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Morenistas montam armadilha para amarrar trabalhadores e jovens à Frente Ampla de Lula

Às vésperas do primeiro turno das eleições brasileiras, o World Socialist Web Site advertiu que as organizações da pseudoesquerda que se apresentavam com candidaturas “independentes” voltariam, no segundo turno, ao campo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT). “Nada indica que 2026 será diferente”, escrevemos. A previsão se confirmou por inteiro. Os morenistas do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) e do Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT), herdeiros da corrente fundada pelo argentino Nahuel Moreno, chamam voto em Lula no segundo turno, marcado para 25 de outubro. O Partido Comunista Brasileiro (PCB) e a Unidade Popular (UP) fazem o mesmo.

Luiz Inácio Lula da Silva no ato de 11 de outubro na Avenida Paulista, em São Paulo. [Photo: Ricardo Stuckert/Lula Oficial]

As fórmulas variam. O PSTU fala em “voto crítico”. O MRT proclama “nenhum voto em Flávio Bolsonaro” e garante não prestar “nenhum apoio político” à Frente Ampla, a coalizão de Lula com partidos e figuras tradicionais da burguesia, simbolizada pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, ex-governador de São Paulo pelo PSDB. Esses adendos “críticos” ao apoio à reeleição de Lula não servem para superar as ilusões na política da Frente Ampla. Servem apenas para reforçá-las, justamente no momento em que a sua catástrofe se expõe diante de milhões.

O primeiro turno, em 4 de outubro, foi um veredito devastador sobre a política da Frente Ampla. O fascista Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, terminou em primeiro lugar, com 47% dos votos válidos contra 45,2% de Lula. Seu Partido Liberal (PL) elegeu a maior bancada da Câmara dos Deputados desde 1988, e a abstenção foi a maior já registrada. A estratégia de “barrar o fascismo” por meio da aliança dos partidos “democráticos” da burguesia só fortaleceu o fascismo.

É diante desse colapso do projeto petista que a pseudoesquerda cumpre agora sua função mais importante. O PT mobiliza seus aparatos para reconquistar a juventude e os milhões que lhe deram as costas. Essas organizações servem de ponte entre a campanha de Lula e as camadas que dela se afastaram pela esquerda. Suas fórmulas de “independência de classe” são a cobertura para reconstituir a autoridade do governo e dos aparatos sindicais e estudantis que o sustentam.

A “Marcha pela Democracia”

A operação ganhou forma nas ruas logo após o primeiro turno. Assembleias e passeatas estudantis surgidas nas universidades no início da semana, por fora da agenda oficial da campanha de Lula, foram rapidamente assumidas pela União Nacional dos Estudantes (UNE) e outras entidades associadas ao PT e à pseudoesquerda. Somou-se a elas a caravana “Agenda da Virada” de Guilherme Boulos, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e ministro do governo Lula. Atos em ao menos 13 estados na quinta-feira, 8 de outubro, culminaram, no domingo, na “Marcha pela Democracia” na Avenida Paulista, em São Paulo. Os jornais a noticiaram como a maior manifestação de esquerda no local desde os protestos contra Jair Bolsonaro.

Em menos de uma semana, a mobilização estava oficialmente integrada à campanha. No carro de som da Av. Paulista subiram o vice-presidente Geraldo Alckmin, Fernando Haddad, Boulos, Simone Tebet, Marina Silva e governadores do Nordeste. Lula discursou por cerca de uma hora. Fez uma autocrítica calculada diante de setores da juventude clamando por uma campanha mais engajada e combativa contra Flávio Bolsonaro. “Não basta fazer as coisas de cima para baixo”, falou o presidente. Apresentou o fim da escala 6x1, a jornada de seis dias de trabalho por um de descanso, como a grande bandeira de sua campanha. E defendeu que o país “não pode perder a democracia, por pior que ela seja”.

Muitos dos que aderiram aos atos foram movidos por uma oposição legítima ao fascismo e ao imperialismo, expressa em palavras de ordem contra o alinhamento de Flávio Bolsonaro a Donald Trump. O resultado do primeiro turno provocou um choque nos setores petistas da classe média, a principal composição social das manifestações. Um ano depois da condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, os fascistas podem voltar ao poder pela “porta da frente”, uma possibilidade para a qual o PT não preparou a população em absoluto. O PT convocou os atos justamente porque sente a pressão de setores que cobram uma resposta mais combativa ao fascismo. A essência desses atos, porém, é renovar a fraude de que a Frente Ampla é o único caminho possível e necessário para isso.

