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Brasil vai ao segundo turno em meio à erupção mundial da luta de classes

Neste domingo, 25 de outubro, os brasileiros voltam às urnas para o segundo turno da eleição presidencial. De um lado está o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), candidato à reeleição à frente da chamada Frente Ampla. Do outro, o senador Flávio Nantes Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), filho mais velho do ex-presidente fascista Jair Messias Bolsonaro, que cumpre pena de 27 anos de prisão pela tentativa de golpe de Estado. Flávio terminou o primeiro turno à frente, com 47% dos votos válidos contra 45,2% de Lula.

Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva durante debate presidencial. [Photo: Band TV]

A eleição ocorre em meio a uma erupção da luta de classes em escala mundial, cujo ponto de maior concentração é hoje a França, onde, em 17 de outubro, mais de 550 mil estudantes secundaristas, “coletes amarelos” e trabalhadores marcharam contra o custo de vida, os cortes na educação e a repressão policial. De Washington, Donald Trump descreveu os protestos como “uma revolução completa” que precisa ser violentamente suprimida.

A explosão francesa é parte de uma onda de protestos e greves contra a guerra, a austeridade e a repressão que varre a Europa. A mesma onda se estende à América Latina: dos trabalhadores da saúde no México à greve nacional na Colômbia, dos servidores públicos argentinos aos mineiros chilenos e aos protestos contra o aumento do diesel na Bolívia, reprimidos com tropas.

O FMI declarou “urgentes” os cortes de gastos públicos em escala global. Impor esse programa a uma classe trabalhadora que se recusa a aceitá-lo exige formas ditatoriais de governo, e para isso a burguesia mundial alimenta forças fascistas em todas as partes.

Um programa comum de ataque à classe trabalhadora

Também no Brasil é o que a burguesia percebe como uma crise da dívida pública que dita os termos da eleição. Nos 12 meses até junho, o déficit nominal do Estado chegou a 9,99% do PIB, o maior desde a pandemia, puxado por gastos com juros de R$ 1,16 trilhão, equivalentes a 8,8% do PIB. Uma parcela gigantesca da riqueza produzida pela classe trabalhadora é transferida diretamente aos detentores dos títulos.

A elite financeira não deixa dúvidas sobre o que exige do próximo governo. A imprensa econômica já enumera as medidas esperadas para 2027: desvincular as aposentadorias e os benefícios assistenciais do salário mínimo e desatrelar os gastos com saúde e educação da arrecadação. Trata-se de um ataque direto às condições de vida de dezenas de milhões de trabalhadores, aposentados e pobres, e o temor de uma recessão só torna essa exigência mais imperativa.

Os dois candidatos da burguesia se apresentam como executores desse programa. Flávio Bolsonaro promete um “tesouraço” inspirado na “motosserra” do presidente argentino Javier Milei. Seu programa prevê um ajuste de 1,5% do PIB, um teto para a dívida, o corte de dez ministérios e uma emenda constitucional de arrocho no início do mandato. Nos bastidores, sua equipe já discutiu acabar com os ganhos reais das aposentadorias.

Lula oferece o mesmo programa, numa forma calculada justamente para não provocar uma explosão social. Em seu primeiro pronunciamento oficial depois do primeiro turno, declarou que ninguém no país tem “autoridade moral para falar de política fiscal” a ele e a seu vice, Geraldo Alckmin. Lula e sua Frente Ampla não propõem nenhum confronto a esse programa de ataques capitalistas: buscam geri-lo da forma mais eficaz possível.

