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Greve de ferroviários da CPTM expõe desastre da privatização em São Paulo

Uma greve de ferroviários paralisou nos dias 4 e 5 de agosto três das mais importantes linhas de trem de São Paulo, capital do estado mais rico e populoso do Brasil, interrompendo o transporte de aproximadamente 850 mil passageiros diários e expondo o desastroso programa de privatização do governador de extrema direita Tarcísio de Freitas. A paralisação das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade – esta última, a única conexão ferroviária com o aeroporto internacional de Guarulhos – da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) foi suspensa após o sindicato aceitar uma proposta de conciliação intermediada pelo Tribunal Regional do Trabalho (TRT).

Passageiros na estação do Grajaú da CPTM em São Paulo. [Photo: Rovena Rosa/Agência Brasil]

As três linhas haviam sido transferidas à concessionária Trivia Trens em 21 de julho. Em apenas três dias de operação privada, o sistema entrou em colapso: atrasos, plataformas lotadas e, no dia 23 de julho, um curto-circuito seguido de incêndio em um trem da Linha 12-Safira deixou passageiros em pânico. A Agência Reguladora de Transportes do Estado de São Paulo (ARTESP) foi forçada a tomar uma medida inédita: determinou que a CPTM reassumisse emergencialmente a operação por 90 dias, suspendendo a concessionária. 

A greve estourou tanto em resposta direta a esses problemas quanto ao medo de demissões em massa: a Trivia Trens, com cerca de 2.400 funcionários, absorveu apenas 230 profissionais da CPTM – míseros 11% do total operacional. Os 4.700 ferroviários da CPTM viram na privatização não uma “modernização”, mas a substituição em massa da força de trabalho por mão de obra mais barata e sem a experiência e as condições conquistadas em décadas de luta.

Após dois dias de paralisação que desafiaram abertamente o governador, o Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias da Zona Central do Brasil conduziu a categoria para a desmobilização. Em audiência no TRT, o governo Tarcísio comprometeu-se a enviar à Assembleia Legislativa de São Paulo (ALESP) um projeto de lei autorizando a absorção dos funcionários da CPTM em órgãos da administração pública estadual. 

A proposta foi aprovada em assembleia por 131 votos a 26, e o sindicato anunciou a manutenção do “estado de greve” – a fórmula clássica da burocracia sindical para posar de combativa enquanto desarma os trabalhadores na prática.

O projeto de lei, já protocolado na ALESP, não impede a privatização, não reverte a concessão das linhas à Trivia Trens e não garante que os novos postos na administração pública mantenham salários e condições equivalentes. Ele apenas administra as consequências sociais da destruição da CPTM, oferecendo aos trabalhadores a perspectiva de serem dispersos por diferentes órgãos públicos, com contratos rebaixados, enquanto o patrimônio público é entregue a mais um grupo privado.

O programa de Tarcísio de destruição dos serviços públicos

A greve dos ferroviários não é um episódio isolado. Ela é a manifestação mais recente da resistência ao programa de privatização que constitui o pilar central do governo Tarcísio. Ex-ministro no governo do ex-presidente fascista Jair Bolsonaro (2019-2022) e um entusiasta do “modelo Milei” de austeridade e repressão do presidente argentino, as promessas de Tarcísio de que esse programa traria “eficiência” e “investimentos” aos serviços públicos está colapsando rapidamente no quarto ano de seu governo. 

O pacote de privatizações de Tarcísio vai muito além dos trens. A SABESP, uma das maiores empresas de saneamento do mundo, teve seu controle transferido ao Grupo Equatorial em 2024. O resultado: reclamações de usuários quase triplicaram na Grande São Paulo nos últimos dois anos, com queixas recorrentes de interrupção no fornecimento de água e cobranças indevidas. Em maio, uma explosão durante obras da SABESP no bairro do Jaguaré, na zona oeste de São Paulo, destruiu dezenas de residências e matou duas pessoas.

O programa de privatização do governo Tarcísio abrange ainda a Empresa Metropolitana de Águas e Energia (EMAE), rodovias e linhas de metrô e trens intermunicipais, além de parcerias público-privadas para a construção e manutenção de escolas, hospitais e habitação popular. O pacote prevê ainda repassar para a iniciativa privada 100% das linhas de trem da CPTM, parques estaduais e articulações para a concessão do Porto de Santos.

