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Por trás da virada da GM a veículos totalmente elétricos até 2035

Parte um

Publicado originalmente em 16 de fevereiro de 2021

Esta é a primeira parte de um artigo que será publicado em duas partes. A segunda parte pode ser lida aqui.

No final de janeiro, a CEO da General Motors, Mary Barra, anunciou que a empresa pretende fazer uma transição até 2035 para vender carros, SUVs e caminhões leves apenas com emissões zero, eliminando gradualmente os veículos com motores a gasolina e diesel. A empresa também disse que até 2040 todas as suas fábricas e instalações nos EUA serão neutras em carbono.

Carros elétricos da GM carregam nas estações EVgo (GM Media)

A GM havia anunciado anteriormente um investimento de US$ 27 bilhões em veículos elétricos (EVs) e veículos autônomos nos próximos cinco anos, acima dos US$ 20 bilhões anunciados antes do início da pandemia de COVID-19. Ela planeja oferecer 30 modelos EV até 2025.

A empresa já está perto de concluir a modernização da Factory Zero, antiga fábrica de montagem Detroit-Hamtramck, que deve entrar em operação ainda este ano. Assim que for reaberta, a fábrica produzirá versões elétricas do SUV Hummer e, eventualmente, o veículo autônomo Cruise Origin.

Embora a GM tenha estabelecido um longo período para se desvincular dos motores a combustão – chamando esse plano de “aspiração” – o anúncio reflete mudanças tectônicas na indústria automobilística global e na economia mundial.

Ao longo do século XX e até o século XXI, os motores a combustão interna foram profundamente integrados aos vastos e cada vez mais globalizados sistemas de produção automobilística, ao mesmo tempo que moldavam o transporte, a atividade econômica e a vida diária de bilhões de pessoas.

No entanto, fatores objetivos complexos – em particular os desenvolvimentos tecnológicos, incluindo métodos mais baratos de produção de bateria de íon-lítio – estão acelerando a mudança para veículos elétricos, o que, por sua vez, estimula uma disputa amarga entre as principais montadoras pelo domínio das tecnologias, das cadeias de abastecimento e dos respectivos mercados.

Os veículos elétricos ainda representam uma parcela relativamente pequena das vendas globais. Cerca de 3,2 milhões de veículos plug-in foram vendidos em 2020, de acordo com a EV-Volumes, uma empresa de consultoria do setor com sede na Suécia. No entanto, espera-se que esse número dispare, com uma projeção de aumento de 70% só para 2021. Cerca de 150 novos modelos de bateria elétrica e híbridos plug-in estão programados para chegar ao mercado este ano, e o total de veículos elétricos e híbridos em todo o mundo pode chegar a 140 milhões até 2030, segundo a Agência Internacional de Energia.

Tanto a Europa quanto a China tiveram um crescimento substancial nas vendas de EV no ano passado, apesar da queda geral em seus mercados automotivos devido ao coronavírus. As novas vendas de EV plug-in na Europa cresceram 137% em 2020, segundo a EV-Volumes, representando 10,2% das vendas totais, contra apenas 3,3% por cento em 2019.

Na China, as vendas dos novos veículos elétricos (NEVs) – que incluem veículos elétricos a bateria, híbridos plug-in e células de combustível a hidrogênio,

entre outros – cresceram a uma velocidade relativamente mais lenta, embora ainda significativa, de 12% em 2020. As vendas de NEVs aumentaram 239% em janeiro de 2021 em relação ao mesmo período do ano passado.

A China tem agora o maior mercado automobilístico do mundo – maior do que os Estados Unidos e o Japão juntos – e tem dado um impulso agressivo aos veículos elétricos por meio de subsídios estatais e outras medidas, num esforço para se posicionar como pioneira no setor e, mais recentemente, para compensar o impacto negativo da COVID-19 em sua economia.

Nos EUA, as vendas de veículos elétricos novos cresceram anêmicos 4% em 2020, segundo a EV-Volumes, com o mais novo EV Tesla respondendo por quase 80% das vendas.

Nos últimos anos, as montadoras americanas tradicionais, como GM e Ford, têm ficado cada vez mais para trás na corrida dos carros elétricos. Os investidores têm exercido pressão crescente sobre as “Três Grandes de Detroit” para cortar custos e liberar capital, e então fazer os grandes investimentos em tecnologia, pesquisa e desenvolvimento necessários para produzir veículos elétricos em grande escala.

Os estrategistas do imperialismo dos EUA também têm visto com crescente preocupação o rápido crescimento de seus rivais estrangeiros, particularmente a China no setor de EV, e inclusive exigindo uma mudança na abordagem que era feita pelo governo Trump, cujas políticas favoreciam o prolongamento dos veículos movidos a combustível.