É aqui que os morenistas se tornam indispensáveis. A abstenção recorde expressa a rejeição de amplas camadas de trabalhadores e jovens a todo o sistema político burguês, inclusive ao PT. O vocabulário do governo não as atinge. O das organizações que falam em “independência de classe”, “luta” e “auto-organização” pode alcançá-las. A sua política visa encurralar esses setores para dentro da Frente Ampla.

O apoio “crítico” dos morenistas à Frente Ampla do PT

O PSTU é a principal seção da Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT-QI), fundada por Nahuel Moreno. Sua declaração sobre o segundo turno das eleições descreve a candidatura de Flávio Bolsonaro como um “projeto autoritário” que traz “sérios perigos” e o “aprofundamento da barbárie capitalista”. A conclusão vem em seguida: “vamos fazer um voto crítico em Lula”. Trata-se de uma operação traiçoeira típica da tradição morenista, que preserva a aparência de “independência política dos diferentes projetos capitalistas” que o PSTU diz defender e entrega o voto a um partido burguês. O adjetivo “crítico” permite dizer ao mesmo tempo “votem em Lula” e “não confiem em Lula”. Mas o voto é um ato político objetivo, e quem o convoca assume a responsabilidade pelo governo que ajuda a eleger.

O PSTU sabe disso. Sua declaração admite que “uma vitória eleitoral de Lula não derrota, por si só, a força política e as bases sociais do bolsonarismo”. Reconhece que o governo “não só não revogou a reforma trabalhista como prometera, mas promoveu ataques aos trabalhadores”, e que “foi o próprio projeto da direção do PT que fez o governo Lula ajudar a alimentar a ameaça bolsonarista”. Chega a afirmar que “essa permanente política de votar mal menor a cada quatro anos... leva sempre a uma derrota estratégica”. E, no mesmo documento, chama voto em Lula.

Essa posição não é nova. Em 2022, o PSTU lançou candidatura presidencial própria à frente do seu “Polo Socialista Revolucionário”, apresentado como alternativa independente do PT, e no segundo turno chamou o voto em Lula. Seis anos antes, havia dado um giro contrário: com a palavra de ordem “Fora Todos”, deu cobertura de esquerda à campanha da direita pelo impeachment de Dilma Rousseff. São giros de 180 graus em torno de um mesmo eixo, a subordinação ao Estado nacional burguês. A candidatura de Hertz Dias, do PSTU, no primeiro turno deste ano cumpriu a mesma função da de 2022: recolher votos de protesto para devolvê-los ao PT no segundo turno.

Como complemento prático do voto em Lula, o PSTU defendeu “unidade de ação contra Trump e a extrema direita”. O partido morenista promete estar “na linha de frente da construção das mobilizações dos trabalhadores, da juventude e dos movimentos sociais contra o bolsonarismo e trumpismo”. Concretamente, essa “unidade de ação” toma corpo nos atos convocados pelo PT e seu aparato, que culminaram no discurso de Lula na Paulista. O PSTU se apresenta como parte do bloco que os convoca.

A posição do MRT, seção brasileira da Corrente Revolução Permanente (CRP) dirigida pelo Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS) argentino, é essencialmente a mesma do PSTU. Mas, enquanto o PSTU ao menos admite chamar voto em Lula, o MRT busca disfarçá-lo com abstrações hipócritas. Sua palavra de ordem é “nenhum voto em Flávio Bolsonaro”, e a posição se resume numa frase: “na medida em que enfrentamos com toda força os votos em Flávio Bolsonaro, lado a lado a cada jovem e trabalhador que quer apoiar Lula, nós não prestamos nenhum apoio político à Frente Ampla de Lula”.

Em linguagem clara, o MRT diz aos trabalhadores e jovens: apoiamos que vocês sejam enganados pela burguesia, mas nos recusamos a assumir qualquer responsabilidade política por isso.

