propriedade dos monopólios de tecnologia: apenas transfere o controle das big techs americanas para o Estado burguês brasileiro. A tecnologia, produto do trabalho social, só servirá às necessidades humanas, e não ao lucro, se esses monopólios forem expropriados e colocados sob o controle democrático da classe trabalhadora. Já a “regulamentação” da internet é precisamente o mecanismo com que os Estados capitalistas vêm impondo a censura às vozes socialistas e antiguerra.
Em nenhum ponto do manifesto aparece o nome de Lula. O silêncio não é acidental. Os signatários da Bancada fazem campanha aberta por sua reeleição, assim como por Simone Tebet e Fernando Haddad em São Paulo e pela pedetista Juliana Brizola no Rio Grande do Sul.
Diante da crise que emergiu no STF, expondo a podridão de toda a ordem política burguesa brasileira, os proponentes da Bancada redobraram seu chamado a apoiar a Frente Ampla de Lula.
Em “Sinal Amarelo”, publicado em 9 de setembro, o dirigente do MES, Israel Dutra, escreveu: “O golpismo e Trump vão jogar pesado para evitar a vitória de Lula. O lado de cá, das trabalhadoras e trabalhadores, precisa responder à altura”. “Responder à altura”, para Dutra e seus colaboradores pseudoesquerdistas, resume-se a “se organizar para enfrentar a extrema direita, com mobilização de rua, reforço nas candidaturas, banquinhas, em movimentos como foram o ‘Ele Não’ e o ‘Vira Voto’”.
A mobilização do “ativismo” é concebida inteiramente como apêndice da campanha de Lula. É o modelo que o MES ensaiou na conferência antifascista de Porto Alegre, em março, que fundiu o antifascismo com a “soberania dos povos” numa frente com o PT. Valerio Arcary, líder da Resistência, outra corrente interna morenista do PSOL, formula o objetivo com franqueza: garantir que Lula derrote o bolsonarismo para “ganhar tempo”. Nesta ala da pseudoesquerda, a subordinação ao PT e ao Estado nacional é declarada abertamente.
O bloco em torno do PSTU: “independência” eleitoral, programa patriótico
Um conjunto de organizações da pseudoesquerda se apresenta como a alternativa a essa capitulação. Elas se agrupam em torno da candidatura presidencial de Hertz Dias, do PSTU, com Vera Lúcia disputando o governo de São Paulo.
Entre as organizações que estão participando dessa armadilha estão o Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT), a seção brasileira da Corrente Revolução Permanente, que publica o Esquerda Diário, e o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), cisão do PCB stalinista, antes liderado por Jones Manoel – que entrou no PSOL para lançar sua candidatura junto à Bancada da Esquerda Radical.
O bloco retoma a experiência do Polo Socialista Revolucionário de 2022, quando uma série de organizações da pseudoesquerda se voltaram para o PSTU para lançar seus candidatos pelo partido. Mas sua configuração atual tem um marco mais recente e mais revelador. Essas organizações conformaram uma unidade política nacionalista, supostamente “independente” do governo Lula, às tarifas lançadas por Trump contra o Brasil em julho de 2025.
Hertz Dias diz que sua candidatura pretende “reverter o processo de decadência” do país. Entre os pontos centrais de seu programa estão a reestatização dos “setores estratégicos” e uma estatal de terras raras, ambas “sob controle dos trabalhadores”. É a mesma pauta da Terrabras e da “soberania”, com o acréscimo de uma fórmula “operária”.
Mas é na indústria armamentista que essa orientação atinge sua expressão mais acabada. Desde 2023, o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, dirigido pelo PSTU e principal base da CSP-Conlutas, defende junto ao Ministério da Defesa a nacionalização da indústria bélica para fabricar caças, mísseis, navios de guerra e submarinos. Enquanto isso, manteve isolada a greve dos trabalhadores da Avibras, a maior empresa da indústria de defesa brasileira, que decretou falência em 2022. A greve terminou num acordo no início deste ano, celebrado como vitória pela burocracia, que eliminou metade dos postos de trabalho. A campanha levou o sindicato a uma aliança aberta com os militares e com figuras da extrema direita nacionalista, documentada pelo World Socialist Web Site.
Em 24 de julho, na cerimônia de reativação da Avibras, a burocracia morenista dividiu o palanque com Lula, o vice-presidente Geraldo Alckmin e os três comandantes das Forças Armadas. Lula comparou ali as Forças Armadas a Deus, uma instituição a que se recorre em toda crise. O presidente do sindicato, Weller Gonçalves, do PSTU, entregou-lhe um documento propondo reestatizar a Embraer, estatizar a Avibras e todas as empresas estratégicas de defesa e fundi-las numa grande indústria estatal. A justificativa era a rivalidade entre as grandes potências: nenhum país que queira preservar sua soberania poderia prescindir de uma indústria de defesa nacional. Lula elogiou o sindicato pela “maturidade” de sua compreensão do momento político.