Uma guinada à direita de todo o sistema político brasileiro

Com a vantagem acentuada que obteve no primeiro turno, Flávio pôde poupar as ameaças golpistas mais abertas nas últimas semanas. Elas não desapareceram. O candidato anunciou que pretende alterar a Constituição para “redemocratizar” o Brasil, proposta que repetiu no debate presidencial, associando-a ao combate ao crime e à redução da maioridade penal. Uma derrota eleitoral de Flávio não encerraria a ameaça fascista. Tudo indica que ela seria acompanhada de uma contestação violenta dos resultados — uma repetição, em nível mais elevado, do 8 de janeiro de 2023 —, desta vez em condições muito mais explosivas e numa América Latina marcada pela intervenção cada vez mais direta e violenta do imperialismo norte-americano.

Nas últimas semanas, conversas internas da Meta, dona do Facebook, do Instagram e do WhatsApp, obtidas pela Folha de S.Paulo, expuseram funcionários da empresa reconhecendo que a conta de Lula estava limitada em comparação com a de Flávio. Com base nisso, a campanha do PT pediu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a cassação da candidatura bolsonarista por “manipulação algorítmica”. Longe de uma “falha técnica”, como alega a empresa, os episódios indicam que setores centrais da oligarquia capitalista dos Estados Unidos estão decididos a promover um novo governo dos Bolsonaro no Brasil.

Em 20 de outubro, o presidente fascista da Argentina, Javier Milei, aliado autodeclarado da família Bolsonaro, compartilhou nas redes um trecho de uma entrevista de Lula, chamou o presidente brasileiro de “ladrão” e escreveu esperar que seu último truque de campanha “não inclua roubar a eleição”. A insinuação de fraude não é um improviso. Milei já anunciava esse cenário em julho, quando discursou no lançamento da candidatura de Flávio. Trata-se de uma estratégia em continuidade direta com a conspiração conduzida por Jair Bolsonaro e pelo alto comando militar nas eleições de 2022, que culminou no ataque fascista em Brasília em 8 de janeiro de 2023. Discursando em julho, Milei não deixou margem a dúvida: “Vocês já viram isso há quatro anos, nas últimas eleições presidenciais, e verão novamente. Preparem-se. Porque a esquerda não tem problema algum em jogar sujo. Preparem-se para uma grande batalha.”

A resposta do PT e de sua Frente Ampla a esses desenvolvimentos seguiu o mesmo curso reacionário, aprofundando ao longo de todo o segundo turno sua guinada à direita. Em 15 de outubro, em entrevista ao Jornal Nacional, Lula declarou-se favorável à redução da maioridade penal de 18 para 16 anos em casos de crimes hediondos, uma velha bandeira da extrema direita que o próprio PT combateu por décadas. Ao mesmo tempo, fez da PEC da Segurança Pública, que endurece as penas contra membros de facções e restringe saídas temporárias e progressão de regime, uma de suas principais bandeiras, sob o lema “Para o bandido, a prisão”.

A campanha passou a girar em torno de Geraldo Alckmin — ex-governador de São Paulo e, por três décadas, um dos principais quadros do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), o partido da direita tradicional que o PT enfrentou em todas as eleições presidenciais de 1994 a 2014. Lula o apresentou como o homem que entende de ajuste fiscal e passou a avaliar nomeá-lo ministro da Fazenda para conquistar a confiança do mercado. A propaganda eleitoral mais recente do PT traz o general Carlos Alberto dos Santos Cruz, ex-ministro-chefe da Secretaria de Governo de Bolsonaro, e o lema: “quem é de esquerda vota 13, quem é de direita vota 13”. Alckmin completou: “De direita ou de esquerda, somos todos brasileiros”. A mensagem é inequívoca. Não se trata, para o PT, de uma disputa entre direita e esquerda, mas de uma campanha “pelo Brasil”, na qual a agenda da direita é apresentada como legítima e a Frente Ampla reivindica para si a tarefa de executá-la.

Essa guinada se combinou com a forma como o PT respondeu às grandes mobilizações das últimas semanas contra a volta dos Bolsonaro ao poder. Muitos dos que foram às ruas eram movidos por uma oposição legítima ao fascismo e ao imperialismo, e o PT convocou os atos justamente porque sentiu a pressão de setores que exigiam uma resposta mais combativa da campanha de Lula. O período que antecedeu o segundo turno expôs ainda mais a concepção falsa por trás desses atos: de que a Frente Ampla é o caminho necessário para combater o fascismo.