O fundamento dessa posição aparece num artigo publicado pelo Esquerda Diário, órgão do MRT, em 9 de outubro, intitulado “Eleições 2026: Mais uma vez, como chegamos até aqui?”. O texto afirma:

As diferenças entre Lula e Flávio Bolsonaro são reais e têm consequências concretas para milhões de pessoas. Ignorá-las seria um erro político grave. Entretanto, reconhecer essas diferenças não implica aceitar que o enfrentamento imediato à extrema direita deva exigir a renúncia permanente à construção de uma alternativa independente da classe trabalhadora.

A palavra decisiva é “permanente”. O MRT está disposto a renunciar “momentaneamente” à construção de uma alternativa independente da classe trabalhadora para unir forças com o PT e sua frente burguesa no segundo turno das eleições! E não perde tempo. “As próximas duas semanas exigem um combate sem tréguas”, escreve o Esquerda Diário.

Semeando ilusões nos atos pró-Lula e na reforma dos aparatos burocráticos

Para estar “lado a lado” com o PT, o MRT suspendeu largamente as críticas ao governo. Sobre o ato de domingo, o Esquerda Diário escreveu que “uma multidão encheu a Avenida Paulista, com Lula e todo o governo de Frente Ampla”, numa “forte demonstração de forças contra Flávio Bolsonaro”. E acrescentou: “O ato foi convocado pelo governo, com os limites da linha política de conciliação que veio levando até aqui. Apesar disso, o contingente que esteve nas ruas mostrou que há forças sociais que desejam combater nas ruas o reacionarismo bolsonarista e o imperialismo norte-americano”.

Por trás dessa operação está a ilusão central promovida pelo MRT: a de que os atos podem ser convertidos numa mobilização revolucionária, e os aparatos burocráticos que os convocam, em seus instrumentos. Segundo o Esquerda Diário, as manifestações “constituem um dos acontecimentos mais importantes da nova situação”. São “mobilizações iniciais, com fortes contornos eleitorais”, cujo desenvolvimento “dependerá... da capacidade de estabelecer vínculos com setores mais amplos da classe trabalhadora e desenvolver a perspectiva para além das eleições”. O caráter dos atos é reduzido a um contorno passageiro, que seria superado pela sua própria dinâmica.

O mesmo vale para o culto do MRT às “assembleias” estudantis, apresentadas como uma forma da auto-organização independente. Glorificando as “massivas assembleias, não vistas em anos nas universidades”, o MRT declarou que “essas assembleias mandam um recado muito claro para Flávio Bolsonaro, Nikolas Ferreira, Cleitinho, Pavanato, Eduarda Campopiano [parlamentares de extrema direita], a gente não tem medo! Não vão nos fazer recuar!”. As assembleias pró-Lula que se multiplicaram nas universidades são controladas pelos mesmos aparatos estudantis que conduziram a mobilização na Avenida Paulista. Tratá-las como órgãos de luta independentes é uma fraude completa.

A política do MRT, porém, não é uma particularidade brasileira. A crise brasileira é a expressão nacional de uma crise mundial única: a guerra da OTAN contra a Rússia, a guerra contra o Irã, o rearmamento das potências imperialistas e a ascensão de movimentos fascistas, que provocam a radicalização da juventude e da classe trabalhadora. Em cada país onde essa radicalização surge, os morenistas cumprem o mesmo papel.

Na França, os protestos de estudantes secundaristas, que o próprio MRT invoca ao escrever sobre os atos no Brasil, explodiram fora do controle das confederações sindicais e se transformaram num confronto com o governo Macron, com mais de 6 mil jovens presos. Como mostrou o WSWS, a Révolution Permanente, seção francesa da CRP, trabalha para reconduzir esse movimento aos aparatos. Ela exige das direções sindicais um “plano” de mobilização e chama os sindicalistas a pressioná-las por dentro. Limita o objetivo da luta a forçar o governo a “recuar” e silencia sobre a guerra. No Brasil, o ponto de partida é o oposto: os atos já pertencem aos aparatos, e o MRT os apresenta como embrião de um movimento independente. O método é o mesmo. A radicalização é mantida dentro das organizações que existem para contê-la.