Veículos elétricos sob os governos Trump e Biden

Poucos dias antes do anúncio da GM, o presidente Joe Biden havia anunciado planos para fazer a transição da frota de veículos do governo federal para carros elétricos produzidos nos Estados Unidos. Seu anúncio foi feito durante a assinatura de uma ordem executiva “Buy American”, que dá continuidade ao nacionalismo econômico reacionário e ao protecionismo do governo Trump, ao mesmo tempo em que busca dar apoio aos desacreditados sindicatos pró-corporativos.

A Casa Branca elogiou rapidamente as intenções da GM de mudar para veículos elétricos, com um porta-voz afirmando: “Aplaudimos os esforços do setor privado para abraçar ainda mais as tecnologias de energia renovável e limpa. O presidente e muitos outros disseram que esforços como este ajudarão a fazer nossa economia crescer e criar empregos bem remunerados e sindicalizados”.

A CEO da GM, Barra, tem mantido comunicação regular com o governo Biden, ingressando em uma reunião virtual com o presidente eleito, funcionários da corporação e sindicalistas em novembro, logo após a eleição. Certamente a empresa está fazendo lobby nos bastidores, por aumentos discretos nos padrões e regulamentos das emissões da indústria, seguindo seu desmantelamento agressivo sob o governo Trump, talvez em troca oferecendo-se para ajudar a suavizar a imagem de “ações sobre a mudança climática”, dos primeiros dias do governo Biden.

No entanto, os sucessivos governos dos democratas e dos republicanos, ambos subordinados ao imperialismo norte-americano e aos interesses de lucro capitalistas, mostraram-se incapazes de implementar as mudanças orientadas pela ciência e internacionalmente coordenadas na produção e na atividade econômica necessárias para evitar um aquecimento do planeta ainda mais desastroso.

O presidente Donald Trump aponta para a CEO da GM, Mary Barra, pouco antes do início de uma reunião com executivos do setor automobilístico, no dia 24 de janeiro de 2017. (Pablo Martinez Monsivais/AP Photo)

De acordo com as regras decretadas pelo governo Obama, os padrões de economia de combustível deveriam chegar a 54,5 milhas por galão (aproximadamente 22,95 Km por litro) até 2025, uma meta já insuficiente para controlar as emissões de gases de efeito estufa. Mas, com veículos menos eficientes em termos de combustível, como SUVs e picapes, constituindo uma parcela crescente dos lucros das montadoras na segunda metade da última década, muitas das principais montadoras aproveitaram a oportunidade proporcionada pelo governo Trump em 2017 para pressionar por padrões de emissões consideravelmente mais flexíveis.

Pouco depois de sua vitória eleitoral em 2016, a CEO da GM, Barra, se reuniu com Trump e concordou em participar de um painel de política econômica da Casa Branca, junto a executivos de outras corporações. Ela pressionou pessoalmente para que as regras de emissões da era Obama diminuíssem, o que veio a acontecer em 2018 como parte de um amplo esforço de Trump e dos congressistas republicanos para eliminar as regulamentações ambientais e outras leis corporativas.

Em setembro de 2019, o governo Trump decidiu revogar a autoridade da Califórnia para definir padrões de emissões mais rígidos do que os do nível federal, depois que as montadoras contestaram, alegando que a falta de uniformidade nas regulamentações dos Estados Unidos levaria ao aumento dos custos de produção. A GM junto à então Fiat Chrysler (agora Stellantis), à Toyota e a outras empresas entraram em um processo de apoio ao governo Trump em sua batalha jurídica contra o estado da Califórnia.

Após a eleição de Biden em novembro passado, no entanto, a GM desistiu do processo, seguida, apenas neste mês, pela Stellantis e Toyota. Barra declarou na época: “Acreditamos que as ambiciosas metas de eletrificação do presidente eleito, da Califórnia, e da General Motors estão alinhadas para enfrentar a mudança climática, reduzindo drasticamente as emissões dos automóveis”.

Apesar da aparente reviravolta da GM, o fato é que o governo Biden está agora emitindo padrões de emissões de cerca de 51 milhas por galão para 2026, uma regra mais flexível do que aquela decretada pelo governo Obama.

De qualquer forma, a administração Biden, assim como a imprensa alinhada ao Partido Democrata, como o New York Times, sinalizou que vê o desenvolvimento de uma cadeia de fornecimento doméstica para EVs como uma questão de “segurança nacional”, ou seja, de interesses do imperialismo dos EUA.

O New York Times acompanhou o anúncio da GM sobre a mudança para EVs publicando um artigo com a manchete alarmada “O impulso para o carro elétrico da GM pode colocar a China na posição de motorista”, expressando preocupações com a atual liderança da China na produção de baterias e de metais de terras raras, como lítio e cobalto, que são necessários para a produção desses veículos. Atualmente, a China é responsável por cerca de 80% das importações de metais de terras raras dos EUA.

Em sua audiência de confirmação na semana passada, a nomeada de Biden para o cargo de secretária de Energia, a ex-governadora de Michigan, Jennifer Granholm, reiterou a posição nacionalista do governo para a economia, dizendo ao Congresso: “Podemos comprar baterias de carros elétricos da Ásia ou podemos fabricá-las na América”.

Continua

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