A posição internacional do PSTU é parte integrante desse programa nacional reacionário, e não um capítulo à parte. Em 2023, a Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT-QI), sua corrente internacional, defendeu intensificar a campanha de “armas para a Ucrânia” pelas potências imperialistas, a ser assumida por todos os sindicatos. A direção do sindicato traduziu isso no argumento de que a guerra dos EUA-OTAN contra a Rússia abria uma oportunidade de mercado única para os foguetes da Avibras. Hoje, quatro dos cinco maiores clientes da indústria de defesa brasileira são membros da OTAN, entre eles Alemanha e Estados Unidos, e equipamentos brasileiros são usados nas guerras da Ucrânia e do Irã.
Sob a bandeira da “defesa nacional”, o PSTU propõe a entrada do Brasil na guerra imperialista mundial: como fornecedor da guerra da OTAN e como potência armada, construída em aliança com os militares e setores da extrema-direita. A população brasileira é chamada a ver na guerra mundial uma oportunidade.
O MRT e o papel do centrismo
Dentro desse bloco, o MRT cumpre um papel específico. É a organização que mais insistentemente fala em “independência de classe” e critica o PSTU pela esquerda. Sua declaração eleitoral de 16 de setembro afirma:
[N]ós do MRT defendemos a independência política a serviço dos interesses do povo trabalhador nessas eleições... Isso passa por combater frontalmente a extrema direita de Flávio Bolsonaro, capacho de Trump, de maneira independente da conciliação de classes da Frente Ampla de Lula-Alckmin. ... É preciso apoiar candidaturas independentes.
A independência que o MRT reivindica é definida contra a Frente Ampla e a “conciliação de classes” de Lula e Alckmin, não contra o Estado nacional burguês. O que ela oferece, na prática, é o voto no PSTU. Aqui o MRT desempenha o papel clássico do centrismo: oscila entre fórmulas revolucionárias e uma política oportunista. Numa situação de crise, sua função decisiva é recolher os trabalhadores e jovens que rompem com o PT pela esquerda e devolvê-los, com um selo de “independência”, às mesmas forças de que tentavam escapar.
O que o MRT diz sobre a Bancada da Esquerda Radical deixa claro o conteúdo dessa “independência”:
[A]Bancada de Esquerda Radical, com parlamentares e candidaturas que corretamente se opuseram à federação e que apresentam um programa mais à esquerda, vem também em campanha aberta e acrítica por “Lula lá” e pela Frente Ampla... Até mesmo Jones Manoel, que vem nos últimos anos vocalizando importantes críticas à política econômica do governo como contra suas privatizações, agora adotou uma linha de apoio e campanha por Lula no primeiro turno.
O “programa mais à esquerda” que o MRT certifica é o que examinamos acima: a Terrabras, as tarifas “sem restrições externas” e o “Sistema Nacional Verde e Soberano”. A única crítica do MRT é a campanha por Lula. O conteúdo nacionalista do programa, o MRT não questiona. Ele o compartilha.
Isso fica ainda mais claro quando se examina o que o MRT valoriza como signo de “independência de classe” na candidatura que apoia:
Consideramos um ponto de apoio a defesa que a candidatura de Hertz Dias vem realizando de elementos programáticos como a reestatização de empresa dos setores estratégicos sob controle dos trabalhadores, a revogação integral das reformas já aprovadas, a defesa de uma estatal no tema das terras raras sob controle dos trabalhadores e a redução da jornada sem redução salarial, com fim da escala 6x1 e aumento do salário mínimo de acordo com o DIEESE, com críticas abertas à Frente Ampla.
A “reestatização de empresa dos setores estratégicos” tem, no PSTU de 2026, um conteúdo preciso: é o programa da indústria bélica estatal que o sindicato de São José dos Campos entregou a Lula no palanque com os comandantes militares. O “ponto de apoio” da independência de classe do MRT é a reivindicação que Lula elogiou pela “maturidade”.
O “controle dos trabalhadores” também tem um conteúdo fraudulento determinado: é o controle da burocracia sindical que trai greves e isola a classe trabalhadora nacional e regionalmente. Trotsky descreveu a “gestão operária” das ferrovias e do petróleo nacionalizados no México de Cárdenas como uma administração exercida por uma burocracia sindical independente dos trabalhadores e inteiramente dependente do Estado burguês: um meio de liquidar os sindicatos como órgãos de luta e convertê-los em instrumento de direção do Estado sobre a classe. Com sindicatos hoje incomparavelmente mais integrados ao Estado e às empresas, o “controle dos trabalhadores” sobre uma indústria bélica estatal significaria a burocracia da Conlutas administrando o esforço de guerra.