Em um artigo publicado em 6 de outubro, o Esquerda Diário expõe a perspectiva mais ampla do MRT. Um “olhar crítico e reflexivo” sobre a situação, afirma, “permite começar a criar algo novo, uma esquerda de combate, radical, da luta de classes” (grifo no original).

O que é essa “nova esquerda”? É uma política de portas abertas às forças políticas das mais diversas tradições, do stalinismo ao pablismo, implicadas nas traições históricas à classe trabalhadora ao longo dos séculos XX e XXI. Foi essa, precisamente, a concepção que norteou a construção do PT nos anos 1980: um partido “amplo”, sem delimitação programática, cujos principais promotores foram os renegados pablistas do trotskismo, com destaque para os morenistas. É essa operação que o MRT propõe, essencialmente, repetir.

A classe trabalhadora não precisa “começar a criar” a sua direção revolucionária. Essa direção já existe. É o movimento trotskista liderado pelo Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI), forjado na luta contra o stalinismo e o pablismo. O CIQI não participou da construção dessas armadilhas, mas combateu-as. Contra os pablistas, o CIQI denunciou a adaptação ao castrismo, ao PT, ao “bolivarianismo” de Chávez e à Maré Rosa como formas de subordinar a classe trabalhadora à burguesia nacional na América Latina. Seu programa sintetiza a experiência histórica objetiva da classe trabalhadora. A tarefa é construir o CIQI como a direção revolucionária de massas da classe trabalhadora, no Brasil e internacionalmente.

Romper com as agências da burguesia nacional!

A política dos morenistas se apoia num pessimismo pequeno-burguês: trata uma derrota eleitoral do PT como uma derrota da classe trabalhadora. Rejeitamos inteiramente essa equação e a ideia de que votar em Lula seja uma “etapa necessária” da luta contra o fascismo. O primeiro turno representou uma derrota para a política burguesa falaciosa do PT e da pseudoesquerda, e essa derrota já ocorreu, independentemente de qualquer “virada” no segundo turno.

Os trabalhadores ainda não deram a sua palavra diante dessa crise. A condição necessária para combater o avanço do fascismo é a mobilização política da classe trabalhadora como força independente. Enquanto a sua intervenção política for bloqueada, o regime burguês continuará avançando aceleradamente para a direita, qualquer que seja o resultado de 25 de outubro. Se Lula vencer, seu governo continuará a política de austeridade, rearmamento e reabilitação dos militares que alimentou Flávio Bolsonaro. Uma mobilização para reeleger Lula e a sua Frente Ampla não “ganhará tempo” para a construção de uma alternativa de esquerda. Ela só prolongará a submissão dos trabalhadores e da juventude a esse instrumento burguês.

O Grupo Socialista pela Igualdade (GSI) rejeita a ilusão de que os atos pró-Lula, ou as organizações que os convocam, possam ser convertidos em instrumento de luta contra o fascismo. Às forças que querem lutar contra o fascismo e o imperialismo, o GSI diz que essa luta exige romper com todas as agências políticas da burguesia nacional: o PT, a pseudoesquerda que gira em torno dele, os sindicatos corporativistas e os aparatos estudantis subordinados a eles.

A força social capaz de derrotar o fascismo já está em movimento. São os bancários, os trabalhadores dos Correios, os professores e os metalúrgicos que enfrentam o governo Lula em greves recentes e são isolados pelas mesmas centrais que convocaram os atos. Essa luta precisa ser organizada de forma independente e em oposição à burocracia, por meio de genuínos comitês de base, ligados internacionalmente por meio da Aliança Operária Internacional de Comitês de Base (AOI-CB).

Mas o movimento da classe trabalhadora que se avizinha não se limitará a uma luta sindical. A crise do capitalismo e do sistema imperialista é uma crise objetivamente revolucionária em desenvolvimento. A classe trabalhadora não entrará em cena para reformar o Estado burguês por meio de um movimento sindicalista ou reformista de base nacional. A crise do Estado burguês, que se manifesta na emergência do fascismo e na crise de partidos como o PT e de seus aparatos burocráticos, é a mesma crise que convoca a classe trabalhadora a dar uma resposta revolucionária: abolir o capitalismo e tomar o poder político, sob a bandeira da revolução permanente e da construção do socialismo internacional.

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