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Como a Révolution Permanente impede a mobilização independente dos trabalhadores nos protestos estudantis na França

Publicado originalmente em inglês em 13 de outubro de 2026, este artigo analisa o papel da Révolution Permanente (RP) diante dos protestos estudantis que sacodem a França. A RP é a seção francesa da Corrente Revolução Permanente - Quarta Internacional (CRP - QI), da qual também fazem parte o Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS) da Argentina e Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT) do Brasil, que publica o Esquerda Diário. Herdeira de Nahuel Moreno, que rompeu com o Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI) em 1963 em busca de uma reunificação sem princípios com o pablismo, essa corrente se opõe à independência política da classe trabalhadora e à luta contra a guerra imperialista. Na França, a RP procura subordinar o movimento da juventude às burocracias sindicais e ao Estado capitalista, propondo apenas “forçar” Macron a “recuar” em vez de mobilizar a classe trabalhadora para derrubar o governo. É exatamente essa política que os morenistas buscam aplicar no Brasil, como o WSWS também expôs recentemente, com a tentativa do MRT de amarrar trabalhadores e jovens à Frente Ampla de Lula.

Myriam Bregman, dirigente do PTS da Argentina, no ato da Révolution permanente em Paris, em 24 de maio.

Os protestos dos estudantes do ensino médio que abalam a França, que se intensificaram paralelamente aos protestos em massa por moradia exigindo uma greve geral na Espanha, se transformaram em um confronto com o regime capitalista francês. Nesse cenário, torna-se central a necessidade de intervenção direta da classe trabalhadora. As muitas faixas e cartazes que fazem referência a Maio de 1968 – quando a indignação com a repressão policial aos protestos estudantis desencadeou a maior greve geral da história da França – refletem a percepção generalizada de que é necessário mobilizar toda a força da classe trabalhadora contra uma ordem social falida.

O principal obstáculo a essa mobilização são grupos pequeno-burgueses como a organização morenista francesa Révolution Permanente, que tentam isolar a revolta da juventude de uma mobilização independente e revolucionária da classe trabalhadora. Apesar de algumas frases combativas, suas análises são um emaranhado de evasivas que encobrem as tarefas revolucionárias colocadas à classe trabalhadora. Ignorando a escalada da guerra da OTAN contra a Rússia e a intensificação dos protestos em toda a Europa, a RP alimenta ilusões de que as burocracias sindicais farão o Estado “recuar”. Em uma declaração de 7 de outubro, a organização escreve:

O envolvimento dos trabalhadores também precisa se aprofundar. A solidariedade é fundamental, mas deve se traduzir em ações coletivas nos locais de trabalho e em mobilizações grevistas capazes de construir uma frente única contra a repressão e os ataques do governo.

Mas a classe trabalhadora não é coadjuvante no movimento juvenil. O movimento juvenil, por ter surgido fora do controle das centrais sindicais, expôs a profunda impopularidade do governo e a violência brutal do Estado policial. Ele desafiou a repressão policial e uma onda de prisões em massa, na qual mais de 6 mil jovens foram detidos, em sua esmagadora maioria menores de idade. Sozinho, porém, não tem como impor reivindicações por mais investimentos em educação e em gastos sociais, deter a guerra imperialista e a militarização da sociedade ou pôr fim à violência do Estado policial.

A força revolucionária capaz de paralisar a economia, ocupar fábricas e locais de trabalho e tirar o poder das mãos da oligarquia capitalista belicista é a classe trabalhadora. Como explicou o Parti de l’égalité socialiste (PES) em sua declaração: o movimento juvenil pode ser uma poderosa alavanca para mobilizar a classe trabalhadora e preparar uma greve geral. Jovens e trabalhadores já mobilizados na luta podem formar comitês de ação independentes para ir às fábricas, aos locais de trabalho e aos bairros operários, dialogar com os trabalhadores e preparar uma luta mais ampla.

O apelo da RP por uma “frente única contra a repressão e os ataques do governo” é deliberadamente vago: uma frente única de quem, organizada de que maneira, sob qual direção política e em torno de qual programa? A RP não responde a essas perguntas porque isso colocaria em pauta a necessidade de organizar politicamente a classe trabalhadora de forma independente das burocracias sindicais – justamente o que a RP existe para suprimir. Em seguida, a organização volta a insistir em sua velha exigência de que as direções sindicais elaborem um “plano de luta”, escrevendo:

A decisão da intersindical, anunciada no dia anterior, de marcar a próxima mobilização interprofissional para 5 de novembro revela a intenção de contornar o movimento estudantil secundarista… Todos os sindicalistas que reconhecem a urgência de manter a solidariedade com os estudantes do ensino médio devem, portanto, confrontar suas próprias organizações sindicais. Com a intensificação dos chamados à mobilização para 17 de outubro, é necessário exigir um plano que unifique a indignação e a mantenha viva durante as férias escolares.