A farsa do “investimento privado” e o papel do governo Lula

O discurso oficial de que as privatizações atraem capital privado e desoneram o orçamento estadual desmorona diante dos fatos. O programa de privatizações do governo Tarcísio tem contato com o apoio direto do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (Partido dos Trabalhadores – PT) através do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Em São Paulo, o BNDES aprovou R$6,4 bilhões para a concessão de trens intermunicipais, R$1,35 bilhão para rodovias e R$3,6 bilhões para a expansão da Linha 2-Verde do Metrô. O Túnel Santos-Guarujá, no litoral de São Paulo, faz parte do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo Lula.

Essa parceria entre os governos Tarcísio e Lula foi inscrita na própria arquitetura jurídica e financeira do Estado brasileiro pelo primeiro governo Lula (2003-2006). A Lei das Parcerias Público-Privadas, de 2004, foi elaborada pelo ex-ministro da Fazenda do governo Lula e candidato do PT a governador de São Paulo, Fernando Haddad, quando era assessor especial no Ministério do Planejamento. O modelo criou o arcabouço para viabilizar investimentos privados com contrapartida pública, particularmente através do BNDES, em projetos de infraestrutura – exatamente o mecanismo que hoje financia as concessões de Tarcísio.

Numa entrevista de 23 de junho à Jovem Pan, Haddad criticou Tarcísio nos seguintes termos: “em primeiro lugar, pega o Tarcísio como ministro dos transportes [durante o governo Bolsonaro]. Em relação a parcerias com o setor privado, ele fez um terço das parcerias [público-privadas] que o [atual ministro] Renan Filho fez.” De fato, em três anos (2023-2025), o governo Lula realizou 50 concessões de rodovias, ferrovias, portos e aeroportos, enquanto o governo Bolsonaro realizou 45 ao longo de quatro anos. 

O plano de privatização do governo Lula é amplo. Ele inclui a privatização de rios e parcerias público-privadas para a construção e gestão de presídios e, através do financiamento do BNDES, a privatização de empresas de saneamento e a construção de escolas em diversos estados brasileiros. No ano passado, ele lançou um plano de “plano de reestruturação” nos Correios que está acelerando sua privatização. Há também a possibilidade de o governo Lula passar duas empresas federais que administram trens e metrôs estaduais – a Empresa de Trens Urbanos (Trensurb) e a Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) – a governos estaduais por meio de parcerias público-privadas.

Nesse contexto, as críticas que Haddad tem feito às privatizações da SABESP e de linhas de trens como parte de sua campanha eleitoral em São Paulo são estritamente de método, não de classe. Para Haddad, a privatização deve ser uma ferramenta “por necessidade”, acionada para cobrir lacunas pontuais de financiamento público. Para Tarcísio, a desestatização é um modelo permanente de eficiência. Em ambos os casos, o capital privado é o sócio indispensável, e a propriedade pública é tratada como um fardo contábil.

Uma década de resistência e traição

O histórico das greves na CPTM revela uma transformação significativa. Nos anos 1990 e 2000, as paralisações concentravam-se em reivindicações salariais e condições de trabalho. Em 2007, uma greve massiva paralisou o sistema de trens por reajustes nos vales-refeição e alimentação, resultando em demissões por justa causa que se arrastaram por anos. Em junho de 2014, às vésperas da Copa do Mundo, ferroviários e metroviários unificaram-se em uma greve de cinco dias que terminou no TRT com a demissão de mais de 40 dirigentes sindicais.

A partir da década de 2020, o foco das greves deslocou-se integralmente para o combate às privatizações. Em julho de 2021, uma greve de 24 horas paralisou parcialmente as linhas de trens de São Paulo contra o congelamento de salários e o avanço das concessões. Em outubro e novembro de 2023, ferroviários, metroviários e trabalhadores da SABESP realizaram paralisações unificadas contra o pacote de privatização de Tarcísio.

Em todas essas ocasiões, o desfecho foi o mesmo: as direções sindicais – controladas por burocratas ligados ao PT, ao pseudoesquerdista Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e a grupos morenistas e stalinistas – conduziram as greves para os tribunais, aceitaram acordos que não revertiam as privatizações e desmobilizaram os trabalhadores. A greve dos ferroviários de agosto de 2026 repete esse roteiro.

Ela eclodiu menos de dois meses após o encerramento de um dos maiores movimentos grevistas da história do ensino superior brasileiro. Entre abril e junho, estudantes, funcionários e professores da USP, UNESP e UNICAMP realizaram greves ao longo de quase três meses contra a deterioração das condições de trabalho e ensino, a falta de professores, o avanço da terceirização e a insuficiência das bolsas de permanência estudantil. Em 20 de maio, dez mil pessoas marcharam ao Palácio dos Bandeirantes sob o lema “Fora Tarcísio”.

