Trabalhadores da Volkswagen em Bruxelas falam ao WSWS: o papel dos sindicatos é “vergonhoso”

By Por nossos repórteres
10 January 2007

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Este artigo foi publicado no WSWS, originalmente em inglês, no dia 6 de janeiro de 2007.

Os trabalhadores grevistas da Volkswagen de Forest, em Bruxelas, na Bélgica, continuam mantendo o piquete em frente aos portões da fábrica. Durante o recesso do final de ano, o conselho de trabalhadores tentou, em diversas ocasiões, por fim ao bloqueio da fábrica e mandar os trabalhadores para casa. No entanto, eles não tiveram sucesso.

Havia muita discussão entre os grevistas em relação aos altos valores que estão sendo pagos pelas demissões. O assunto veio à tona durante uma conversa com dois trabalhadores da Volks, Philip e Christian, que não aceitaram o acordo proposto, porque o futuro dos trabalhadores restantes continua completamente incerto. Os trabalhadores estão, na verdade, sendo induzidos a assinar um “cheque em branco”.

Philip: “em minha opinião o que está ocorrendo aqui é pura manipulação. É como um filme com um roteiro ruim. Em abril e no começo de maio (principalmente por causa das próximas eleições parlamentares na Bélgica), nós veremos políticos e líderes sindicais na televisão afirmando que obtivemos uma vitória”.

“Os sindicatos se preocupam principalmente com o pagamento das demissões, que está sendo destinado em primeiro lugar àqueles que já possuíam outro emprego e que, por isso, queriam ser demitidos de qualquer maneira. Agora, ao verem a grande quantia de dinheiro oferecida pela empresa àqueles que aceitaram a proposta de demissão, muitos trabalhadores estão aderindo, sobretudo aqueles que têm dúvidas a respeito do futuro da empresa. Eles preferem pegar o dinheiro e ir embora. É uma grande tentação, que está sendo usada para manipular as pessoas. Mais de 1.900 trabalhadores querem pegar o dinheiro, mas eu tenho absoluta certeza de que eles não têm um outro emprego”.

“Os sindicatos não estão cumprindo com sua obrigação — nem aqui na Bélgica nem na Alemanha. Os pagamentos dos prêmios servem para impedir qualquer interrupção, manter os operários passivos. As exigências dos patrões estão sendo impostas com o objetivo de evitar suas perdas. O papel desempenhado pelos sindicatos é realmente vergonhoso. Tanto os sindicatos quanto a administração da empresa estão preocupados em atender os seus próprios interesses”.

Christian: “muitos já se foram, em particular os trabalhadores mais velhos, aqueles com mais experiência. Se eles conseguiram se livrar daqueles com mais de 50 anos, então o que vai restar da experiência que existia nessa fábrica?”

Os dois operários estão frustrados porque eles nunca receberam mais do que fragmentos de informações sobre o encaminhamento das negociações. Ambos exigiram que todas as negociações fossem públicas.

Philip: “se o conselho de trabalhadores mantém as negociações com a administração da empresa, então eu proponho que elas sejam feitas publicamente”.

Christian: “as negociações devem ocorrer da mesma maneira que os debates políticos no parlamento: você pode ouvir, mesmo que não possa dizer nada. Numa companhia tão grande, as negociações não podem ser feitas por todos. Nós elegemos essas pessoas para que pudessem falar em nosso nome, porque nem todo mundo pode falar ao mesmo tempo. Mas deve existir a possibilidade de acompanhar diretamente as negociações que eles estão fazendo”.

“O problema é que quando nós perguntamos aos delegados, depois de cada reunião, o que foi discutido, eles sempre dizem: sim, vocês terão um relato. Mas aí, passam dias, passam semanas para nós conseguirmos saber alguma coisa daquilo que foi discutido. Algumas vezes eles fazem minutas, mas uma cópia é dada à administração, outra ao conselho de trabalhadores e outra à imprensa — e a gente? É loucura, mas nós somos sempre os últimos a saber das coisas”.

Alain Desmet decidiu ainda votar “não” na sexta-feira. Ele disse aos nossos repórteres: “em 1985, o total de trabalhadores era de 8.400, agora deve ser cortado para 2.000 — apesar de produzirmos carros de excelente qualidade, muitas vezes melhor até mesmo que em Wolfsburg (a central da Volks, na Alemanha). Eles só estão investindo dinheiro agora para acalmar as pessoas e manter a fábrica intacta, com menos operários, aqueles mais qualificados. Muitos trabalhadores estão pegando a compensação por doença ou por outras causas. De qualquer maneira, eles não poderiam ficar mais tempo”.

Alain trabalhou na Volks por 19 anos. Nos últimos 5 anos ele ficou encarregado do controle dos instrumentos dos painéis e outros acessórios. Ele gosta de seu serviço. Considera que seu trabalho é de grande responsabilidade, pois dele depende a boa qualidade do produto: “as pessoas gastam pelo menos 15.000 euros (US$ 19.500) num carro desses. Então é importante que cada parafuso esteja apertado adequadamente”.