O PT e seus satélites da pseudoesquerda conduziram as forças mobilizadas por sua campanha para um esvaziamento de qualquer compreensão política da crise e de qualquer preparação para uma luta de massas contra o capitalismo e a ascensão do fascismo. As ações de campanha foram orientadas exclusivamente para “virar votos”, apropriando-se de ícones e bandeiras da extrema direita e de um nacionalismo reacionário, e usando a ameaça de uma vitória de Flávio Bolsonaro como chantagem para subordinar a juventude à Frente Ampla.

O que é a Frente Ampla do PT?

A Frente Ampla nasceu como a coalizão eleitoral formada em torno da candidatura de Lula em 2022. Apresentada como uma aliança “democrática” e “antifascista”, seu conteúdo real era a unidade das principais frações da burguesia brasileira para conter a crise do seu regime e bloquear uma saída independente da classe trabalhadora. Seu núcleo foi a chapa de Lula com Alckmin, incorporado como fiador da aliança com o capital nacional e estrangeiro. Ela se estendeu muito além do PSDB, cortejando abertamente setores da coalizão governista de Bolsonaro, que, de resto, havia integrado a base dos governos petistas por quase uma década. Sua certidão de nascimento foram as “Cartas pela Democracia” capitaneadas pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e por grandes grupos industriais e financeiros, endossadas pelo PT, pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), pela Força Sindical e pela União Nacional dos Estudantes (UNE) e celebradas como a união de capital e trabalho em defesa da democracia.

Em 2026, a Frente Ampla avançou ainda mais nessa direção, incorporando forças que, quatro anos atrás, estavam na oposição de direita a Lula. Soraya Thronicke, eleita em 2018 como “a senadora do Bolsonaro” e candidata à Presidência pelo União Brasil em 2022, disputando o mesmo eleitorado da extrema direita, filiou-se em abril ao Partido Socialista Brasileiro (PSB) de Alckmin, numa articulação de Lula, para buscar a reeleição com seu apoio. No mesmo mês, entrou no PSB Rodrigo Pacheco, ex-presidente do Senado vindo da direita tradicional, para impulsionar a candidatura de Lula em Minas Gerais. Com eles chegou Josué Gomes da Silva, industrial e ex-presidente da FIESP.

A essência política da Frente Ampla do PT está enraizada na tradição traidora do popular-frentismo stalinista. Analisando a Frente Popular espanhola em As lições da Espanha: a última advertência, de 1937, Trotsky a sintetizou: “A história moderna da sociedade burguesa está repleta de todo tipo de Frentes Populares, isto é, das mais diversas combinações políticas para enganar os trabalhadores. A experiência espanhola é apenas um novo e trágico elo nessa cadeia de crimes e traições.”

O papel cumprido pela Frente Ampla do PT corresponde exatamente ao que Trotsky descreveu. Ao apresentar Alckmin como alguém com “autoridade moral para falar de política fiscal” e ao abraçar a agenda repressiva da extrema direita, da redução da maioridade penal ao “Para o bandido, a prisão”, Lula oferece à burguesia aquilo que ela busca em Flávio. A tarefa dos líderes da burguesia republicana espanhola, explicava Trotsky, consistia em conter a revolução das massas e assim recuperar a confiança perdida dos exploradores: “Para que vocês precisam de Franco, se nós, os republicanos, podemos fazer a mesma coisa?”