Na mesma declaração, o MRT enumera suas divergências com o PSTU. Menciona os “debates internacionais” sobre a guerra na Ucrânia e o apoio do PSTU a movimentos por mais investimento na polícia. Coloca “sobretudo” a questão da independência do Poder Judiciário, isto é, a recusa do PSTU em caracterizar como golpe o impeachment de Dilma Rousseff do PT em 2016. Todas essas diferenças, afirma o MRT, devem ser debatidas no marco de uma “profunda unidade de ação”.
A hierarquia é reveladora. A guerra mundial é relegada a um “debate internacional”, abaixo de uma disputa sobre a caracterização das instituições do regime nacional. Sobre o palanque com os comandantes e o documento entregue a Lula, não há uma palavra. O silêncio decorre da própria declaração: a reivindicação que o MRT escolheu como base da unidade é o programa dessa campanha.
O MRT separa mecanicamente o nacional do internacional. Trata as “armas para a Ucrânia” como uma divergência teórica e apoia, como ponto programático nacional, a indústria que vende essas armas. A guerra da OTAN é o mercado da Avibras.
Sua crítica ao PSTU funciona, assim, como instrumento de controle. Nomeia divergências secundárias para certificar o PSTU como “independência de classe” e impede que os trabalhadores e jovens que se aproximam do bloco tirem as conclusões necessárias: a ruptura com a pseudoesquerda e com a burocracia sindical.
A concepção do MRT sobre o imperialismo está na base dessa política. A declaração apresenta a ofensiva de Trump como resposta dos Estados Unidos à sua “decadência hegemônica”, demonstrada nos reveses no Irã e na competição com a China. O desenvolvimento da guerra mundial não aparece. O Irã surge como prova da fraqueza americana, não como frente de uma guerra global que se estende da Ucrânia ao Golfo Pérsico e ao Caribe.
O que emerge é a ideia de que o declínio da hegemonia americana abre espaço para que os Estados semicoloniais, como o Brasil, afirmem sua soberania. Daí a exigência de que “o petróleo e as terras raras sejam nossos” e a acusação a Lula de manter o país na “dupla dependência” com Estados Unidos e China. A defesa da “soberania” do Estado nacional brasileiro não é uma posição defensiva, mas a perspectiva estratégica do MRT. A crise do imperialismo não é compreendida como aquilo que é: uma crise essencialmente revolucionária, que coloca a alternativa entre a guerra mundial e a revolução socialista mundial.
A resposta do MRT à crise do STF completa esse quadro. Em seus artigos sobre o caso Master, defendeu:
É necessário colocar a perspectiva uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, imposta pela mobilização dos trabalhadores e das grandes maiorias populares, sem tutela do Congresso, do STF, das Forças Armadas ou dos grandes grupos econômicos. Uma Constituinte que não seja convocada para remendar as instituições existentes, mas para permitir que milhões discutam e decidam diretamente sobre os grandes problemas estruturais do país.
Os “grandes problemas estruturais do país” que essa Constituinte deveria resolver são, segundo o MRT, o fim da escala 6x1 e a revogação das “reformas que retiraram direitos” – isto é, aquelas aprovadas após o impeachment de Rousseff –, a “ruptura das relações de subordinação aos Estados Unidos”, o “controle” sobre os recursos estratégicos, “começando pelo petróleo e as terras raras”, e uma “reorganização radical do Poder Judiciário”. Essas medidas não apontam para qualquer rompimento com o capital e diluem sistematicamente os antagonismos de classe nos interesses “comuns” da nação.
A Constituinte de 1987–88 foi o mecanismo pelo qual a classe dominante brasileira desviou a luta contra a ditadura militar para a reconstrução de um regime civil burguês. Passadas quatro décadas, o regime nascido daquele processo está em crise terminal. A resposta do MRT, longe de apresentar uma perspectiva para sua superação revolucionária, oferece uma perspectiva para sua remodelação sobre as mesmas bases.
Há quatro décadas, o PT serviu como principal fiador da refundação da ordem política burguesa no Brasil, mantendo sob controle as massas da classe operária organizadas sob o partido e seus sindicatos. Hoje, esse mecanismo de controle da luta de classes também está esgotado. A resposta do MRT visa, da mesma maneira, restabelecer a legitimidade desses aparatos burocráticos de controle das massas. Eles atribuem à CUT, CTB, Força Sindical, UGT e CSP-Conlutas a responsabilidade por convocar uma greve geral que daria legitimidade à nova “Constituinte”.