Mario Mailis está preocupado porque muito poucos trabalhadores rejeitarão o acordo. “Nós precisamos que dois terços dos operários votem contra. De outra forma não conseguiremos rejeitar a proposta”, disse Mario. Ele trabalhou na Volkswagen por 37 anos.

Ele disse: “há dois anos, o sindicato alemão IG Metall veio a Bruxelas para nos pressionar. Eles disseram que concordaram com condições muito piores para os trabalhadores na Alemanha e que nós deveríamos aceitar propostas semelhantes na Bélgica. Naquela época, nós pensamos que se o IG Metall aceitou tais condições, nós deveríamos fazer o mesmo. Não sabíamos que todos os burocratas do sindicato haviam sido comprados pela administração”.

Entre os trabalhadores da Volks que faziam piquete em frente ao portão, havia um grande número de trabalhadores de empresas filiadas, que serão golpeados ainda mais fortemente pelo corte da produção em Forest. Para os trabalhadores destas empresas não existe pagamento compensatório.

A Johnson Controls, que produz assentos para carros, anunciou a demissão de 230 trabalhadores, de um total de 580. O ministro belga do trabalho e da economia, Benoît Cerexhe [CDH — Centro Democrata Humanista, o Partido Cristão Democrata belga], estimou que 2.300 trabalhadores poderiam perder seus empregos em fornecedoras belgas ligadas à produção do modelo Golf.

Kilauli Najim trabalhou nos últimos 17 anos na companhia de limpeza dinamarquesa ISS, que faz a limpeza industrial na fábrica da Volkswagen. Junto com um grupo de trabalhadores, Kilauli aderiu ao piquete para expressar sua solidariedade aos trabalhadores da Volks. Ele nos disse: “nós não estamos nesse piquete para conseguir compensações, mas para garantir nossos empregos. Eles estão fechando a fábrica que eu trabalho. Em torno de 100 pessoas serão afetadas. Eles ficarão com apenas 20 trabalhadores”.

“Nós estamos trabalhando com materiais que são extremamente prejudiciais à saúde. Nossa saúde não é levada em conta por eles. Por isso, muitos já foram embora, pois não agüentaram mais ficar. No início eles nos prometeram um emprego na Volks, mas eu não acreditei nisso por muito tempo”.

Jessica trabalha numa companhia de autopeças, Arvin Meritor, que instala as portas dos modelos Pólo e Golf na fábrica de Forest. Jessica explicou que ela já havia sido demitida: “meus colegas entraram em greve junto com os da VW, porque a nossa empresa já havia demitido os temporários, junto com os trabalhadores de 30 horas. Apenas 14 dos 33 trabalhadores da empresa terão seus empregos mantidos. Eles chamam isso de “demissão coletiva em massa”. Da minha parte, eu trabalharia na Volks, mas no momento eu não tenho a menor idéia do que acontecerá comigo”.

O PTB [Parti du Travail de Belgique—Partido dos Trabalhadores da Bélgica], que é uma organização stalinista, distribuiu uma carta aberta aos trabalhadores rejeitando a possibilidade de defender os empregos. Ele exige apenas que a Volks gaste mais para reduzir a 2.200 o seu contingente de operários.

O PTB sugere que o governo belga exija o ressarcimento de cerca de um bilhão de euros concedidos por meio de isenções fiscais e subsídios à Volkswagen durante os últimos 20 anos, caso a empresa insista em demitir mais de 3.000 trabalhadores.

O PTB levanta a possibilidade da transferência da produção de outros modelos para Bruxelas. O partido reivindica que a produção do Golf permaneça em Bruxelas, e que a Volks faça a transferência da produção de outros modelos para lá, como o Pólo, que é produzido principalmente na unidade de Pamplona, na Espanha.

O PTB sabe que tal proposta deve dividir os trabalhadores, colocando-os uns contra os outros. Para se justificar, usa a mesma linguagem de Bernd Osterloh, o líder do sindicato alemão IG Metall, quando propôs transferir o modelo Golf para a Alemanha. Na carta do PTB consta o seguinte: “se nós defendemos [a produção de] mais carros para garantir o máximo de empregos em Forest, isso não significa necessariamente piorar as condições em outros locais”.

Na mesma carta, o PTB apóia o IG Metall, declarando que “o recente aumento das horas de trabalho para 33,6 horas [nas fábricas alemãs] não pode ser considerado como uma “traição” do IG Metall, como às vezes se ouve nos piquetes. Assim como nós, os trabalhadores alemães também estão tentando melhorar suas condições e se defender dos ataques dos mesmos capitalistas—às vezes com mais e às vezes com menos sucesso”.