Há, porém, uma diferença essencial. As frentes populares do século 20 tinham em seu centro partidos operários de massas com direções traidoras — a social-democracia e os partidos comunistas stalinistas —, que arrastavam milhões de trabalhadores para trás da burguesia. O PT já não tem esse caráter. Ao longo de quatro décadas, transformou-se, de um partido baseado em sindicatos que organizam as lutas econômicas de massas da classe trabalhadora brasileira, num partido do capital, inteiramente integrado ao Estado burguês. Essa trajetória está inscrita em suas próprias chapas presidenciais. Já em 1989, Lula escolheu como vice José Paulo Bisol, um dos fundadores do PSDB; em 2002, o magnata têxtil José Alencar — pai de Josué Gomes —, escolhido junto com a “Carta ao Povo Brasileiro” para tranquilizar o mercado financeiro; em 2022, Alckmin, o maior adversário histórico do PT em São Paulo. A Frente Ampla não é a aliança de um partido operário com a burguesia, mas uma combinação de forças burguesas cuja função específica é usar a autoridade histórica do PT para conter a classe trabalhadora.

Por isso, nenhuma luta contra o fascismo pode ser conduzida por meio dessa Frente Ampla. As massas a veem corretamente como a expressão máxima do “sistema político” burguês, e o PT assumiu o papel de fiel da balança de um regime burguês em crise. Os fascistas se beneficiam dessa rejeição, apresentando-se cinicamente como “antissistema” — o que não são. Cada concessão à agenda da direita e cada ataque aplicado em nome da “responsabilidade fiscal” aprofundam a desilusão da qual a extrema direita se nutre.

As lutas que se aproximam

A força social capaz de derrotar o fascismo, no entanto, já está em movimento. Às vésperas do primeiro turno, greves de bancários, trabalhadores dos Correios, professores e metalúrgicos se espalhavam pelo país contra a política do governo Lula. Essas lutas continuaram a se desenvolver em plena campanha eleitoral.

Somente nesta semana, uma série de novas greves emergiu entre diferentes categorias e regiões do país. Rodoviários na zona sul de São Paulo cruzaram os braços em 19 de outubro em uma ação por fora do sindicato, atingindo o transporte de 267 mil passageiros, para cobrar depósitos atrasados do FGTS e do INSS. A prefeitura respondeu com a demissão de três motoristas e a Guarda Civil nas garagens; uma nova greve já foi anunciada para 26 de outubro, o dia seguinte às eleições. Em Macapá, capital do Amapá, rodoviários encerraram uma semana de greve. Na siderúrgica GV do Brasil, em Pindamonhangaba, mil metalúrgicos pararam contra uma proposta sem aumento real. Em Cubatão, cerca de 300 petroleiros terceirizados entraram em greve reclamando horas extras e benefícios não pagos na Refinaria Presidente Bernardes, da Petrobras. Trabalhadores dos hospitais Vita, em Curitiba, fizeram mais de uma semana de greve por salários atrasados.

Essas greves são as primeiras expressões de lutas muito mais amplas, que se aproximam independentemente de quem vença no domingo. O programa que a burguesia exige para 2027 — o desmonte das aposentadorias, dos benefícios sociais e dos gastos com saúde e educação — é o mesmo que levou a juventude e os trabalhadores franceses às ruas, e sua imposição exigirá formas cada vez mais autoritárias de governo, seja sob Flávio, seja sob a Frente Ampla.

A crise política brasileira é parte de uma crise objetivamente revolucionária do capitalismo mundial. Ela coloca diante da classe trabalhadora não a tarefa de reformar o Estado burguês, mas a de tomar o poder político. Isso exige estabelecer sua independência política em relação à Frente Ampla e a todas as forças da burguesia nacional, organizar suas lutas em comitês de base independentes da burocracia sindical, ligados internacionalmente pela Aliança Operária Internacional de Comitês de Base (AOI-CB), e construir a direção revolucionária capaz de conduzi-las com base no programa da revolução permanente e do socialismo internacional: o Grupo Socialista pela Igualdade (GSI), que luta pela formação da seção brasileira do Comitê Internacional da Quarta Internacional.

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