Ao longo de 2026, professores da rede estadual e municipal de São Paulo também realizaram greves contra reformas pró-corporativas que ameaçam demissões e contra a privatização da educação. Metroviários mantiveram mobilizações contra a entrega das linhas à iniciativa privada. 

A confluência dessas lutas em São Paulo – ferroviários, metroviários, professores, funcionários e estudantes universitários – colocou objetivamente a possibilidade de uma mobilização unificada da classe trabalhadora contra o programa de privatizações e austeridade do governo Tarcísio. Mas essa unificação foi sistematicamente sabotada pelas direções sindicais e estudantis. 

O Sindicato dos Ferroviários isolou sua greve, negociou setorialmente no TRT e aceitou um acordo que não toca na privatização. As direções dos DCEs, controladas pelo PSOL e por grupos morenistas e stalinistas, conduziram a greve nas universidades de São Paulo para negociações estéreis com a reitoria e o governo estadual, encerrando-a sem que as principais demandas estudantis fossem atendidas – e ainda proclamaram “vitória”. 

Esse é o papel objetivo das burocracias sindicais e das organizações de pseudoesquerda: isolar cada luta, desviá-la para os canais do Estado burguês e, no momento decisivo, encerrá-la com concessões mínimas, preservando intacto o programa de ataques.

Uma luta nacional e internacional

A greve dos ferroviários de São Paulo faz parte de um movimento nacional e internacional da classe trabalhadora contra as políticas de austeridade, privatização e guerra que governos burgueses de todas as colorações têm imposto em resposta à crise capitalista.

Neste ano, o governo Lula enfrentou uma das maiores ondas de greves contra as políticas de austeridade implementadas sob o manto de seu “novo arcabouço fiscal” que têm cortado o orçamento dos serviços sociais — formulado exatamente pelo ex-ministro da Fazenda e agora candidato do PT ao governo de São Paulo, Fernando Haddad. No primeiro semestre, funcionários de universidades federais realizaram quase cinco meses de greve para forçar o governo a cumprir os acordos da greve de quatro meses de 2024. Essa greve aconteceu em meio às greves nas universidades estaduais paulistas e a uma greve de três meses de professores e funcionários da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

Protestos e greves contra os planos de privatização do governo Lula foram protagonizados por dezenas de povos indígenas no primeiro semestre, lutando para preservar os rios e seus modos de vida, e pelos trabalhadores dos Correios, que, juntamente com os trabalhadores da Petrobras, realizaram no final do ano passado uma das maiores greves em empresas públicas no Brasil dos últimos 30 anos. Esse movimento continuou neste ano e poderá se intensificar. Em junho, funcionários terceirizados da Petrobras realizaram greves em São Paulo e no Rio de Janeiro, enquanto os trabalhadores dos Correios ameaçam entrar em greve em setembro contra o “plano de reestruturação” do governo Lula.

Internacionalmente, nos últimos meses, greves massivas contra cortes na educação e nos serviços públicos ocorreram na Argentina, Chile, Bolívia, Austrália, Portugal, Espanha, França, Canadá e Estados Unidos. A greve dos ferroviários alemães, as mobilizações dos trabalhadores britânicos contra a privatização dos Correios e as paralisações de transporte nos EUA são manifestações da mesma crise global.

No Brasil, essa crise é intensificada pelos efeitos da guerra contra o Irã, que pressiona os preços dos combustíveis e alimentos, e pela instabilidade do regime político às vésperas das eleições presidenciais de outubro – as primeiras desde a tentativa de golpe fascista de 8 de janeiro de 2023, com Flávio Bolsonaro tecnicamente empatado com Lula nas pesquisas.

A resposta a essa crise não pode ser confiada aos governos burgueses, aos tribunais do trabalho ou às burocracias sindicais que há décadas traem as lutas. Os ferroviários da CPTM, os metroviários, os professores, os funcionários e estudantes de São Paulo precisam romper com essas direções e construir comitês de base independentes, orientados para a unificação de todas as lutas contra o programa de privatizações e austeridade. Precisam forjar uma direção política própria, armada de um programa socialista e internacionalista, que aponte para a expropriação da riqueza da elite dominante e a reorganização da sociedade sob o controle democrático da classe trabalhadora.

O desastre da privatização das linhas 11, 12 e 13 – o incêndio, os atrasos, a intervenção de emergência da CPTM – é a demonstração cabal de que os serviços públicos essenciais não podem ser entregues ao lucro privado. A luta dos ferroviários é a luta de todos os trabalhadores. Ela só poderá ser vitoriosa como parte da luta internacional da classe trabalhadora contra o capitalismo.

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