A burocracia sindical busca, sem dúvida, desgastar e trair o movimento estudantil. A tarefa urgente, portanto, não é deixar os trabalhadores à mercê dos planos das direções sindicais, mas organizar de forma independente os jovens e trabalhadores em luta, para que possam mobilizar a classe trabalhadora em uma luta revolucionária que as burocracias sindicais querem impedir.

A RP se opõe a essa forma de organização independente da classe trabalhadora pela base. Para o movimento juvenil, propõe que os estudantes e professores “se organizem de forma independente, debatam suas reivindicações, elejam delegados e estabeleçam vínculos entre as escolas”. No entanto, não faz nenhum apelo à formação de comitês ou assembleias de base independentes que estabeleçam vínculos entre os locais de trabalho, independentemente das burocracias sindicais.

A RP, por sua vez, conclama os trabalhadores a “confrontar” a burocracia sindical por dentro – ou seja, a permanecer em suas fileiras e continuar subordinando suas lutas ao calendário de mobilizações e às negociações com o Estado capitalista. Ao propor a construção de “uma força capaz de obrigar o governo a recuar”, a RP conclui defendendo a organização dos estudantes em aliança com greves controladas pela burocracia sindical:

O que é necessário agora é dar continuidade e organização a esse movimento: assembleias, delegados com mandato, coordenação entre escolas de ensino médio e universidades e greves de trabalhadores que deem expressão concreta ao sentimento de solidariedade. […] É preciso aproveitar este momento para partir para a ofensiva: unir a força da juventude à dos trabalhadores, ampliar a mobilização e construir um confronto social capaz de derrotar o governo e seus ataques.

É preciso dizer sem rodeios: esse caminho não leva a uma greve geral nem à revolução socialista, mas à traição e à derrota. A história recente oferece lições amargas sobre as alianças propostas pela RP. Em 2023, durante a onda de greves em massa e revoltas juvenis contra os cortes nas aposentadorias promovidos por Macron, as burocracias sindicais enfraqueceram e encerraram o maior movimento grevista na França desde 1968. Depois que dirigentes sindicais declararam na televisão, diante de milhões de pessoas, que estavam aterrorizados com a indignação popular contra Macron, encerraram todas as greves contra os cortes – rejeitados pela esmagadora maioria da população – assim que Macron os promulgou.

Uma luta politicamente independente para mobilizar a classe trabalhadora contra a guerra imperialista e a reação capitalista é o caminho para evitar uma nova traição às lutas dos trabalhadores e da juventude.

O silêncio da RP sobre a guerra e o movimento internacional da classe trabalhadora

O que mais chama a atenção nas declarações da RP – e, na verdade, em toda a sua cobertura dos protestos estudantis na França – não é o que a organização diz, mas o que omite. Enquanto a guerra entre a OTAN e a Rússia na Ucrânia ameaça se ampliar e se transformar em uma guerra total, com o uso de armas nucleares, e os protestos se espalham pela Europa, a RP não relaciona as manifestações estudantis na França aos acontecimentos internacionais. A organização ignora a necessidade urgente de armar os trabalhadores e a juventude em luta, na França e internacionalmente, com uma perspectiva socialista para combater a guerra e a oligarquia capitalista.

A declaração da RP evita completamente a questão da guerra. Não faz nenhuma referência à guerra entre a OTAN e a Rússia na Ucrânia, à guerra contra o Irã ou às dezenas de bilhões de euros que a França vem investindo em suas Forças Armadas. Tampouco menciona que, em 6 de outubro, enquanto centenas de milhares de pessoas tomavam as ruas do país em protesto, as Forças Armadas francesas realizaram o primeiro teste de lançamento do míssil balístico M51.3, disparado de um submarino nuclear. O teste ocorreu poucos dias depois de Moscou fazer um alerta nuclear em resposta às ameaças da OTAN contra Kaliningrado.

Isso não é uma omissão acidental, mas uma consequência da perspectiva nacional-reformista da RP. Ao propor apenas “obrigar o governo a recuar”, ela se recusa a levantar problemas que não podem ser resolvidos no âmbito nacional, por meio de mudanças táticas na política do Estado capitalista. Assim, enquanto critica as burocracias sindicais por contornarem os protestos estudantis, a RP também contorna a luta contra a guerra imperialista, necessária para impedir que recursos financeiros sejam transferidos da educação para o setor militar.

É impossível, porém, superar a crise social e deter a guinada da burguesia em direção ao neofascismo e à violência de Estado sem se opor à guerra imperialista. A declaração do PES traçou um paralelo histórico com as guerras mundiais do século XX e destacou:

A escalada da guerra e a explosão da luta de classes não são questões separadas. Os mesmos governos que dizem aos trabalhadores que não há dinheiro para escolas, hospitais, aposentadorias e moradia gastam centenas de bilhões em armamentos. E o aparato policial e militar, reforçado em nome da segurança externa, é usado para reprimir a oposição dentro do próprio país. […]

Nos anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial, a Europa foi palco de greves em massa e de um avanço da luta revolucionária da classe trabalhadora. Ao mesmo tempo, as potências imperialistas intensificavam a corrida armamentista e mergulhavam em sucessivas crises internacionais. Quando a guerra eclodiu, em 1914, as classes dominantes invocaram a defesa nacional para exigir que os trabalhadores abandonassem a luta de classes e se subordinassem às suas próprias burguesias.