A “Constituinte livre e soberana” é uma fórmula recorrente da Corrente Revolução Permanente, à qual o MRT pertence, para desviar levantes da classe trabalhadora para a reforma do Estado burguês. No Chile, em 2019, a organização irmã do MRT levantou a mesma palavra de ordem diante da maior revolta em décadas, apresentando-a como uma experiência que conduziria as massas à conclusão de que era necessário um governo operário. A burguesia chilena tomou a demanda para si: o acordo firmado em novembro daquele ano pelos partidos do parlamento converteu a revolta num processo constitucional, que terminou com duas propostas rejeitadas nas urnas e abriu caminho à eleição do fascista José Antonio Kast.
A “independência” do bloco em torno do PSTU tem data de validade. Em 2022, o PSTU chamou voto “crítico” em Lula no segundo turno. Em 2024, fez o mesmo com Boulos em São Paulo. O MRT, sem chamar o voto, declarou que estaria na linha de frente contra Ricardo Nunes e Pablo Marçal. Nada indica que 2026 será diferente.
A crise mundial e a resposta da classe trabalhadora
Da Bancada da Esquerda Radical ao PSTU e MRT, cada variante da pseudoesquerda responde à crise encerrando a classe trabalhadora nos marcos do Estado nacional burguês: pela “soberania”, pela indústria bélica, pela Constituinte. Essa resposta vai na contramão das necessidades da classe trabalhadora na época atual.
Como explicou David North no relatório de abertura do Nono Congresso do Socialist Equality Party dos Estados Unidos, a questão já não é se uma terceira guerra mundial vai eclodir. A guerra está em curso e se desenvolve como um processo metastático: espalha-se como condição crônica, funde conflitos antes separados e subordina cada país à preparação para a conflagração geral.
Em 1914, diante da eclosão da Primeira Guerra Mundial, Trotsky identificou a raiz dessa catástrofe: “The present war is at bottom a revolt of the forces of production against the political form of nation and state. It means the collapse of the national state as an independent economic unit.”
Mais de um século depois, essa contradição atingiu uma intensidade sem precedentes. A produção foi reorganizada como um único processo globalmente integrado. O trabalhador de Guangdong, o de Stuttgart, o de São Paulo e o de Detroit não produzem coisas semelhantes em paralelo: trabalham em estações diferentes de um mesmo processo, sobre um mesmo produto. A burguesia tira daí a conclusão de que os recursos, os mercados e as rotas de abastecimento do mundo inteiro são interesses nacionais vitais, a garantir pela força. A classe trabalhadora está sendo empurrada, pela mesma transformação, à conclusão oposta. Os minerais críticos, a crise climática, a inteligência artificial e a indústria bélica, em torno dos quais a pseudoesquerda constrói seu programa “soberano”, são precisamente os pontos em que essa contradição se torna uma questão de sobrevivência da humanidade.
O curto-circuito da ordem burguesa brasileira é a forma nacional dessa crise. Incapaz de romper com o imperialismo sem ameaçar o capital que representa, o PT responde com o rearmamento e a “unidade nacional” entre trabalhadores e patrões, enquanto sua política de austeridade alimenta o fascismo.
Mas a classe trabalhadora está entrando em cena. A onda de greves que se espalha pelo país, parte de um movimento internacional contra a austeridade imposta para financiar a repressão e o militarismo, volta-se diretamente contra o governo Lula, enquanto as centrais sindicais fazem campanha por sua reeleição e trabalham para isolar essas lutas.
A luta contra a austeridade, contra o fascismo e contra a agressão imperialista é uma só. O fascismo de Flávio não será derrotado pelo governo que cria as condições para seu crescimento, mas pelo mesmo movimento que enfrenta esse governo nas greves.
A resposta à ofensiva de Washington contra o Brasil e a América Latina está na mobilização independente da classe trabalhadora da região, em aliança com os trabalhadores dos Estados Unidos. Explorados pelas mesmas corporações e ameaçados pela mesma guerra e guinada ditatorial da classe dominante, os trabalhadores através do Hemisfério têm interesses comuns. Só a unidade revolucionária da classe trabalhadora internacional é capaz de derrotar o imperialismo.
Essa luta exige organização própria: comitês de base independentes e em oposição à burocracia sindical, ligados internacionalmente pela Aliança Operária Internacional de Comitês de Base. E exige um programa socialista e internacionalista, que trate os recursos naturais, a tecnologia e a produção como patrimônio da humanidade, a ser planejado internacionalmente sob o controle da classe trabalhadora.
Um metalúrgico de São José dos Campos tem mais em comum com um operário da Boeing em Seattle, com um trabalhador da indústria de defesa alemã ou com um trabalhador iraniano do que com Lula, os generais brasileiros ou os empresários que hoje controlam a Avibras.
Isso exige a ruptura com o PT, com as centrais sindicais e com a pseudoesquerda que orbita em torno deles. A tarefa decisiva é construir a seção brasileira do Comitê Internacional da Quarta Internacional, o partido mundial da revolução socialista, e armar com essa perspectiva os trabalhadores e jovens que estão entrando em luta.
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