O silêncio da RP sobre a necessidade de se opor às guerras do imperialismo francês contra a Rússia e na África é um alerta quanto ao caráter de classe dessa corrente política. Correntes políticas que se mostraram incapazes de se opor ao imperialismo antes de 1914 capitularam à União Sagrada com a burguesia quando a Primeira Guerra Mundial eclodiu naquele ano.

Qual é a perspectiva da RP para uma “semana vermelha” capaz de obrigar o governo a “recuar”?

Em 8 de outubro, a RP divulgou uma nova declaração, apresentando sua perspectiva para um movimento juvenil aliado à burocracia sindical nos protestos previstos para a semana seguinte. No texto, intitulado “Revolta juvenil: precisamos de uma semana vermelha para estender o movimento ao mundo do trabalho”, escreveu:

Nesse sentido, após uma semana exitosa de protestos, o movimento estudantil secundarista e universitário deve agora se concentrar na construção de uma “semana vermelha”: uma semana de ações em conjunto com o mundo do trabalho. Com seu poder grevista e sua capacidade de interromper as atividades econômicas, essa mobilização poderia fortalecer a correlação de forças. Essa aliança é necessária para conquistar suas reivindicações e obrigar Macron a recuar.

Essa formulação resume a política da RP. O objetivo que ela coloca diante da classe trabalhadora não é derrubar o Estado capitalista, mas forçá-lo a “recuar”. Esse recuo tático de Macron, caso viesse a ocorrer, não poria fim às guerras nem derrubaria o governo Macron. Tampouco levaria à expropriação da oligarquia capitalista, que acumulou suas imensas fortunas saqueando os cofres públicos e desmontando os programas sociais da França.

O horizonte da “revolução” da RP se limita a obter condições mais favoráveis nas negociações com Macron. Sem sequer abordar as raízes das guerras e da crise social, que estão na crise internacional do capitalismo, essa política isolaria os trabalhadores e a juventude da França dos milhões de trabalhadores e jovens da Espanha, da Bélgica, dos Estados Unidos e de outros países que continuam em luta.

Essas posições nacional-oportunistas e pequeno-burguesas fazem parte do DNA político da RP enquanto corrente, cuja origem está na rejeição à defesa do trotskismo pelo Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI) contra o stalinismo e o pablismo. A RP é a seção francesa da corrente morenista, liderada pelo Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS), da Argentina. Essa corrente descende das forças lideradas por Nahuel Moreno, que inicialmente se alinharam ao CIQI na cisão de 1953 com a corrente pró-stalinista liderada por Michel Pablo, que havia surgido dentro da Quarta Internacional. No entanto, em 1963, acabaram buscando uma reunificação sem princípios com os pablistas.

Durante muitos anos, a RP atuou como uma corrente dentro do Novo Partido Anticapitalista (NPA) pablista, na França, fundado com base na rejeição explícita de um programa trotskista. Voltada a manobras com o Estado capitalista e a burocracia sindical no cenário nacional, a RP se opunha à luta do CIQI pelo internacionalismo socialista e pela independência política da classe trabalhadora.

Foi essa a perspectiva que a RP apresentou durante a luta de 2023 contra os cortes nas aposentadorias impostos por Macron, quando milhões de trabalhadores queriam paralisar a economia e derrubar o presidente francês. Na época, conforme documentou o WSWS, os dirigentes da RP Juan Chingo e Romaric Godin insistiam que “a situação não é revolucionária”, e Chingo declarou que o movimento grevista não deveria derrubar o capitalismo, mas sim desenvolver “um verdadeiro contrapeso ao poder da burguesia”.

Chingo exaltou a “democracia representativa burguesa” e propôs que os trabalhadores “façam experiências com a democracia representativa burguesa”, por meio de medidas como a fusão das duas casas do Parlamento francês em uma única câmara.

O apelo da RP, em 2026, para “obrigar” Macron a “recuar” dá continuidade à proposta, em 2023, de atuar dentro dos limites da dominação burguesa. Ambas são fórmulas para subordinar a classe trabalhadora ao Estado capitalista, negar as tarefas revolucionárias decorrentes da crise do capitalismo e canalizar a indignação social para negociações burocráticas com um governo que promove guerras e ataca as condições de vida da população.

A alternativa é a organização independente não apenas da juventude, mas, acima de tudo, da classe trabalhadora. As próximas semanas de protestos devem servir para ampliar ao máximo a luta entre os trabalhadores. Isso significa construir comitês de ação que conectem as lutas dos trabalhadores e jovens na França às de seus irmãos e irmãs de classe em todo o mundo, além de preparar uma greve geral capaz de derrubar o governo Macron, pôr fim às guerras e abrir caminho para a revolução socialista.

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